Perspectivas e Desafios no Ensino Remoto

As seguintes ponderações relacionam-se com o que estudamos de forma remota na disciplina Estudos de Letramento pelo curso de Licenciatura em Educação no Campo, no primeiro semestre de 2021, e também com experiências pessoais neste período pandêmico.

 Ao iniciar o ano de 2020, nos deparamos com essa situação de uma pandemia global, algo inédito para nossa geração. Isso fez com que o ser humano mudasse repentinamente suas rotinas e suas maneiras de ler o mundo, uma vez que foi necessário diminuir o contato pessoal até mesmo com os familiares. O isolamento social foi primordial no combate à doença, e tivemos que ir nos adaptando a outras estratégias para dar sequência em todas as tarefas do dia a dia. Não foi diferente com as atividades educacionais, que precisaram passar por adequações, para que de maneira online fosse possível dar sequência nos estudos. Importante salientar também que muitos estão sendo os desafios, tanto pessoais, coletivamente e ainda por parte das instituições. Porém, com organização, planejamento e união o mundo irá superar este dificílimo período de calamidade na saúde pública.

UM POUCO SOBRE MINHA REALIDADE

Arlei utilizando seu computador pessoal no ensino remoto. 2021. Fonte: Arquivo Pessoal.

Eu, Arlei, tenho 29 anos de idade e sou morador da comunidade de São Gonçalo do Rio das Pedras, distrito de Serro. Para que eu possa descrever a minha realidade no contexto da pandemia, é necessário retroceder alguns meses no tempo. Até outubro de 2020 eu ainda morava com meus pais, éramos quatro pessoas na mesma casa, pois os outros três irmãos já haviam se casado. Porém, a partir do dia 31/10/2020, eu mudei de residência e passei a morar na minha própria casa juntamente com uma mulher que neste mesmo dia se tornara minha esposa.

No que refere-se ao estudo, decidimos juntos fazer o vestibular para cursar Licenciatura em Educação do Campo na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuro. Ambos cursamos a habilitação em Linguagens e Códigos e o mesmo período, isso gera uma compreensão mútua das necessidades que o momento impõe e facilita bastante os estudos. Nós dois estamos cientes da necessidade de um ambiente tranquilo e com o mínimo de barulho possível para que haja uma maior concentração nos estudos e em outras várias atividades que estamos realizando remotamente. Para podermos realizar nossos afazeres com mais fluidez, foi imprescindível algumas adaptações tecnológicas. Instalamos uma rede de internet mais eficiente e, mesmo em um momento que as condições financeiras não era favorável, compramos um aparelho celular para minha esposa com maior compatibilidade às exigências do momento. Eu já desfrutava de um bom aparelho e um notebook que comprei há uns 10 anos atrás e apesar do seu ótimo estado físico se encontra muito debilitado no quesito funcionalidade.

Até o presente momento nós dois estamos estudando e conciliando isso com o trabalho, tarefa que não é 100% assegurada, uma vez que minha esposa trabalha em um Centro de Atendimento ao Turista, que luta por renovação de contrato anualmente. Já eu trabalho como autônomo fazendo de tudo um pouco, e aos fins de semana estou trabalhando como motoboy para ajudar na renda. Com a pandemia do novo coronavírus (COVID-19) muitas de nossas rotinas sofreram mudanças. Em função da ocasião, passei um ano trabalhando em barreira sanitária na minha comunidade, mas, em geral, o objetivo da atividade foi atingido. Com as pessoas mais confinadas, houve ainda uma diminuição significativa de oportunidades de trabalho no contexto da comunidade. Se antes alguns moradores pagavam para fazer tarefas como olhar os filhos, arrumar casa e lavar roupas, nesse novo contexto, as pessoas mesmo estão realizando essas tarefas. E, pelo fato de morarmos em um povoado onde o capital circula através do turismo, a ausência dessa atividade gerou desemprego em massa. Por longos meses decretos municipais impediam que pousadas, quitinetes e coisas do gênero funcionassem, deixando o empregador e o empregado de mãos atadas.

Temos como entretenimento, assistir filmes evangélicos, de aventura e comédia, fazer exercícios físicos, conectarmos em redes sociais e ainda gosto muito de assistir futebol. Outra ocupação comum em nossa casa é a prática da oração e meditação em textos bíblicos, pois apesar de todas as dificuldades a nível mundial, nós cremos em Deus e não podemos perder a fé nem a esperança de que dias melhores breve virão! Fazendo referência ao que mudou na minha rotina devido a pandemia, poderia ainda salientar a paralisação dos cultos religiosos, dado que anteriormente frequentava a igreja pelo menos 3 vezes por semana, contudo, o atual cenário tem nos impossibilitado desta prática, assim, estou permanecendo a maior parte do tempo em casa com minha esposa. 

ESTUDAR EM TEMPOS DE PANDEMIA

Diante desse caótico cenário, todo o sistema precisou se reinventar. Em se tratando dos estudos não foi diferente, uma vez que as atividades presenciais não puderam continuar, em função do altíssimo poder de contágio do vírus. E para uma maior preservação da saúde, um novo modelo de ensino precisou ser implantado. As instituições de ensino fecharam as portas para aulas presenciais por tempo indeterminado e passaram a ministrar atividades de forma remota, o que exigiu adaptações por parte dos educadores, educandos e mesmo seus familiares, por exemplo. Nesse novo modelo, as novas tecnologias foram os recursos mais eficientes encontrados pelas instituições para continuar oferecendo um estudo de qualidade.

Porém, para que o processo formativo atingisse as expectativas, seria imprescindível que os alunos independentemente da sua classe social ou da localização de sua residência, tivessem acesso a uma rede de internet competente para atender as demandas impostas. Infelizmente não foi assim que aconteceu. Diversos colegas de curso estão frequentemente reclamando a esse respeito. Com isso, entende-se que o fato de não ter uma internet de qualidade está sendo uma das dificuldades enfrentadas nesse processo, visto que, para realização das atividades, usa-se diversos aplicativos, plataformas e outros programas de computadores. Pessoalmente, não cheguei a encontrar dificuldades, pois já possuía um certo domínio das ferramentas requeridas na ocasião.

Tem sido muito desafiador conciliar os estudos com nossos afazeres diários, incluindo o trabalho. No ensino remoto não se tem como disponibilizar o tempo exclusivamente para as aulas, desse modo, se não houver um grande esforço, perde-se alguns momentos síncronos, o que acaba sendo amplamente prejudicial. Para participar das atividades síncronas tenho deixado de trabalhar alguns dias na semana, porém isso só é possível porque atualmente estou trabalhando como autônomo. Já para executar as atividades assíncronas tenho me empenhado bastante nas horas vagas e nos períodos noturnos. Assim, tenho conseguido cumprir todas as exigências do ensino remoto.

Com relação ao aprendizado, confesso que é bem mais limitado, mas acredito que nesse momento estamos todos, desde instituição a alunos, sendo submetidos a um forçado processo de transição do ensino, onde fica perceptível o engajamento da maioria dos envolvidos para não perder demasiadamente a qualidade do ensino. Nota-se que a interação entre professores e alunos fica mais escassa nesse novo modelo e, consequentemente, a absorção dos conteúdos disponibilizados e debatidos nos diálogos também é mais insatisfatória. Outro ponto a ser destacado é que, ao se priorizar a teleconferência, fica-se totalmente dependente dos meios tecnológicos. Havendo alguma falha, perde-se assuntos importantes que podem fazer falta em uma avaliação ou até mesmo na sua trajetória profissional.

Por fim, mesmo que os pontos positivos sobressaem os negativos acerca da utilização dos meios tecnológicos, ainda assim, são encontradas diversas dificuldades, no entanto, é de suma importância que nesse processo de transição haja um trabalho em coletividade, para que todos tenham acesso igualitário à internet e às ferramentas exigidas, pois, uma vez que o ensino é ofertado a toda classe social, é necessário que ninguém querendo envolver, se sinta excluído.

 REFLETINDO SOBRE O PROCESSO

Com base nas análises sobre as vivências do ensino remoto e nas reflexões teóricas estudadas na disciplina Estudos de letramento, consuma-se que o novo modelo de ensino não é eficaz a ponto de manter o mesmo nível das estratégias presenciais. Percebe-se ainda que apesar de o ensino ser ofertado a todas as classes sociais, existe uma parcela desses envolvidos que são menos favorecidos ou mais prejudicados quando pensamos nos quesitos aparelhos tecnológicos e acesso à internet de qualidade. Nesta lógica concordo com Souza (2000), quando afirma que: […] “é possível observar que as falas dos professores do campo estão sendo associadas principalmente à dificuldade de acesso à internet e a equipamentos tecnológicos que permitam a todos os alunos da zona rural acompanharem as aulas remotas” […].

Souza (2000), reitera também que: “A dificuldade de acesso à internet pelas populações do campo é de conhecimento comum e representa a displicência do poder público em não garantir aos camponeses algo fundamental na chamada Era da Informação: o acesso à internet e aos meios de comunicação.”. Ainda poderia ressaltar que o fato de muitos estudantes morarem com famílias numerosas e não terem um ambiente adequado dentro de casa para estudar com tranquilidade é muito prejudicial, tornando-se um desafio para a concentração, principalmente em práticas por intermédio de videoconferência. Assim sendo, fica explícito que há desigualdade para uma porção desses indivíduos envolvidos no ensino remoto.

Outro fator desafiador é a adaptação a essa nova rotina. Nesta perspectiva, são cabíveis as colocações de Silva, Goulart e Cabral, quando fazem o seguinte argumento:

Para diminuir o avanço do vírus e minimizar os impactos no sistema de saúde, instaurou-se no mundo medidas de higiene pessoal e coletiva e o isolamento social, que acarretou novas adaptações para o mundo do trabalho e para a vida acadêmica, estabelecendo novas formas e rotinas para o cumprimento das atividades diárias. ( SILVA, GOULART, CABRAL, 2021, p. 409.)

  • Conciliar o emprego, e os afazeres diários com os estudos, é algo que requer bastante esforço e organização. Dependendo dos horários programados para os encontros, ocorrem conflitos de agenda, obrigando-nos a ponderar qual perda será mais prejudicial.

Constata-se, em suma, que estudar de forma remota tem trazido inúmeras contrariedades a todos os envolvidos neste processo. Todavia, é necessário deixar explícito que é possível extrairmos conhecimentos extremamente significativos provenientes dos conteúdos da disciplina que nos foram aplicados e ainda dos relatos e diálogos provenientes dos colegas, pois apesar de estarmos todos atrás de uma tela, tivemos a oportunidade de expor ideias, dúvidas, fazer questionamentos e comparações quanto às diferenças e semelhanças referentes aos estudos e adaptações a esse novo modelo de ensino.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREIRE, Paulo Reglus Neves. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam, 23ª Ed. São Paulo: Cortez. 1989.

Leituras de um analfabeto. Producão: MACHADO, Cláudia; RODRIGUES, Patrícia. São Paulo, Editora Caminho Suave, 28 agosto de 1991.

SILVA, Joselma; GOULART, Iisa do Campo Vieira; CABRAL, Giovanna Rodrigues. Ensino Remoto na Educação Superior; Impactos na formação inicial docente. Revista Ibero- Americana de estados em Educação, v. 16, n.2, p. 407-423, abr. /jun. 2021.

SOUZA, Everton de. Escolas do Campo e Ensino Remoto: Vozes docentes nas mídias digitais. V 14, n. 30, set. /dez. 2000.

Pandemia e desafios do cotidiano

SESC Pompeia, em São Paulo – SP, local que abriga o CineSesc.

– Clayton D R Fernandes –

UM POUCO SOBRE MINHA REALIDADE

Minha esposa e eu, diferente de todos os anos que posso me lembrar, resolvemos não viajar no Carnaval de 2020. Pela primeira vez estávamos os dois aposentados e sem nenhum compromisso que não pudesse ser feito via internet. E, também, porque não? Queríamos sentir o renascimento do carnaval de São Paulo. Acho que São Paulo inteiro também quis e ficou em São Paulo. Tudo lotado e agitado. Difícil encontrar um lugarzinho na calçada. E foi. Tudo relevado porque tínhamos uma meia vida de férias pela frente. E veio a pandemia.

O Sesc São Paulo. O primeiro trauma foi a privação ao Sesc. Somos frequentadores diários das Unidades do Sesc. Tanto em São Paulo como em várias cidades do Brasil. Fazemos cursos, almoçamos, jantamos, nadamos, praticamos yoga, vamos a shows, exposições, dançamos, encontramos a turma, conhecemos gentes, viajamos em excursão. Dificilmente passamos uma semana sem ir ao CineSesc. Nunca sai de São Paulo nas duas semanas do Festival Internacional do Cinema. Diariamente no CineSesc.

ESTUDAR EM TEMPOS DE PANDEMIA

A Rotina. Parece que a gente está remando para não sair do lugar. Minha estratégia para enfrentar a pandemia é arrumar muita coisa para fazer e para ler. Cuidar das plantas, pesquisar na internet como semear e replantar antúrios e orquídeas, consertar cadeira estragada, trocar fechadura antiga, pintar muro, trocar tomadas, vedação das torneiras e um monte mais de coisas. Quando o tempo (aqui é o clima) está firme, andar pela cidade com a minha cachorrinha, fotografar esquinas e vitrines. Para ver como eu estou ainda. Tenho lido bastante, coisas que nunca me interessei antes, história da arte, impressionismo, um pouco sobre a idade média que eu nunca soube o que foi. Também li alguns textos sobre a Alemanha na primeira guerra, como surgiu o nazismo, as várias guerras que a gente chama de segunda guerra, a escravidão no Brasil, livro do Laurentino Gomes. E as poesias da Ana Martins Marques que eu conheci, sem intenção, num curso sobre literatura no Sesc SP. Então, para não confundir tudo isso, na minha cabeça, montei um banco de dados de tudo que li recentemente e do que estou lendo. Inclusive para a LEC. Montei este banco de dados por dor da abstinência. Tantos anos desenvolvendo banco de dados, não é possível parar simplesmente…

Ensino remoto é como noivado à distância ou curso de natação sem piscina. A gente tem só uma ideia das coisas. Da noiva e da água. Participei de dois TUs em Diamantina. E foram muito marcantes. Acho que todos nós alunos saímos maiores destas duas experiências. A classe de aula com gente de diferentes lugares, idades, sonhos e repertórios. De repente, juntos, montar e apresentar uma tarefa. Isto sempre foi muito bom. Das 8 às 18 horas. Tempo passava depressa, apesar do sono e do cansaço. Muitos conceitos novos voltaram para casa. Penso que cada um de nós voltou outro para seus lugares.

Tecnologias. Para acompanhar as atividades da LEC usamos alguns aplicativos que eu nunca tinha utilizado. Moodle (parece que outras universidades também usam este aplicativo) e ClassRoom (a UFVJM fez algum acordo com a Google e adotou este aplicativo para o ensino remoto. É um arrazoado dos aplicativos da Google: Drive, editor de texto e Meet).

Para o nosso curso o ensino remoto não serve. A convivência – e as dificuldades da convivência – é uma parte importante do nosso aprendizado. E uma sala de aula virtual é a negação da convivência. É muito chato!

Temos que descobrir e inventar um jeito de fazer trabalho em grupo. Talvez experimentar ler um texto em conjunto via Meeting. Cada colega lê um parágrafo, se quiser ler. Depois de cada parágrafo a gente discute um pouco as ideias apresentadas.

REFLETINDO SOBRE O PROCESSO

Das práticas educativas ocorridas no primeiro semestre de 2021 de modo remoto na LEC-UFVJM, destaco o aprendizado de alguns conceitos no contexto da disciplina Estudos de Letramento. O primeiro foi o conceito de Paulo Freire sobre o Ato de Ler, como sendo uma atitude fruto da trajetória do sujeito. Quando lemos utilizamos toda a nossa história para compreender o texto. A leitura do mundo precede a leitura da palavra… …A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto. (FREIRE, 1989, p. 9). Assim podemos dizer que a nossa experiência de vida nos faz compreender a palavra, contudo a compreensão desta nos acumula experiência e com isto podemos reler o mundo.

Outro conceito estudado foi o Letramento. Aqui o mais importante, para mim, foi a separação entre letramento e alfabetização (alfabetização entendida como o processo de ensinar a ler e a escrever). Letramento é um conjunto de ferramentas cognitivas que o sujeito utiliza para entender o seu ambiente, enquanto a alfabetização se reduz ao uso da escrita. Contudo a alfabetização é utilizada como métrica na escala social. O analfabeto é marcado como um sujeito a ser consertado. Mas a falta de habilidades letradas frequentemente não é uma barreira real ao desemprego, como sugerem as declarações oficiais (STREET, 2014, p. 35). Cabe ao educador pensar a alfabetização dentro das necessidades do sujeito e não dentro das necessidades do mercado. E perceber que a alfabetização, tida como dogma para a emancipação do indivíduo, é um conceito criado pela elite para impor um letramento de seu interesse.

A relação entre território e produção de conhecimento foi estudada através do texto Práticas letradas, tecnologias e territórios (CASTRO; MAGNANI, 2019). O conhecimento, por ser uma produção humana, é uma riqueza. Portanto está em disputa entre as classes sociais e territórios, e segundo os autores

  • Emerge, em decorrência, a questão de como pensar e produzir conhecimento acadêmico sobre tecnologias e letramentos com a preocupação de que tais conhecimentos sejam relevantes e condizentes em relação às demandas e vivências de diversas realidades não-urbanas ou menos urbanizadas existentes no Brasil. (CASTRO; MAGNANI, 2019, p. 64) .

Por fim, no último texto estudado, refletimos à seguinte questão: O domínio da escrita é ponte de acesso à participação social? (BRAGA; VÓVIO, 2015, p. 34). Dentro de uma sociedade altamente subordinada à comunicação digital o domínio destas tecnologias é requisito à inserção social, principalmente a um emprego não precário. A alfabetização não acaba com as desigualdades, mas a equidade pode, sim, acabar com os analfabetismos, tanto de letramento como político.

REFERÊNCIAS

BRAGA, Denise Bértoli; VÓVIO, Claudia Lemos. Uso de tecnologia e participação em letramentos digitais em contextos de desigualdade. Cortez, São Paulo, 2015.

CASTRO, Carlos Henrique Silva de; MAGNANI, Luiz Henrique. Práticas Letradas, tecnologias e territórios. R E V I S T A X, Curitiba, vol/núm. 14/5, p. 56-81, 2019.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. Cortez, São Paulo, 1989.

STREET, Brian V. Letramentos sociais. Parábula, São Paulo, 2014.

Memórias de Letramento

Memórias de Letramento

Márcia lendo junto a livros. 2021. Fonte: Arquivo Pessoal.

Márcia Martins de Vasconcelos –

Aprendi a ler aos seis anos de idade, ainda no primeiro ano da educação básica. Sempre gostei de ler, sendo que meus livros preferidos são os romances. Na minha infância não tive muitos livros, mas os que tinha eu aproveitava ao máximo. A leitura era o meu escape de tantas dificuldades que eu e minha família tínhamos. Às vezes lia para meus sobrinhos e para alguns colegas da turma que ainda não sabiam ler. Atualmente os livros são mais acessíveis, pois estão disponíveis virtualmente, porém eu prefiro poder tocá-los, sentir o cheiro deles etc. Prefiro romance aos textos científicos, mas faço uso de ambos. 

Para mim, ler é poder viajar no tempo e no espaço a qualquer momento. Alguns dos motivos pelo qual escolhi estudar a linguagem foram tanto o interesse em conhecer mais sobre as variações da língua brasileira como também o desejo de conhecer melhor as origens ou teorias da nossa literatura. Como possível futura educadora, anseio um currículo diversificado, a partir do qual o professor tenha autonomia para mostrar aos alunos essas variações linguísticas e não simplesmente repassar conhecimentos que sequer passam por sua análise ou escolha. Nesse sentido, não gostaria de trabalhar somente com o conteúdo dos livros didáticos. 

O ensino remoto me obrigou a mudar a rotina. Antes da pandemia, durante o período de Tempo Universidade (TU), em que costumávamos ter atividades presenciais em Diamantina-MG, tínhamos todo o tempo dedicado às aulas. Atualmente temos que dividir o tempo entre trabalho e estudo.  O ensino em alternância, como era antes da pandemia, favorecia nossas atividades de estudo. O TU com aulas presenciais e o contato com várias pessoas e culturas facilitavam o aprendizado. Além de compartilharmos conhecimentos, culturas e a rotina do curso, a presença dos colegas na sala de aula nos tranquilizava diante das dificuldades, especialmente as relacionadas com o curso.

Estou um tanto perdida com esse ensino remoto, me sinto triste por mim e pelos meus colegas que estão vivendo situação semelhante a minha e a quem na maioria dos casos não posso ajudar. Estou ainda tentando organizar as atividades e conciliar trabalho e estudos. Nem sempre consigo cumprir os prazos para entrega das atividades e não estou conseguindo ler os textos indicados. O que dificulta é o fato de eu não ter internet e computador em casa, pois gasto mais tempo para realizar as atividades e para assistir a aulas, e principalmente gasto muito mais tempo para fazer os trabalhos pelo celular. Às vezes penso em desistir do curso, pois com o ensino remoto sempre tenho que ficar sem trabalhar para ter tempo de assistir às aulas e realizar os trabalhos do curso.

As aulas via internet, por videoconferência, não são tão legais quanto as presenciais. São formas de substituir as aulas presenciais, porém são ineficientes diante da falta de estrutura em que nós discentes nos encontramos. Não consigo me concentrar e acabo tendo dificuldade de aprender, além do fato de que às vezes assisto as aulas em algum ponto que eu possa usar wifi, que, na maioria das vezes, é na rua, em que o movimento e barulho me desconcentram. Quanto a leituras a serem realizadas para a universidade, eu baixo da internet para poder ler à tarde, quando chego do trabalho.

Apesar dos problemas citados acima, aprendi muito nesse processo. Tive que me acostumar a usar várias ferramentas e plataformas como o Google Classroom, a aprender a fazer os trabalhos pelo celular, a reorganizar minha rotina etc. Tudo isso são práticas de letramento. Tive apoio dos professores durante todo o processo, mas da universidade não vejo apoio em relação às dificuldades do ensino remoto. Ressalto também que os colegas do curso têm auxiliado muito. Durante as aulas de Estudos de Letramento entendi que letramento não acontece só na sala de aula (presencial ou virtual), e tudo que vivenciamos e aprendemos ao longo da vida pode envolver uma forma de letramento, algo que não depende de um diploma. 

OUTRAS CONSIDERAÇÕES

Ao refletir sobre letramento nesse TU, entendi que ser letrado não significa necessariamente ser formado na academia e que há cidadãos letrados sem sequer ter frequentado a escola. Essa percepção me ocorreu durante uma conversa com um senhor morador da minha comunidade. Para o senhor Joaquim, o letramento é relativo à capacidade de aprender e executar tarefas diversas e de vários níveis. Ao ouvir isso, fiz uma busca na minha memória e percebi que inúmeras tarefas para as quais o mercado de trabalho exige formação acadêmica são executadas por pessoas sem essa escolarização. E algumas dessas tarefas são executadas até mesmo por analfabetos. 

A partir do texto de Street (2014), podemos também pensar que o significado do termo não é algo dado por fixo ou definitivo. O autor considera que a própria prática de letramento e suas implicações variam com o contexto social. (Street, 2014, p.40):

  • A teoria atual, portanto, nos diz que o letramento em si mesmo não promove o avanço cognitivo, a mobilidade social ou o progresso: práticas letradas são específicas ao contexto político e ideológico e suas consequências variam confirme a situação. (Street, 2014, p.41).

O letramento é um processo coletivo que ocorre ao longo da vida e é decorrente das nossas práticas cotidianas, não apenas na escola. Somos sujeitos pensantes, portanto somos aptos à aprendizagem a todo tempo. O que ocorre é que a escola “molda” cidadãos para fins diversos, por exemplo, para o mercado de trabalho. Assim, alguns saberes, práticas e sujeitos passam a ser mais valorizados que outros. O que ocorreu e ainda ocorre especialmente no campo é uma desvalorização do saber popular e das culturas ali presentes. Em contrapartida, destacam-se “valores” como diplomas e classe social. 

Uma vez que a escola historicamente forma cidadãos para “obedecer” a partir de critérios criados pela elite, ainda vemos reflexo dessa lógica em vários momentos, embora o acesso à academia tenha sido ampliado para a classe pobre e sujeitos do campo, como na LEC.  Vejamos em  Magnani e Castro (2019) alguns fatores que podem contribuir com essa desvalorização: 

  • O ponto é que, em sua grande maioria as universidades do Brasil, sabidamente as maiores produtoras de saber científico do país, localizam-se em centros urbanos. Assim, ainda que possam absorver sujeitos oriundos de comunidades rurais, seu funcionamento, seu local de produção, a realidade cotidiana empírica, os índices de produtividade aos quais estão sujeitos, entre outros fatores, tendem a atravessar a produção científica realizada, reiterando a atenção para contextos urbanos. Entre outros fatores, essa condição pode ajudar a explicar um descompasso entre variadas reflexões acadêmicas ou propostas pedagógicas que partam do uso (ou de certos usos) de certas tecnologias e estruturas e as realidades de muitas escolas e comunidades do campo. (MAGNANI; CASTRO 2019 p. 63,64)

Um desses momentos recentes em que essa lógica assimétrica pode ser conferida diz respeito às políticas públicas ligadas à educação em resposta à pandemia da covid-19. As instituições nos obrigam ao ensino remoto, porém não nos dão estrutura para tal, como se a universidade esperasse que todos os alunos tivessem a estrutura necessária para um processo ensino/aprendizagem de qualidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MAGNANI;CASTRO. Práticas letradas, tecnologias e territórios: transgredindo relações de poder. Curitiba. Revista X.2019.p.63,64.

STREET. Trazer os letramentos para a agenda política. Cap.1 In. STREET. Letramentos Sociais. São Paulo. Parábola Editorial, 2014.

Alguns números sobre o ensino remoto na comunidade de Três Barras

Alguns números sobre o ensino remoto na comunidade de Três Barras

 

Por Taliele Santana Higino [1]

 

O presente texto tem como objetivo analisar as metodologias e tecnologias de estudo utilizadas pelos alunos no REANP-MG (Regime Especial de Atividades Não Presenciais – Minas Gerais), a partir de uma pesquisa sobre a percepção de estudantes do Ensino Médio da Escola Estadual Leopoldo Pereira, distrito de Milho Verde, município Serro – MG.

A metodologia utilizada para a realização desta pesquisa foi a aplicação de um questionário eletrônico para os alunos que cursam o ensino médio na Escola Estadual Leopoldo Pereira, e que residem no distrito de Três Barras. Ao todo foram realizadas cinco entrevistas por meio do Google formulários no período de maio/2021, com autorização e nomes omitidos, contendo 37 perguntas fechadas e 1 pergunta aberta.

Segundo os resultados obtidos com os questionários, 60% dos alunos são homens e 40% são mulheres, e possuem de 16 a 18 anos de idade. No total, 20% dos alunos estão no primeiro ano do Ensino Médio, 60% no segundo ano e 20% no terceiro. As famílias dos estudantes são compostas por 2, 5, 6, 7 ou mais pessoas. O que demonstra um número alto de filhos por família. Nesse período de pandemia, 40% das famílias não receberam nenhum tipo de auxílio do governo. É importante citar que 80% dos pais possuem o ensino fundamental incompleto.

Nas casas das famílias entrevistadas, os aparelhos eletrônicos mais utilizados são os celulares por 100%, TV por 80% e Notebook por 40%. O Canal TV Rede de Minas, responsável pelo programa Se Liga na Educação, disponibilizado pelo REANP, pega em 80% das casas. Já a maioria dos alunos, 60%, não têm notebook ou computadores em suas casas, o que dificulta os trabalhos de digitação. 60% dos alunos têm acesso a internet 4G e 40% a cabo.

Das famílias, 40% possuem internet ilimitada e os demais via dados 4G. Desses que usam 4G, 20% afirmam que os dados não duram de 21 dias – 80% dura de 21 a 30 dias – com estabilidade para assistir os vídeos escolares. Predomina o uso de um celular por pessoa para os estudos. A maioria, 60%, não possui auxílio dos pais para realizar as tarefas da escola, pois ou trabalham ou não sabem o conteúdo. Todos os alunos possuem seu próprio celular, assim não precisam compartilhar com outro membro da família. As recargas dos créditos dos celulares são feitas pelos próprios alunos, 60%; os outros 40% são feitas por pais ou avós.

As ferramentas mais utilizadas pelos alunos e professores são o WhatsApp (60%) e o Youtube (20%). O Google Sala é menos usado, apenas 40% dos alunos. Os alunos afirmaram gastar de 1 a 3 horas por dia para realizar as atividades escolares. Entre as ferramentas disponíveis, a menos utilizada é a Conexão Escola 2.0, por 20% dos respondentes.

Sobre a última questão do questionário, aberta solicitando depoimentos sobre os principais problemas enfrentados, trago dois depoimentos a seguir para melhor contextualizam a realidade dos alunos entrevistados e alguns anseios diante da nova situação.

  • Bom… minha dificuldade é entender o que os professores mandam acho meio desorganizado, às vezes os vídeos que têm no Se Liga na Educação não explicam exatamente o que está na apostila, aí acaba que muita gente pega resposta da internet porque ninguém vai adivinhar as matérias. Por isso eu opto por outras videoaulas, mas o que seria bom mesmo se os professores fizessem um vídeo explicando sua matéria.”
  •  
  • “Minha principal dificuldade está sendo conciliar as atividades da escola com o meu cursinho para o Enem. Também não consigo entender as matérias de química, física e matemática.”

A partir dos resultados dessa pesquisa, concluímos que à internet vem sendo o meio de comunicação mais importante e a principal barreira para o contato entre professor e aluno, permitindo aos alunos o acesso as ferramentas de ensino e aos recursos tecnológicos que permitem a concretização do processo de ensino-aprendizagem. Além disso, o grau de escolaridade dos pais para o auxílio nas atividades dos filhos interfere muito neste processo. Por último, os entrevistados também citam como problema o acompanhamento dos professores e a explicação dos conteúdos, o que pode estar ligado às tecnologias também, já que tudo isso, no REANP, é feito à distância e padronizado para todo o estado.

[1] Taliele é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Esta pesquisa foi supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

Práticas Letradas no Contexto da Pandemia

Práticas Letradas no Contexto da Pandemia

– Delane de Fátima Eusébio –

Delane verificando atividades em agenda digital.

Sou Delane, tenho 25 anos de idade, resido na comunidade de São Gonçalo do Rio das Pedras, distrito de Serro-MG. Há poucos meses eu morava com minha mãe e mais dois irmãos, algo que mudou recentemente. Em outubro de 2019, eu e meu namorado, que já estávamos juntos há seis anos, tomamos a importante decisão de ficarmos noivos. E o casamento veio a ser um ano depois. Como muitos de nossos projetos para 2020 tomaram rumos inesperados diante da pandemia, a realização do nosso casamento na data planejada estava ameaçada. Apesar da necessidade de cancelarmos a festa e readequar a execução da cerimônia, ainda se tornou possível a concretização da nossa união matrimonial na data desejada.

Assim, a partir de outubro do ano passado, residem na nossa casa somente eu e meu marido. Estamos fazendo o mesmo curso de Licenciatura em Educação do Campo, no mesmo período e ambos na mesma habilitação, o que é maravilhoso, pois nos ajudamos em tudo, principalmente em se tratando de ferramentas digitais, que não é “meu forte”, mas que ele domina bem melhor. Possuímos em casa para contribuir com nossos estudos: rede wi-fi, que instalamos justamente em razão de necessidade por causa do curso, (mas que nem sempre funciona satisfatoriamente); um notebook, o qual, apesar do seu bom estado físico, infelizmente não se encontra em condições favoráveis para o uso, mas que ainda nos atende dentro do possível; e dois celulares.

O último aparelho celular que eu tinha não atendia mais às minhas necessidades diante do ensino remoto, sua memória era insuficiente para abrir arquivos, baixar aplicativos e etc. Dessa forma, apesar de o momento não estar financeiramente propício a isso, precisamos comprar um aparelho novo. E esses equipamentos eletrônicos têm sido uma forma de escape também para o entretenimento, onde em certos momentos livres optamos por assistir filmes (gospeis, de aventura e comédia). Gostamos também de realizar leituras bíblicas, jogos domésticos e exercícios físicos. Além de mexer com jardim e plantas em geral, como também ouvir e louvar hinos evangélicos, que são meu fascínio.

Há 4 anos trabalho como atendente no Centro de Atendimento ao Turista (CAT), aqui na minha comunidade, contudo, não é um trabalho muito garantido, visto que o contrato é renovado anualmente. E este ano, com mudanças na gestão e contínuas paralisações no setor turístico, por não compor a lista de serviços essenciais, meu contrato até o presente momento não foi renovado e consequentemente não estou trabalhando. Já meu marido trabalha como motoboy aos finais de semana e nos outros dias como autônomo. Esse período pandêmico, afetou diretamente o trabalho com o turismo. Os atrativos naturais, que são os principais destinos turísticos daqui, e locais para hospedagem encontravam-se proibidos de receber pessoas até o momento da escrita desse texto (abril de 2021), algo que tem refletido fortemente na economia local.

Outro ponto que abalou significativamente também nossa rotina foi o fechamento dos templos religiosos. Eu e meu marido somos evangélicos e tínhamos o hábito de ir a cultos e outros trabalhos ligados às nossas práticas cristãs, mas infelizmente a necessidade do distanciamento social tem nos privado também de tais atividades. Aquilo que é possível, como por exemplo o ato da oração, fazemos em casa. Particularmente vejo na fé em Deus um escape para manter viva a esperança de dias melhores pela frente.

ESTUDOS NO CONTEXTO DO ENSINO REMOTO

A presença da COVID-19 tem trazido mudanças radicais na rotina de toda a população. Sendo assim, não teria como ser diferente nos estudos, em que a modalidade presencial precisou ser temporariamente suspensa, dando lugar ao ensino remoto como mais uma medida protetiva. Uma das minhas dificuldades enfrentadas diante dessas novas condições de estudos têm sido o choque entre obrigações diárias, aulas, tarefas e trabalhos propostos. Isso porque no período de Tempo Universidade do curso da LEC-UFVJM, outrora vivenciado, tínhamos todo o tempo voltado para nossas atividades estudantis, o que acaba sendo um aspecto bastante facilitador. Mas, estando em nossas comunidades, com toda uma rotina diária para cumprir, acaba sendo complexo realizar todas as obrigações necessárias sem que uma afete a outra.

Outro fator dificultador é o fato de que são muitas distrações que surgem a fim de tirar o nosso foco. É um celular que toca, uma visita que chega, dentre outros. E nem sempre é possível não dar atenção, já que a pessoa não tem como adivinhar que estamos ocupados. O melhor método de organização que considero diante dessas questões é um gerenciamento do tempo, exceto em alguns contratempos inevitáveis, para que possa haver comprometimento suficiente em todas as áreas, porque sempre gostei de que tudo o que se encontra sob a minha responsabilidade e que depende de mim seja feito da melhor forma possível, ainda que possa ser uma tarefa árdua.

Em termos de aprendizado, sinto que houve uma perda expressiva. Ao ter acesso aos conteúdos das aulas e também contato com os professores e colegas somente através das telas dos nossos aparelhos eletrônicos, percebo grande prejuízo na troca de saberes, visto que a interação é muito menor. E, por mais que haja esforço mútuo, o resultado final e o aproveitamento acaba sendo bastante inferior em comparação com o ensino presencial. Essa nova e complexa rotina de estudos requer de cada um de nós muita paciência, força de vontade, coragem para enfrentar infortúnios, a fim de estarmos “abertos” a novas práticas letradas diante do ensino remoto. Tarefas nada simples, no entanto imprescindíveis para amenizar os impactos sofridos diante das adversidades enfrentadas por cada um. Atitudes que tenho procurado adotar e tem sido proveitosas.

Nunca fui de ter facilidade no que diz respeito à tecnologia, mas têm circunstâncias em que não temos alternativa e a saída é procurar aprender ou, pelo menos, tentar. E, para manusear ferramentas digitais como o Moodle e o Google Meet, tem coisas que consigo fazer sozinha e outras não, depende muito da tarefa proposta pelos professores. A minha vantagem é que tenho em casa meu marido, que cursando o mesmo curso que o meu, atua como um grande suporte para mim, pois nessas áreas possui um grau de facilidade bem mais avançado que eu, e nesse processo venho aprendendo bastante com ele. E, apesar de professores que não fazem muito esforço para contribuir com as demasiadas dificuldades enfrentadas pelos alunos, é notável como alguns têm se empenhado em deixar esse fardo bem mais leve, algo de suma importância para todos nós discentes.

Erros, acertos, dúvidas, questionamentos, aprendizados, dificuldades. Acredito que são coisas que inevitavelmente irão nos acompanhar durante todo esse processo que aparenta ser longínquo, mas não podemos perder de vista o ânimo e a esperança, extraindo o que há de melhor em cada experiência que a nós for endereçada.

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O PROCESSO

A pandemia tomou proporções inimagináveis e trouxe consigo a necessidade de adoção de um ensino remoto para não haver estagnação total no processo de aprendizagem.Não foi um método recebido com grande satisfação pela totalidade dos envolvidos, principalmente no meio discente, perante a realidade que muitos enfrentam. Sob a ótica de Silveira, Piccirilli e Oliveira, pode-se colocar em pauta que:

  • Aprender se tornou mais um desafio em meio à luta contra o coronavírus. As rápidas mudanças, alto nível de cobranças, frustrações diárias e dificuldades técnicas durante o ensino remoto comprometem o psicológico dos estudantes. É possível presenciar que entre os termos mais utilizados pelas pessoas com as quais conversamos para descrever a situação apareceu ansiedade, cansaço, estresse, preocupação, insegurança, medo, cobrança e angústia. (SILVEIRA, PICCIRILLI, OLIVEIRA, 2020, p. 125).

Ocorre que, com a ausência de alternativas mais plausíveis, a saída foi acatar a proposta sugerida e procurar se adequar a ela dentro das possibilidades pessoais de cada um. Apoiada nos debates e reflexões realizadas no decorrer das atividades do curso, refleti mais profundamente sobre interações por intermédio de recursos tecnológicos, sobretudo em territórios campesinos, que é onde se encontram os obstáculos mais visíveis. Através de atividades compartilhadas em fóruns interativos de ambientes educacionais, tive a oportunidade de conhecer mais sobre experiências similares à minha, enfrentadas por colegas do mesmo curso, concernentes aos aprendizados e dificuldades vivenciados no presente momento. Isso tudo reforçou meu entendimento de que residir no campo com acessos minimizados a certos recursos, sobretudo internet de qualidade, acarreta variadas disparidades quando comparadas a outrem que usufruem de mais oportunidades e mecanismos de estudos. A esse respeito, inclusive, recupero colocações de Magnani e Castro, quando pontuam que:

  • É comum termos estudantes que acessam os ambientes virtuais de aprendizagem apenas pela rede celular, o que, em muitas situações, é um impeditivo para abrir um arquivo maior ou rodar um vídeo. Em contextos assim, não surpreende que práticas com texto desconsiderem, por exemplo, o uso de corretores ortográficos e editores de texto online. (MAGNANI, CASTRO, 2019, p. 71).

Souza (2020) também argumenta que:

  • Embora nas últimas décadas a educação do campo tenha ganhado mais atenção e se aprimorado em muitos aspectos, percebe-se que ainda necessita evoluir muito para que se tenha uma educação de qualidade e que atenda de maneira satisfatória às demandas das populações rurais. (SOUZA, 2020, p, 15)

Acredito que vir de famílias nas quais certas práticas de letramento escolar não são comuns e, consequentemente, certos hábitos de leitura e escrita são escassos ou inexistentes, favorece para que alguns estudantes oriundos do campo enfrentem dificuldades diante de certas demandas de linguagem no contexto acadêmico, as quais pressupõem ou exigem experiências específicas. Poderia citar como exemplos tanto o domínio prévio de meios tecnológicos e ferramentas digitais em geral, além da familiaridade antecipada com o universo dos livros.

No presente semestre letivo refleti também sobre as noções de ‘leitura de mundo’ e ‘leitura de palavra’, concepções inspiradas nessas mesmas noções apresentadas por Paulo Freire. Na leitura de palavra, a maneira de se relacionar com o mundo pela linguagem inclui práticas escritas, que façam uso da tecnologia do alfabeto e que geralmente carecem de um processo de escolarização para estímulo da capacidade de decodificar letras. A leitura de mundo pode envolver símbolos, sinais, objetos, conhecimentos empíricos, dentre outras possibilidades. Por meio da discussão centrada nesses conceitos foi possível compreender que pessoas consideradas “iletradas” a todo o momento leem o mundo – todavia, muitas vezes de um modo diferenciado daqueles que são alfabetizados. A esse respeito, vale recuperar a consideração de Freire (2003), quando diz que:

  • Desde muito pequenos aprendemos a entender o mundo que nos rodeia. Por isso, antes mesmo de aprender a ler e a escrever palavras e frases, já estamos ‘lendo’, bem ou mal, o mundo que nos cerca (FREIRE, 2003, p.27)

Apesar das adversidades presentes no cotidiano de todos os que se encontram inseridos em meio a esse recém-adotado modelo de ensino, o qual tem sido desafiador, não se pode negar que dessa experiência é possível extrair aprendizados. Tais aprendizados envolvem tanto os conteúdos provindos das disciplinas, quanto os contatos, ainda que indiretos, com os professores e colegas, a partir dos quais foi possível perceber particularidades e similaridades entre realidades vividas. Penso que o melhor é seguimos nos ajudando, somando forças em prol do coletivo, na perspectiva de nos adaptar a cada nova situação que porventura surgir, visando conquistas, bom aproveitamento do curso e, por fim, resultados significativos na prática educativa como um todo.

REFERÊNCIAS

FREIRE, Paulo Reglus Neves. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 45ª ed. São Paulo: Cortez, 2003.

MAGNANI, Luiz Henrique; CASTRO, Carlos Henrique Silva de. Práticas letradas, tecnologias e territórios: transgredindo relações de poder. Curitiba, volume 14, n.5, p. 56-81, 2019.

SILVEIRA, Ana Paula; PICCIRILLI, Giovanna Maria Recco; OLIVEIRA, Maria Eduarda. OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA E O ENSINO REMOTO EMERGENCIAL EM MEIO A PANDEMIA DA COVID-19. Revista Eletrônica da Educação, [ S.l.], v.3, n.1, p. 114-127, dec. 2020.

SOUZA, Everton de. Escolas do campo e o ensino remoto: vozes docentes nas mídias digitais. V. 14, n. 30: set./ dez. 2020.

Alguns números sobre o ensino remoto na comunidade do Ausente de Baixo

Alguns números sobre o ensino remoto na comunidade do Ausente de Baixo

Por Maria Madalena de Oliveira Gomes [1]

O presente texto traz informações sobre uma pesquisa realizada na Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, que atende a diversas comunidades rurais no entorno do distrito de Milhos Verde, município do Serro-MG, mais especificamente dos alunos do ensino médio na comunidade Ausente de Baixo. Esta é uma atividade desenvolvida pelos integrantes do PIBID-UFVJM, subprojeto da Licenciatura em Educação do Campo, e teve como foco entender como está sendo a trajetória de estudos desses alunos durante a pandemia, assim como as questões relacionadas a acesso, econômicas e sociais.

Para que esta pesquisa fosse realizada, a metodologia utilizada foi um questionário no Google Forms que continha 37 questões fechadas e 1 aberta opcional ligadas a trajetória escolar do estudante entrevistado, condições das famílias e condições de estudos na pandemia. Quando os estudantes entrevistados não tinham condições de responderem diretamente o formulário, as perguntas foram realizadas através do WhatsApp.

Na comunidade Quilombola do Ausente de Baixo, responderam ao questionário sete alunos com idades entre 15 e 17 anos, cursando o ensino médio. Em relação às características socioeconômicas das famílias, todas são de baixa renda pois 100% receberam algum tipo de auxílio do governo no ano de 2021, seja Bolsa Família ou Bolsa Escola. Os grupos familiares são numerosos, todos com mais de cinco filhos. A renda de muitos nem sempre fornece o que é necessário para o estudo, como o acesso à internet, ou até mesmo o celular. Vemos que os moradores comunidade de Ausente de Baixo sobrevivem da agricultura familiar de subsistência, sendo que a maioria, 60%, conta também com a ajuda do Auxílio Emergencial. Entre os pais, apenas 20% possuem o ensino fundamental completo. Entre os irmãos, 80% possuem ensino médio completo.

A partir da análise das respostas das entrevistas, percebe-se que os recursos tecnológicos tv e internet estão presentes em 100% das famílias. Quanto ao acesso à internet, 80% são por meio do 4G dos celulares e 20% é via antena. O acesso pré-pago representa 80% do total, sendo que 20% falaram que suas recargas mensais duram de um a dez dias; outros 20%, de onze a vinte dias; e 60% de vinte um a trinta dias. 80% afirmaram que o sinal é instável. Ou seja: o número de estudantes que acessa a internet com estabilidade ao longo de todo o mês é ínfimo.

Contemplando a questão 38, questão aberta onde foi solicitado que os alunos relatassem a principal dificuldade encontrada no ensino remoto, 100% dos alunos afirmam que ir à escola antes ajudava muito mais, visto que as relações interpessoais são de fundamental importância no processo ensino aprendizado. A maioria declarou que as metodologias de agora até ajudam, mas não se comparam às vantagens ao ensino presencial. Afirmaram que durante a pandemia eles consideram que está sendo bem mais difícil aprender o conteúdo, pois mesmo que assistam a videoaulas é difícil adquirir todo conhecimento que se é passado. Isso se dá pelo fato de muitos dos alunos não terem ajuda apropriada e mediação do professor, como também pela falta de conhecimento para manuseio e utilização das ferramentas tecnológicas como o Google Sala de Aula, o Conexão Escola 2.0, e mesmo o Youtube. Além disso, foi apontada que 80% dos alunos possuem uma internet ruim, como citado no parágrafo anterior.

Ao final das entrevistas, bem como minhas próprias experiências, noto que o ensino remoto para os alunos e os familiares se torna uma forma segura para suprir a falta do ensino presencial durante o contexto atual de pandemia. Contudo, a falta de um acesso contínuo e estável à internet, além do baixo nível de escolaridade dos pais, constitui agravante no processo de ensino aprendizagem, como é o caso da comunidade estudada. Levando em consideração a realidade vivenciada pelos estudantes de Ausente de Baixo, e pensando na educação no contexto durante a pandemia, podemos enfatizar a necessidade de se ter maior atenção à realidade do educando, pois nem sempre eles possuem as ferramentas corretas e necessárias para o ensino, como a internet e o celular.

[1] Maria Madalena é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Esta pesquisa foi supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

Letramentos e Tecnologias na Pandemia

Letramentos e Tecnologias na Pandemia

– Elizete Pires de Sena-

Elizete em Diamantina

Moro na comunidade Passa Sete, município de Conceição do Mato Dentro- MG. Vivo com meu irmão e também com meus pais que, apesar de já serem aposentados, seguem trabalhando com agricultura voltada ao consumo próprio familiar, trabalho em que eu e meu irmão ajudamos quando possível. Na minha casa, só eu estou estudando.

Meu irmão e eu temos celulares, minha mãe está sem celular no momento, pois o que ela tinha, estragou. Como ela tem dificuldade de mexer com celular digital, meu irmão e eu estamos ensinando-a. Com essa pandemia e o ensino remoto, eu tive que comprar um celular com maior memória para meus estudos. Dessa forma, irei passar o meu antigo para ela. Na minha casa tem um notebook o qual até então somente eu uso para estudar, mas, como meu irmão vai começar a trabalhar, ele irá precisar do aparelho também. Assim, será necessário que busquemos uma organização para a divisão do uso.

Uma das mudanças na minha rotina foi o estudo de forma remota, que demandou e ainda tem demandado adaptações. Devido a essa realidade, tive que colocar internet na minha casa. É internet rural, às vezes falha, entretanto, está me ajudando muito, pois, quando na minha casa não tinha internet, eu ia em um morro onde pega internet móvel, e eu só conseguia acessar pelo celular e não dava para subir lá todos os dias. Ou seja, se eu não colocasse internet em casa, não iria conseguir fazer nada do que estou fazendo, pois constantemente tem algo para fazer que demanda internet. E, com as aulas remotas, estou tendo que aprender a lidar com essas novas ferramentas de comunicação, como por exemplo o Google Sala de Aula, o Google Meet, entre outras plataformas virtuais.

Tudo isso intensificou bastante, ainda, minha prática com o celular e com notebook. Além do curso, estou em um projeto da UFVJM no qual eu sou bolsista cujas atividades estão acontecendo remotamente. Somam-se a isso as atividades do movimento e as demandas (pautas) aqui da comunidade que estão podendo ser mobilizadas online, das quais estou participando. Sobre a comunidade, vale observar que há muitas pessoas trabalhando na mineração, em fazendas e em outros serviços, como o de pedreiro, porém, quem é do grupo de risco e está fixado na empresa de mineração, está em casa.

Tanto na minha comunidade quanto nas outras comunidades atingidas, a pandemia fez com que ficasse mais difícil de nos organizarmos para movimentos de luta por direitos e contra o avanço do modelo predatório de mineração que tanto afeta a vida e o cotidiano de moradores de regiões mineradas. Antes da pandemia, todas as atividades que os atingidos faziam eram presenciais e, atualmente, muitas coisas não são possíveis de serem feitas virtualmente. Além disso, muitas pessoas não possuem celulares e/ou acesso à internet.

A pandemia modificou bastante também a nossa forma de lazer. Como nós aqui da comunidade temos o costume de passear nas casas dos vizinhos, fazer festas entre outras coisas, algumas coisas se alteram por causa da pandemia, pois já não podemos fazer isso. Hoje, jogamos baralho (de preferencialmente o truco), assistimos televisão, ouvimos rádio, coisas que já fazíamos antes, porém dentro de casa. Além disso, como meus pais são do grupo de risco, eu passei a fazer todas as atividades as quais são necessárias ir à cidade, como fazer compras, pagar as contas, entre outras coisas.

ESTUDAR EM TEMPOS DE PANDEMIA

Desde a volta do TU (março de 2021) até o momento de escrever este texto (abril de 2021), estávamos tendo apenas uma disciplina na universidade, “Estudos do Letramento”. Assim não tive muitas dificuldades para participar das atividades. A dinâmica das aulas esteve bem tranquila, de um modo que estou conseguindo me organizar. Às vezes, a dificuldade que tenho é que, quando a internet fica lenta, ao ponto que eu não consiga entrar na plataforma Moodle, onde estão as atividades, eu preciso subir o morro próximo a minha casa, em que há acesso a internet através dos dados móveis pelo celular.

Para eu assistir a um a um documentário demandado pela disciplina, tive problema também com internet lenta. Como sempre, no horário, a partir da meia-noite, o acesso melhora, e assim pude assistir nesse horário. Sobre o aprendizado, pensei que iria ser muito difícil, pela questão de não ser presencial como era no período de 2019/2 e 2020/1. Até o momento, no entanto, estou conseguindo aprender e entender bastante do que está sendo proposto e falado na disciplina. Apesar de ter que ficar muito mais tempo ligada no celular e no notebook, estou me adaptando a essa rotina, mas sentindo muita falta dos estudos presenciais, dos colegas, e do ensino presencial que acredito ser muito mais didático.

Nas aulas presenciais, para as leituras dos textos indicados pelos professores, meus amigos e eu líamos juntos, pois era uma forma de um ajudar o outro, tirar dúvidas, etc. Nesse momento, à distância, não conseguimos mais fazer isso, pois cada um tem sua rotina e, com isso os horários não batem. Há vezes em que apenas pelo whatsapp comentamos sobre as leituras propostas. As aulas presenciais envolviam também atividades práticas, em espaços como a biblioteca e o pavilhão de auditórios da universidade, além de trabalhos de campo diversos. Além das aulas por teleconferências, por enquanto, tivemos como tarefa assistir ao documentário “Leituras de um Analfabeto” e ao episódio “NOSEDIVE” da série “Black Mirror”, o que considero como aulas práticas, igual tínhamos no pavilhão de auditórios onde todos ficavam reunidos, porém, hoje, com a pandemia, cada um na sua casa.

Sobre os aplicativos tecnológicos que estamos usando bastante nesse período de aulas remotas, eu já tinha conhecimento do Google Meet, pois antes de começar o TU já participava de reuniões através dele. Sobre o Moodle, eu aprendi algumas coisas que eu não tinha conhecimento, como a execução de atividades dentro de um fórum da própria ferramenta Moodle, em que é possível comentar as atividades dos outros. Eu pensava que a plataforma era apenas para enviar trabalhos já finalizados diretamente aos docentes. Um aplicativo que também está sendo usado nesse período de aulas remotas é o Google Sala de Aula, eu ainda tenho um pouco de dificuldade em trabalhar com ele, entretanto, quando as demais aulas começarem, acredito que irei aprender bastante.

REFLETINDO SOBRE O PROCESSO

A pandemia do coronavírus chegou ao Brasil em 2020, e se espalhou de forma muito rápida. Devido a isso, a partir do dia 15 de março de 2020, foi decretado quarentena em todo país. Sendo assim, muitas pessoas passaram a ficar mais dependentes das tecnologias, seja para trabalhar, estudar, etc. Porém, os moradores dos territórios rurais têm muita dificuldade de acesso à internet. Conforme apontam Fornasier; Scarantti, (2017), aproximadamente 85% da população que mora no campo está excluída digitalmente (p.135).

Na minha comunidade, e acredito que isso também ocorra em muitas outras comunidades rurais, nesse período de pandemia a comunicação e a organização para as lutas e debates das pautas que demandam o território, ficaram muito complicadas. Isso porque não é possível realizar encontros presenciais devido ao distanciamento social, necessário por causa da pandemia. E, por outro lado, muitas das pessoas não tem acesso aos meios de comunicação e redes sociais. Segundo Magnani e Castro (2019), muitas práticas e formas de interagir com a tecnologia não são comuns ou, por vezes, possíveis a muitos sujeitos de comunidades do campo brasileiros. Para os autores, isso pode ocorrer não só devido a falta de internet de qualidade, mas também, por exemplo, quando não se tem domínio de praticas letradas necessárias(p.62).

Com a pandemia, deixamos de fazer muitas coisas que fazíamos antes, o que está sendo muito ruim, pois tínhamos o costume de receber visitas, fazer passeios, ir em festas. Muitos dos nossos lazeres eram saindo de casa, como ir para o rio, para o bar, ir às igrejas. Isso não sendo possível, assim, passamos mais tempo assistindo televisão, ouvindo rádio, mexendo no celular, com uma maneira de nos ocuparmos. Mas, também para nós que moramos na roça e criamos animais, trabalhamos com a agricultura familiar. Como diz Tardim (2012),“a agricultura traduz, sem equívoco, uma relação humano–natureza marcada pelo sentido de forte conexão, de pertencimento, de ato transformador e criador, uma relação fundada no cuidado”. (p. 181).

Nesse período de pandemia, além de ser nosso trabalho, a agricultura e a criação de animais se tornou, para a minha família, e acredito que para outras famílias que vivem em territórios rurais, uma forma de distração e de manter a mente ocupada. E, por outro lado, uma forma muito interessante de aprender com meus pais sobre o trabalho na terra, escutar sua leitura de mundo, suas percepções e seus olhares. Leitura de mundo esta que, como descreve Freire (1989), vem de um contexto onde as palavras, as letras eram através dos cantos dos pássaros, das fases da lua, do período da chuva, do formato da folha e da fruta para identificar a espécie, olhar as horas através do sol, das estações do ano entre outros.

Como o ensino remoto mudou bastante coisas, muitas pessoas, assim como eu, tiveram que comprar aparelho celular novo para conseguir atender às demandas do ensino remoto, tiveram que colocar internet, entre outras. E o aprendizado de forma remota, por ser diferente do que estávamos acostumados, trouxe para nós estudantes e, acredito que para os professores também, muitos desafios a serem superados. Braga e Vóvio( 2015) falam sobre a articulação entre desigualdade social e escrita, em que o acesso pode ser, muitas vezes, um privilégio de classe. Sobre as tecnologias digitais também, não é diferente, pois, por mais que o acesso tecnológico digital hoje em dia está mais amplo e acessível para todas as classes sociais, ainda há muita desigualdade.

O acesso a tecnologias digitais na zona rural e até mesmo em periferias da grandes cidades é muito deficitário. Isso sem contar que muitas pessoas desse grupo social não têm condições de comprar um celular, um notebook dos melhores e colocar uma internet ótima, que são dispositivos muito caros para boa parte da população. Ou seja, os mais privilegiados em termos de acesso e uso de tecnologias digitais são as pessoas de classe dominante, enquanto as demais têm muito mais dificuldades ao lidar com o ensino a distância.

Por mais que muitos estejam se adaptando bem, aprendendo e entendendo as disciplinas, o ensino não é a mesma coisa de quando era no presencial, pois muitas das vezes a gente fica mais disperso. Por exemplo, antes fazíamos grupos de leituras com os amigos, e, hoje, como é possível apenas pelas redes sociais, acaba não sendo a mesma coisa, pois os horários não batem. Em contextos normais, não pandêmicos, as aulas presenciais ocorrem em Diamantina, no TU, e ficamos por conta somente dos estudos. Na pandemia, por outro lado, além das aulas e atividades da faculdade, foi necessário muitas vezes conciliar com o trabalho. Com essa situação, não é mais possível estar apenas por conta dos estudos. E se a pessoa não se esforçar, principalmente para conseguir participar das aulas síncronas, fica prejudicado o aprendizado.

Esses desafios que estamos enfrentando e aos quais precisamos nos adequar, também são formas de continuarmos estudando. Além disso, essa situação nos levou a ter algumas novas práticas de letramento, como aprender a lidar com as aulas por teleconferências,e, principalmente, a usar alguns aplicativos tecnológicos, dos quais muitos não tinham conhecimento.

REFERÊNCIAS

BRAGA, D, B; VÓVIO, C, L. Uso de tecnologia e participação em letramentos digitais em contextos de desigualdades. São Paulo, Cortez, p. 33-65, 2015.

FORNASIER, M, O; SCARANTTI, D, R. Internet no Campo: Direitos Humanos e Políticas Públicas de Inclusão Digital. Revista Extraprensa, v. 10, n. 2, p. 133-152, 2017.

FREIRE, P. A Importância do Ato de Ler. 23. ed. São Paulo, Cortez, 1989.

MAGNANI, L, H; CASTRO, C, H, S. Práticas Letradas, Tecnologias e Territórios: Transgredindo Relações de Poder. Revista X, Curitiba, v. 14, n. 5, p. 56-81, 2019.

TARDIM, J, M. Cultura Camponesa. In: CALDART, R, S. et al. (orgs.). Dicionário da Educação do Campo. Rio de Janeiro; São Paulo: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Expressão Popular, p.180-188, 2012.

Alguns números sobre o ensino remoto nas comunidades Ausente de Cima e Serra da Bicha

Alguns números sobre o ensino remoto nas comunidades Ausente de Cima e Serra da Bicha

Por Juliana da Paz Ferreira [1]

 

Entre os dias 11 e 27 de maio de 2021 foi realizada uma pesquisa quantitativa com os estudantes do ensino médio da Escola Estadual Leopoldo Pereira no âmbito do PIBID-UFVJM da qual este relato faz parte.  O objetivo de toda a pesquisa é compreender quais são as principais dificuldades enfrentadas pelos estudantes da referida escola em relação às metodologias utilizadas na realização das atividades escolares durante o ensino remoto decorrente da pandemia da covid19.

Atualmente a escola atende 14 comunidades rurais e está situada no distrito de Milho Verde, Serro/MG. Dentre os dez estudantes oriundos das comunidades de Ausente de Cima e Serra da Bicha, quatro participaram desse processo sendo dois de cada uma delas. Para saber um pouco mais sobre essa realidade, organizamos um questionário contendo 37 questões fechadas e uma aberta opcional, aplicado via Google Forms. As perguntas fechadas trataram, sobretudo, sobre as formas de estudos online durante o tempo de pandemia, e como essas condições tecnológicas no meio rural são acessíveis a eles no auxílio às atividades escolares. Para além das condições tecnológicas, perguntamos ainda algumas questões de cunho social que comporão esta análise nos próximos parágrafos. Na última questão, a aberta, foi solicitado um comentário sobre as principais dificuldades encontradas pelo estudante no ensino remoto, e o que ele está fazendo para superá-las. A divulgação dos resultados foi autorizada pelos próprios estudantes em conjunto com a direção da escola com a condição de manter os nomes em anonimato.

Conforme os resultados da pesquisa, 50% dos estudantes são do sexo feminino e 50% do sexo masculino, com idades entre 16 e 17 anos. Todos cursam o ensino médio. Isso significa que esses estudantes estão se preparando, ou deveriam, para dar continuidade nos estudos no ensino superior. Quanto à renda familiar, no Ausente de Cima, 100% dos entrevistados recebem o Bolsa Família e apenas 50% receberam o Auxílio Emergencial. Já na Serra da Bicha, 50% recebem o Bolsa Família e 100% receberam o Auxílio Emergencial. Em ambas as comunidades as famílias dos estudantes sobrevivem da agricultura familiar de subsistência. Tanto na Serra da Bicha como no Ausente de Cima, predomina o baixo grau de escolaridade como afirmam os estudantes ao responderem que o nível de escolaridade dos seus pais é baixo, sendo que nenhum finalizou o ensino fundamental. Com isso, podemos deduzir que o apoio dos pais na realização dos Planos de Estudos Tutorados (PETs) e das atividades complementares fica comprometido.

50% dos estudantes afirmaram que a família não possui televisão em casa, em contrapartida todos têm aparelho celular na residência. Em relação às ferramentas de ensino remoto mais utilizadas no dia a dia, no Ausente de Cima 50% dos entrevistados responderam que utilizam o WhatsApp e 50% o Google Sala de Aula com maior frequência. Já na Serra da Bicha, 100% dos entrevistados afirmaram que utilizam no dia a dia com maior frequência os grupos do WhatsApp. Ao perguntar sobre as ferramentas na qual possuem maior dificuldade, em ambas as comunidades, 100% afirmaram que eles têm maior dificuldade em acessar o aplicativo Conexão Escola 2.0, ferramenta destinada à interação síncrona entre professor e aluno. Como causa desta realidade, nas duas localidades, 50% dos alunos afirmaram que não sabem e 50% disseram que o sinal de internet é muito fraco, pois acessam através dos dados móveis do aparelho celular para estudar porque não tem antena nem internet a cabo em casa. 50% dos estudantes da Serra da Bicha e 100% de Ausente de Cima consideraram a conexão instável, e 100% dos estudantes, das duas comunidades, disseram que o sinal de internet é ruim, impossibilitando-os de baixar arquivos ou vídeos que os professores disponibilizam. Todos afirmaram também que a escola tem utilizado com maior frequência as ferramentas de ensino remoto e com maior diversidade comparada ao ano de 2020.

No ensino remoto, há uma dependência muito grande em relação às tecnologias e vários fatores influenciam no acesso. O mais agravante é que as famílias são de baixa renda por isso não conseguem colocar recarga com frequência no telefone dos filhos para garantir o acesso à internet. No caso desta pesquisa, os quatro estudantes utilizam a internet 4G pré-paga. Em relação ao tempo disponível de acesso ao serviço de internet, no Ausente de Cima 50% dos estudantes tem acesso de onze a vinte dias, e a outra metade de vinte um a trinta dias. Na comunidade de Serra da Bicha os dados são iguais quanto ao tempo de acesso à rede. Ao serem questionados sobre as principais dificuldades enfrentadas nesse ensino remoto, foram unânimes em dizer que a falta de acesso à internet.

Por mais que os professores mandem impressos todos os materiais dos PETs, eles dependem de um auxílio tecnológico para solucionar possíveis dúvidas e pesquisas em relação às atividades. Em uma das respostas, no comentário final, uma estudante ressalta que a maior dificuldade encontrada é a falta de internet, pois muitas vezes o sinal é muito fraco, em condições que o aplicativo Conexão Escola 2.0, utilizado na interação entre professores e alunos, não funciona, dificultando assim o aprendizado dos conteúdos. A entrevistada relatou que mesmo com toda dificuldade enfrentada, não deixa de fazer as atividades pedidas e busca sempre se dedicar ao máximo.

Ao analisar as respostas dadas pelos estudantes, verifica-se que os resultados são preocupantes uma vez que, por mais que eles tenham interesse em aprender, as ferramentas de trabalho não são acessíveis a todos, o que dificulta muito o aprendizado. Conversando com alguns professores da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, eles relatam que se preocupam muito com a aprendizagem dos estudantes por muitas vezes não obter o retorno desejado, pois o contato por meios das plataformas de comunicação digital é mínimo entre eles, isso fez com que os professores buscassem alternativas de ensino para que os alunos não saiam prejudicados. Uma dessas alternativas foi montar um grupo através do aplicativo WhatsApp visto que, esse aplicativo é muito utilizado entre os adolescentes da escola. O avanço da vacinação e, como consequência, os planejamentos para o retorno às aulas presenciais ajudarão a esses estudantes que não conseguiram se adaptar ao ensino remoto devido à falta de condições das famílias de baixa renda, dentre outras questões.

[1] Juliana é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Esta pesquisa foi supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

Letramentos no ensino remoto: uma apresentação

Letramentos no ensino remoto: uma apresentação

Nesse inusitado período de pandemia, em que práticas antes impensáveis tornaram-se rotina – como foi o caso do ensino remoto – muita coisa tem acontecido no contexto educacional. A migração forçada para o meio digital como forma de não interromper as atividades educacionais geram formas específicas de lecionar, aprender, interagir, preocupar-se, organizar-se, lutar por direitos, adaptar-se ao estabelecido, entre outros.

Como era de se esperar, toda essa situação foi sentida no contexto da Licenciatura em Educação do Campo (LEC) da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. A formação de professores é um exercício que envolve um lidar constante com o acontecimento, com a dinamicidade da vida e essa situação recente tem deixado isso muito explícito. Isso, ainda que cada contexto, território, cultura, comunidade tenha vivido toda essa condição de modo necessariamente contingente.

Ao se partir das condições concretas nas quais nos encontrávamos, nós, docente e discentes, enquanto coletivo, procuramos refletir sobre questões ligadas a noções de letramento, leitura, alfabetização, linguagem, ensino, práticas letradas, entre outros. Isso, em um exercício centrado nas práticas letradas e nas condições concretas de cada um de nós enquanto participante daquele coletivo.

Assim, a presente série é resultado de um trabalho coletivamente realizado no contexto da disciplina Estudos de Letramento do terceiro período do curso de Licenciatura em Educação do Campo (LEC) da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. A cada sexta-feira, então, um trabalho autoral produzido por um discente do curso será publicado.

Fica o convite à leitura, ao diálogo e à reflexão conjunto a respeito de práticas letradas que ocorreram e ainda têm ocorrido nesse inusitado contexto de ensino remoto, distanciamento físico e pandemia.

Alguns números sobre o ensino remoto nas comunidades da Barra da Cega, Jacutinga e Córrego da Areia

Alguns números sobre o ensino remoto nas comunidades da Barra da Cega, Jacutinga e Córrego da Areia

Por Izabela Pilar Alves Ferreira [1]

 

Trago aqui resultados de pesquisa de cunho quantitativo executada por meio de um questionário contendo 37 perguntas fechadas e uma aberta. Responderam as interrogativas quatro alunos do ensino médio da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e que residem nas comunidades da Barra da Cega, Córrego da Areia e Jacutinga. Nessas três comunidades as famílias sobrevivem da pequena agriculta familiar de subsistência.

A proposta do trabalho em questão é expor algumas realidades de ensino e aprendizagem desses alunos em meio à pandemia, salientando também suas condições socioeconômicas e educacionais, suas condições escolares e sua percepção sobre o Regime Especial de Atividades Não Presenciais (REANP).

A escola Estadual Professor Leopoldo Pereira é considerada nucleada rural, ou seja, possui uma sede, onde fica localizada a direção, que fica localizada em Milho Verde, um distrito de Serro, interior do estado de Minas Gerais, e outros núcleos (prédios físicos diferentes da sede). Esses núcleos estão presentes em 14 comunidades, entre elas estão as citadas Barra da Cega que fica localizada a 3 km da escola, Córrego da Areia a 11 km e Jacutinga, situada a 16 km.

O estudo foi realizado com alunos do sexo feminino e masculino com idades entre 15 e 18 anos que cursam o primeiro e segundo ano do ensino médio. Mediante tal investigação, fica perceptível que o perfil familiar é de baixa renda, pois todas recebem auxílios financeiros do governo. As famílias são numerosas, 100% delas possuem 5 ou mais integrantes. Com relação ao grau de escolaridade dos pais, 100% dos pais e das mães não terminaram o nível fundamental, o que coloca esse grupo familiar em condições escolares limitadas.

Os alunos das comunidades em estudo possuem celular e internet com cobertura 4G, 50% dos alunos afirmaram que o sinal é instável e a maioria, 70%, relatou que não consegue assistir a vídeos, como as videoaulas disponibilizadas nos planos de ensino que devem cumprir semanalmente. Outros 40% também mencionaram que precisam dividir o uso do celular com outros familiares para fins estudantis. Nas três localidades os alunos, em sua maioria, 60%, acessam a internet de 21 a 30 dias no mês.  Na Barra da Cega 50% dos alunos contam com a ajuda dos pais nas atividades escolares e 50% não. Na Jacutinga e no Córrego da Areia 100% dos alunos afirmaram que não contam com a assistência dos pais, pois não têm domínio dos conteúdos.

Os estudantes alegam que utilizam entre 1 e 10 horas para estudar por semana. Desses, 40% usam como ferramentas de estudo vídeos diversos – que encontram com pesquisa – do Youtube, ou vídeos oficiais do programa Se Liga na Educação, também disponíveis no Youtube, que é parte do Estudo no Regime de Estudo Não-Presencial (REANP). Além disso, todos declaram que neste ano de 2021 a escola e os professores têm utilizado ferramentas de ensino remoto para se comunicar com maior assiduidade. Dentre essas, a utilizada com frequência maior é o WhatsApp, segundo 100% dos respondentes. Todos afirmaram que o e-mail e o aplicativo Conexão Escola 2.0 estão sendo menos utilizado, pois demandam uma internet com maior estabilidade no sinal.

Por último, respondendo sobre as principais dificuldades encontradas no ensino remoto em questão aberta, um dos entrevistados diz que a sua principal dificuldade é aprender por meio do aparelho celular, sobretudo pela necessidade de acessar os aparelhos celulares dos pais, que sempre estão fora de casa trabalhando. Além disso, nem sempre o celular tem recursos tecnológicos ou conectividade que suportem o recebimento e envio dos conteúdos pedagógicos.

A partir da entrevista, de maneira geral, conclui-se que para participar dessa nova escola, a família precisa de boas condições financeiras. Percebe-se que esses estudantes são dependentes de tecnologias caras e até inexistentes na região, como internet a cabo. Sendo assim, as más condições sociais que o indivíduo vive influenciam negativamente na sua aprendizagem escolar e aprofundam as desigualdades de maneira geral.

[1] Izabela é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Esta pesquisa foi supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

Alguns números sobre o ensino remoto na comunidade de Capivari – Parte 2

Alguns números sobre o ensino remoto na comunidade de Capivari – Parte 2

Por Claudemar Alves Ferreira [1]

 

Este é um relato que traz considerações sobre a percepção de alguns alunos do ensino médio de uma escola rural sobre as metodologias e as tecnologias de estudo e suas principais dificuldades encontradas no ensino remoto. Neste contexto, foi realizada uma pesquisa com 11 alunos da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira que está localizada no distrito de Milho Verde, município do Serro – MG.

A metodologia utilizada foi um questionário enviado a 11 estudantes do ensino médio que moram na comunidade de Capivari, situada a 16 km de Milho Verde. Da localidade, antes do período pandêmico e esperamos que em breve novamente, saem dois ônibus na parte da manhã, fazendo o percurso de 1 hora da comunidade até chegar à escola. Na pesquisa foram abordados os seguintes temas: condições socioeconômicas, condições educacionais das famílias, percepções do aluno sobre suas dificuldades no REANP.

A partir dos dados, percebe-se que as condições socioeconômicas dos alunos é um fator que influencia em um bom aprendizado, pois a falta de recursos tecnológicos necessários no ensino remoto, como um computador, aparelho celular e internet de boa qualidade, faz com que os alunos não tenham um bom desempenho. Nesse sentido, 50% dos entrevistados recebem o Bolsa Família e 30% receberam o Auxílio Emergencial do governo federal. Nessa situação, 40% dos alunos têm que compartilhar com seus irmãos os aparelhos tecnológicos para acessarem as videoaulas, o aplicativo Conexão Escola, assim como os grupos de WhatsApp das turmas, que são ferramentas disponibilizadas pela escola, sendo que 80% dos entrevistados afirmaram que utilizam a última com maior frequência. 90% dos alunos relatam que possuem dificuldade para acessar o aplicativo Conexão Escola, que oficialmente deveria substituir o WhatsApp. Os dados reforçam, assim, que a questão do acesso é um ponto que contribui para o atraso na aprendizagem.

Outra dificuldade encontrada é a necessidade de um acompanhamento de uma pessoa qualificada para sanar as dúvidas que surgem, pois vimos que grande parte das famílias de Capivari não tem uma qualificação para acompanhar as atividades com seus filhos, sendo que 100% dos pais possuem ensino fundamental incompleto e cerca de 70% das mães também. Além da falta de tecnologias e da falta de conhecimento, ficam prejudicados ainda com o fato de que 25% dos familiares afirmam não tempo de ajudar seus filhos. Assim, as respostas ao questionário mostram que esses alunos apresentam grandes dificuldades para estudar.

A partir das entrevistas realizadas, e sobretudo nos relatos da única questão aberta do questionário, percebe-se que o REANP tem prejudicado muito a educação e que os estudantes estão desmotivados, desatentos e despreparados para prosseguir com os estudos. Como exemplo selecionei um dos relatos para melhor justificar minha afirmação: “É um pouco difícil né porque quando tinha as aulas presenciais a gente tinha mais a presença do professor, a gente tinha ali os amigos para tá apoiando também principalmente professor que ensina muito bem, e longe, no ensino remoto, a gente fica mais distraído.”                                            

Ao fim, podemos concluir que a falta de recursos tecnológicos de acesso e infraestrutura para um grupo de alunos é de extrema preocupação em Capivari onde 50% conseguem acessar as videoaulas online e os outros 50% não, pois ou possuem internet precária ou nenhuma internet. Também o acesso com maior estabilidade a internet só é uma realidade para apenas 60% dos alunos que possuem antena. Entre os entrevistados 80% afirmaram que possuem acesso à internet todos os dias do mês, considerando o 4G do celular. Esses mesmos 80% relataram que utiliza com maior frequência como ferramenta de ensino o grupo do WhatsApp da turma. Apenas 10% conseguem acessar o aplicativo Conexão Escola.

Dentre os dificultadores, a partir das respostas dadas, podemos afirmar que o grau de escolaridade dos pais, assim como o limitado acesso às tecnologias. Sem contar que esse ensino remoto é um hábito novo, uma nova cultura. Se no ensino presencial já é difícil os alunos terem o hábito de estudar, no ensino remoto a situação tende a se agravar, tendo em vista o perfil das famílias pesquisadas.

[1] Claudemar é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Esta pesquisa foi supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

Alguns números sobre o ensino remoto na comunidade de Capivari – Parte 1

Alguns números sobre o ensino remoto na comunidade de Capivari – Parte 1

Por Ana Roberta Cléo dos Santos Ferreira [1]

Este texto relata os resultados de uma pesquisa quantitativa que aborda a percepção de alguns alunos da comunidade rural de Capivari sobre o chamado Regime de Estudo não Presencial (REANP-Minas Gerais), assim como suas condições de acesso, infraestrutura de telecomunicação e as ferramentas utilizadas pela escola. O universo da pesquisa foi um grupo de 8 alunos da comunidade de Capivari, que estudam na Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, localizada no distrito de Milho Verde, município do Serro/MG.

Como metodologia adotada para o levantamento dos dados, foi aplicado um questionário no Google Formulário com 37 perguntas fechadas e um comentário aberto opcional. Os nomes dos estudantes são mantidos na confidencialidade e as questões abordadas estão ligadas às metodologias e às tecnologias utilizadas pelos estudantes do ensino médio da referida escola, assim como as suas principais dificuldades. Como resultados da pesquisa, percebemos que a questão de tecnologias tem influenciado muito a não-aprendizagem. No contexto de Capivari, 100% afirmaram que têm o aparelho celular, mas apenas 60% têm acesso a conexão estável à internet, que na comunidade só é possível via antena, e metade também relatou que às vezes não consegue nem acessar videoaulas no Youtube. Entre os que acessam à rede tanto via antena e celular, 80% possuem acesso à rede de 21 a 30 dias no mês. O baixo nível de escolaridade dos pais também é um ponto que pode influenciar no aprendizado dos alunos uma vez que 100% dos pais não terminaram o ensino fundamental.  Perguntados sobre apoio nas atividades propostas pelo REANP através das apostilas denominadas Plano de Estudos Tutorados (PET) por parte dos pais, 100% deles não conseguem fazê-lo. Metade afirma que por competência, já que não finalizaram o fundamental, e a outra metade alega trabalhar e não ter tempo para apoiar seus filhos com as atividades.

De acordo com os dados da pesquisa, percebemos que 80% dos estudantes são de baixa renda, pois suas famílias participam dos programas governamentais Bolsa Família e Auxílio Emergencial. Por falta de condições financeiras, muitos irmãos têm que utilizar um único aparelho celular ou computador, quando existe um, para os estudos. Sobre as ferramentas de uso, todos afirmaram que possuem mais facilidades com grupo de WhatsApp e videoaulas do Youtube. 80% dos entrevistados afirmaram que fazem uso da ferramenta WhatsApp com maior frequência sobretudo pelo fato de que a escola criou um grupo de WhatsApp para cada turma. No ambiente virtual esclarecem suas dúvidas com mais facilidade e aprendem os conteúdos. Por outro lado, 90% dos alunos encontram dificuldades em acessar o aplicativo Conexão Escola 2.0, criado pelo governo do estado destinado à interação nos moldes do popular WhatsApp.

Ainda segundo os entrevistados, na questão aberta aos comentários diversos, o ensino remoto dificultou o aprendizado, pois antes, na sala de aula, tinham a presença dos professores e amigos para estar dando um apoio moral e auxiliando na aprendizagem, pois o professor está ali presente e responde com mais rapidez suas dúvidas. Relataram em seus comentários que no ensino remoto não é sempre a mesma coisa, pois o professor tem vários alunos para estar respondendo. Muitas vezes pelo fato de o aluno não compreender o conteúdo não tem nem base de como formular uma pergunta para o professor. Um outro problema identificado foi a falta de um ambiente adequado para os estudos, pois o ambiente doméstico pode gerar falta de atenção como relata uma estudante: ‘‘Com o ensino remoto a gente fica distraído. Se passar um mosquito na nossa frente, a gente fica observando o mosquito e esquece da atividade. E antes, na sala de aula, tínhamos mais concentração na explicação do professor’’.

Com todas essas respostas, notamos que não só a concentração nas atividades, mas o acesso à internet e o baixo grau de escolaridade dos pais também têm sido fatores que dificultam o aprendizado; pois se o aluno não tem uma internet de boa qualidade, não consegue acessar os aplicativos que necessita, fazendo com que seu rendimento não seja satisfatório. Problema agravado pelo fato de não possuírem na família um membro que possa auxiliá-lo nas atividades. Concluímos, assim, que a qualidade da educação destes alunos está comprometida por estes problemas identificados.

[1] Ana Roberta é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Esta pesquisa foi supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

Alguns números sobre o ensino remoto na comunidade de Milho Verde – Parte 2

Alguns números sobre o ensino remoto na comunidade de Milho Verde – Parte 2

Por Maria Flor de Maio de Jesus Silva [1]

Este relato traz as percepções de estudantes do ensino médio da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira sobre as metodologias e tecnologias de estudo no regime não presencial em vigor na escola e em toda a rede estadual mineira. A escola está localizada na comunidade de Milho Verde, distrito do município do Serro, Minas Gerais. Para tanto, realizamos uma pesquisa via Google Forms, da qual relato as respostas dadas por um grupo de 13 estudantes, no período de 01 a 14 de maio de 2021, com autorização de uso dos dados e com nomes omitidos para garantir privacidade.

Todos os entrevistados residem na comunidade de Milho Verde. O resultado nos aponta que a falta de acesso adequado às tecnologias tem influenciado no desenvolvimento das atividades escolares no ensino remoto. A Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira é  uma  escola nucleada rural, ou seja, o seu espaço físico está situado no distrito de Milho Verde, porém a área de  abrangência  da comunidade escolar é maior que a área onde a escola esta localizada. Atualmente, esta atende estudantes de 14 comunidades da zona rural. Essas comunidades englobam desde a sede dos distritos, com uma pequena infraestrutura urbana, até localidades como a Serra da Bicha, o Amaral e a Jacutinga, lugares onde o acesso, seja às casas, à infraestrutura de comunicação, aos meios de transporte ou à saúde que é bastante precário.

Diante da situação da pandemia do covid19, a escola, como todas as instituições educacionais, adequou-se ao ensino remoto, suspendendo as aulas presenciais, e passou a buscar alternativas de manter o processo de ensino-aprendizagem em consonância com as propostas do governo estadual de Minas Gerais por meio de Regime Especial de Atividades Não Presencial (REANP). Nesse período, utilizou principalmente os recursos tecnológicos como aplicativos e plataformas on-line, que, no entanto, escancaram a desigualdade e as dificuldades enfrentadas por estudantes e professores. Alguns problemas são comuns à maioria dos estudantes e professores como: acesso limitado a internet, falta de computadores e de espaço em casa, problemas sociais, sobrecarga de trabalho docente e baixa escolaridade dos familiares principalmente dos pais.

Na análise das condições socioeconômicas e educacionais das famílias, o resultado nos mostra que 40% dos estudantes entrevistados são do sexo feminino e a faixa etária varia de 15 a 19 anos, sendo um total de 30% cursando o primeiro ano e 30% no terceiro ano do ensino médio. A maioria das famílias dos entrevistados é composta por 5 pessoas na residência e metade dos entrevistados são beneficiários do Bolsa família. A maioria dos pais apresenta escolaridade de nível baixo, 50% têm o ensino fundamental incompleto, 20% ensino médio completo e 30% ensino médio incompleto. Entre as mães, 50% têm o ensino fundamental incompleto, 30% o ensino médio completo e 20% ensino superior completo. Apesar do número de pais e mães com ensino médio completo ser considerável, 20% dos pais e 30% das mães, e 20% das mães com ensino superior completo, ainda predomina um grau de escolaridade baixo visto que 50% dos pais e mães não completaram o ensino fundamental.

Sobre as condições dos educandos no uso de tecnologias, 100% possuem um aparelho celular e somente 30% têm um computador na residência. Das famílias, 80% afirmaram ter acesso a televisão, mas a Rede Minas, responsável por transmitir videoaulas (também disponíveis no Youtube) não pega em 100% dessas casas. Entre essas, 50% fazem uso da internet pré-paga e 50% têm acesso via antena. Sobre qualidade da internet, 80% dos estudantes relataram que é estável e 20% a consideram-na precária. 90% dos entrevistados fazem uso da internet de 21 a 30 dias no mês, pois usam pré-paga que acaba antes do fim do mês. Dentre os alunos, 50% recebem ajuda dos pais na realização das atividades propostas pelos PETs (Plano de Estudos Tutorados). Os outros 50% não recebem esse apoio por eles não saberem os conteúdos, porque trabalham, ou por não terem tempo disponível para contribuir com o processo de ensino aprendizagem em casa. Já em 60% das respostas, irmãos auxiliam na realização das atividades. No acompanhamento das formas de interações e atividades online, e sobre frequência de uso de ferramentas digitais, 80% dos alunos utilizam o WhatsApp e 30% o Youtube com maior frequência, os mais citados. Dentre esses mesmos estudantes, 40% estudam de 1 a 3 horas, 30% de 4 a 6 horas, 20% de 7 a 11 horas, e 10% mais de 11 horas.

Entre os entrevistados, 100% afirmaram que, em decorrência do ensino remoto, a escola está lidando com maior frequência e com maior diversidade de ferramentas digitais do que no ano passado. Os dados nos apontam que o grupo de estudantes não têm grandes dificuldades de acesso, pois 80% consideram o sinal de internet bom. Mas apesar da boa infraestrutura do acesso, 30% declararam que têm dificuldades de acessar o aplicativo Conexão Escola, 35% têm dificuldade de acessar o Google Sala de Aula sendo que 30% nunca conseguiu acessar este último. Na Comunidade de Milho Verde, 100% dos estudantes possuem o celular individual e 30% das famílias possuem um notebook, além de ter uma boa infraestrutura de serviços de internet. Assim, a grande maioria dos estudantes possuem as principais ferramentas de acesso, internet e celular, e conseguem assistir os vídeos com estabilidade.

Quanto à percepção dos entrevistados sobre o REANP, a questão posta, a única aberta ao final de 37 fechadas, foi a seguinte: Comente sobre a principal dificuldade encontrada por você no ensino remoto, se está conseguindo superar ou não e como. As respostas foram diversas, mas seguem alguns trechos mais relevantes:

  • Está sendo muito difícil, pois não estávamos conseguindo acessar os aplicativos no começo… algumas matérias são complicadas e não consigo entender, mas com a ajuda dos meus familiares eu estou conseguindo fazer algumas coisas outra eu tenho que pesquisar.”
  •  
  • Várias: internet, materiais, falta de explicações, falta de mais orientações dos professores, falta de computador.”
  •  
  • “Estou tentando ter mais interesse nos meus estudos, pois sei que com ele eu vou conseguir MTS coisas.”
  •  
  • É difícil estudar sozinha, não gosto muito de estudar, e pela internet é muito ruim.”

Podemos perceber nas falas como é desafiador o acesso e utilização das tecnologias do ensino remoto. Podemos observar que são realidades bem diferentes das pensadas pelo REANP e suas metodologias, mas o aprendizado deste período está também nas diferenças de contexto entre estudantes, professores e escolas. As desigualdades estão em várias dimensões, o que faz com que sejam mais intensas para alguns estudantes do que para outros.

Nesse cenário, deve-se pensar em ações de inclusão para todos os estudantes, pois quando o ensino remoto acabar, muitas ferramentas devem ficar na escola, pois fazem parte da nossa sociedade e da nossa comunicação. Além disso, os professores devem ter condições de atender às demandas de interação com os estudantes, bem como de dar feedbacks sobre todas as atividades realizadas. Por último, as didáticas devem estar vinculadas às realidades dos estudantes, ligando a prática educativa aos saberes das comunidades.  Pois pensar na qualidade do ensino é compreender e respeitar a individualidade dos alunos, na busca de superação dos desafios que podem ser específicos. Entendemos que as reflexões deste estudo permitem compreender a realidade que muitos dos estudantes estão vivenciando nessa pandemia, além de vários outros fatores e questões vivenciados o que nos permite buscar soluções.  

[1] Maria Flor é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Esta pesquisa foi supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

Alguns números sobre o ensino remoto na comunidade de Milho Verde – Parte 1

Alguns números sobre o ensino remoto na comunidade de Milho Verde – Parte 1

Por Adelaine Aparecida Santos [1]

Este texto analisa o resultado de uma pesquisa quantitativa, cujo objetivo principal foi levantamento de informações e dados sobre as percepções de 13 estudantes sobre o ensino remoto. Os entrevistados estudam na Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, situada em Milho Verde, distrito de Serro – MG. O método adotado para o levantamento dos dados foi a aplicação de um questionário com 37 perguntas fechadas e um comentário aberto opcional, enviado em um formulário do Google.

Avisados da confidencialidade da pesquisa, participaram, no total, 13 alunos do ensino médio, todos residentes de Milho Verde.  Sendo que no primeiro e terceiro ano estudam 30% em cada e no segundo ano, 40%. Dos alunos que responderam, 30% eram do sexo masculino e 70 % do feminino, na faixa etária de 15 a 19 anos, sendo que a maior parte, 60%, possui 17 anos.

Desses alunos, 90 % moram com seus pais. Sobre anos de estudos, 50% dos pais não têm ensino fundamental completo, 30% possuem o ensino médio incompleto e 20% finalizaram o ensino médio. Poucos conseguiram estudar até o ensino superior, 20% das mães. Ainda entre alas, 40% não finalizaram o ensino fundamental e 30% finalizaram o ensino médio. Embora o grau de escolaridade das mães seja maior que dos pais, nota-se pelos dados que ambos possuem baixo grau de escolaridade, com poucas exceções. O número de membros da família que moram numa mesma casa varia entre 4 e 7 pessoas, sendo que entre os alunos que responderam 30% possuem 5 a 6 pessoas em casa. Para o sustento da família, além de algum membro familiar trabalhar, 80 % recebem benefício social, sendo: 50% das famílias recebem Bolsa Família, 10% recebem Bolsa Escola, 20% conseguiram o Auxílio Emergencial do governo federal durante este tempo de pandemia. 20% não recebem nenhum tipo de benefício do governo e a pesquisa não teve alcance para elucidar as razões.

Todos os estudantes possuem em casa acesso a pelo menos 1 celular para os estudos e a interação em tempos de distanciamento social, sendo eu muitas vezes o equipamento é dividido com outro(s) familiar(es). Apenas 30% dos estudantes possuem notebook. Quanto à internet na residência, parte dos entrevistados, 50%, possuem internet via antena, 25% a cabo e 25% apenas no 4G. 50% possuem internet pré-paga nos celulares, que descrevem com qualidade limitada, já que normalmente a velocidade não passa de 3G.

Neste momento de pandemia, com o ensino remoto, todos sabemos que estar conectados à internet é essencial. No entanto, a minoria dos alunos tem acessado às videoaulas produzidas, sendo que 30 % dos estudantes afirmam fazer pesquisas de conteúdos como videoaulas no Youtube. Para a interação, um aplicativo chamado Conexão Escola 2.0, que funciona como um chat, também foi criado; mas apenas 40% dos estudantes declaram utilizá-lo. Já o aplicativo WhatsApp, opção “não” oficial para as interações, é usado por 80% dos estudantes que responderam à pesquisa. Já o Google Sala de Aula, um aplicativo onde é possível disponibilizar materiais diversos, é acessado por apenas 10 % os respondentes.

Quando perguntados sobre a disponibilidade de acesso à internet no celular ao longo do mês, 50% de estudantes utilizam planos pré-pagos, sendo que 90% responderam que a internet tem duração de 21 a 30 dias e os outros 10% de que a internet dura entre 11 e 20 dias. No entanto, 75% do total têm acesso a outro tipo de internet: cabo ou antena. Sobre a qualidade da internet, 80% responderam que é estável. Atualmente 80% dos alunos afirmam que realizam suas recargas de crédito no celular sem ajuda dos pais e 20% dependem dessa ajuda. 50% dos alunos declararam que estudam de 1 a 3 horas por semana, enquanto 30% estudam de 4 a 6 horas e 20%, de 7 a 11 horas. Vemos que o tempo destinado aos estudos é baixo se comparado com o tempo das aulas presenciais.

Em 2021, segundo ano do ensino remoto imposto pela pandemia, 100% dos alunos afirmaram que a escola tem utilizado mais ferramentas de ensino remoto e de comunicação que no ano passado, o que mostra maior emprenho e, provavelmente, maiores conhecimentos sobre as tecnologias e as práticas novas. Os grupos de WhatsApp têm sido um importante meio de comunicação ultrapassando ainda o aplicativo Conexão Escola. Entre os entrevistados 80% utilizam mais o WhatsApp, sendo que a escola instituiu um grupo de WhatsApp para cada turma.

Conclui-se que na maioria das vezes o que implica em um resultado negativo não é somente a falta de acesso a rede de internet de qualidade, mas também o baixo grau de escolaridade dos pais que muito influenciam neste processo, tal como os números mostram. Os alunos ainda declararam que este ano 95% dos professores têm interagido mais e que, apesar das dificuldades, o que se nota é que a escola tem fornecido mais apoio aos estudantes com diversas ferramentas. 

[1] Adelaine é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Esta pesquisa foi supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

Ensino remoto, educação no campo e acesso à internet

Ensino remoto, educação no campo e acesso à internet

Por Adelaine Aparecida Santos [1]

Este é um relato sobre a percepção de duas alunas de uma escola do campo sobre o ensino remoto, em vigor durante a pandemia. As informações foram baseadas em entrevistas realizadas via WhatsApp. As entrevistadas residem na zona rural do município do Serro, no Alto do Jequitinhonha, em Minas Gerais e seus nomes serão preservados.

As entrevistadas estudam na Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, localizada no distrito de Milho Verde, que atende aproximadamente 400 alunos. Essa é uma escola nucleada rural, o que significa que existe uma sede no distrito e outros prédios sob a mesma direção em comunidades rurais. Assim, atende a diversas comunidades vizinhas como Ausente, Barra da Cega, Capivari, Jacutinga, Serra da Bicha, Colônia, Chico Prata, Chacrinha, Três Barras e a própria comunidade de Milho Verde. Cerca de 75 por cento dos alunos utilizam transporte escolar, sendo que alguns residem próximo e outros em localidades mais distantes.

A primeira entrevistada reside na comunidade quilombola do Ausente, juntamente com sua avó e mais dois parentes. Sua mãe é cuidadora de idosos e possui curso superior completo. A estudante trabalha em casa ajudando sua avó nos afazeres domésticos. É uma jovem estudiosa. Para chegar até a escola utilizava, em tempos de ensino presencial, o transporte escolar, que levava em média uns 45 minutos na estrada. Seu maior sonho é ter um trabalho digno e entrar em uma universidade de fisioterapeuta. Esse desejo, de certa forma, vem da vontade de seguir os passos da mãe.

A segunda entrevistada reside na comunidade de Milho Verde com seus pais e dois irmãos. Ela caminha vinte minutos para chegar à escola.  Sua mãe é agricultura e o pai é pedreiro. Ambos fizeram o ensino fundamental.

Durante este período de pandemia e isolamento, as famílias das entrevistadas estiveram ocupadas no plantio de lavoura em suas terras. Na primeira família, ninguém recebeu nenhum tipo de ajuda financeira do governo, já na segunda família duas pessoas receberam o benefício Auxílio Emergencial.

As entrevistadas afirmaram que antes da pandemia, além dos estudos em casa, ainda tinham os deveres e os trabalhos que faziam com que estudassem por mais tempo. Ambas também relataram que no ano letivo de 2020 elas não fizeram a prova do Enem, mas se dedicaram aos estudos de uma a duas horas por dia, para dar conta de fazer todas as atividades.

As estudantes utilizam a internet no próprio celular para estudar, sendo que a primeira entrevistada usa dados móveis, já que não possui internet em casa. Estuda aproximadamente uma hora por dia. A segunda entrevistada utiliza o celular para acessar a internet e redes sociais também, mas tem wi-fi em casa, o que lhe garante melhor qualidade de internet. Atualmente ela trabalha como babá de segunda à sábado, das 7 às 18 horas. Estuda em média 2 horas por dia fazendo as questões das apostilas enviadas pela escola. Sua matéria preferida é língua portuguesa e seu maior sonho é fazer faculdade de enfermagem ou psicologia.

É importante destacar que neste momento em que a comunidade escolar passa por novos processos educativos, em decorrência da pandemia do covid-9, a Secretaria de Educação de Minas criou uma metodologia de ensino e o material denominados REANP (Regime Especial de Atividades Não Presenciais). Essa metodologia possui seus pontos positivos e negativos. Com ela, os estudantes passaram a estudar em casa, através do Plano de Estudo Tutorado-PET, que consiste em atividades impressas em apostilas que são entregues pela escola. Trata-se de apostilas que são entregues mensalmente nas próprias comunidades, para que os estudantes não tenham que se deslocar até a escola. As entrevistadas afirmaram que as questões das apostilas são complexas e alguns conteúdos de difícil entendimento. Criou-se também o programa de TV “Se Liga na Educação”, exibido na TV e no Youtube além do aplicativo Conexão Escola. No entanto esses são meios tecnológicos que a maioria dos estudantes não conseguem ter acesso, ora por falta de créditos no celular pré-pago, ora pela qualidade ruim da internet, segundo o relato das entrevistadas e minhas vivências no município.

Em relação à percepção sobre o REANP, a primeira aluna afirma que alguns conteúdos são fora do contexto e que as atividades são muito complexas. Além do difícil acesso à internet, que dificulta o acesso aos programas do Youtube e às pesquisas de forma geral, ela acha que os conteúdos dos PETs são em grandes quantidades e que há pouco tempo para se aprofundar. Com o que concorda a segunda entrevistada que diz que sua dificuldade foi conseguir aprender e finalizar as apostilas com os prazos dados. Reclamou também da falta de acompanhamento dos professores.

Para ambas, o novo método foi uma grande mudança. A primeira entrevistada opina que o REANP é um método razoável para dar continuidade ao ensino durante este tempo de pandemia e isolamento social. A segunda entrevistada, que estava no terceiro ano no momento da entrevista, pontua que mesmo se formando através das apostilas, acredita não ter bagagem em termos de conteúdo e afirma ter aprendido pouco com os PETs. Perguntadas sobre o maior problema do REANP, afirmaram que foi a falta de acompanhamento dos professores e a adaptação aos meios tecnológicos.

Sabemos que o ensino remoto foi um projeto de emergência para suprir a demanda do processo de ensino aprendizagem em casa. No entanto, a partir das entrevistadas e de observações pessoais de todo o cenário educacional na pandemia, notamos que os professores, alunos e pais não receberam muito bem as novas metodologias e ainda estão se adaptando. É um processo novo que leva tempo. Através desta pesquisa, mesmo sendo com duas estudantes apenas, ficou claro que os alunos do campo receberam o REANP sem uma estrutura adequada de acesso à rede de internet com qualidade, como também houve dificuldades em relação aos conteúdos e metodologias.

[1] Adelaine é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Este relato foi produzido a partir de pesquisa supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

As percepções de estudantes de São Gonçalo do Rio das Pedras e Capivari sobre o REANP

As percepções de estudantes de São Gonçalo do Rio das Pedras e Capivari sobre o REANP

Por Taliele Santana Higino [1]

Este texto resulta de uma pesquisa realizada com alunos da Escola Estadual Leopoldo Pereira, localizada na comunidade de Milho Verde, e com alunos da Escola Estadual Mestra Virginia Reis, localizada na comunidade de São Gonçalo do Rio das Pedras, ambas no município de Serro/MG. A metodologia utilizada foi a aplicação de uma entrevista semiestruturada a partir de temas como: perfil socioeconômico, perfil dos estudantes, perspectivas para o futuro e a percepção sobre o REANP. O propósito das entrevistas foi compreender a forma como os alunos do ensino médio dessas escolas do campo percebem essa nova modalidade de ensino não presencial, suas consequências e impactos em suas aprendizagens.

O material coletado para o estudo, por meio de entrevistas com três estudantes, permitiu analisar as informações que o questionário propunha obter. Nas entrevistas, o WhatsApp foi o principal meio de comunicação. Dois alunos, um menino e uma menina, moram na comunidade de Capivari e relataram que, no período pré-pandemia, no ensino presencial, uma das suas dificuldades para estudar era ter que acordar cedo e pegar o ônibus escolar, sendo que grande parte do percurso não é pavimentado e o percurso leva em torno de 30 minutos mais ou menos, já que a escola fica em Milho Verde. Já o terceiro estudante entrevistado mora na comunidade de São Gonçalo do Rio das Pedras e leva de 10 a 15 minutos para chegar até sua escola, a Escola Estadual Mestra Virginia Reis.

Os alunos de Capivari acessam a internet pelo celular, pois a comunidade não possui antena de internet; já o aluno de São Gonçalo acessa internet na rede wi-fi. Os pais dos três alunos entrevistados receberam o auxílio emergencial e recebem Bolsa Família. Os pais de Capivari estudaram até o 5º ano no ensino fundamental, já suas mães chegaram a estudar até o ensino médio. Quanto aos pais de São Gonçalo do Rio das Pedras, ele tem ensino médio completo e ela tem ensino superior.

Os três entrevistados gostam de estudar e afirmaram que mesmo no período de pandemia, além de frequentarem às aulas, estudavam em média três vezes na semana, cerca de uma hora por dia. Em época de prova estudavam mais tempo. As matérias favoritas variam entre português, biologia e geografia. Os alunos possuem o hábito de utilizar a internet como ferramenta para estudar para as provas, fazer as atividades de pesquisas e atividades de casa. Relataram que depois que se formarem no ensino médio pretendem fazer faculdade. A aluna de Capivari relatou que seu sonho é fazer Veterinária, pois gosta dos animais. O aluno de Capivari pretende fazer faculdade de psicologia para ajudar as pessoas que têm doenças mentais e o aluno de São Gonçalo pretende fazer medicina.

A opinião dos três entrevistados sobre o Plano de Estudos Tutorados (PET) não foi tão positiva, pois relataram que estudar em casa sem a ajuda dos professores não foi uma boa ideia e o processo foi muito difícil. Segundo a aluna, “…na escola, com os professores, já era difícil. Imagina sem as explicações! Assim o aprendizado acaba ficando a desejar”. Assim, a maior dificuldade encontrada pela estudante foi fazer as atividades sem ter a presença de um professor por perto para estar explicando passo a passo de como são feitas as atividades, como ocorre dentro da sala de aula.

De acordo com os entrevistados de Capivari, o que poderia ter mudado nos PETs são os exemplos e as explicações de como fazer as atividades, que deveriam ser mais bem contextualizadas. Também afirmaram que a comunicação entre eles e os demais alunos fluiu bem através do grupo da sala pelo WhatsApp, ambiente onde muitas atividades foram feitas com ajuda dos colegas.

Os três estudantes consideraram o ano escolar letivo muito difícil, por não irem para as escolas e por não compartilharem dos conhecimentos dos professores. Para o ano que se inicia, esperam que tudo possa voltar ao normal, com o fim da pandemia e com a volta das aulas presenciais.

Através deste relato, concluímos que problemas como o acesso precário à internet e o grau de escolaridade dos pais influenciaram na aprendizagem dos alunos entrevistados nesse período. Contudo, a maior dificuldade encontrada foi a ausência do ensino presencial juntamente com o acompanhamento dos professores, assim como a metodologia utilizada na apresentação dos conteúdos.

[1] Taliele é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Este relato foi produzido a partir de pesquisa supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

Educação do campo na pandemia: descobrindo os desafios do ensino remoto e inovando as práticas pedagógicas

Educação do campo na pandemia: descobrindo os desafios do ensino remoto e inovando as práticas pedagógicas

Por Maria Madalena de Oliveira Gomes [1]

Este é um relato de um trabalho desenvolvido no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) do Curso de Licenciatura em Educação do Campo (LEC) da UFVJM. O trabalho reuniu um conjunto de entrevistas, sendo que este relato em específico relata a percepção de dois alunos de escola do campo sobre o Regime Especial Não Presencial (REANP-MG). A pesquisa desenvolvida com esses dois estudantes nos possibilita ver o cenário de ensino remoto vivenciado no período da pandemia de uma forma mais crítica e reflexiva, como busco mostrar aqui.

As entrevistas foram semiestruturadas, realizadas de forma virtual, com o foco em apresentar a problemática vivenciada pela comunidade da Escola Estadual Mestra Virginia Reis (EEMV) a partir, sobretudo, do contexto da pandemia. Assim, apresentarei aqui os resultados das entrevistas realizadas com dois estudantes da referida escola, sendo um aluno e uma aluna.  O perfil socioeconômico dos entrevistados se assemelha muito, pois são moradores do próprio distrito, com facilidades e dificuldades de acesso semelhantes.

A influência materna teve um papel crucial no que diz respeito às perspectivas que os estudantes têm para o futuro, pois relatam que as mães os conscientizam permanentemente sobre a importância de se dedicarem aos estudos. Em suas opiniões, o REANP mostrou-se ineficaz em muitos aspectos, pois não ofertou as mesmas condições a todos os estudantes, como por exemplo, o acesso amplo a internet, sobretudo para assistir as videoaulas indicadas. O novo sistema de ensino, embora tenha proposto uma modalidade para dar sequência ao processo de ensino aprendizagem, não considerou a diversidade existente, ficando mais evidente a desigualdade social e econômica no âmbito educacional. Nesse sentido, os entrevistados relataram que tiveram grandes dificuldades.

Se ampliarmos o campo de visão, acabamos observando que não há igualdade de direitos no país, pois nem todos os estudantes têm em casa as mesmas condições de aprendizado. Afirmo isso porque tenho condições de auxiliar nas atividades dos meus próprios filhos, mas há famílias vizinhas em que os pais não são alfabetizados, que os alunos não têm acesso às fontes de pesquisa, e que os professores não conseguem ajudar adequadamente à distância. Assim, além do problema de acessos às tecnologias, outro desafio para os estudantes foi aprender por conta própria ou através do copia e cola.

Por outro lado, um dos benefícios deste sistema foi o fato de conscientizar o corpo escolar de que há diversas ferramentas que podem ser usadas a serviço da educação, ou seja, grande parte dos professores que conduziam suas disciplinas de forma bastante tradicional, precisaram se atualizar, adequando-se às novas tecnologias. Nesse sentido, o celular, que antes não podia ser usado de forma alguma pelos estudantes durante as aulas, foi a ferramenta mais utilizada para comunicação entre escola, estudantes e famílias.

[1] Maria Madalena é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Este relato foi produzido a partir de pesquisa supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

REANP escancara desigualdades e dificuldades

REANP escancara desigualdades e dificuldades

Por Maria Flor de Maio de Jesus Silva [1]

 

Trago aqui um relato de entrevistas realizadas com alunos que frequentam o ensino médio da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, localizada na comunidade de Milho Verde, distrito do município do Serro, Minas Gerais. A instituição é considerada escola do campo pelo perfil dos estudantes que atende. Trata-se de uma escola nucleada rural, ou seja, o seu espaço físico está situado na comunidade de Milho Verde, mas a área de abrangência da comunidade escolar é maior que a área onde a escola está localizada. 

Atualmente, a escola atende a 14 comunidades da zona rural que englobam desde a sede do distrito de Milho Verde, que tem uma pequena infraestrutura urbana, até localidades como a Serra da Bicha, o Amaral e a Jacutinga, lugares onde o acesso, seja às casas, à infraestrutura de comunicação, aos meios de transporte ou à saúde, é muito precário.

Diante da pandemia da Covid19, a Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, como as escolas de o estado, suspendeu as aulas presenciais e passou a buscar formas alternativas de manter o processo de ensino-aprendizagem de forma remota. Nesse período, em consonância com as propostas do governo estadual de Minas Gerais, utilizou principalmente os recursos tecnológicos como aplicativos e plataformas on-line. A estratégia adotada escancara a desigualdade e as dificuldades enfrentadas pelos estudantes e professores, pois alguns problemas comuns à maioria dos alunos têm origens econômicas como: acesso limitado a internet, falta de computadores e de espaço em casa, problemas sociais, sobrecarga de trabalho docente e baixa escolaridade dos familiares.

Foram entrevistados três alunos do ensino médio com o objetivo de obter subsídio para essa análise. Em relação ao contexto socioeconômico dos estudantes, podemos perceber que os estudantes A e B residem na zona rural, onde fazem o uso do transporte escolar para acesso à escola presencial. Já o estudante C mora próximo à escola, ou seja, na sede do distrito. Os estudantes A e B não possuem internet na comunidade e, assim, fazem o uso de dados móveis para estudar quando fazem recarga no telefone pré-pago, quando podem, pois acham caro. O estudante C tem internet em casa e em sua comunidade há duas prestadoras desse serviço.

As famílias dos estudantes A e B recebem auxílio do governo como o Auxílio Emergencial e o Bolsa Família, os pais são trabalhadores rurais e possuem o ensino fundamental. Os pais de C concluíram o ensino médio, seu pai, trabalha numa empresa de abastecimento de água. Sua mãe é dona de casa e recebe Bolsa Família. A qualidade de internet na zona rural é péssima, pois quase não há lugar com sinal de operadoras de celular e, quando há sinal, a transmissão dos dados funciona lentamente. Todos os três estudantes, no momento, não trabalham, ajudam nos afazeres domésticos e estudam.

No que se refere ao perfil dos entrevistados enquanto estudantes e dedicação à escola, o entrevistado A disse que não gosta muito de estudar e que só faz os deveres de casa quando solicitado. O conteúdo com o qual mais se identifica é história. Já o estudante B se dedica todos os dias aos estudos, independentemente de ser época de prova ou não. Ele afirma que sempre foi participativo nas atividades e com o ensino remoto dedicou-se ainda mais aos estudos. Disse também que gosta de “enturmar” com os colegas de sala. A disciplina que mais se identifica é biologia. O estudante C é um estudante muito esforçado, pois declarou que gosta muito de estudar e sempre dedicou aos estudos diariamente.

Em relação às percepções e preferências para seus futuros, todos os três entrevistados não pretendem ficar no campo, afirmam que querem cursar o ensino superior e ter uma profissão na cidade. Já sobre as percepções desses estudantes sobre o Plano de Estudos Tutorados (PET), foram distintas. Afirmaram que no início acreditavam que aprender não seria possível, mas perceberam também que as atividades seriam também uma forma de manter uma conexão com a escola. Com o passar do tempo, a didática dos PETS foi evoluindo, porém afirmaram que não conseguiram aprender todos os conteúdos e que as atividades eram de difícil entendimento, sobretudo por não terem internet de qualidade para assistirem às videoaulas. Os entrevistados disseram que assimilam melhor o conteúdo no ensino presencial do que a distância. Também perceberam que as formas de interações sociais foram prejudicadas com o distanciamento social. Todos possuem esperança de que a pandemia acabe logo.

Podemos observar que são realidades bem diferentes, mas o grande aprendizado deste período está realmente nas diferenças de contexto entre estudantes, professores e escolas. As desigualdades são multidimensionais, o que faz com que sejam mais intensas para alguns estudantes do que para outros, mesmo entre estudantes que frequentam a mesma escola, como mostra o resultado da análise das entrevistas que aqui finalizo, uma vez que são determinadas por suas condições sociais.

[1] Maria Flor de Maio é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Este relato foi produzido a partir de pesquisa supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

A percepção de alunos das comunidades rurais de Serra da Bicha, Amaral e Capivari sobre o REANP

A percepção de alunos das comunidades rurais de Serra da Bicha, Amaral e Capivari sobre o REANP

Por Juliana da Paz Ferreira [1]

Este breve relato é resultado de uma pesquisa realizada com três alunos da Escola Estadual Leopoldo Pereira, situada em Milho Verde, distrito de Serro/MG. A instituição é uma escola nucleada rural, que atualmente atende cerca de quatorze comunidades: Amaral, Ausente de Cima, Ausente de Baixo, Barra da Cega, Baú, Boqueirão, Cabeça de Bernardo, Capivari, Chacrinha, Colônia, Córrego da Areia, Jacutinga, Serra da Bicha e Três Barras. O relato aborda, sobretudo, o Regime Especial de Atividades Não Presenciais (REANP) implementado em todo o estado na pandemia e, ainda, a percepção e as expectativas dos alunos entrevistados moradores das comunidades de Serra da Bicha, Amaral e Capivari.

Uma vez aplicados os questionários aos três estudantes da Escola Estadual Leopoldo Pereira, notei que em relação ao núcleo familiar, dois deles disseram que seus pais são analfabetos e possuem renda muito baixa e que sobrevivem apenas da agricultura familiar e do programa Bolsa Família. Parece que o fato tem um impacto direto no aprendizado, pois nenhum deles tem ferramentas como um computador ou uma internet com boa qualidade para os estudos.

Os alunos moram muito longe da escola e um deles precisa de tomar dois ônibus para chegar até ela, outro fator que dificulta o aprendizado. Os relatos são de que acordam muito cedo e o cansaço da viagem é grande. Além disso, um aluno trabalha meio período para ajudar os pais no sustento de casa. Diante de tantos esforços, podemos notar que são muito dedicados e não medem esforços para superar suas dificuldades.

Para os estudos, na falta do computador e da internet a cabo, utilizam a internet com dados móveis no celular, que não possui boa qualidade, além de livros didáticos para auxiliá-los nas atividades impressas do Plano de Ensino Tutorado (PET) disponibilizadas pelos professores. Essa foi a principal dificuldade relatada pelos três, pois é o principal fator contra suas aprendizagens.

Com relação ao REANP, consideram como única opção, pois perder um ano letivo inteiro seria um prejuízo muito grande no final da formação. Relataram ainda que muitos obstáculos surgiram para o entendimento de conteúdos e resolução de exercícios, mas o corpo docente utilizou metodologias interativas como, por exemplo, grupos de apoio através do aplicativo do WhatsApp e indicação de videoaulas. Apesar das dificuldades, relatam que os professores estavam sempre disponíveis para tirar quaisquer dúvidas que surgissem.

Mesmo com os esforços relatados, os estudantes mostraram-se céticos sobre o aprendizado à distância, pois perceberam que estudar em casa, sem o auxílio presencial do professor e com tanta coisa que tira a atenção, é muito difícil. Concluíram que nas aulas presenciais, sem dúvida, o aprendizado é bem maior.

Neste ano que finalizou, os três alunos entrevistados optaram por não fazer o Enem. Todos sonham em dar continuidade aos estudos e se qualificarem, mas acham que o ensino remoto pode prejudicar muito os alunos do campo no exame do Enem.

Um deles sugeriu que algo que ajudaria bastante seria que os próprios professores gravassem videoaulas com a explicação das disciplinas e ao invés de indicarem videoaulas de professores desconhecidos, como acontece no REANP. O mesmo estudante acredita ainda que ajudaria muito se os PETs também fossem elaborados pelos próprios professores da escola com conteúdos que retratassem suas realidades. Ele relata ainda que os PETs possuem atividades muito resumidas, o que acredita dificultar o aprendizado.

A partir desse relato e das posições dos estudantes, é importante refletir sobre a eficácia das metodologias, bem como os pontos positivos e negativos do REANP; não apenas nas comunidades rurais, mas nas periferias de forma geral, uma vez que o Brasil é um país de grandes diferenças.

[1] Juliana é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Este relato foi produzido a partir de pesquisa supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

O meio rural e o REANP a partir da ótica de Téo e Bob

O meio rural e o REANP a partir da ótica de Téo e Bob

Por Claudemar Alves Ferreira [1]

 

Este é um relato que traz a percepção de dois alunos do ensino médio de uma escola nucleada rural sobre a proposta do Regime Especial de Atividades Não Presenciais (REANP). Refiro-me à Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira que está localizada no distrito de Milho Verde, município do Serro/MG, que atualmente atende a alunos de quatorze comunidades rurais diferentes.

Este relato é feito a partir de entrevistas semiestruturas que abordaram temas sobre contexto social-econômico dos alunos entrevistados, seus perfis enquanto estudante antes e durante a pandemia, as perspectivas para futuro e como vivenciaram o REANP. Para isso, realizei entrevistas com dois alunos do ensino médio, com os quais decidimos que suas identidades não seriam divulgadas. O primeiro aluno entrevistado irei identificá-lo como Bob, e o segundo aluno como Téo.

Bob reside no distrito de Milho Verde e, segundo relatou, para chegar até a escola, antes da pandemia, gastava de 10 a 15 minutos a pé. Possui internet móvel em seu celular, que classifica como relativamente boa, e não tem internet em casa. Na sua casa moram seis pessoas, seu pai é agricultor familiar e sua mãe é do lar. Sua família recebeu o Auxílio Emergencial do governo. O seu pai não teve condições de estudar e sua mãe estudou até a quarta série. Bob só trabalha quando acha bicos.

Téo reside na comunidade do Ausente, comunidade próxima ao distrito de Milho Verde, e o percurso de sua casa até a escola, utilizando o transporte escolar ofertado pela prefeitura, é de quarenta e cinco minutos. Ele usa internet móvel de seu celular, já que não possui internet em casa. Na sua comunidade, de maneira geral, a qualidade de internet não é muito boa. Em sua casa, igualmente na de Bob, residem seis pessoas. Sua mãe é trabalhadora do lar e estudou até a oitava série, já o seu pai é pedreiro e estudou até a quarta série. Téo costuma trabalhar apenas nos finais de semana de servente de pedreiro.

Bob não gosta muito de estudar e depois da aula, antes da pandemia, estudava quando tinha disponibilidade de tempo e disposição, isso para as tarefas diárias, mas não tirava nenhum tempinho para estudar algo mais. Atualmente, no ensino remoto, estuda duas horas e meia por dia para resolver as tarefas do REANP. Quando estavam acontecendo as aulas presenciais, afirma que era participativo, mas não gostava de apresentar trabalhos. Também gostava de estudar em grupo, pois conseguia assimilar melhor os conteúdos estabelecendo uma interação para além do professor-aluno, mas também aluno-aluno.

Téo diz que gosta de estudar, mas antes da pandemia, além de frequentar as aulas, estudava somente para fazer as provas. Com o ensino remoto ele tira duas horas e meia todos os dias para estudar. Téo diz que, no ensino presencial, era um aluno participativo e interagia com os alunos e professores e não tinha medo de tirar suas dúvidas na sala. Afirmou que sempre gostava de apresentar trabalhos, porém gostava de fazer suas atividades de forma individual.

Bob diz que os professores são bons e, antes da pandemia, alguns utilizavam métodos de ensinos que não ajudavam na compreensão dos alunos, já outros utilizavam recursos tecnológicos para facilitar o aprendizado dos alunos. De toda forma, preferia utilizar mais os livros e o caderno do que as novas tecnologias.

Téo relata que seus professores são bons e, no ensino presencial, eram dinâmicos, sempre utilizavam a internet para fazer pesquisa e que indicavam videoaulas para maior compreensão dos conteúdos. Afirma também que usava as redes sociais no auxílio das atividades.

Bob tem vontade de cursar uma faculdade, mas não decidiu em que área. Esse ano fez o Enem e diz que deve ter tirado uma nota razoável. Ele afirma que não pretende permanecer na sua comunidade, pois quer trabalhar naquilo que gosta para realizar seu sonho.

O maior sonho de Téo, depois de se formar no ensino médio, é conseguir um emprego e fazer uma faculdade. Ele ainda não decidiu que carreira irá seguir. Esse ano ele fez o Enem e acha que se saiu bem. Téo também não tem vontade de permanecer na comunidade, diz que tem vontade de conhecer novos lugares e horizontes com finalidade de conseguir um bom trabalho.

Bob relata que os PETs (Planos de Estudos Tutorados) foram muito difíceis, sendo que sua principal dificuldade foi fazer as atividades e compreender conteúdos que não tinha visto antes da pandemia. Segundo Bob, ele não compreendia muito as explicações das videoaulas.

Sobre os PETs e esse novo método de ensino, Téo percebeu que foi um grande desafio para todos, principalmente para os alunos do campo que tiveram algumas dificuldades em relação ao acesso à rede de internet. Ele avalia os PETs como bons, porém teve muita dificuldade para compreender os conteúdos, pois as explicações não eram de fácil entendimento. O entrevistado afirmou que fez as atividades sozinho sem a ajuda dos professores.

As dificuldades que Bob encontrou foram superadas com a leitura de livros pedagógicos enviados pela escola. Mesmo assim, afirma que com o ensino remoto não conseguiu aprender quase nada e que nas aulas presenciais conseguia aprender muito mais. O que ele mais deseja nesse momento é que, neste ano, todas as pessoas possam ser imunizadas contra o coronavírus.

Mediante os relatos que trago dessas duas entrevistas, percebe-se que o ensino remoto foi e está sendo um momento de grande dificuldade para todos, pois os alunos, famílias e comunidade escolar estavam despreparados e desprevenidos. O que desmotivou alunos e professores. Percebe-se ainda que o perfil socioeconômico dos entrevistados é de baixa renda, o que influencia o aprendizado na medida que faltam alguns recursos de infraestrutura, como o acesso à rede de internet, e que as metodologias não ajudam nas dificuldades e na compreensão dos conteúdos.

[1] Claudemar é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Este relato foi produzido a partir de pesquisa supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

Distância e dificuldades: a importância do professor e da contextualização no ensino remoto do campo

Distância e dificuldades: a importância do professor e da contextualização no ensino remoto do campo

Por Ana Roberta Cléo dos Santos Ferreira [1]

Trago aqui um relato sobre a percepção de duas alunas de uma escola nucleada rural sobre o Regime Especial de Atividades Não Presenciais (REANP) em Minas Gerais. Refiro-me à Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, localizada no distrito de Milho Verde, município do Serro/MG. A instituição atende alunos de quatorze comunidades rurais, mas este relato é sobre o contexto social-econômico de duas estudantes apenas, seus perfis enquanto estudantes, perspectivas para futuro e, o mais importante, como vivenciaram o REANP. Para conseguir essas informações, realizei entrevistas através do WhatsApp com as alunas, cujos nomes não serão revelados.

A primeira estudante reside no distrito de Milho Verde e para chegar à escola no regime presencial se deslocava a pé por cerca de 15 minutos. Não tem irmãos. Sua mãe trabalha na área da limpeza em um posto de saúde e seu pai é trabalhador rural. Não se formaram no ensino médio. A aluna tem o seu próprio empreendimento de venda de eletrônicos e nos feriados trabalha no caixa de um mercadinho.

A segunda estudante mora na comunidade de Capivari e, para chegar à escola, levava 40 minutos através de um ônibus escolar. No momento, seu pai se encontra desempregado e sua mãe é servente escolar. Sua família é composta por 5 pessoas, sendo que uma irmã e seu pai receberam o Auxílio Emergencial. Sua mãe formou-se em história e o seu pai estudou até o primeiro ano do ensino médio. A estudante não está empregada no momento.

Nas localidades onde residem, a internet é de fácil acesso e somente em tempos de chuva não funciona com boa qualidade. Assim, usam a internet para estudar e o WhatsApp com o mesmo objetivo. A primeira aluna relata que gosta muito de estudar, que é uma aluna dedicada aos estudos mesmo quando as aulas eram presenciais. Afirma que gostava de interagir com os colegas em sala, perguntava e participava de todas as discussões. A disciplina que mais gosta é Biologia.

Já a segunda aluna confessou que não tinha muito hábito de estudar e que tinha um pouco de dificuldade em matemática. Ela relatou que sua prima, da mesma sala, era mais esperta para compreender as matérias; com isso, estudavam juntas. Diferente da primeira entrevistada, que diz que sempre preferiu estudar sozinha, a segunda sempre gostou de estudar com os colegas.

Ambas afirmaram que alguns professores já utilizavam as ferramentas da internet como recurso didático, sobretudo para realizarem pesquisas no Google e assistirem a vídeos no Youtube, que eram alguns de seus deveres de casa. Para elas, a internet sempre auxiliou nos estudos.

A primeira estudante pretende fazer faculdade de medicina veterinária. Disse que desde criança é apaixonada por animais. Esse ano ela fez o ENEM e, em suas palavras, no primeiro dia se saiu bem, mas no segundo teve maior dificuldade. Já a outra aluna pretende fazer um curso profissionalizante que lhe possa ser útil profissionalmente e, posteriormente, deseja fazer curso superior em enfermagem, mesma profissão de sua irmã.

Ambas têm vontade de permanecer na comunidade onde residem, mas devido aos estudos acham que terão que sair para cursar a faculdade. O maior sonho da primeira é se formar e trabalhar na profissão que gosta. E a segunda deseja ter sua casa própria.

Perguntadas sobre o ensino remoto, o ponto positivo que observaram foi a capacidade de desenvolverem estratégias de pesquisa para resolverem as atividades. Afirmaram que o apoio dos professores pelo chat do WhatsApp foi de suma importância. Apontaram como ponto negativo o fato dos próprios professores das vídeo aulas dos PETs (Plano de Estudo Tutorados), muitas vezes, não explicarem os conteúdos com clareza, sendo que não condiziam, muitas vezes, com as atividades que estavam nos próprios PETs.

A primeira aluna afirma que, a partir do quinto PET, percebeu que não estava progredindo muito somente assistindo as videoaulas e, então, decidiu assistir a outros vídeos no Youtube, onde os professores explicam com mais clareza. Ambas concordam que o ano letivo foi muito difícil, tanto para os estudos, quanto para o psicológico. Concordam ainda que aprendiam mais nas aulas presenciais do que no ensino remoto. Com o novo método, elas sentiram uma grande dificuldade na realização do ENEM.

Ao fim, percebi que o maior problema dessas alunas não foi o acesso à internet, pois classificaram esse serviço na comunidade como bom. Pelos relatos, o que mais impactou de maneira negativa foi a questão de as aulas serem a distância com professores estranhos, sem as explicações dos conteúdos do PETs pelos professores no dia a dia, apesar do WhatsApp ter funcionado bem para algumas dúvidas. Com isso, muitos se sentiram despreparados e desmotivados.

[1] Ana Roberta é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Este relato foi produzido a partir de pesquisa supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

Passo a passo

Passo a passo

Por Solidade da Conceição Figueira [1]

Ao voltar no tempo e relembrar minhas memórias vividas na escola, vejo como uma escada, onde cada conquista era um passo fundamental na trajetória de minha vida, e como cada degrau foi essencial para ser e fazer o que escolhi hoje. Meu primeiro contato com a leitura foi com livros didáticos, pois tenho quatro irmãs mais velhas que já estavam ingressadas na escola e sempre que as via fazendo suas tarefas eu as atormentava para me dar um papel e uma caneta e ali começava minhas “escritas”, também em casa possuía jornaizinhos da igreja onde minha mãe era presidente da reunião de todos os domingos, ela levava alguns já vencidos para nossa casa e com eles acendia o fogo no fogão a lenha e sempre deixava um ou mais para minhas brincadeiras de leitura, canto e escrita. 

Comecei minha trajetória na escola já bem cedo, aos quatro anos de idade fui direto para primeira série. Minha primeira professora foi Edna que até hoje atua na área da educação, sempre que ela me vê relembra e me elogia pelo esforço, esperteza e força de vontade e ainda diz que espera que todas essas qualidades estejam me acompanhando. Meus colegas de sala também me ajudaram muito, era a única da sala que estava naquela serie, lembro-me com carinho de cada um de meus companheiros que mesmo estando em series mais avançadas que eu sempre me ajudaram, eram  primos, amigos que até hoje me acompanham e me dão  incentivo. Essa fase da minha vida foi marcada pelo deslumbre de frequentar pela primeira vez uma sala de aula, pelo anseio de aprender a escrever meu nome e o nome de minha mãe.

Com muita paciência e persistência fui aprender os primeiros traços, enchíamos uma folha inteira com traços e círculos que nos auxiliaram na coordenação motora. Aos poucos e ao passar de séries, comecei a desenvolver então a escrita conhecendo as letras, os números, as figuras, cores, e mais todos os tipos de leitura que nos rodeiam, mas que naquela época era sempre uma novidade diferente. Ao passar dos anos as coisas foram tomando sentido, formas, nomes, valores, cores, me ensinando uma coisa diferente. Veio à quarta depois a quinta serie o Ensino Fundamental II e as responsabilidades e compromissos foram vindos juntos, números misturados com letras, histórias antigas misturado com a realidade de hoje, o ensino de português fora do contexto em que eu cresci. Aos poucos fui me adaptando e entendendo o que a escola queria me passar e me ensinar, todas as lições aceitadas com respeito. Assim passando os anos cheguei ao Ensino Médio e mais responsabilidades e desafios surgiram, por exemplo, a necessidade de continuar a estudar. Como diziam meus professores: a garantia do meu futuro.

Com essa ideia e esse “incentivo” sentia como se finalmente chegasse ao auge de minha responsabilidade, até entrar na Universidade. O curso Licenciatura em Educação do Campo o qual eu hoje estou ingressada me mostrou vários olhares diferentes os quais eu não tinha, sempre entendi que educar é somente passar o que está nos livros, mas hoje percebo que como futura educadora eu posso ir mais além e mostrar aos meus futuros alunos o mundo por trás dos livros, textos e números. Agradeço sempre a Socorro Amaral por ter me apresentado este curso e ter me inscrito nele, pois se não fosse também por ela e por sua insistência jamais teria conhecimento sobre este modelo de curso.  No primeiro momento após conseguir a vaga e entrar na universidade pela primeira vez, me senti como se estivesse na escola, e realmente era até a hora em que percebi o quanto tinha que me dedicar para realização das tarefas e trabalhos. Cada dia um aprendizado sobre matérias, convivência e conduta que me leva a crer que estou no caminho certo de minha escolha.

Em vista dos degraus que até hoje subi e agora no terceiro período do curso. Tenho a dizer que toda essa minha trajetória na vida escolar e fora dela me mostra que quando achamos que estamos no auge do aprendizado sempre podemos aprender mais, que a vida é um constante aprendizado, cada dia uma lição e visão nova sobre o mundo. Espero que ao final de tudo isso eu olhe para trás e sinta uma gratidão tão grande como a que sinto, em ver que cada acerto e cada erro foram de extrema importância para o que vivo hoje, e que eu trilhe sempre o caminho da perseverança com a vontade de aprender e ser sempre mais!

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: auladigital.net.br/ebooks.

Trajetória escolar de uma campesina

Trajetória escolar de uma campesina

 

Por Solange Santos [1]

 

Nasci em uma comunidade rural chamada Boa Vista do Choro, localizada na zona rural de Padre Paraíso, no médio Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Neste ambiente rural, cresci e tive os primeiros ensinamentos que se tornaram base para minha vida e para minha formação como ser humano: fé, família, amor à minha terra e aos estudos.

Sou a oitava filha de uma família com 11 irmãos. Iniciei os estudos aos sete anos e, até a terceira série do Fundamental I, tive aulas diárias, em turmas multisseriadas. Nesta época, eu tinha a companhia minha prima Vilania, da mesma faixa etária que eu. Fazíamos o trajeto de uma hora até a escola a pé. Enfrentamos vaca brava, poeira, chuva e frio e, na maioria das vezes, sem tomar o café da manhã. Na escola, havia apenas sete alunos. A professora era respeitadíssima por nós, mas era um respeito adquirido de forma mais enérgica: ela possuía uma vara que não saía de sua mesa, usada quando necessário, ou seja, quando um aluno agredia outro, desobedecia às regras ou mesmo para chamar nossa atenção para algo.

 O recreio era um momento muito esperado, tínhamos um tempinho para brincar de correr, de pique-salvo, de pedrinhas, dentre outras brincadeiras. Na terceira série, formação máxima ofertada por essa escola, parei de estudar. Em 1998, a escola foi contemplada com uma verba para ampliação do espaço e das atividades. Vi uma oportunidade para dar sequência aos estudos, porém, estudei nesta instituição por apenas mais um ano, até concluir a quarta série do Ensino Fundamental I.

 Para continua a estudar, tive que me transferir para outra escola, que ficava em um povoado chamado Encachoeirado, local em que pude concluir meus estudos.

No período em que cursei o Ensino Fundamental II, algo marcante ocorreu em minha vida. Voltando ao meu passado sombrio, faço um esforço, agora, para relatar parte destes acontecimentos.  Quando eu tinha 13 e 14 anos, já cursando a 7ª série do Ensino Fundamental II, Vilania, minha única companhia para ir à escola, mudou-se para outra comunidade. Passei a fazer o trajeto para a escola sozinha e, por duas vezes, por volta de cinco horas, sofri duas tentativas de estupro.  Por causa disto, quase parei de estudar, pois sempre passaria por aquele local. Nem mesmo o tempo será capaz de apagar estas lembranças dolorosas.

Na juventude, mudei-me para a sede da cidade de Padre Paraíso, onde trabalhei como doméstica, para conseguir terminar meus estudos e, assim, concluir o Ensino Médio, cursado na Escola Estadual. O sonho de continuar os estudos foi novamente adiado, pois me casei e os afazeres de dona de casa, mãe e esposa soterraram, naquele momento, meus sonhos.

A vontade de cursar o ensino superior voltou quando meu amigo, da cidade vizinha, Itinga, percebendo meu desejo de voltar a estudar, apresentou-me a LEC – Licenciatura em Educação do Campo (UFVJM) e me incentivou fazer o vestibular.

Estar em uma Universidade Federal abriu-me um leque de oportunidades, como o acesso à educação de qualidade, à profissão, a convivências individuais e coletivas enriquecedoras.  Hoje, vejo o Vale do Jequitinhonha como lugar de riquezas diversas, dentre as quais destaco a cultura local e os eventos, principalmente, os literários.

 Atualmente, sou voluntária no telecentro na cidade de Caraí, onde resido há mais de 12 anos. Pretendo dar continuidade aos meus estudos, fazer mestrado ou, no mínimo, uma especialização, tratando de um tema que me é caro: a falta de formação adequada dos professores que atuam em sala de aula. Tentarei compreender como é possível transformar a educação, como é possível propiciar aos professores uma educação contextualizada, porque há falta de espaço físico e de materiais na educação brasileira, ou seja, a ideia é justamente entender por que alguns educadores, principalmente no meio rural, não têm acesso a conceitos relevantes sobre a educação em geral. 

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: auladigital.net.br/ebooks.

Memórias de minha trajetória escolar

Memórias de minha trajetória escolar

Por Natania Ferreira da Silva [1]

Entre cinco e seis anos, tive a presença e o primeiro incentivo de minha mãe na minha vida escolar, já que ela teve acesso à escola e tinha o segundo grau completo. Ela me ajudou com os primeiros rabiscos até a entrada na escola. Sua presença foi muito importante em minha vida.

Ingressei na escola com sete anos, já conhecendo algumas palavras. No início do Ensino Fundamental I, estudei em uma escolinha pequena que havia na minha comunidade. O Ensino Médio foi cursado em outra escola, na cidade Ouro Verde de Minas, período em que tive as dificuldades com o transporte, pois, com a falta de ônibus, perdia aulas e ficava um pouco prejudicada nas disciplinas.

Nas outras séries do Ensino Fundamental I, encontrei apoio da professora Vilma, que me ajudou muito. Como disse, em casa, tinha incentivo desde que era criança: minha mãe, Ivani, me ensinou as primeiras letras, e com sete anos, eu conhecia algumas palavras. Por exemplo, já conhecia o alfabeto e as vogais, já tinha contato com os números, mas só comecei a praticar a leitura na escola.

Desde o Ensino Fundamental, tínhamos os livros didáticos para estudar em casa, entretanto, era muito difícil ter acesso a livros literários. A partir do Ensino Fundamental II, tive acesso à biblioteca da escola, que disponibilizava os livros aos alunos. Entretanto, não tínhamos muito interesse pela leitura e muito menos incentivo dos professores para fazê-la, por isso, não li esses livros. Em muitos casos, os alunos pegavam os livros, levavam para casa e não os devolviam. Por isso, muitas vezes, faltavam livros na biblioteca.

Lembro-me que os professores nos mandavam à biblioteca só para assistirmos algum filme e, assim, elaborar um resumo ou atividade sobre ele. Na maioria das vezes, quando algum professor faltava, colocavam-nos para assistir filmes, sem objetivos pedagógicos claros. Isto era ruim, pois perdíamos muitos conteúdos, sobretudo no início do Ensino Médio. 

Depois do Ensino Fundamental II, minha mãe quis que eu estudasse no período matutino, das 7h às 11h 25 min. Recordo-me de ter aulas aos sábados, porque algum professor havia faltado ou feito greve, requerendo aumento de salário. Sempre me saí bem em todas as disciplinas, mas, ao chegar ao final do terceiro ano do Ensino Médio, tive dificuldades com a disciplina de inglês. De fato, acho que não me adaptei a ela.

No final do Ensino Médio, eu não pensava em continuar os estudos, só pensava em conseguir um emprego, mas na minha cidade não há muitas opções de trabalho. Este é um dos motivos que me levou a ingressar na faculdade. Minha mãe, novamente, incentivou-me a ingressar na universidade, pois ela já havia feito o curso de Licenciatura em Educação do Campo, em Viçosa, Minas Gerais. Foi ela quem me deu todo apoio quando prestei o vestibular para a faculdade, em Diamantina.

Em 2018, ingressei na Licenciatura em Educação do Campo (LEC-UFVJM), e, hoje, estou no terceiro período do curso, com outra visão sobre Educação, outro olhar para os estudos. Apesar de ter tido pouco acesso à leitura, agora tenho penso diferente, pois percebo que a leitura é bem gratificante. Percebo que do início de meus estudos até hoje, as coisas mudaram, tenho mais afinidade com a leitura. Tenho necessidade de aprender, de construir algo novo. Entendo que vale a pena continuar, prosseguir rumo ao final deste processo de aprendizagem, mesmo sabendo que não é fácil. Pensar que seria uma educadora do campo é sempre muito gratificante.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: auladigital.net.br/ebooks.

Minha trajetória de letramento

Minha trajetória de letramento

Por Joice Rocha Da Cruz [1]

Quando comecei a estudar, morava na cidade de Cristália, Minas Gerais. Com sete anos, mudei-me para a comunidade quilombola do Paiol, onde moro ainda hoje. Na minha casa só havia CD de histórias, pois minha mãe não gostava de comprar livros. Quando nos mudamos para a roça, só tínhamos livros de matéria escolar, por isso, eu não lia: achava tudo muito chato. Comecei a estudar com quatro anos em uma creche que permanece no mesmo lugar, pois meus pais, naquela época, moravam na cidade. No primeiro ano na creche, não líamos livros. As atividades desenvolvidas eram de desenho e a maioria das crianças só dormia.

Minha professora, Dora, gostava de contar história infantil e cantar músicas com cinco anos, aprendi a escrever meu nome e o alfabeto, mas, quando comecei a estudar na primeira série, tive muitas dificuldades em função de não ter livros para ler. Minha professora escrevia mais no quadro e dava desenhos para colorir. Ela gostava muito de mim e meu desempenho estava crescendo. Ao chegar ao fim do ano, meu desenvolvimento diminuiu, pois eu estava mais adiantada que os colegas ingressantes daquele ano. 

Quando eu estava na segunda série, montaram uma biblioteca na escola e começaram a “tomar” a leitura dos alunos e ditados de palavras. Essas práticas me trouxeram dificuldades, portanto comecei a decorar os textos e, assim, não conseguia desenvolver a leitura autônoma. Acabei sofrendo muito, porque meus colegas me chamavam de “besta” dentro da escola. Eu conseguia responder às questões que a professora passava e sempre fui uma das primeiras a terminar as atividades. Já na terceira série, a professora começou a nos levar à biblioteca, porém não podíamos mexer nos livros novos, só nos antigos. Continuaram a “tomar” a leitura, e descobriram que, em vez de aprender, eu estava decorando. A professora pediu à minha mãe que eu repetisse a série, e minha mãe concordou. Eu não concordei com a ideia e falei que eu iria parar de estudar, pois ia ser a maior vergonha da minha vida.

Ao conversar com uma antiga professora, ela falou sobre o meu desenvolvimento em sala de aula e minha mãe revolveu não concordar com a ideia de me reprovar: assim, passei de ano. Vencendo esse obstáculo, fui me dedicando cada dia mais à leitura. Quando cheguei à quarta série, tive uma ótima professora que me ensinou a ler. Quando eu tinha que ler um texto, ela me escolhia para me ajudar a superar o medo e as dificuldades. Eu gostava de ler histórias infantis, como a “Chapeuzinho vermelho”. No sexto ano, eu tinha aula de literatura junto com português, estudava as fábulas, e o professor nos colocava para interpretar tais textos.  Apesar de ter biblioteca na escola, os que moravam na roça não podiam levar livros para casa, pois eles tinham medo de que eles fossem danificados.  Quando os professores resolviam passar atividades de leitura, como resumo, eu pegava parte do livro.

Durante o Ensino Fundamental II, percebi que os professores passavam no quadro só questões sobre gêneros textuais, verbos ou cópias dos livros. Já no Ensino Médio, tive muitas atividades de produção de texto que visavam uma preparação para o Enem. Minha escrita e meu modo de pensar melhoraram, pois percebi que até mesmo em matemática era necessário saber interpretar textos. Nas aulas de português, aprendi a interpretar imagens e a fazer textos sobre elas.

Contei sempre com a ajuda da minha família, que não teve a mesma oportunidade que eu, em função das dificuldades pelas quais passaram. Minha mãe começou a trabalhar em “casa de família” com 12 anos e não pode terminar nem mesmo a quarta série. Meu pai andava mais de cinco quilômetros por dia para chegar à escola, mas aprendeu a ler e a escrever: foi ele que me ensinou a escrever meu nome. Portanto, ao longo da minha trajetória escolar, o processo de letramento foi falho, sobretudo pela falta de incentivo à leitura de textos diversificados. Hoje, na Licenciatura em Educação no Campo, na disciplina Estudos de Letramento, percebo a importância do incentivo à leitura e às reflexões sobre os textos lidos.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: auladigital.net.br/ebooks.

Construindo o meu ‘‘eu’’ e entendendo o mundo

Construindo o meu ‘‘eu’’ e entendendo o mundo

Por Isaura dos Santos Lopes [1]

Tenho dezenove anos, nasci e vivo ainda hoje na Comunidade Quilombola do Suaçuí, zona rural do município de Coluna, Minas Gerais. Sou filha de Seu João Cardoso e de Dona Lozinha: ele é conhecido por suas histórias e causos, e ela pela sua determinação, pela quantidade de filhos que teve e pelo modo de trazê-los ao mundo. Eu, assim como meus irmãos, nasci em casa mesmo, em função das habilidades de minha mãe, que era parteira. Sou a última dos oito filhos a nascer na propriedade de meu pai, que ficava no extremo da comunidade. Após meu nascimento, minha família se mudou para a propriedade de minha mãe, mais ao centro da comunidade e próxima de onde hoje estão a igreja e a escola.

Lembro-me, com certa ternura, que antes de iniciar o pré-escolar já sabia juntar as letras e a formar palavras. Isso se deve à ajuda de minhas duas irmãs mais velhas, que sempre me ajudavam. Também já conhecia alguns números, as cores e amava desenhar.  Desde pequena, com cerca de três anos, já brincava de escolinha com minhas irmãs e amigos, mas apenas quando eles tinham tempo, pois a lida da roça era dura. Era um momento mágico para mim, pois, naquele momento, estava realizando, mesmo que no universo do ‘‘faz de conta’’, o adorado sonho de ir à escola. Esses momentos não tiraram de mim o desejo de frequentar regularmente a escola.

Meus pais, ambos lavradores e semianalfabetos, mesmo cientes que eu já sabia ler e escrever, não dispensaram a necessidade de que eu e meus sete irmãos fôssemos à escola. Minha mãe sabia apenas escrever seu nome, mas sempre foi curiosa e nos pedia para que lêssemos para ela os bilhetes que a escola mandava, a bíblia e até nossos ‘‘para casas’’. Ela sempre nos incentivou a estudar e não apenas na escola. Seu maior desejo era se alfabetizar, tanto que, mesmo depois dos cinquenta anos de idade, ela se matriculou no programa Educação de Jovens e Adultos (EJA), e sempre destacava a importância de saber ler e escrever. Sua postura sempre me fomentou minha vontade de frequentar a escola.

Na minha infância foi marcada pela leitura e por um gosto especial pelas narrativas, o qual sofreu influência das narrativas das vivências, viagens e experiências em outros estados brasileiros e até fora do país de meu pai. O que eu mais gostava, dos poucos momentos que desfrutávamos juntos, eram suas narrativas sobre o “Sr. Coelho e a Dona Onça”. Eram histórias que eu ouvia sempre na hora de dormir, pois não tínhamos, em casa, acesso a mídias, como a televisão, por exemplo. Quando não nos deliciávamos com as histórias que meu amado pai trazia, ouvíamos os seus discos, alguns com histórias também, como o “Buc Sarampo”, o mais ouvido por nós.  Achava tão legal ouvir histórias, que as passei a contá-las para meus sobrinhos e outras crianças com quem tive contato quando mais velha.

Meu pai, pelo exercício da construção civil, além de bom contador de histórias, era excelente matemático, era rápido nos cálculos mentais e, além de resolvê-los, exemplificava-os de maneira simples. Talvez por isso, eu me identificasse também com os cálculos, que eram, e continuam sendo, uma de minhas grades paixões, juntamente com a leitura de poesia e de contos. Por isto, sempre me dedicava às provas da OMBEP, com gosto e desejo de passar para a próxima fase. De fato, passei algumas vezes. O contato com livros do acervo da biblioteca da escola Estadual Padre João Clarimundo, em que cursei o Fundamental II e o Ensino Médio, era, na maioria das vezes, com textos infantis, alguns para coleta de dados e para o treinamento de referências bibliográficas.  Mas o contato com o acervo da biblioteca municipal em que minha madrinha de batismo trabalhava, e com quem eu passava bastante tempo, sobretudo para fazer as reuniões de trabalhos em grupo, mas também nos dias de visitá-la, propiciou-me o acesso a diversos autores e temas.  Isto me levou a ler cada vez mais e melhor. Também me inspirei nesses textos para criar poemas e contos, nos quais registrei/ representei fatos marcantes de minha existência. Desses, gostei mais do que fiz, juntamente com uma de minhas irmãs, para uma brincadeira de confraternização. O conto recebeu o nome ‘‘O pereroi do brejo’’: contava a história de um de meus irmãos, quando ele e minha mãe chegaram de Belo Horizonte, aonde iam regularmente por causa de um problema crônico de saúde dele. A situação virou, naquele momento, uma brincadeira e foi contada como história de ninar para os filhos de minha irmã.

Tive a oportunidade de acompanhar duas edições do programa Cidadão Nota 10, que visava alfabetizar jovens e adultos, em aulas noturnas ministradas por voluntários. O projeto contemplou minha comunidade quando, possibilitando que meus pais frequentassem as aulas. Eu sempre ia junto com eles, e pude ter contato com um ensino diferente do que eu recebia na minha escola. Minha irmã foi uma das voluntárias, e eu a ajudava a corrigir exercícios e a orientar os alunos.  

No último ano do Ensino Médio, conheci a Licenciatura em Educação do Campo (LEC) da UFVJM, e, pensando no que aprendi na infância e adolescência, curiosa e ansiosa por questionar e descobrir as respostas do mundo, lancei-me nessa experiência, que até o momento tem sido enriquecedora. Na LEC, comecei a ler textos científicos e a ter contato com um vocabulário mais vasto e difícil que, entretanto, não me impedem, de ler meus amados poemas, contos e romances. Sempre trago para o Tempo Universidade livros de meu conterrâneo, Carlos Herculano Lopes, escritor com quem tive o prazer de me encontrar quando criança em um evento de incentivo à leitura em minha comunidade, e, em outra vez, na escola estadual em que estudei, em um evento de recital de poesias.

Por tudo isto, sou hoje uma pessoa que ama leitura, mas que não se isola nela, pelo contrário, busco sempre algo mais, busco dar sentido à vida e entender o mundo, aprendendo coisas novas, mas sem perder minhas origens.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: auladigital.net.br/ebooks.

Os desafios do aprender

Os desafios do aprender

Por Irene dos Santos Lopes [1]

Apresento aqui um pouco da minha história de vida. Eu nasci e cresci na comunidade quilombola de Suaçuí, zona rural da cidade de Coluna, no vale do Rio Doce, leste de Minas Gerais. A minha família trabalhava com plantação de milho, feijão, mandioca etc. Desde os três anos de idade já tinha uma enxadinha para as tarefas da roça. Não tive contato com leitura e escrita em casa. Aprendi minhas primeiras letras na escola, e foi bastante difícil, pois demorava a entender as letras. Lia e escrevia apenas na escola, pois em casa não tinha tempo: meus pais precisavam da minha ajuda. Eram muito rígidos, e eu tinha que fazer tarefas de casa e da roça, mas tinha incentivo deles na escola também.

Não escrevia letras, mas fazia alguns rabiscos. A escola foi uma das motivadoras na minha iniciação escolar. A comunicação era mais difícil, mas ouvia alguns poemas infantis, recitados por meus irmãos mais velhos.

Entrei na escola aos sete anos, mas não tinha horário fixo para as aulas. As professoras vinham da cidade que ficava a uns vinte quilômetros da comunidade. Não havia energia elétrica, nem transportes e, algumas vezes, não tinha merenda. Na escola não existia biblioteca, e os livros didáticos eram poucos e não podiam ser levados para casa. A escola criou o cantinho de leitura, com livros compartilhados de outra escola do município. Na sala de aula tínhamos que compartilhar os livros com os demais colegas. O livro que eu mais gostei foi o que contava a história da “Menina bonita do laço de fita”. Quando mudei da escola municipal para a estadual, fora do município, encontrei uma biblioteca, mas eu não lia muito, porque chegava da escola e tinha muitos afazeres domésticos e alguns deveres escolares para fazer à noite, à luz de lamparina. Gostava de livros de poesia, entretanto não pegava livros com medo de sujá-los ou sumi-los. Apenas fazia algumas leituras quando a professora mandava.

Conclui o Ensino Médio e continuei na comunidade, ajudando meus pais a cuidar dos irmãozinhos menores e com a lida da roça. Dez anos depois, através da ajuda do meu irmão, que já tem mais contato e facilidade com o mundo tecnológico, soube do curso de Licenciatura em Educação do Campo. Ele nos inscreveu no vestibular. Eu consegui passar na segunda tentativa, e aqui estou no terceiro período. Enfrento muitas dificuldades, tanto para acessar as ferramentas, como computador, plataformas digitais que necessitamos, quanto para dar conta das leituras dos textos científicos. A partir do contato com os textos e das explicações dos docentes do curso, estou aprendendo a ter outras perspectivas: a leitura crítica faz diferença, principalmente, para entender o meio onde vivo, as notícias, as leis e tudo que faz diferença em nossas vidas, principalmente, o debate político e histórico em que se inserem nossas histórias culturais e lutas.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: auladigital.net.br/ebooks.

Parte de uma história

Parte de uma história

Por Ingred Pereira da Silva [1]

Sempre fui muito dedicada aos estudos, gosto muito de ler, de ouvir histórias e sempre tive facilidade em aprender e falar em público. Estudar/aprender, para mim, era, e é, com certeza, algo muito prazeroso. Acredito que as minhas relações com a leitura dentro e fora da escola contribuíram muito para que esse prazer fosse constante em minha vida.

Na infância, era muito curiosa, aquele tipo de criança que perguntava o porquê de tudo. Lembro-me de minha mãe lendo a bíblia e celebrando os cultos na Igreja da minha comunidade com os folhetos litúrgicos, de minhas primas com os livros didáticos que usavam na escola: estes eram os contatos mais diretos que tinha com textos escritos antes de iniciar meus estudos.

As lembranças que guardo de toda minha vida são, na maioria, a partir de quando entrei na escola. Comecei a estudar com quatro anos na educação infantil (Pré-Escolar), momento em que aprendi a escrever meu nome e a ler. Isto era algo que eu queria muito. Depois que aprendi a ler, lia tudo que encontrava pela frente: placas, rótulos, entre outros, orgulhosa porque havia aprendido a ler. Quando estava no primário, participei de uma encenação teatral, representando a Chapeuzinho Vermelho. Acredito esta representação motivou meu gosto pela leitura, por histórias e por falar em público. Nesta época, tive uma professora de quem gostava muito, Tia Nardete, que me incentivou muito e por quem tenho, até hoje, um carinho grande. Ainda na infância, iniciei a catequese na igreja onde fazia atividades em grupo, a qual colaborou para desenvolvimento em mim de uma nova forma de entender o trabalho coletivo. Entendo que a escola teve papel fundamental para meu processo de letramento.

Foi no Ensino Fundamental I que tive maior acesso aos livros, às mídias e a produções textuais. Comecei a produzir textos, ler livros e recontá-los, e até mesmo a fazer resumos de filmes assistidos em sala de aula. Recordo-me de um momento de leitura que tive durante as aulas: o professor tinha um grande livro de contos e, a cada dia, lia um texto diferente Era o momento que eu mais esperava e sempre pedia ao professor para que me emprestasse o livro para levar para casa. O que eu escrevia antes dessa fase na escola se relacionava às questões de alfabetização, escrever palavras, formar frases etc. Como disse, no Ensino Fundamental I, exercitei minha escrita e leitura textual, que foram melhorando com o passar dos anos. Já no Ensino Fundamental II, aumentei meu repertório de leitura e pude ler livros de difícil acesso, como os de Shakespeare, Machado de Assis, Drummond entre outros. Tais livros estavam disponíveis na biblioteca da escola. Além disso, realizei várias atividades, como por exemplo, uma peça de teatro baseada em um livro. Os recontos e resumos passaram a estar mais presentes nos projetos de leitura. Durante essa etapa, tive ótimos professores que sempre me motivaram e acreditaram em minha capacidade, em especial o professor de história, Pedro, conhecido como Juninho. Suas aulas eram boas e construtivas, e me possibilitavam entender os fatos históricos e contemporâneos de forma mais analítica, permitindo-me contribuir com minhas considerações e pontos de vista. Meu senso crítico melhorou.

Durante o Ensino Médio, aumentei meu contato com os livros e tive mais acesso às mídias, como, por exemplo, o datashow. Realizava várias apresentações usando esses instrumentos mais modernos. Uma vez, meu grupo e eu fizemos um teatro através de vídeo, contando a história de Fernando Sabino, uma experiência muito rica.

Atualmente, estou cursando a Licenciatura em Educação do Campo (LEC), habilitação em Linguagens e Códigos, na Universidade Federal dos Vales Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Essa nova etapa é cheia de novas descobertas e experiências, como o aumento de minhas atividades de escrita e de leitura, de questionamentos sobre o mundo, minha vida acadêmica e meus pontos de vista. Por um lado, há pontos positivos: progresso na leitura, na escrita, na organização, na criticidade entre outros. Por outro, há pontos negativos: deixar de ler alguns textos/livros que costumava, para ler os que estão relacionados às temáticas estudadas, e que os professores solicitam. Apesar de todas essas coisas acredito que a caminhada vale a pena.

Enfim, todas estas fases que passei fizeram de mim o que sou hoje. Agradeço a Deus por me permitir viver para experimentar tudo isso, à minha família, em especial à minha mãe, Claudiana Silva, que sempre esteve do meu lado, aos colegas que andaram e andam juntos comigo por esses caminhos, e aos professores que acreditaram e acreditam em mim e na educação.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: auladigital.net.br/ebooks.

Meu processo de letramento

Meu processo de letramento

Ilza Fernandes de Oliveira [1]

Lembro-me que nós brincávamos de escolinha, substituindo o giz pelo carvão. Juntávamos grupinhos onde um de nós era o professor. Trocávamos de função para que todos pudessem ser o professor.   Brincávamos de escrever e desenhar, pois para nós essa era uma ótima aula. Cada um tinha uma enorme vontade de ir para escola. Tive meu primeiro lápis e caderno quando fui para a escola, com cinco anos. O primeiro livro também me foi dado nessa época. Eram experiências muito emocionantes, parecia até que eu tinha ido para um outro mundo.

Infelizmente não tivemos acesso a nenhum tipo de texto escrito até determinada idade, mas conhecemos muitos textos orais por causa dos contos que nossos pais contavam. Só tive acesso a livros quando meus irmãos traziam da escola. Esse foi o meu acesso a livro escrito. Fiquei muito curiosa, principalmente por causa das imagens que via. Era um mundo maravilhoso, fantasioso. Eu adorava revistas que tinham muitas gravuras. O acesso ao computador só ocorreu no final do ensino fundamental. Computador e internet, para mim, eram coisas de outro mundo, porque tudo que eu queria ver estava lá. Isso ocorreu quando eu já tinha 17 anos. Foi assim que eu conheci este mundo virtual. Hoje, crianças de um ano ou menos possuem acesso à internet.

Na escola, nos primeiros anos, as professoras nos davam revistas em quadrinhos. As figuras despertavam em nós o interesse pela leitura e escrita. Havia biblioteca nas escolas em que fiz o ensino fundamental e médio. Na universidade também há biblioteca. Somos incentivados a ler livros para que possamos desenvolver a leitura e a escrita. Isso foi muito importante, pois hoje meu interesse pela leitura aumentou, porque não eu tinha esse interesse em aprimorar esse processo de aprendizagem. Essas são as grandes mudanças que ocorreram na minha vida. 

Para mim, a minha formação, no ensino médio e na faculdade, é muito importante, porque incentivam tanto a família e os amigos a tentarem obter uma formação. Infelizmente, meus pais não tiveram oportunidade de estudar, então, já que eu estou tendo essa oportunidade, quero aproveitar e dar orgulho a eles.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: auladigital.net.br/ebooks.

Conto de uma vida

Conto de uma vida

Por Fernanda Lemes Costa [1]

Nasci no dia dez de setembro de 1981, em Diamantina, e cresci em Senador Modestino Gonçalves, Minas Gerais, onde vivo até os dias atuais. Iniciei a Educação Infantil aos sete anos, na Escola Estadual Darcília Godoy. Recordo-me com muita saudade de minha primeira professora, tão querida Tia Lada. Hoje posso dizer que ela deixou marcas positivas e permanentes em mim, com sua infinita paciência, seu carisma e sua sabedoria, fazendo, assim, uma ponte entre professor e aluno sempre com muito respeito e amor. 

Ao voltar ao passado, lembro-me como foi meu primeiro contato com a leitura e a escrita. Minha alfabetização foi marcada por muita ansiedade e descobertas, pois passei a conhecer um mundo cheio de letras, números e cores.

Minha alfabetização se deu através das cantigas de roda, contos literários, histórias contadas a partir de desenhos feitos em cartolinas (o que me permitia construir histórias usando minha imaginação), e através das datas comemorativas de cada mês. A minha época preferida do ano era o mês de outubro, que tinha a semana da criança com várias brincadeiras educativas. Esta era uma iniciativa dos professores, que nos levavam para um lindo gramado verde e fazíamos grandes descobertas, pois as brincadeiras possibilitavam conhecer melhor os colegas, a escola e os professores.

Em minha casa não havia acesso a livros, rádio ou televisão. Dos jornais, só me recordo de ver o da igreja, com as passagens da bíblia. Lembro-me que, depois da missa, as pessoas deixavam esses jornais nos bancos, e eu pegava alguns deles e levava comigo para casa, porque gostava de recortar as letras e formar palavras novas com elas. Com o passar do tempo, já cursando a Educação Básica, a Escola Estadual Darcília Godoy se encontrava em melhores condições estruturais, tanto físicas quanto na qualidade do ensino, o que me proporcionou melhores condições de aprendizagem. Na biblioteca se encontrava uma pequena diversidade de livros, o que permitia ao professor cobrar mais práticas de leitura.

Mesmo a escola me motivando a ler, a visitar a biblioteca em outros horários, e a estar mais próxima dos livros, sempre tive dificuldade em frequentar a escola em horários especiais ou me dedicar mais à leitura e à escrita, pois precisava ajudar meus pais com o plantio de roça, na arrumação da casa, a cuidar dos irmãos mais novos, e em outras atividades. Meus pais tinham uma leitura de mundo diferente da minha, achavam que saber ler e escrever já me bastaria.

Somente no Ensino Médio fui perceber a importância da leitura e da escrita e o quanto eu havia perdido, não somente para a minha formação, mas para que eu tivesse uma visão mais ampla do mundo. Formei-me no Ensino Médio no ano de 2000, e não tive oportunidade de continuar os estudos imediatamente, pois, naquela época, somente quem tinha ‘‘melhores condições de vida’’ davam continuidade aos estudos. Apesar de muito tempo ter se passado, no segundo semestre de 2018, comecei uma nova jornada em minha vida, tive a chance de ingressar no curso Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da UFVJM.

Na LEC, quando adentro na sala de aula, sinto a mesma ansiedade vivida na Educação Infantil, com sentimentos duvidosos e incertos e, ao mesmo tempo, uma enorme alegria em saber que nunca é tarde para o recomeço. Embora todos tenham o direito a uma Educação de qualidade, o que eu vivi, e o que a maioria dos alunos que estudam em escolas públicas ainda vivem, foi uma educação engavetada, centrada somente em livros pedagógicos, que não estimulavam a reflexão dos alunos, nem a busca de soluções criativas para seus problemas, para que leiam bons livros literários e discutam questões sociais.

Portanto, tenho o objetivo de me formar como uma educadora do campo que esteja mais atenta à realidade dos alunos, buscando a construção de uma Educação Contextualizada, que valorize as diferentes formas de saberes e de aprendizados.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: auladigital.net.br/ebooks.

Relembrar é escrever

Relembrar é escrever

Por Fernanda Antonina Rodrigues da Silva [1]

Atualmente, moro em Veredinha, mas, até cinco anos, residi com minha família na cidade de Diamantina, Minas Gerais. Em certa fase de nossas vidas, decidimos nos mudar para Veredinha, também em Minas Gerais, cidade onde ainda hoje moramos. Acredito que, de uma forma ou de outra, a leitura e a escrita sempre fizeram parte de minha história. Não me recordo de muita coisa sobre minhas primeiras experiências com a escrita e a leitura antes de frequentar a escola, mas, ainda assim, lembro-me que minha família recebia muitas cartas, único meio que tínhamos, naquela época, para nos comunicar com os amigos e familiares que viviam em Diamantina.

Minha mãe lia todas aquelas cartas e cartões de datas comemorativas para mim, e eu achava o máximo quando ela me deixava fazer um desenho para enviar junto com as cartas que ela enviaria aos parentes. Geralmente, esses desenhos que eu fazia iam para minhas primas que moravam longe. Mesmo que por meio de desenhos, esses foram os meus primeiros contatos com a leitura. Antes de frequentar a escola, os tipos de leituras que circulavam em minha casa, além dessas cartas, eram os livros didáticos da minha irmã mais velha e a bíblia da minha mãe. Um aspecto que considero significativo quanto ao meu processo de letramento era a leitura de revista de músicas do meu pai, pois ele sempre tocou violão.

Logo quando entrei na escola municipal da minha cidade, por volta de cinco ou seis anos, identifiquei-me imediatamente com os desenhos, porque eu amava colorir. Quando fui avançando pelas séries e cheguei à fase em que já dominava a escrita e a leitura, comecei a perceber um forte interesse pela leitura. Falando em leitura, tenho lembranças de quando ganhei o meu primeiro livro, com aproximadamente sete ou oito anos de idade: o conto de fadas ‘A Bela Adormecida’, que me foi doado por minha professora. Na escola, naquela época, sempre quando algum aluno fazia aniversário, a professora o presenteava com um livrinho de histórias infantis. Lembro-me que ficávamos ansiosos para descobrir qual livro iríamos ganhar e, quando chegava o dia, era só festa. Apesar de não ter biblioteca nessa primeira escola, eu sempre recorria à biblioteca municipal da minha cidade, e durante todo meu processo de aprendizagem nessa escola, durante os Anos Iniciais, busquei ler bastante.

Quando cheguei ao Ensino Fundamental II e, posteriormente, ao Ensino Médio, tudo começou a mudar: escola nova, novos professores e rotinas de aulas diferentes. Tantas modificações diminuíram meu interesse pela leitura. Eu já não tinha aquele mesmo interesse, passei a ler menos frequentemente os livros que gostava, substituindo-os pelos livros didáticos das disciplinas. Talvez isto tenha ocorrido em função da forma lúdica como os professores dos anos iniciais trabalhavam a leitura, despertando mais interesse. O que sei é que o Ensino Fundamental II tirou parte da minha vontade de ler textos que me davam prazer. Nos últimos anos do Ensino Médio, um projeto realizado pela escola me tocou e despertou em mim novamente o interesse pela leitura. Com esse projeto, a escola recebeu um acervo enorme de livros novos e muito bons. Para mim, ele foi de suma importância, pois tive a oportunidade de voltar a ler com a mesma intensidade de antes. A escola, antes disso, não tinha uma biblioteca provida de livros que chamassem minha atenção, o que aumentou meu desinteresse pelos textos até aquele momento. Como eu estava mais velha, a biblioteca municipal já não atendia minhas necessidades de leitura.

Nos dias atuais, estou fazendo graduação e percebi que o desinteresse pela leitura aumentou novamente. Agora, as leituras acadêmicas me tiraram um pouco do prazer de ler os livros que costumava ler. Minhas leituras românticas são agora substituídas por textos científicos. Mas isso não é ruim, não em parte, pois estou fazendo leituras que me levarão a alcançar uma coisa que eu desejo muito, que é me formar e poder ser uma boa profissional. Queria saber organizar o tempo para voltar a ler como lia na infância, com o olhar e a inocência de criança. Dito isso, não posso negar que fui e sou feita de leitura, seja de livros, desenhos, músicas, enfim!  Minha vida deu várias voltas em relação à leitura: ora leio demais, ora leio de menos, ora estou como agora. Todavia, o importante é registrar aqui que a leitura sempre me acompanhou de uma forma ou de outra, e vai continuar me acompanhando.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: auladigital.net.br/ebooks.

Um degrau da minha vida

Um degrau da minha vida

Por Eliude de Sousa Ferreira [1]

Nasci na cidade de Itamarandiba, no estado de Minas Gerais, e vivi minha infância na comunidade de Sapucaia, no município de Aricanduva-MG (Aricanduva é um município vizinho de Itamarandiba), onde ainda moro.

Meu primeiro contato com a escrita foi em minha casa. Antes de frequentar a escola, minha mãe me ensinou a escrever meu nome completo, os números de zero a dez, o alfabeto e o nome das cores. Ainda não sabia a distinção entre vogal e consoante. Desde pequena ouvia histórias quando ia para casa da minha avó: ao anoitecer, ela assentava no fogão e começava a contar histórias. Aquele era um momento muito, considerando que naquela época não tínhamos televisão.

O primeiro livro que eu tive acesso foi a bíblia, pois era o único que havia em minha casa. Quando meus irmãos mais velhos começaram a estudar, tive a oportunidade de ver os livros que eles levavam para casa, mesma época em que minha mãe também havia levado alguns livros para casa.

Com seis anos, aprendi a escrever meu nome, e com sete anos entrei na escola, como já sabia pegar no lápis não tive muitas dificuldades no início. Não dá para esquecer a régua de madeira que a professora do primeiro ano usava. Ela utilizava aquela régua todos os dias para apontar as sílabas das palavras que estavam escritas no quadro. A dificuldade que eu tinha, na verdade, era a distância de cerca de cinco quilômetros que precisávamos caminhar para ir e para voltar da escola. Foi um período muito difícil, pois a aula começava às 12 horas, estudávamos até 16 horas. Lembro-me que já saíamos da escola com fome e ainda tínhamos que andar cinco quilômetros para chegar em casa e jantar. No caminho de volta para casa, encontrávamos algumas frutas, como amora, na beira da estrada, o que provocava até brigas entre nós, e vez ou outra comíamos até limão no caminho. Foi muito difícil.

Meus pais sempre me incentivaram a estudar, diziam que quem estuda tem uma vida melhor. Na escola em que estudei o ensino Fundamental I não possuía biblioteca, havia apenas um armário de livros, usados em sala de aula. Além de atividades, os professores exigiam que os alunos fizessem leituras, às vezes coletivas, às vezes individuais, para saber como estava o desenvolvimento de cada aluno. Não tínhamos professor de Educação Física, costumava-se estender o horário do recreio para desenvolver jogos e brincadeiras com os alunos.

Após concluir o quinto ano na escola da comunidade que era vizinha da minha, fui estudar na Escola Estadual Teodomiro Caldeira Leão, em Aricanduva, Minas Gerais, e muita coisa mudou. Lá havia biblioteca, a professora de português incentivava a gente a ler e eu gostava de ler romances.  Às vezes, lia livros de poesia também. Nessa escola, conclui o Ensino Médio.

Em 2018, consegui ingressar na Universidade, cursando Linguagens e Códigos na Licenciatura em Educação do Campo. A faculdade mudou meu hábito de leitura, pois antes eu lia textos mais simples. Alguns eu ainda leio, porém, outros foram substituídos por textos científicos. Esses textos científicos que leio normalmente são textos indicados pelos professores, e os considero muito importantes para minha formação como futura educadora.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: auladigital.net.br/ebooks.

Um novo olhar

Um novo olhar

Por Elisete Martins da Silva [1]

Lembro-me que desde muito nova queria ir para a escola, sonhava em aprender a ler e a escrever. Ao ver minha irmã e prima indo para a escola todos os dias, pedia à minha mãe para que eu pudesse começar a estudar também, porém, como não tinha a idade certa, ela não deixava.

 Um dia, minha prima comentou com a professora que eu estava querendo estudar, mas devido à idade, ainda não podia. Então, a professora disse que eu poderia ir de vez em quando para a escola até que chegasse a época certa para que eu começasse a estudar. Nossa! Fiquei muito feliz com aquela notícia.

No outro dia, acordei logo cedo empolgada para ir à escola, pois era um sonho que estava sendo realizado. Morava na zona rural, e a escola era lá mesmo, entretanto não muito próxima da minha casa. Desta forma, íamos a pé ou de bicicleta.

Comecei a ler e a escrever desde muito nova, com aproximadamente seis anos, porém meus primeiros contatos com os livros foram na escola. Lá, os professores liam para nós na sala de aula, mas também podíamos levar livros para casa. Isto aguçou meu interesse pela leitura. Os livros que eu mais gostava de ler eram os livros da “Chapeuzinho vermelho”, “Os três porquinhos”, “Poesias das borboletas” o livro de “Piadas”. Na escola também havia biblioteca e armários com livros aos quais tínhamos acesso.

Como antigamente poucas pessoas tinham acesso à escola, meus pais estudaram somente até o 4º ano: sabiam apenas escrever os nomes, e liam pouca coisa através da junção das sílabas.

Apesar desta dificuldade na alfabetização, meus pais eram, de certa forma, “letrados”, pois nas práticas demonstravam um conhecimento limitado. Ou seja, meus pais conseguiam ler o mundo naturalmente, através do cotidiano e dos conhecimentos passados pelos antepassados, mas sem que tivessem um conhecimento escolar específico.

No Ensino Fundamental II, do sexto ao nono ano, achei tudo muito bom, porque fazíamos muitas apresentações teatrais como uma forma de retratar o que havíamos aprendido em sala de aula, embora tivéssemos estudado pouco sobre literatura. Líamos os textos, fazíamos resumos, respondíamos questões e sempre ficávamos apenas nisso. Não tínhamos, em minha opinião, um letramento crítico que visasse questionar o texto, a história, uma reflexão.

No Ensino Médio, tive muitas experiências exitosas: na matéria de artes, fizemos muitas aulas práticas, como, por exemplo, para a reutilização de materiais recicláveis e objetos que não tinham mais utilidade, transformando-os em peças decorativas. Havia também uma feira cultural no mês de agosto na qual os referidos objetos eram expostos juntamente com outros artefatos de antiguidade, que faziam parte da cultura regional, além de receitas culinárias, mudas de plantas e remédios caseiros, que eram partilhados com os visitantes. Estudamos literatura, mas superficialmente, incluída na disciplina de português.

Por fim, a universidade está sendo muito importante para o meu crescimento intelectual, pois estou descobrindo a literatura, compreendendo-a melhor e vendo o verdadeiro sentido dela e de como olhar criticamente a realidade.

Sabendo que a leitura nos impulsiona e nos faz refletir sobre a vida e o mundo, posso destacar a importância destas experiências enquanto discente da Licenciatura em Educação do Campo. Posso afirmar que, a partir do curso, estou sendo motivada a ler cada vez mais, e isso é apenas o começo para esse novo mundo onde a literatura está presente. Dessa forma, pensando em um ensino de qualidade, é imprescindível levá-la a cada pessoa, e principalmente aos nossos futuros alunos, mostrando o verdadeiro sentido da literatura, não a deixando ser limitada.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: auladigital.net.br/ebooks.

Lembranças

Lembranças

Por Elisama de Sousa Ferreira [1]

Nasci em uma família de pessoas semianalfabetas, meu pai estudou apenas alguns dias devido à falta de recursos financeiros enfrentados na casa de meus avós. Já minha mãe concluiu a antiga terceira série do ensino primário. Quando eu tinha dois anos, minha mãe resolveu voltar a estudar, por meio de um programa social que na época se chamava Bolsa Escola. Aos três anos de idade, eu já tinha contato com a leitura por meio de bíblia, cadernos que minha mãe usava na escola e um livro didático que ela possuía. Apesar de minha mãe ter estudado pouco, considero-a minha primeira professora, tendo em vista que ela me ensinou os primeiros passos com os números de um a dez, a escrever o meu nome, algumas letras do alfabeto e as cores.

Com cinco anos, comecei a estudar na Escola Municipal Alberto Fernandes, percorrendo o trajeto de dez quilômetros de transporte de segunda a sexta-feira. Na escola, a turma era multisseriada, mas alguns desafios eu já havia vencido, como saber segurar o lápis e a escrever o meu nome, o que facilitou o trabalho da professora. As atividades desenvolvidas no Ensino Fundamental, desde a frase introdutória como era chamada na época, eram aprender o alfabeto, formar sílabas, números, utilizar o caderno de caligrafia para aprender escrever no tamanho padrão. Do Ensino Fundamental I para o II muitas foram as diferenças encontradas, pois as matérias eram estudadas separadamente com cada professor e com o tempo determinado de 50 minutos para cada aula, o que exigia mais atenção, levando em conta que somente as disciplinas de português e de matemática tinham aulas quase todos os dias, além de acrescentar uma matéria nova de inglês.

Desde o início da minha alfabetização, sempre fui incentivada pelos meus pais, não sei se é este o motivo de sempre gostar de estudar. Sempre gostava de ler histórias em quadrinhos, coleção de livros infantis da escola, o que mais tarde foi substituído por histórias em quadrinhos e livros que a leitura era exigida pela professora no Fundamental II. Na biblioteca da escola onde cursei o Fundamental II e Ensino Médio, os livros eram acessíveis, tendo, então, várias opções de leitura. A professora avaliava as leituras, por meio de resumo do livro além de ter que contar a história na sala de aula. Enquanto a história estava sendo contada, os alunos e a professora podiam fazer perguntas relacionadas ao livro. Esta atividade acontecia uma vez a cada bimestre e era considerada importante, visto que seria uma forma do aluno praticar a leitura, pois não havia aula especificadamente para literatura. A escola promovia concurso de redação, mas a participação não era obrigatória.

Ao chegar à Universidade, notei a mudança na minha rotina de leitura, pois muitos textos que anteriormente eu lia tiveram que ser deixados de lado em detrimento da leitura dos textos científicos sugeridos pelos professores. Esses textos são de difícil compreensão, trazem palavras novas que requerem mais dedicação para serem interpretadas, mas, a meu ver, são de grande relevância para o meu aprendizado, trazendo diferentes maneiras de ver o mundo. Fazer as leituras sugeridas pelos professores no Tempo Comunidade é mais fácil, pois no Tempo Universidade a correria do dia a dia é maior e sempre se acumulam trabalhos de matérias diferentes que precisam ser realizados, e, com isso, o tempo precisa ser dividido segundo a necessidade de leitura para cada disciplina.

Minha expectativa, enquanto futura educadora do campo, é proporcionar aos alunos uma maneira de estudar os conteúdos curriculares contextualizados com a realidade que eles vivem.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: auladigital.net.br/ebooks.

Memorial minha vida no contexto escolar

Memorial minha vida no contexto escolar

Por Debora Jades Vieira Rios Aguilar

Meu primeiro contato com a alfabetização iniciou-se com a escrita do meu nome. Com minha mãe, pratiquei a leitura de historinhas dos livros didáticos dos meus irmãos, que já estudavam, e ia me ensinando a ler. Minha mãe me contava histórias da época de sua própria infância, além de me ensinar músicas infantis. Meu interesse pela leitura se deu a partir do incentivo de minha mãe e de meu contato com os livros didáticos de meus irmãos. Meus pais tinham como tarefa diária me ensinar a escrever. Aos sete anos, fui matriculada na escolinha de minha comunidade, onde comecei a ter contato com massinhas de modelar e desenhos, mas, com o passar do ano, ainda não conseguia ler. E, mais uma vez, o meus pais intervieram, colocando a tarefa de me ensinar a ler para meus irmãos. Comecei a soletrar, conhecer as palavras e a desenvolver a leitura.

Os livros escolares dos anos iniciais continham pequenos parágrafos coloridos na parte superior do livro, e meu aprendizado se tornou efetivo a partir destes textos. Na escola, quando foi chegada a fase que teríamos que saber ler, eu já havia antecipado este aprendizado em função do apoio da família, porque já possuía o hábito da leitura. Nesta fase de aprendizagem, na escola do ensino Fundamental I, eu tinha muito contato com desenhos, músicas, pequenos textos e pinturas. Dedicávamos a maior parte do tempo a desenhar e escrever o nome e os números, pois possuíamos apenas uma professora para duas salas, que ministrava matemática e português.

No Ensino Fundamental II, percebi que as atividades com desenhos diminuíram e passamos a aprender com textos maiores e palavras novas. A professora sempre nos passava textos com palavras desconhecidas para que conhecêssemos melhor o significado das palavras que estávamos lendo. Já trabalhávamos mais com atividades de leitura e produção de textos. Outra atividade diária era fazer resumos de nossas leituras, que no ensino médio se intensificou. Os textos complexos se tornam mais frequentes. A biblioteca da escola era aberta a todos, e lá poderíamos realizar trabalhos escolares com consulta aos livros, mas havia algumas restrições: só podíamos levar para casa apenas dois livros e com prazo de empréstimo de uma semana ou no máximo duas. Já peguei livros para ler, pois leitura em casa me dava prazer. A bibliotecária da escola dividia os livros pelas séries de cada aluno. No Ensino Médio, tive maiores experiências com livros, pois os trabalhos escolares eram desempenhados a partir deles. Acredito que a leitura contribuiu para o meu aprendizado, pois algumas palavras já não me eram tão estranhas ou diferentes e a compreensão dos textos agora é maior. Também fui melhorando a escrita, tendo em vista que errava muito a ortografia. Adquiri facilidade em produção de resumos e rapidez na leitura. Hoje já não tenho mais este hábito de pegar livros emprestados, talvez pelas indicações de leituras teóricas feitas pelos professores da universidade. Não tive mais contato com os livros ou com a biblioteca apenas pelo livre prazer da leitura.

Entrei na Universidade no ano de 2018, ano marcado por muitas descobertas, porque não tinha muito conhecimento de textos científicos e a produção de textos acadêmicos. Elaborar o primeiro relatório foi um desafio para mim, pois não tinha o costume de escrever trabalhos daquela natureza. As atividades em sala de aula, com apresentação de trabalhos, seminários e debates, incluem discussões dos textos científicos, tarefas que ainda hoje considero difíceis. Hoje, estou no terceiro período e enxergar este momento com outros olhos, olhos mais maduros. A Universidade me proporcionou crescimento em relação ao processo de letramento, ao diálogo com questões que nos cercam, à compreensão das questões que envolvem nossas relações sociais e ao processo de escrita. As maneiras que estas relações nos moldam, mudam as formas que compreendemos o mundo. Vejo que a leitura esteve muito presente em minha vida escolar, mas pude entender o conceito de literatura somente na Universidade, ir além do conteúdo, buscando contextualizar as reflexões com nossa visão de mundo. Pude ver que meu percurso escolar, mesmo que por vezes tivesse falhas, contribuiu para que eu esteja onde estou, e que o letramento que adquiri foi fruto de todo este processo escolar, no qual pude ter outra visão da literatura e dos letramentos. Não devemos nos impor limites por causa da ignorância ou arrogância, por vezes imposta de modo oculto pelas próprias escolas. Penso que devemos ser abertos ao mundo e às inúmeras possibilidades de questionamentos, de leituras, e que não há algo programado que nos impõem e deveríamos executar.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: auladigital.net.br/ebooks.

Minhas memórias

Minhas memórias

Por Claudiana Aparecida de Paula [1]

Desde a infância, sempre morei em área rural, no povoado nomeado como Canavial, no município da cidade de Santo Antônio do Itambé, Minas Gerais. Antes de seis anos, eu já frequentava a escola, não formalmente, mas como acompanhante de minha irmã mais velha, Graciele Ferreira, que não gostava de ir para a escola. No período em Graciele estudava, eu ficava dentro da sala folheando alguns livros infantis, observando as imagens que tinham neles. Um dos primeiros livros que tive contato, e lembro bem, foi “João e o pé de feijão” e a “Menina bonita dos laços de fitas”.

Enquanto minha irmã estava sendo alfabetizada, comecei querer aprender também, entretanto, eu não podia participar da aula como os outros alunos. A professora, então, doou-me alguns materiais, como gibis, canetinhas, giz de cera, dominó com números ou com letras do alfabeto para que eu desenvolvesse algumas atividades, não avaliativas. Meu interesse foi aumentando cada vez mais. 

Em casa, pedia ajuda aos meus irmãos mais velhos com o alfabeto. A partir daí, aguardava ansiosamente a oportunidade de ingressar regularmente na escola. Com sete anos, aconteceu o que eu mais queria: enfim fui matriculada na escola. Devido à trajetória anterior, tive mais facilidade na alfabetização do que meus demais colegas.

Desde o início do meu primário até a quarta série, estudei com apenas uma professora a cada série. Recordo-me constantemente das minhas queridas professoras, que à época chamávamos de “tia’’. Tia Rosângela, tia Vanir, tia Rosilene e tia Marilene. Sempre as considerei de suma importância em minha vida, pois era na escola que eu mantinha um contato diário com professores, colegas e as serventes, que também foram significativas em minha vida. Cresci ouvindo meus pais dizerem que “a educação vem do berço”, ou seja, que o respeito e os bons costumes devem ser aprendidos em casa. Recebi apoio para estudar de meus pais, Inedina Vitorina e José Anselmo, que sempre me incentivavam para que eu continuasse a seguir em frente. Rosângela foi a professora que me alfabetizou, e, juntamente com as outras professoras, fui desenvolvendo outras práticas de letramento, processo lento e complexo de compreender o mundo.

Com o passar dos anos, fui transferida para a Escola Estadual Alcebíades Nunes, na cidade de Santo Antônio do Itambé, onde estudei as séries finais do Ensino Fundamental II e o Ensino Médio. Durante esse período, tive uma visão diferenciada do mundo, porque eram ambientes novos. Fui conhecendo novas pessoas professores e colegas e, com isso, fui fazendo novas amizades e aprendendo diversos conhecimentos. Ao finalizar o Ensino Médio, tive interesse em fazer alguns cursos profissionalizantes, por isso fiz o curso de Magistério, no ano de 2016, uma forma que encontrei de continuar centrada nos estudos. Então, no ano de 2018, ingressei no curso de Licenciatura em Educação do Campo, na UFVJM, estruturado com a Pedagogia da Alternância. Essa é uma forma de ensino contextualizado, disposto de maneiras alternativas: no Tempo Universidade e Tempo Comunidade. Assim, os estudantes conciliam os conhecimentos acadêmicos com a realidade das suas comunidades, de seus territórios. E esse curso nos possibilita o trabalho com os conhecimentos científicos juntamente com os conhecimentos populares.

Em minha percepção, a cada etapa de nossas vidas, temos uma nova maneira de ver o mundo. O tempo e o espaço fazem com que vivenciemos novas experiências e diferentes conceitos. E todo aquele conhecimento que aprendemos no primário se torna um alicerce para as nossas vidas futuras. Esse conhecimento vem sendo aprimorado a cada vez que conseguimos fazer uma leitura crítica do mundo.

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Varanda da minha infância

Varanda da minha infância

Por Carla Batista Dias [1]

Durante minha infância, antes de entrar na escola, tive acesso à leitura e à escrita através de livros de história infantil, revista em quadrinhos e panfletos de supermercado. Lembro-me de meu pai lendo apostilas sobre temas relacionados à saúde, pois ele era agente comunitário, escrevendo atas da associação, de minhas tias escrevendo receitas de bolos. O primeiro livro que tive foi da “Branca de neve”, um presente da minha tia. Eu estava iniciando os estudos e precisava ter este contato com os livros. 

Meus pais sempre me incentivaram a ler, mostrando-me as letras do alfabeto, desde que eu tinha quatro ou cinco anos. Quando entrei na escola já sabia escrever meu nome e associar algumas palavras a objetos, como, por exemplo, bola, dado, gato, rato entre outras. Foi um momento de alegria, pois este era o sonho da maioria das crianças: aprender a ler e a escrever.

Nos primeiros anos na escola, a prática de escrita foi bem tranquila, porque não tive tanta dificuldade em relação a associar as letras às palavras. Minha professora me incentivava muito a ler, e a aprender a escrever as palavras corretamente. Os textos escritos, em sua maioria, eram sobre a nossa própria história de vida ou sobre algumas histórias que nossos pais contavam. Recordo-me que, no Ensino Fundamental I, fazia leitura de historinhas e depois a recontava, produzindo histórias em formato de desenhos. No Fundamental II, fazia leitura de livros pedagógicos, literários e de contos, produzindo redação dissertativo-argumentativa, cartas, bilhetes, entre outras. Já no Ensino Médio, lia revistas científicas, textos literários e livros pedagógicos. Também assistia filmes, fazia debates a respeito das leituras, preparava peças teatrais com temas dos livros literários. Na minha escola havia uma biblioteca, e os alunos tinham livre acesso a ela, pois estava sempre aberta para o uso. Éramos incentivados a ler com o projeto “Leitor nota 10”. Tínhamos que ler muitos livros e depois recontá-los para a classe. Aqueles que conseguissem recontar os textos teriam a nota de melhor leitor da classe.

As mudanças nas minhas relações com a leitura foram muito grandes, desde o Ensino Fundamental até o Médio, já que tive contato com vários tipos de livros e isso me possibilitou ler mais e, ao mesmo tempo, escrever. No momento que passei a ler e compreender os textos, pude ter outros conhecimentos e a desenvolver a prática de escrita. O livro que mais marcou minha vida e que, de certa forma, ajudou-me bastante com minha escrita foi o livro “Projeto Semeando Torrãozinho”, que abordava temas sobre a água e a terra. Tínhamos que lê-lo e fazer uma redação, buscando soluções para o problema apresentado na narrativa. Não considero que a escola tenha me ajudado a ler melhor e relacionar os textos com minhas práticas sociais, porque muitas vezes focamos atenção somente no autor e não a contrastamos com as nossas.

Atualmente, com 23 anos de idade, resido na comunidade quilombola Pega, no município de Virgem Da Lapa. Em 2018, ingressei na UFVJM, em Diamantina, no curso em Licenciatura em Educação do Campo. Penso que o curso dialoga com minha comunidade, porque relaciona o conhecimento científico ao conhecimento popular do meu grupo social. Em relação à leitura, tive uma grande transformação: troquei os livros que lia por prazer e pelas leituras que me ajudam a compreender os conteúdos propostos pelas unidades curriculares. Há um ponto positivo em toda essa mudança: ela me propicia novos conhecimentos sobre o campo científico, o acesso a novos livros de autores diferentes e a ter contato com linguagens diferentes. É uma experiência enriquecedora, pois abre novas possibilidades de leitura.  Não é possível aprender somente com o conteúdo passado nas unidades curriculares. Vou além, busco novos livros e outras ideias para compreender um determinado assunto. Isto é muito bom, pois comecei a me dedicar mais às leituras, não só a elas, mas também a debates que têm me ajudado bastante a argumentar.

Ainda tenho dificuldade em compreender alguns textos, por ter um tempo corrido e vários textos diferentes para ler. Os que mais me identifico são os relacionados ao sujeito do campo, pois trabalham minha realidade como campesina, motivo pelo qual faço esse curso.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: auladigital.net.br/ebooks.

Letramento visual

Letramento visual

Por Alexandre dos Santos Baldaia [1]

Tenho vinte anos, nasci, cresci e resido atualmente na comunidade Quilombola do Paiol. Na minha infância tive poucas oportunidades de ler um livro ou mesmo de ter um, pois naquela época era tudo muito difícil. Minha família sempre morou no campo, assim não tive muitos contatos com a leitura. Apenas quando meus irmãos mais velhos começaram a estudar na escola do município, trazendo alguns livros didáticos para casa é que tive os primeiros contatos com os livros.

Como eles já sabiam ler, passaram a me ajudar a decorar o alfabeto e a escrever as primeiras palavras. Foi assim que aprendi a escrever meu nome, e sempre tive interesse em ler. Nesses livros didáticos também havia algumas histórias em quadrinhos, como “A turma da Mônica”, por exemplo, que eu tentava entender, porque ainda não sabia ler.  Na minha infância, então, aprendi primeiro a ler as imagens: sempre que olhava qualquer tipo de figura, tentava descobrir uma posição crítica no texto, pensando sempre no que poderiam representar.e

Aos seis anos de idade ingressei na escola e com sete anos comecei a ler e a escrever. Foi muito difícil me adaptar àquele lugar e a usar o lápis. Cheguei a pensar, em certo momento, que não conseguiria aperfeiçoar a prática de leitura. No entanto, os professores sempre exigiam que eu e meus colegas lêssemos e escrevêssemos. Sempre nos passavam o alfabeto e, logo em seguida, tentávamos escrever nosso nome, o nome da cidade e da comunidade em que morávamos. Começar a ler foi a melhor experiência que tive, porque a cada dia eu procurava aperfeiçoar minha prática de leitura e, assim, fui aprimorando meus conhecimentos. Meus primeiros livros foram dados por minha mãe quando entrei na escola. Todos os anos, passava um homem vendendo alguns kits de livros perto de minha casa. Como minha mãe é religiosa, optou por comprar livros religiosos. Recordo-me que, do início ao final do Ensino Fundamental I, os professores sempre exigiam dos alunos que lessem livros durante a aula. Lembro-me que um desses livros era “O rato roeu a roupa do rei de Roma”.

Sobre o papel da escola no desenvolvimento da leitura, penso que tanto professores quanto diretores incentivam a leitura nos primeiros cinco anos iniciais do Ensino Fundamental I, mas depois passam a não dar valor à leitura, como se os alunos não necessitassem mais ler. Acredito nisto porque não os vi passando livros para leitura e discussão em sala de aula após o período mencionado. Na escola havia uma biblioteca, mas não podíamos pegar livros para ler. Também não podíamos levar livros para a casa, pois, segundo a escola, não tínhamos responsabilidade e poderíamos sujá-los.

Quando terminei o Ensino Médio, fiquei um período sem ter acesso a livros, pois trabalhava no campo e quase não tinha tempo para ler. Ao entrar na Universidade, comecei a ler alguns textos acadêmicos, assim voltei a ter o hábito de ler. No entanto, alguns desses textos são cansativos e difíceis de entender, mas sei que são necessários, pois a partir desses livros começamos a ter uma visão de mundo que será útil em minha vida profissional e social. As dificuldades que tive em ter um livro ou até mesmo para ler me fizeram perceber que a leitura não se realiza apenas oralmente; e que o letramento não é um processo de decorar o alfabeto ou ler. Entendi que o que está por trás disso tudo. Entendo que para me tornar um educador do campo é preciso buscar conhecer a realidade dos alunos e contextualizar o ensino.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: https://auladigital.net.br/ebooks.

A vacinação no Brasil do século XIX ao XXI

A vacinação no Brasil do século XIX ao XXI

Por Ângela Gomes Freire

No Brasil do século XIX, início do período republicano, houve o processo da industrialização, momento do crescimento desordenado da população urbana, contando com uma grande migração das áreas rurais. As aglomerações urbanas decorrentes desse processo resultavam muitas vezes em péssimas situações de moradia para seus habitantes, que não raro eram acometidos por surtos de doenças, como varíola, cólera e malária, entre outras [1].

Em paralelo, um forte movimento higienista no Rio de Janeiro propagava ideias de modernização e urbanização. Esse projeto acabava contando com a demolição arbitrária de casas e cortiços do centro da cidade, expulsando as pessoas dessa região. Na ocasião, o discurso propagado era o de que tais medidas serviam para limpar a cidade, eliminar os ratos, baratas e insetos, causadores de doenças. No entanto, essa agenda política era uma maneira de alargar as vias, criar novos modelos de construção, nos moldes do gosto europeu [2]. Como consequência, a população pobre passou a se abrigar cada vez mais em morros nas margens da cidade, mudando seus hábitos e convívios sociais.

Foi neste cenário que, em 1904, sob as influências do pensamento científico e positivista europeu, surgiu o projeto de vacinação obrigatória contra a varíola de toda a população, coordenado por Osvaldo Cruz [3]. A campanha continha critérios rigorosos. Todo cidadão brasileiro teria de comprovar que tinha sido vacinado, caso contrário, poderia ser dispensado de seu contrato de trabalho, seria impedido de realizar matrículas em escolas, incapaz de emitir certidões de casamento, autorização para viagens etc. Tudo isso serviu de catalisador para um episódio conhecido como Revolta da Vacina [4].

Parte da população, já insatisfeita com a opressão sofrida, não reagiu bem à ideia de tomar uma vacina contra sua vontade. Associando a situações as quais haviam sido submetidos anteriormente, muitos suspeitavam que o governo queria exterminar as pessoas através da vacinação. Assim, diante de diversos fatores, o povo foi às ruas da capital da república a fim de protestar contra a vacina.

Curiosamente, depois de tanto tempo, vive-se no Brasil do século XXI uma nova situação delicada relacionada a questões sanitárias e de vacinação.

Enquanto vários países já estão sendo imunizados pela vacinação contra o coronavírus, o Brasil, no âmbito governamental, demorou a discutir e chegar a um consenso quanto à procedência desta ou daquela vacina, a elaborar e apresentar o plano de operacionalização da vacina contra a Covid-19. Essa situação tem por pano de fundo certo negacionismo, por parte do governo federal, em relação à pandemia causada pela COVID-19.

Assim, ao contrário do século XIX, enquanto boa parte da sociedade civil tem se posicionado para garantir a situação sanitária no Brasil, o presidente da República com seus apoiadores se mantêm contra a vacinação, incitando a população a se revoltar contra a vacina e tratando a questão como uma decisão pessoal ou individual. Ocorre que essa postura, vinda de um líder de governo, responsável por definir políticas públicas de saúde, não pode ser lida como problema pessoal, mas sim como questão nacional em defesa da vida. Afinal, este posicionamento interfere diretamente na vida da população. Há uma ação de se contrariar os saberes científicos e dificultar negociações com as empresas produtoras das possíveis vacinas, por exemplo, que prejudicam a eficácia da vacinação. Vale lembrar que o país já ultrapassou 234.850 vítimas fatais e a doença já contaminou mais 9.659.167 de pessoas, números que estão diretamente relacionados ao modo como o país tem conduzido esta situação.

Finalmente no dia 17 de janeiro, após a aprovação do uso emergencial pela ANVISA, a primeira pessoa no Brasil foi vacinada, uma enfermeira do sistema público de saúde de São Paulo, Mônica Calazans. Ela recebeu o imunizante Coronavac, desenvolvido no país, no Instituto Butantan. Apesar de ser uma boa notícia, o processo de vacinação ainda será bastante lendo e continua sendo prejudicado pelos posicionamentos do governo federal.

REFERÊNCIAS:

[1] https://portal.fiocruz.br/noticia/revolta-da-vacina-2

[2] https://www.youtube.com/watch?v=gioM2uI24fE

[3] https://brasilescola.uol.com.br/biologia/a-historia-vacina.htmFolder CAS cobertura vacinal

[4] https://www.brasildefato.com.br/2020/11/10/revolta-da-vacina-116-anos-diferencas-e-semelhancas-com-a-onda-negacionista-atual

Relembrando o começo do meu futuro

Relembrando o começo do meu futuro

Alcione Aparecida Ferreira [1]

Sou filha de Afonso Fernandes e Ivanildes Venância e irmã de Wilson Elias, quatro anos mais velho que eu. Somos campesinos e moradores da comunidade Botafogo pertencente ao município de Santo Antônio do Itambé-MG. Quando criança, adorava brincar de professora. No meu quarto, escondida dos meus pais, fazia riscos atrás da porta com pedaços de barro, pois ainda não sabia escrever, e alegremente pensava estar lecionando. Muitas vezes, na varanda, improvisava uma sala de empresa, em que eu sonhava ser secretária e, com os materiais escolares do meu irmão, riscava o papel como se fizesse anotações importantes. Meu pai sempre percebeu que eu tinha grande interesse pela escola, então, aos cinco anos de idade, deu-me um caderninho, um lápis de escrever e uma borracha. Sempre que tinha um tempinho, sentava comigo para me ensinar a escrever meu nome. Lembro-me da época em que minha casa ainda não tinha luz, e sentávamo-nos no banco da cozinha com a lamparina acesa. Meu pai lia a bíblia, e rezávamos o Terço e o Ofício de Nossa Senhora com um livrinho que eu sempre folheava.

Aos seis anos, entrei na Escola Municipal de Botafogo, como havia grande demanda de alunos e as salas de aula eram poucas, criaram turmas multisseriadas. No meu primeiro ano na escola, a professora ensinava apenas a escrever o nome, alguns números e as vogais. Nisto, eu levava vantagem, pois já sabia escrever meu nome completo. Lembro-me bem de minhas professoras, Vanir, Rosângela, Rosilene e Marielene, mas, principalmente, da primeira professora, a tia Vanir, como era conhecida. Ela sempre gostou de músicas, então colocava canções para cantarmos e dançarmos na sala de aula. As músicas de que mais gostava eram: A pulga e o percevejo, A barata, A canoa virou e Cantigas de roda.

A partir da segunda série, fazíamos pequenas redações praticamente todos os dias. Eu adorava ler as minhas para a turma e ilustrá-las, porque ganhávamos prêmios com a atividade. Os temas eram voltados à nossa imaginação e todos os alunos viajavam no universo imaginário. Eu sempre iniciava meus textos com um ‘‘era uma vez’’ para marcar o caráter fictício das histórias. Havia, também, o projeto “Semeando” cujo objetivo era valorizar a terra através de narrativas dos livrinhos dos personagens Torrãozinho e Sementinha. Ainda na segunda série, quebrei a clavícula ao correr para a catequese, ficando o braço direito engessado e preso, mas que não me impedia de fazer as atividades escritas. Minha atitude alcançou o apreço da professora que me escolheu como aluna modelo da turma. A escola tinha um quartinho com livros didáticos e de historinhas infantis dentro de um armário trancado com cadeado. Tínhamos acesso apenas aos textos didáticos. Toda semana, o supervisor fazia visitas para avaliar as leituras e os cadernos dos alunos. Adorava ler para o supervisor, Humberto Magno, pois fazíamos muitas fichas com nome da escola, da professora e do aluno. As atividades e avaliações eram mimeografadas.

Estudei o Ensino Fundamental II e o Ensino Médio na Escola Estadual Alcebíades Nunes, localizada na cidade. Lá havia uma biblioteca à disposição de todos, mas eu quase não pegava livros literários, somente os didáticos. Só fazia empréstimo dos textos literários quando o professor solicitava um resumo do livro que, em geral, eu nem lia. Só copiava e entregava. A escola promovia viagens para os alunos que mais faziam empréstimo de livros literários. Geralmente, os alunos pegavam os livros e não liam, porque não era solicitado um resumo da obra. Aos dezoito anos de idade concluí o Ensino Médio, e aos vinte anos cursei o magistério, Curso Normal em Nível Médio nessa mesma instituição. Nessa escola, tive muitas experiências, como trabalhar histórias infantis com crianças, com atividades de reconto.

Em 2018, prestei o vestibular para a Licenciatura em Educação do Campo da UFVJM e fui aprovada. A partir de então, descobri a importância da leitura, mesmo com dificuldades com textos acadêmicos. Entendo que essas leituras me ajudarão a ter um maior embasamento teórico para a realização dos trabalhos acadêmicos e, claro, para a vida. Assim sendo, avalio como positiva a mudança pela qual estou passando, pois é o que fortalecerá meu crescimento como estudante, pessoa e futura educadora do campo.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: https://auladigital.net.br/ebooks.

Comunidade do Paiol lança livro

Comunidade do Paiol lança livro

“Escrever é algo muito poderoso e também uma das formas mais poéticas de se expressar. Escolher sobre o que escrever pode ser um desafio, mas se a intenção é registrar algo como uma história, vale a pena pensar no motivo de querer eternizá-la. Movidos pelo desejo de registrar a história do Paiol e possibilitar o conhecimento das próximas gerações sobre seus antepassados, escrevemos o livro “Paiol: conhecendo uma comunidade quilombola”. Na obra, além da história, são apresentadas algumas práticas culturais da comunidade, atividades do cotidiano dos moradores e possibilidades de um ensino contextualizado e pautado na cultura quilombola. Esperamos que em cada página lida vocês conheçam um pouco mais da história, modo de vida e cotidiano desses remanescentes quilombolas que com muita luta e resistência têm mantido suas tradições e tentado eternizar seu legado.”

“Almejamos que este rico acervo também possa ser utilizado em escolas da comunidade e por futuras gerações que desejem conhecer um pouco mais seu território e os moradores que o constituíram.

Boa leitura a tod@s!”

 

Essas são palavras da Anne Karine Pereira Quaresma, quilombola e uma das organizadoras do livro Paiol: conhecendo uma comunidade quilombola. O livro digital pode ser baixado gratuitamente no nosso site: https://auladigital.net.br/ebooks

Impactos da Lei Aldir Blanc nas Comunidades Quilombolas do Vale do Jequitinhonha

Impactos da Lei Aldir Blanc nas Comunidades Quilombolas do Vale do Jequitinhonha

Por Ângela Gomes Freire

A Lei Federal n°14.017/2020 [1], sancionada em 29 de junho de 2020, ficou conhecida por Lei Aldir Blanc em homenagem a Aldir Blanc Mendes – compositor e escritor que morreu acometido pela Covid-19 em maio de 2020 [2]. Aprovada graças à mobilização dos trabalhadores da cultura e aos diálogos realizados junto aos (às) deputados(as) no Congresso Nacional, a lei foi criada para dispor sobre ações emergenciais destinadas ao setor cultural a serem adotadas durante o estado de calamidade pública causado pela epidemia do coronavírus.

O carioca Aldir Blanc largou a medicina para se dedicar exclusivamente à música, tornando-se um dos mais importantes compositores da música popular brasileira. Autor de vasta obra musical e literária, ficou também conhecido no meio artístico por criar e integrar associações ligadas à defesa dos direitos autorais. Publicou vários livros, além de contribuir com crônicas para os jornais O Dia, O Estado de São Paulo e O Globo. Seu legado também foi deixado na televisão através das trilhas sonoras de abertura de novelas e séries.        

A Lei Aldir Blanc destina recursos públicos para ações emergenciais de apoio ao setor cultural por meio de programa de renda emergencial; subsídio mensal para manutenção de espaços artísticos e culturais, microempresas e pequenas empresas culturais, cooperativas, instituições e organizações culturais comunitárias que tiveram as suas atividades interrompidas por força das medidas de isolamento social; e chamadas públicas por meio de editais ou prêmios para realizações de atividades artísticas que possam ser transmitidas pela internet ou disponibilizadas por meio de redes sociais e outras plataformas digitais.

Os recursos para a aplicação da lei são oriundos do Fundo Nacional de Cultura através de transferência da União para estados e municípios.  Enquanto os estados são responsáveis pelo pagamento da renda emergencial, os municípios fornecem subsídio mensal aos espaços culturais. Ou seja, tanto os estados quanto os municípios têm que elaborar e publicar editais, chamadas públicas ou prêmios. Porém, os repasses feitos pela União estão vinculados à apresentação e aprovação de um plano de implementação desses recursos com a participação da sociedade civil no acompanhamento, fiscalização e construção do plano de implementação.

Em Minas Gerais, a Secretaria Estadual de Cultura e Turismo (SECULT), por meio de sua equipe gestora, lançou 27 editais, amparando assim os mais variados setores culturais da capital e do interior através da música, dança, circo, teatro, performance, artesanato, fotografia, literatura, memória, culturas populares e tradicionais, artes visuais e digitais etc. Cabe destacar que o valor total destinado à Lei Aldir Blanc de Minas Gerais (LABMG) foi de mais de R$ 155 milhões, somados os recursos de Estados e reversão de municípios. [3].

O Edital nº27/2020, referente ao credenciamento de culturas populares e tradicionais, previa um valor bruto total de R$ 20.711.600,00, distribuídos para aqueles que se inscrevessem como pessoas físicas maiores de 18 anos, em nome próprio ou representando grupos ou comunidades, com residência ou domicílio em Minas Gerais, com cadastros homologados pelo Estado e validados pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG) nas seguintes categorias: I) Praticantes ou mestres, compreendendo violeiros(as), fazedores(as) de viola artesanal e mestres de capoeira; II) grupos ou coletivos, compreendendo as Folias, os Congados e o Jongo; e III) comunidades, compreendendo comunidades quilombolas, comunidades de apanhadores(as) de flores sempre-vivas, povos indígenas e outros povos e comunidades tradicionais.

Do Médio Jequitinhonha, destaca-se a experiência da Comissão das Comunidades Quilombolas do Vale do Jequitinhonha (Coquivale) [4] – organização não governamental, cujo objetivo é a unificação das comunidades quilombolas do Vale do Jequitinhonha na luta por políticas públicas de direito, reconhecendo as dificuldades logísticas e tecnológicas dos grupos e comunidades tradicionais. Os diretores da Coquivale decidiram apoiar os interessados em se inscrever no edital, preenchendo formulários, inserindo dados com consentimento dos seus líderes ou responsáveis pelos grupos ou associações quilombolas.  

Sobre o assunto, eu tive uma conversa com o presidente José Claudionor dos Santos Pinto que trouxe notícias diversas da Coquivale e de todos os envolvidos. Segundo José Claudionor, cerca de 80 comunidades foram contempladas nesse edital. Porém, para isso, a diretoria teve que realizar uma força-tarefa para inscrever grupos e comunidades. A vice-presidente, Rosária Costa Pereira, que inscreveu aproximadamente 24 comunidades, declarou que foi a primeira atividade dessa natureza que realizou. Além disso, a vice-presidente revelou seu apreço pelo envolvimento nesse tipo de trabalho participativo.

O presidente da Comissão das Comunidades afirmou que ainda é um desafio o manuseio e o domínio da ferramenta tecnológica. Para ele, o edital publicado foi simples, mas trazia complexidade no seu entendimento em questões como a execução dos recursos. Ademais, a inadimplência dos membros das associações, enquanto pessoa física, trouxe grandes preocupações, era impeditivo para se receber os recursos. Tiveram, assim, que encontrar soluções rápidas e a saída foi indicar outro membro da comunidade, envolvido no processo, para receber o recurso, o que não foi tão fácil tendo em vista que os processos burocráticos não são de domínio de todos.

As notícias trazidas da Coquivale são de que os diretores das associações disseram ter servido com amor e dedicação nessa árdua tarefa, visto que tiveram a oportunidade de interagir com as pessoas mais velhas das comunidades. Exemplificaram que puderam ensinar a elas coisas simples como tirar foto no celular, realizar um compartilhamento e postar um documento. Como havia comunidade que nunca recebeu recurso público antes, eles revelaram grande satisfação por essa oportunidade, uma vez que tinham vontade de realizar pequenas reformas na sede, reformar indumentárias e adquirir instrumentos para os grupos.

Outro ponto que os diretores consideraram relevante foi a integração com o IEPHA-Instituto Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, pois os municípios, através das prefeituras, tinham cadastrado algumas áreas de cultura tradicionais, como foliões, mestres de capoeira, mas não tinham retorno quanto a esses cadastros. Agora, em decorrência da Lei Aldir Blanc, para validar as inscrições, foram tomados como referência listagens, mapeamentos e cadastros de órgãos públicos estaduais e federais vinculados às categorias. Segundo os diretores, essa ação possibilitou o reconhecimento do patrimônio cultural imaterial.

O secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, Leônidas Oliveira, ressaltou a importância do alcance da Lei Aldir Blanc por todo o território mineiro. O secretário enfatizou: “Temos feito um grande esforço para que os recursos da Lei Aldir Blanc cheguem até os povos e comunidades tradicionais de Minas Gerais. Neste processo de credenciamento, todas as comunidades e povos tradicionais podem e devem se inscrever, basta comprovar a atividade conforme explicado no edital. Queremos atender, sobretudo, esse público que não esteve e não está normalmente nas linhas de fomento tradicionais do Estado brasileiro, para garantir o recurso e, em maior escala, a salvaguarda da cultura fundamente em Minas, que é a cultura dos povos e comunidades tradicionais” [5].

Enquanto isso, os municípios se organizaram, de acordo com o entendimento a nível local, acatando principalmente as orientações das suas assessorias jurídicas. Porém, muitos municípios que nem sempre têm uma pasta exclusiva da cultura que, em diversos casos, é dividida com a educação, turismo e esporte, irão receber valores nunca vistos e com uma equipe reduzida para operar toda a burocracia. No entanto, comissões foram montadas para que assim tivessem maior êxito no propósito de atingir o objetivo que a lei prevê assim como suas peculiaridades.

Foi um momento dificílimo para os municípios, porque, além da pandemia, a execução da lei coincidiu com o período eleitoral. No entanto, foi interessante observar que a Lei Aldir Blanc possibilitou trazer o debate para os gestores públicos de cultura quanto à importância da implementação e regulamentação do Sistema Nacional de Cultura. Criado em 2012, esse instrumento tem como objetivo fortalecer as políticas públicas de cultura por meio de uma gestão compartilhada entre estados, municípios e a sociedade civil para ampliar a participação social e, principalmente, garantir ao cidadão o pleno exercício de seus direitos culturais.

REFERÊNCIAS

[1] https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/lei-n-14.017-de-29-de-junho-de-2020-264166628

[2] https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/05/04/aldir-blanc-compositor-e-escritor-morre-no-rio.ghtml

[3] http://www.cultura.mg.gov.br/component/content/category/121-lei-aldir-blanc?layout=&Itemid=437

[4] https://www.facebook.com/COQUIVALE-Comiss%C3%A3o-das-comunidades-quilombolas-do-Vale-Jequitinhonha-1672046863020304/

[5] https://portalamm.org.br/lei-aldir-blanc-edital-da-secult-disponibiliza-mais-de-r-20-milhoes-para-a-cultura-popular-de-minas-gerais/

Práticas de letramento e superações

Práticas de letramento e superações

Por Airton Alves Chaves Junior [1]

Durante parte de minha infância não tive oportunidade de ter acesso a práticas de leitura, pois meus pais não sabiam ler e não tinham nenhum livro que pudesse influenciar meu processo de aprendizagem. Em minha casa havia apenas um rádio antigo, através do qual meu pai ouvia os jogos de futebol. Este hábito de meu pai me beneficiou, porque eu tentava entender o que era ali narrado para os ouvintes. Na comunidade onde morro não tinha escola, assim era muito difícil para os moradores terem acesso ao ensino. Meus irmãos não tiveram oportunidade de ir à escola, porquanto não tinham condições de custear as despesas ou até mesmo o deslocamento até o município em que se localizava a escola. Para irem de ônibus, teriam que andar muito, assim escolheram trabalhar na roça para ajudar as necessidades da família.

Aos sete anos, ingressei na escola, mas também tive dificuldades em função do deslocamento da minha comunidade, que fica na zona rural, até à escola, que se localizava na cidade de Cristália. Eu saía de casa às 8 horas e só chegava à escola por volta das 12 horas. Nessa época, eu não tinha conhecimentos sobre letras ou números, mas desde novo já tentava ler as palavras ou números que via nas ruas da cidade. Aos poucos fui aprendendo na prática e, assim, comecei a desenvolver minha escrita, incentivada apenas pelo professor, que passava historinhas, como a dos Três porquinhos, para facilitar o aprendizado.

Além das dificuldades de acesso à escola, também precisava trabalhar com meu pai nas lavouras de feijão. Depois da colheita, o produto seria vendido para custear meus materiais e uniformes, produto difícil para adquirir.

Na escola, os problemas mais frequentes eram relacionados às tarefas que os professores passavam como atividade extraclasse. Como meus pais não eram alfabetizados, não era possível que me ajudassem, sendo assim, quando eu não conseguia fazer sozinho as atividades, voltava para as aulas com a tarefa sem fazer, na maioria das vezes. Sempre tentava fazer as tarefas enquanto estava na sala de aula para contar com a ajuda do professor. Com auxílio da escola, que possuía vários professores capacitados, pude ter um bom desenvolvimento da leitura e, assim, ajudar minha mãe a ler a Bíblia, que é de suma importância para ela.

Ao passar para o Ensino Médio ainda tive dificuldades por causa das atividades e leituras que eram passadas e que estarem fora do meu contexto de minha vida, ou seja, tudo que era passado não estava relacionado à minha forma de aprendizagem anterior.

Nas atividades desenvolvidas, o professor buscava livros na biblioteca e nos passava apenas resolução de atividades, o que não estimulava a leitura. Além disso, para ter acesso a um livro havia burocracias que nos faziam desistir, pois teríamos que preencher vários formulários para levar o livro para casa. Já no terceiro ano do Ensino Médio, busquei outras fontes de estudos, como a internet, para aprimorar meu desenvolvimento nas matérias. Isto contribuiu para importantes mudanças no meu modo de pensar e escrever.

Fiz o vestibular da Licenciatura em Educação do Campo ainda cursando o terceiro ano do Ensino Médio, o que me ajudou e incentivou a manter o foco e continuar os estudos. Ao ingressar na universidade, deparei-me com algumas dificuldades, pois na escola em que estudei não nos exigiam a leitura de texto de mais de 20 páginas, e as práticas de escritas eram descontextualizadas: nas redações, por exemplo, não havia uma estrutura a seguir e nem uma necessidade de interpretação textual.  Nesta nova rotina de leitura, obtive novos conhecimentos essenciais para meu processo de aprendizagem, uma vez que passei a ter uma visão crítica em minhas leituras.

Na graduação, atualmente, leio textos indicados pelos docentes – que, aliás, julgo serem muitas. Às vezes, o tempo curto e os textos difíceis de interpretar acabam me prejudicando, pois não consigo fazer todas as leituras propostas pelas disciplinas. Não posso, porém, deixar de mencionar um dos textos com o qual me identifico bastante, “Cultura Camponesa”, de José Maria Tardim, voltado para as culturas e tradições do homem camponês.

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, percebo a importância da leitura em minha vida. Através dela, encontramos novas estratégias de resistência, novas possibilidades de interpretação do mundo, já que somos seres compostos de ideias, sonhos e posições críticas.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: https://auladigital.net.br/ebooks