Trazemos para o debate a intolerância religiosa, com foco no racismo sofrido pelas religiões de matriz africana, uma forma de violência profundamente ligada à herança da colonização que estruturou o Brasil e ainda influencia a vida social contemporânea. Compreende-se que o debate sobre essa questão é fundamental para combater a desinformação e, consequentemente, o preconceito.
Durante o período colonial, o cristianismo trazido da Europa foi imposto como religião dominante, sendo considerado, por muito tempo, como a única prática legítima. As tradições religiosas afro-brasileiras foram perseguidas, desvalorizadas e desrespeitadas. Esse processo esteve diretamente associado à escravização da população negra, contribuindo para a construção de uma percepção negativa sobre suas manifestações de fé. Esse tratamento discriminatório, iniciado há séculos, persiste na atualidade, manifestando-se em invasões a espaços sagrados, ofensas verbais, agressões físicas e preconceito direcionado a praticantes dessas religiões, como pais e mães de santo.
Historicamente, a imposição religiosa durante a colonização contribuiu para a marginalização das práticas de matriz africana, frequentemente consideradas ilegítimas ou inferiores. Esse processo fortaleceu estigmas e consolidou a intolerância religiosa como um elemento estrutural da sociedade brasileira, articulado ao racismo. Um exemplo recorrente desse preconceito é o uso da palavra “macumba” como ofensa, quando, na realidade, trata-se do nome de um instrumento utilizado em rituais religiosos. Esse tipo de distorção evidencia como a falta de conhecimento contribui para a reprodução do racismo religioso.
Essa realidade também se manifesta em experiências pessoais. Por frequentar um terreiro de Umbanda, já sofri episódios de intolerância e fui chamada de “macumbeira”. Em minha família, há pessoas de diferentes religiões, como ateus, católicos e evangélicos. No entanto, algumas situações de preconceito partiram de familiares evangélicos, embora não de todos. Em um desses momentos, precisei me posicionar e afirmar que a fé não deve ser medida pela aparência, mas pela busca por paz, respeito e equilíbrio. Na Umbanda, mais importante do que a aparência é estar em paz consigo mesmo.
Nos últimos anos, observa-se o aumento de casos de intolerância religiosa no Brasil. Em 2024, foram registradas 2.472 denúncias por meio do Disque Direitos Humanos (Disque 100), evidenciando que essa problemática permanece atual e recorrente [1]. As religiões de matriz africana estão entre as mais atingidas, o que reforça a relação entre intolerância religiosa e discriminação racial. Esses dados demonstram a necessidade de fortalecer tanto as políticas públicas quanto as ações educativas voltadas ao enfrentamento do preconceito.
A luta contra a intolerância religiosa também se dá por meio de ações institucionais. O Disque 100 é um canal oficial do Governo Federal destinado ao recebimento e encaminhamento de denúncias de violações de direitos humanos [2]. Além disso, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania tem promovido campanhas educativas e lançado materiais informativos voltados à promoção da liberdade religiosa e ao combate à discriminação [3]. Essas iniciativas são fundamentais para a proteção de grupos historicamente marginalizados e para a valorização da diversidade de crenças.
Nesse contexto, a educação desempenha um papel essencial. É no ambiente escolar e na convivência social que se constroem valores como respeito, empatia e reconhecimento das diferenças. A escola, portanto, deve atuar como espaço de diálogo e formação crítica, contribuindo para o combate ao preconceito e para a promoção da convivência entre diferentes visões de mundo.
A intolerância religiosa no Brasil não é um fenômeno isolado, mas resultado de um processo histórico marcado pela colonização, pela escravidão e pelo racismo estrutural. As religiões de matriz africana permanecem entre as mais vulneráveis justamente por carregarem o legado cultural da população negra, historicamente marginalizada. Combater essa forma de discriminação significa garantir direitos, valorizar a diversidade cultural e fortalecer a democracia.
Referências
[1] AGÊNCIA BRASIL. Disque 100 registra mais de 2,4 mil denúncias de intolerância religiosa em 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: jan. 2026.
[2] DISQUE DIREITOS HUMANOS – Disque 100. Disponível em: https://www.gov.br/mdh. Acesso em: jan. 2026.
[3] MDHC LANÇA CARTILHAS SOBRE LIBERDADE RELIGIOSA E COMBATE À INTOLERÂNCIA RELIGIOSA. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/mdh. Acesso em: jan. 2026.
SOBRE O AUTOR
Gislainne Dias Dorneles e Luciana da Silva Oliveira são acadêmicas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientadas pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.