Este artigo tem como objetivo analisar e defender a importância de abordar a educação sexual e seus impactos na trajetória escolar. Ao tratar da gravidez na adolescência, é possível afirmar que se trata de uma temática sensível de ser abordada na sociedade. A gravidez nesse período não ocorre apenas por escolha dos adolescentes, mas também por falta de informação, condições sociais e educacionais. Em muitas realidades, principalmente nas comunidades mais vulneráveis, o acesso à informação sobre sexualidade é limitado, e ainda há muitos tabus em torno desse assunto. Muitas vezes, dentro das próprias famílias, o tema não é tratado de forma clara.
No contexto escolar, as informações sobre educação sexual e gravidez na adolescência não são trabalhadas de forma contínua. Nesse cenário, percebe-se que a sexualidade ainda é vista como um tema difícil de ser abordado. Muitas vezes, o assunto é evitado, o que faz com que os adolescentes vivam suas experiências sem o devido conhecimento sobre questões fundamentais para suas vidas, favorecendo a ocorrência de gestações não planejadas e aumentando a vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis.
Dessa forma, vale ressaltar que a gravidez na adolescência deve ser compreendida como um problema social, diretamente relacionado à desigualdade no acesso à educação sexual e aos serviços públicos de saúde. Além disso, a ausência de políticas públicas eficazes interfere diretamente na vida escolar dos adolescentes, podendo causar evasão escolar e a antecipação de responsabilidades em uma fase crucial para a formação pessoal.
Nesse contexto, a escola possui um papel fundamental, pois é um dos principais espaços de formação dos adolescentes. Ao desenvolver ações educativas voltadas para a informação, o diálogo e a prevenção, a instituição contribui para a permanência dos estudantes no ambiente escolar.
De acordo com dados divulgados pelo portal UOL (2022) [1], a gravidez na adolescência impacta significativamente a trajetória escolar das jovens. Segundo a reportagem, o abandono escolar está presente em mais de 70% dos casos, evidenciando as dificuldades enfrentadas por essas adolescentes. Isso ocorre porque muitas passam a conciliar os estudos com os cuidados com o bebê, enfrentando uma dupla jornada que gera cansaço físico e emocional. Além disso, muitas não possuem maturidade nem apoio suficientes para lidar com tantas responsabilidades simultaneamente.
Outro fator relevante é o preconceito social enfrentado pelas adolescentes grávidas. Comentários desmotivadores, como “você acabou com sua vida” ou “engravidou muito nova”, geram sentimentos de vergonha, tristeza e desânimo, contribuindo para o abandono escolar. Como consequência, há redução das oportunidades de qualificação profissional e maior dificuldade de inserção no mercado de trabalho.
Também é importante destacar que, na perspectiva de gênero, a responsabilidade pelos cuidados com o filho recai, na maioria das vezes, sobre a mulher. Em muitos casos, a vida do jovem pai sofre poucas ou nenhuma mudança, enquanto a adolescente mãe assume, de forma quase solitária, a maior parte das responsabilidades e renúncias em seu projeto de vida.
Dados também apontam que a gravidez na adolescência está fortemente associada às desigualdades sociais. Segundo o portal UOL (2020) [2], a maioria das adolescentes grávidas é composta por jovens negras e em situação de vulnerabilidade social, o que reforça o ciclo de pobreza, já que reduz as chances de conclusão dos estudos e de inserção no mercado de trabalho.
Nesse sentido, a gravidez precoce está inserida em um contexto estrutural de exclusão social, no qual o acesso à informação de qualidade, à educação sexual e aos serviços públicos de saúde ainda é limitado. Como consequência, a maternidade na adolescência tende a reforçar desigualdades, dificultando a permanência e a conclusão da trajetória escolar.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) destacam que a educação sexual nas escolas é fundamental para a formação dos estudantes, pois contribui para a prevenção da gravidez indesejada e das infecções sexualmente transmissíveis, além de promover o conhecimento sobre o próprio corpo, o consentimento e o respeito nas relações [3]. Assim, a educação sexual não tem como objetivo estimular a atividade sexual precoce, mas sim fornecer informações seguras e promover autonomia.
Atualmente, muitos jovens têm acesso a informações sobre sexualidade por meio da internet e das redes sociais; no entanto, grande parte desses conteúdos é incompleta ou incorreta. Nesse sentido, a educação sexual escolar torna-se essencial ao oferecer informações confiáveis, contribuindo para que os estudantes desenvolvam autonomia, compreendam o respeito ao próprio corpo e reconheçam situações de risco, abuso ou violência.
Apesar disso, ainda existe resistência à inserção da educação sexual nos currículos escolares. Muitas pessoas acreditam, de forma equivocada, que abordar esse tema incentiva a prática sexual entre adolescentes. Essa visão ganhou força durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, período em que houve redução e desestímulo a debates relacionados à sexualidade nas escolas. No entanto, a ausência de diálogo não protege os jovens, mas os expõe a maiores riscos, como a gravidez não planejada e as infecções sexualmente transmissíveis, conforme apontado em reportagem do G1 (2023) [4].
Como futuros educadores, é fundamental desconstruir a ideia de que a educação sexual estimula a prática sexual precoce. Quando trabalhada de forma responsável e respeitosa, ela promove prevenção, autonomia, cuidado com o corpo e combate a abusos, contribuindo para a redução da gravidez na adolescência. Portanto, não se trata de retirar essa temática do currículo, mas de qualificá-la pedagogicamente, reconhecendo-a como um direito e como parte da formação integral dos estudantes. A própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC) contempla a abordagem da sexualidade, especialmente no que se refere à reprodução e às infecções sexualmente transmissíveis.
Diante desse cenário, propõe-se a implementação de ações educativas no contexto escolar que promovam informação, diálogo e reflexão crítica sobre sexualidade e prevenção. Entre essas ações, destacam-se rodas de conversa e oficinas educativas com adolescentes, mediadas por professores, equipe pedagógica e, sempre que possível, profissionais da saúde. Esses momentos devem abordar temas como métodos contraceptivos, prevenção de infecções, projeto de vida e responsabilidade compartilhada, respeitando a faixa etária, a linguagem e a realidade social dos estudantes.
Referências
[1] UOL. Gravidez na adolescência. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/gravidez-na-adolescencia/. Acesso em: 12 jan. 2025.
[2] UOL. A educação sexual como chave contra gravidez na adolescência. 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2020/01/10/a-educacao-sexual-como-chave-contra-gravidez-na-adolescencia.htm. Acesso em: 12 jan. 2025.
[3] BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: orientação sexual. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/pcn/orientacao.pdf. Acesso em: 12 jan. 2025.
[4] G1. Educação sexual na escola. 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2023/09/15/educacao-sexual-na-escola-pode-e. Acesso em: 12 jan. 2025.
SOBRE AS AUTORAS
Arlane Souza Sales e Makcilene Viviane Nascimento Cunha são acadêmicas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientadas pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

















































