Visibilidade trans e educação

Visibilidade trans e educação

A ampliação da visibilidade de mulheres trans nos espaços sociais, políticos e educacionais é condição indispensável para o fortalecimento da democracia, para a garantia dos direitos humanos e para o enfrentamento da violência estrutural no Brasil. A visibilidade, nesse contexto, não representa privilégio, mas o reconhecimento do direito de existir, de participar da vida pública e de ter a própria dignidade respeitada. A escola e a universidade ocupam papel central na transformação desse cenário, pois são espaços de produção de valores, discursos e formas de convivência social.

Dar visibilidade significa reconhecer o direito dessas pessoas de existirem plenamente, participarem da vida pública e terem sua dignidade assegurada. Conforme aponta reportagem do EL PAÍS Brasil, intitulada “Mulheres trans na política: elas cansaram de ser silenciadas” [1], a luta por visibilidade é, antes de tudo, uma luta contra o silenciamento histórico e social. Nesse sentido, defender a ampliação da visibilidade trans é defender o direito à vida, à dignidade e ao acesso pleno à educação e à cidadania.

A sociedade brasileira foi historicamente estruturada a partir da colonialidade, do patriarcado e da cisnormatividade. Esses elementos produziram hierarquias sociais que definem quais vidas são consideradas legítimas e quais são tratadas como descartáveis. Nesse contexto, pessoas trans foram sistematicamente afastadas da escola, do mercado de trabalho formal, da política institucional e dos espaços de decisão. Essa exclusão não é fruto do acaso, mas resultado de um processo histórico de marginalização que transforma diferenças em desigualdades e vulnerabilidade social. Segundo reportagem do jornal O Dia [2], o Brasil lidera o número de mortes de travestis e pessoas transexuais, evidenciando a gravidade dessa realidade.

De acordo com Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher” [3], o que reforça a ideia de que as identidades de gênero são construções sociais e culturais. Essa perspectiva contribui para compreender que a exclusão de mulheres trans não está relacionada à sua existência, mas às estruturas sociais que negam reconhecimento e direitos.

Quando um grupo social precisa lutar continuamente pelo direito de não ser morto e de ser reconhecido pela lei, evidencia-se uma falha estrutural da democracia. Nesse sentido, a educação assume papel estratégico na transformação dessa realidade, ao promover uma formação baseada no respeito, na dignidade e na defesa dos direitos humanos.

O Brasil lidera, há anos, o ranking mundial de assassinatos de travestis e pessoas transexuais, conforme dados divulgados por organizações não governamentais e pela imprensa. Esse dado demonstra que não se trata de um debate abstrato ou apenas cultural, mas de uma questão concreta de direito à vida e de proteção social. A ausência de políticas públicas efetivas, aliada à naturalização da discriminação, produz não apenas exclusão simbólica, mas também morte social e física.

As reportagens de veículos como El País e O Dia evidenciam uma realidade contundente: a invisibilização social de pessoas trans está diretamente associada à produção sistemática de violência no Brasil. Como afirmam mulheres trans entrevistadas pelo El País, elas “cansaram de ser silenciadas”. Essa afirmação representa mais do que uma declaração política; trata-se de uma exigência de reconhecimento da própria humanidade.

Nesse cenário, avanços no campo jurídico também se mostram fundamentais. A aprovação de projetos que reconhecem mulheres trans como sujeitas de direitos, como sua inclusão na Lei Maria da Penha, representa um passo importante no combate à violência de gênero. O entendimento do Judiciário de que a lei não se baseia apenas no sexo biológico, mas na identidade de gênero, contribui para o enfrentamento da discriminação e para a ampliação da proteção legal. Dessa forma, o Estado passa a reconhecer que a violência de gênero está relacionada a relações sociais de poder, e não apenas a critérios biológicos.

A visibilidade jurídica, portanto, constitui dimensão essencial da proteção social e do exercício pleno da cidadania, ao assegurar o reconhecimento institucional das identidades e a efetivação de direitos historicamente negados. Conforme reportagem de O Globo [4], esse avanço demonstra que o reconhecimento institucional pode funcionar como mecanismo de proteção e ampliação de direitos, ainda que de forma tardia.

Além disso, a presença de mulheres trans em espaços de poder e produção de conhecimento rompe com a lógica histórica de exclusão. Um exemplo é a deputada federal Erika Hilton, cuja atuação política se destaca no combate à violência de gênero, ao racismo e às desigualdades sociais. Sua presença no parlamento representa um marco na ocupação de espaços institucionais por pessoas trans.

No campo acadêmico, destaca-se a psicóloga e professora Jaqueline Gomes de Jesus, que desenvolve importantes estudos sobre diversidade e inclusão. Sua trajetória evidencia que pessoas trans ocupam múltiplos papéis sociais, contribuindo de forma significativa para a produção de conhecimento e para a transformação social. Essas experiências demonstram que a exclusão não se fundamenta em incapacidade, mas em processos históricos de silenciamento que precisam ser enfrentados.

Um episódio vivenciado durante uma prática de ensino em uma Escola Família Agrícola, no município de Itinga (MG), ilustra como a discriminação ainda se manifesta nos espaços educacionais. Na ocasião, uma mulher trans foi inicialmente acolhida junto às alunas, mas posteriormente solicitada a mudar de quarto, o que lhe causou forte abalo emocional. Após diálogo com o professor responsável, a situação foi acompanhada, e, no encontro seguinte, ela retornou demonstrando resistência diante da experiência vivida.

Esse caso evidencia que muitas práticas discriminatórias ainda são naturalizadas e, frequentemente, não são reconhecidas como preconceito por quem as pratica. No entanto, para quem vivencia essas situações, os impactos são profundos, gerando sofrimento, exclusão e sensação de não pertencimento. Ninguém deve precisar se retirar ou se diminuir para que outros se sintam confortáveis. O que precisa ser transformado são os espaços sociais e as formas de convivência que ainda reproduzem desigualdades.

Diante desse cenário, propõe-se a criação de programas permanentes de educação para a diversidade e para a cidadania de gênero nas escolas e universidades. Essas iniciativas podem incluir formação continuada de professores, projetos interdisciplinares, debates com estudantes e o uso de materiais biográficos e jornalísticos que ampliem a compreensão sobre as experiências de pessoas trans.

O objetivo central dessas ações é reduzir a violência por meio da educação e construir, desde o espaço escolar, uma cultura baseada no respeito, no reconhecimento e na efetivação dos direitos humanos.

Referências

[1] VASCONCELOS, Paloma. Mulheres trans na política: elas cansaram de ser silenciadas. El País Brasil, 2 out. 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com. Acesso em: 10/04/2026.

[2] Brasil lidera número de mortes de travestis e transexuais, aponta ONG. O Dia, [ano não identificado na busca – provavelmente entre 2017–2020]. Disponível em: https://odia.ig.com.br. Acesso em: Acesso em: 10/04/2026.

[3] BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

[4] Senado aprova projeto que inclui mulheres trans na Lei Maria da Penha. O Globo, [data não confirmada]. Disponível em: https://oglobo.globo.com. Acesso em: 10/04/2026.

[5] MOIRA, Amara. Mulher de pênis. UOL, seção Universa, [c. 2017–2018]. Disponível em: https://www.uol.com.br. Acesso em: 10/04/2026.



SOBRE AS AUTORAS

Marianny Marques, Thalita Amorim e Maria Fernanda Morais  são acadêmicas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientadas pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

Cotas raciais no Brasil: diversidade, equidade e justiça na educação superior

Cotas raciais no Brasil: diversidade, equidade e justiça na educação superior

O sistema de cotas raciais no Brasil constitui uma política pública essencial para a promoção da diversidade e da equidade na educação superior. Trata-se de uma medida que atua diretamente na correção de desigualdades históricas produzidas pelo racismo estrutural e pela herança da colonialidade, ampliando o acesso de grupos historicamente excluídos às universidades públicas, sem comprometer a qualidade acadêmica. Nesse sentido, defende-se que as cotas raciais são fundamentais para a justiça educacional, uma vez que os diferentes grupos sociais não tiveram as mesmas oportunidades ao longo da história, e a universidade pública deve refletir a diversidade da sociedade brasileira.

A sociedade brasileira foi estruturada a partir de um processo colonial marcado pela escravidão, pela exclusão da população negra e pela negação do acesso à educação formal. Mesmo após a abolição, não foram implementadas políticas eficazes de inserção social que garantissem igualdade de oportunidades. Como resultado, profundas desigualdades educacionais persistiram ao longo do tempo, fazendo com que, por décadas, o ensino superior fosse ocupado majoritariamente por pessoas brancas e de maior renda. Nesse contexto, as cotas raciais surgem como uma resposta do Estado às assimetrias raciais no acesso às universidades públicas.

De acordo com a Agência Brasil [1], especialistas definem as cotas como uma “revolução silenciosa”. A expressão refere-se ao fato de que, sem grandes conflitos, essa política alterou significativamente o perfil socioeconômico e racial dos estudantes universitários. Antes de sua implementação, predominavam nas universidades públicas estudantes brancos e pertencentes às classes mais altas. Com as cotas, jovens negros, pobres e oriundos da escola pública passaram a ocupar esses espaços, tornando o ambiente acadêmico mais diverso e representativo. Trata-se de uma transformação gradual, mas profunda, que aproximou a universidade da realidade social brasileira.

Segundo análise do Politize [2], o sistema de cotas ampliou de forma consistente o acesso de estudantes negros e de baixa renda ao ensino superior, contribuindo diretamente para a redução das desigualdades educacionais. Essa ampliação está relacionada à Lei nº 12.711/2012, que instituiu a reserva de vagas nas universidades federais para estudantes de escolas públicas, considerando critérios sociais e raciais. Dados indicam que, entre 2012 e 2023, mais de 1,1 milhão de estudantes ingressaram no ensino superior por meio dessa política, sendo cerca de 500 mil autodeclarados pretos, pardos ou indígenas. Esses números evidenciam que as cotas não representam privilégio, mas uma estratégia de justiça social voltada à correção de desigualdades históricas.

Outro argumento relevante é apresentado pelo Nexo Jornal [3], ao demonstrar que estudantes cotistas apresentam desempenho acadêmico semelhante ao dos não cotistas e, em alguns casos, taxas de evasão iguais ou inferiores. Esses dados contribuem para desconstruir a ideia de que as cotas comprometeriam a qualidade do ensino, evidenciando que a exclusão anterior não estava relacionada à falta de capacidade, mas à ausência de oportunidades.

Entre os principais contra-argumentos ao sistema de cotas está a defesa da meritocracia, sob a alegação de que estudantes com notas mais altas seriam prejudicados. Essa visão, inclusive, apareceu em uma experiência vivenciada durante uma prática de ensino, quando um professor afirmou que o sistema “coloca notas menores à frente das maiores”. No entanto, esse argumento desconsidera que os estudantes não partem das mesmas condições sociais, econômicas e educacionais. A meritocracia, quando aplicada de forma isolada, ignora desigualdades estruturais e tende a reproduzir privilégios históricos. Assim, não é possível avaliar o mérito de forma justa em uma sociedade profundamente desigual.

Como proposta de intervenção, destaca-se a necessidade de ampliar o debate sobre políticas de ação afirmativa no ambiente escolar. Projetos pedagógicos, oficinas, rodas de conversa e atividades educativas podem contribuir para combater a desinformação e o preconceito em relação às cotas raciais, além de fortalecer a autoestima de estudantes negros e incentivar seu ingresso e permanência no ensino superior. Essa necessidade torna-se evidente ao considerar que muitos estudantes desconhecem seus direitos. Há casos de alunos que ingressaram pela ampla concorrência mesmo tendo direito às cotas, enquanto outros acessaram essa política sem compreender plenamente seu significado.

Nesse contexto, a escola pública desempenha papel central, pois é um espaço privilegiado tanto para a reprodução quanto para o enfrentamento das desigualdades sociais. Ao promover debates críticos sobre relações étnico-raciais e políticas de ação afirmativa, a escola contribui para a formação de sujeitos mais conscientes e para a construção de uma sociedade mais justa. Dessa forma, as cotas raciais não apenas ampliam o acesso à educação superior, mas também fortalecem a democracia ao promover inclusão, representatividade e equidade.

 Referências

[1] AGÊNCIA BRASIL. Cotas foram revolução silenciosa no Brasil, afirma especialista. 2018. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2018-05/cotas-foram-revolucao-silenciosa-no-brasil-afirma-especialista. Acesso em 12/07/2026.

[2] POLITIZE!. Sistema de cotas no Brasil: deu certo? Disponível em: https://www.politize.com.br/cotas-raciais-no-brasil-o-que-sao. Acesso em 12/07/2026.

[3] NEXO JORNAL. Uma avaliação dos resultados do sistema de cotas nas universidades públicas. 2017. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2017/02/23/uma-avaliacao-dos-resultados-do-sistema-de-cotas-nas-universidades-publicas. Acesso em 12/07/2026.



SOBRE OS AUTORES

Marcelo Henrique Lima Silva e Klevson Feliciano dos Santos são acadêmicos da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientados pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

Agroecologia e combate ao êxodo rural

Agroecologia e combate ao êxodo rural

A migração forçada do campo para a cidade, conhecida como êxodo rural, não é um fenômeno natural ou inevitável, mas o resultado de decisões históricas, econômicas e políticas que fragilizaram a vida camponesa. Defende-se, portanto, que a agroecologia é uma alternativa concreta e necessária para combater esse processo, pois fortalece a permanência das famílias no campo ao promover sustentabilidade econômica, social, cultural e ambiental, especialmente em territórios historicamente marginalizados, como o Vale do Jequitinhonha. Nesse sentido, as famílias podem gerar renda, além de consumir e comercializar alimentos de qualidade.

Para compreender o êxodo rural, é fundamental analisar suas raízes históricas. Desde o período da colonização, houve concentração de terras nas mãos de poucos. Nesse processo, os povos originários e outros grupos que ocupavam esses territórios foram expropriados, perdendo suas terras para os colonizadores. Como consequência, os pequenos produtores passaram a ter acesso a áreas cada vez mais reduzidas. Soma-se a isso a ausência ou o enfraquecimento de políticas públicas voltadas ao campo, bem como a desvalorização cultural do modo de vida rural. Diante desse cenário, muitas pessoas migraram para as cidades por necessidade, em busca de melhores condições de estudo e trabalho. Essa migração, ao esvaziar os territórios, provoca a perda de saberes locais e fragiliza as redes comunitárias que sustentam a vida no campo.

O êxodo rural tem impactado significativamente regiões como o Vale do Jequitinhonha, que vêm sendo esvaziadas devido à falta de oportunidades. Conforme noticiado pelo jornal Estado de Minas (2018) [1], muitos jovens e trabalhadores deixam suas comunidades em busca de emprego nas cidades. Em contraposição, a agroecologia, ao diversificar a produção, agregar valor aos produtos locais e estimular circuitos curtos de comercialização, como feiras e mercados locais, cria alternativas de sustento que tornam viável a permanência das famílias no campo. Dessa forma, ela se apresenta não apenas como técnica agrícola, mas como estratégia econômica e social que fortalece a autonomia e a dignidade das populações rurais.

Além disso, as crises ambientais e as mudanças climáticas apontam para o risco de uma nova onda de êxodo rural em escala global, fenômeno já indicado pelo jornal Estadão (2010) [2]. Nesse contexto, a agroecologia se destaca por promover um modelo de desenvolvimento sustentável, baseado na diversificação da produção, na preservação do meio ambiente e na valorização da vida no campo. Ao conservar o solo, proteger os recursos hídricos e reduzir a dependência de insumos externos, esse modelo diminui a vulnerabilidade das famílias rurais diante de crises climáticas e econômicas, fortalecendo suas condições de permanência no território.

Outro aspecto relevante é a integração entre Educação do Campo e agroecologia, que contribui para fortalecer o vínculo dos jovens com o território. Quando a escola dialoga com a realidade rural e incorpora saberes locais e práticas agroecológicas ao currículo, amplia-se o sentido da educação para esses sujeitos. Conforme aponta o site Nova Escola (2024) [3], muitas instituições ainda não dialogam com a realidade dos estudantes do campo, o que leva os jovens a enxergarem a cidade como única possibilidade de futuro. A valorização dos saberes locais e a articulação com práticas concretas de produção e vida no campo tornam a escola um espaço de formação técnica, política e cultural, capaz de incentivar a permanência no território.

Há, contudo, o argumento de que o êxodo rural seria um processo inevitável e parte do progresso. Essa visão, no entanto, naturaliza um fenômeno que é socialmente construído. O êxodo rural resulta de escolhas políticas e econômicas que privilegiam modelos produtivos excludentes e concentram investimentos fora dos territórios rurais. Um desenvolvimento que exclui populações do campo não pode ser considerado justo. Nesse sentido, a agroecologia demonstra que é possível produzir alimentos, gerar renda e preservar o meio ambiente de forma integrada, constituindo-se como alternativa viável ao modelo que expulsa populações rurais.

Como proposta de intervenção, destaca-se a implementação de projetos agroecológicos articulados à Educação do Campo, com o objetivo de fortalecer o vínculo dos jovens com o território e criar alternativas concretas de geração de renda. Um exemplo é o PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência), que promove a aproximação entre universidade e escola pública, permitindo que estudantes de licenciatura desenvolvam projetos pedagógicos nas escolas. No contexto da Educação do Campo, o programa contribui para a realização de ações educativas alinhadas à realidade das comunidades rurais, fortalecendo a formação dos jovens e ampliando suas perspectivas de permanência no campo.

A participação em programas como o PIBID possibilita o desenvolvimento de projetos pedagógicos e agroecológicos que envolvem estudantes, professores e comunidades, contribuindo para a valorização dos saberes locais, para a formação crítica dos jovens e para a ampliação das oportunidades de trabalho e renda no território. Dessa forma, a escola deixa de ser um espaço distante da realidade camponesa e passa a atuar como agente de transformação social.

Além disso, é fundamental a atuação do poder público por meio de políticas que apoiem financeiramente e institucionalmente essas iniciativas. Investimentos em formação, assistência técnica, infraestrutura, feiras locais e programas de incentivo à agroecologia fortalecem os projetos desenvolvidos em parceria com programas educacionais e ampliam seus impactos. Assim, constrói-se uma rede de apoio capaz de gerar renda, promover inclusão social e contribuir efetivamente para a redução do êxodo rural.

Por fim, a agroecologia se apresenta como uma alternativa concreta para enfrentar o êxodo rural, ao promover geração de renda, preservação ambiental e valorização da cultura do campo, especialmente quando articulada a políticas públicas e à Educação do Campo. Defender esse caminho é garantir o direito das populações rurais de permanecerem em seus territórios com dignidade, construindo um modelo de desenvolvimento mais justo e adequado à realidade dessas comunidades.

Referências

[1] ESTADO DE MINAS. Êxodo rural deixa cidades fantasmas no Vale do Jequitinhonha. 2018. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/economia/2018/04/17/internas_economia,952184/exodo-rural-deixa-cidades-fantasmas-no-vale-do-jequitinhonha.shtml. Acesso em: 12 jan. 2025.

[2] ESTADÃO. Mundo vai viver nova onda de êxodo rural. 2010. Disponível em: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,mundo-vai-viver-nova-onda-de-exodo-ruralimp-,608628. Acesso em: 12 jan. 2025.

[3] NOVA ESCOLA. Êxodo rural: aqui e agora. 2024. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/2319/exodo-rural-aqui-e-agora. Acesso em: 12 jan. 2025.



SOBRE AS AUTORAS

Kariny Rodrigues Carvalho e Joice Cristene Gomes Barbosa são acadêmicas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientadas pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

Agroecologia, educação e permanência no campo

Agroecologia, educação e permanência no campo

A agroecologia, quando articulada à educação e à valorização da diversidade cultural dos territórios rurais, pode se tornar uma alternativa concreta para enfrentar o êxodo rural. Ao fortalecer os modos de vida do campo, os saberes tradicionais e a produção local, essa abordagem contribui para a permanência das famílias em suas comunidades, rompendo com modelos históricos de exploração que empurram a população rural para as cidades.

Antes de defender esse ponto de vista, é importante compreender que o êxodo rural não ocorre por acaso. Trata-se de um fenômeno resultante de estruturas históricas que remontam ao período colonial, quando a terra e o poder foram concentrados nas mãos de poucos. Ao longo do tempo, o campo passou a ser visto apenas como espaço de exploração, enquanto os saberes, a cultura e o modo de vida das populações rurais foram desvalorizados. Esse modelo contribuiu para a saída de muitas pessoas em busca de melhores condições de vida. Assim, discutir agroecologia também implica refletir sobre nossas raízes históricas e sobre a necessidade de romper com essas estruturas que ainda afetam a vida no meio rural.

O êxodo rural está diretamente relacionado à ausência de oportunidades de trabalho e às precárias condições de vida no campo, decorrentes de um modelo de desenvolvimento que explorou os territórios rurais sem promover investimentos sociais, econômicos e estruturais. Fatores como a mecanização da agricultura, a recorrência de secas e a insuficiência de políticas públicas agravam esse cenário, forçando a saída de famílias e fragilizando os modos de vida rurais. Nesse contexto, a agroecologia apresenta-se como uma alternativa ao modelo dominante, ao valorizar o trabalho familiar, os saberes tradicionais e a diversidade sociocultural do campo. Como destacam Puliero et al. (2022, p. 20) [1], práticas agroecológicas promovem a sustentabilidade e o enraizamento social, contribuindo para a geração de renda local e o fortalecimento das comunidades.

Além disso, a agroecologia respeita as dimensões culturais dos territórios e favorece a integração das pessoas ao meio rural, fortalecendo o sentimento de pertencimento. Muitas famílias desejam permanecer em suas terras, próximas de sua cultura e de seus vínculos comunitários, mas acabam migrando por falta de alternativas de renda. Isso evidencia a necessidade de projetos que valorizem a produção local e de uma educação voltada à realidade do campo, capaz de fortalecer os territórios e reduzir o êxodo rural.

Nesse sentido, a contribuição de Caldart (2009, p. 59) [2] é fundamental ao defender a agroecologia como parte de um projeto político-pedagógico mais amplo, articulado à soberania alimentar e aos direitos dos povos do campo. Para a autora, a Educação do Campo está vinculada a lutas sociais mais amplas e deve dialogar com a realidade dos sujeitos, contribuindo para transformar suas condições de vida. Como afirma Caldart, trata-se de uma disputa que envolve não apenas o acesso à educação, mas também a definição de que educação se quer para o campo.

Políticas públicas também desempenham papel decisivo nesse processo. Programas de crédito e apoio técnico, como o Agroamigo, demonstram que o investimento no meio rural pode gerar impactos positivos para os pequenos produtores. Da mesma forma, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), criado em 1995, busca promover um padrão de desenvolvimento sustentável, incentivando a diversificação da produção e a geração de emprego e renda. Conforme aponta o Banco do Nordeste do Brasil (2005) [3], essas iniciativas contribuem diretamente para a permanência das famílias em seus territórios ao oferecer condições mais justas de reprodução social e econômica.

Apesar de seu potencial, a agroecologia não deve ser compreendida como a única solução para o enfrentamento do êxodo rural. Outras estratégias, como investimentos em infraestrutura, acesso a serviços básicos e ampliação de políticas públicas, são igualmente essenciais. Nesse sentido, Niederle et al. (2019, p. 272) [4] destacam que os avanços nesse campo estão associados à atuação de movimentos sociais, sindicais e acadêmicos que, desde a década de 1970, vêm construindo alternativas ao modelo tradicional de desenvolvimento rural. O diferencial da agroecologia está justamente em articular desenvolvimento econômico, sustentabilidade ambiental e justiça social.

Como estratégia de intervenção, propõe-se o fortalecimento de ações educativas em escolas e comunidades rurais que integrem saberes tradicionais e conhecimentos científicos, tendo a agroecologia como eixo formativo. Essas ações podem incluir hortas escolares, como espaços de aprendizagem prática sobre alimentação saudável e sustentabilidade; viveiros de sementes, que contribuem para a preservação da biodiversidade; oficinas de saberes, que promovem o diálogo entre conhecimentos locais e científicos; a inserção da agroecologia no currículo escolar; rodas de conversa; e feiras agroecológicas, que fortalecem a economia local e incentivam o consumo consciente. Essas iniciativas aproximam escola e comunidade e contribuem para a valorização do território.

Em síntese, a agroecologia constitui uma abordagem promissora para a redução do êxodo rural, especialmente em regiões marcadas por elevados índices de migração. Por meio da articulação entre educação, políticas públicas e práticas sustentáveis, é possível construir condições mais favoráveis à permanência das populações no campo, promovendo o desenvolvimento rural com justiça social e respeito à diversidade cultural.

 Referências

[1] PULIERO, Lara Palhares Silva; SILVA, Vanessa Juliana da; SAIS, Isabelle Caroline Ribeiro. Agroecologia como estratégia contra o êxodo rural. Anais do Congresso Brasileiro de Agroecologia, 2020.

[2] CALDART, Roseli Salete. Educação do campo: notas para uma análise de percurso. Trabalho, Educação e Saúde, 2009.

[3] BANCO DO NORDESTE DO BRASIL. Agroamigo: experiência apresentada no Concurso Inovação na Gestão Pública Federal. 2005.

[4] NIEDERLE, Paulo et al. A trajetória brasileira de construção de políticas públicas para a agroecologia. Redes, 2019.



SOBRE AS AUTORAS

Joissiely Gonçalves Lemos, Dieslen Patrícia Rocha de Almeida e Karen Cristine Cruz de Assis são acadêmicas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientadas pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

Apropriação Cultural como forma de exploração e promoção da desigualdade

Apropriação Cultural como forma de exploração e promoção da desigualdade

A apropriação cultural é um tema central nos debates sociais contemporâneos, especialmente quando articulada às discussões sobre diversidade e educação. Embora, em alguns contextos, seja apresentada como um fenômeno natural ou inevitável, essa prática deve ser compreendida, majoritariamente, como problemática. Isso ocorre porque envolve a utilização de elementos culturais de povos historicamente oprimidos sem o devido respeito, reconhecimento ou retorno social e econômico, contribuindo para a reprodução de desigualdades estruturais.

A apropriação cultural está profundamente relacionada aos processos históricos de colonialismo e escravidão, que marginalizaram culturas indígenas e africanas ao mesmo tempo em que impuseram as culturas europeias como universais e superiores. Essas dinâmicas estruturaram sociedades marcadas pelo racismo, nas quais culturas originárias continuam sendo desvalorizadas, enquanto outras são privilegiadas e legitimadas socialmente.

Um dos principais aspectos da apropriação cultural diz respeito à sua dimensão econômica. Elementos culturais são frequentemente transformados em mercadorias, especialmente nos setores da moda, da música e da indústria cultural. Nesse processo, grupos socialmente dominantes passam a lucrar com símbolos culturais que não lhes pertencem, enquanto os povos que os criaram permanecem excluídos do reconhecimento e dos benefícios financeiros. Como aponta reportagem do UOL Ecoa (2022) [1], a apropriação cultural ocorre quando elementos de outras culturas são incorporados sem que haja interesse em compreender seus significados ou dialogar com os grupos de origem.

Outro impacto relevante da apropriação cultural é o apagamento histórico e simbólico. Quando retirados de seus contextos originais, símbolos culturais perdem seus significados sociais, religiosos e históricos. Esse processo transforma manifestações culturais complexas em simples tendências estéticas, contribuindo para a desvalorização da memória coletiva dos povos que as originaram. Nesse sentido, Stephanie Ribeiro (2017) [2] destaca que a apropriação cultural desumaniza os sujeitos dessas culturas e esvazia o valor de seus símbolos, ao mesmo tempo em que permite a obtenção de lucro sem consentimento.

Além disso, a apropriação cultural reforça estereótipos e preconceitos, especialmente nas artes e na mídia. Quando elementos culturais são utilizados de forma superficial, produzem representações distorcidas que comprometem a imagem de povos negros e indígenas. Em vez de promover representatividade, essas práticas contribuem para a exclusão e a marginalização. Um exemplo disso é o processo histórico de transformação do samba, que, inicialmente marginalizado por sua associação com a população negra, passou a ser valorizado economicamente a partir do momento em que foi apropriado e “embranquecido”, como aponta artigo do Geledés (2019) [3].

Um argumento frequentemente utilizado para justificar a apropriação cultural é a ideia de que “a cultura é de todos”. No entanto, essa visão ignora as desigualdades históricas entre os grupos sociais. Na prática, o que ocorre não é uma troca cultural equilibrada, mas a apropriação de elementos de grupos marginalizados por indivíduos ou empresas que buscam lucro, sem reconhecimento ou respeito às origens. Por isso, essa prática reforça injustiças e transforma a cultura em mercadoria, desvinculada de seu significado social e histórico.

Diante desse cenário, a educação se apresenta como um dos principais caminhos para enfrentar a apropriação cultural. É fundamental promover uma educação antirracista que valorize as culturas originárias e estimule a reflexão crítica sobre o uso de elementos culturais na sociedade. Questões como “quem criou esses elementos?”, “quem lucra com eles?” e “quem é silenciado nesse processo?” são essenciais para desenvolver uma consciência social mais crítica. Ao incentivar esse tipo de reflexão, a educação contribui para a formação de sujeitos mais conscientes, respeitosos e comprometidos com a justiça social.

Referências

[1] UOL Ecoa. O que é apropriação cultural? 2022. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2022/01/22/o-que-e-apropriacao-cultural-conceito-tangencia-do-nazismo-ao-colonialismo.htm. Acesso em 12/07/2026.

[2] RIBEIRO, Stephanie. Afinal, o que é apropriação cultural? Geledés, 2017. Disponível em: https://www.geledes.org.br/stephanie-ribeiro-afinal-o-que-e-apropriacao-cultural. Acesso em 12/07/2026.

[3] GELEDÉS. Apropriação cultural e representatividade nas artes. 2019. Disponível em: https://www.geledes.org.br/apropriacao-cultural-representatividade-nas-artes. Acesso em 12/07/2026.



SOBRE OS AUTORES

João Francisco Rodrigues Correia e Elcemir Ferreira Dos Santos são acadêmicos da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientados pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

Intolerância religiosa e racismo religioso: heranças da Colonização

Intolerância religiosa e racismo religioso: heranças da Colonização

Trazemos para o debate a intolerância religiosa, com foco no racismo sofrido pelas religiões de matriz africana, uma forma de violência profundamente ligada à herança da colonização que estruturou o Brasil e ainda influencia a vida social contemporânea. Compreende-se que o debate sobre essa questão é fundamental para combater a desinformação e, consequentemente, o preconceito.

Durante o período colonial, o cristianismo trazido da Europa foi imposto como religião dominante, sendo considerado, por muito tempo, como a única prática legítima. As tradições religiosas afro-brasileiras foram perseguidas, desvalorizadas e desrespeitadas. Esse processo esteve diretamente associado à escravização da população negra, contribuindo para a construção de uma percepção negativa sobre suas manifestações de fé. Esse tratamento discriminatório, iniciado há séculos, persiste na atualidade, manifestando-se em invasões a espaços sagrados, ofensas verbais, agressões físicas e preconceito direcionado a praticantes dessas religiões, como pais e mães de santo.

Historicamente, a imposição religiosa durante a colonização contribuiu para a marginalização das práticas de matriz africana, frequentemente consideradas ilegítimas ou inferiores. Esse processo fortaleceu estigmas e consolidou a intolerância religiosa como um elemento estrutural da sociedade brasileira, articulado ao racismo. Um exemplo recorrente desse preconceito é o uso da palavra “macumba” como ofensa, quando, na realidade, trata-se do nome de um instrumento utilizado em rituais religiosos. Esse tipo de distorção evidencia como a falta de conhecimento contribui para a reprodução do racismo religioso.

Essa realidade também se manifesta em experiências pessoais. Por frequentar um terreiro de Umbanda, já sofri episódios de intolerância e fui chamada de “macumbeira”. Em minha família, há pessoas de diferentes religiões, como ateus, católicos e evangélicos. No entanto, algumas situações de preconceito partiram de familiares evangélicos, embora não de todos. Em um desses momentos, precisei me posicionar e afirmar que a fé não deve ser medida pela aparência, mas pela busca por paz, respeito e equilíbrio. Na Umbanda, mais importante do que a aparência é estar em paz consigo mesmo.

Nos últimos anos, observa-se o aumento de casos de intolerância religiosa no Brasil. Em 2024, foram registradas 2.472 denúncias por meio do Disque Direitos Humanos (Disque 100), evidenciando que essa problemática permanece atual e recorrente [1]. As religiões de matriz africana estão entre as mais atingidas, o que reforça a relação entre intolerância religiosa e discriminação racial. Esses dados demonstram a necessidade de fortalecer tanto as políticas públicas quanto as ações educativas voltadas ao enfrentamento do preconceito.

A luta contra a intolerância religiosa também se dá por meio de ações institucionais. O Disque 100 é um canal oficial do Governo Federal destinado ao recebimento e encaminhamento de denúncias de violações de direitos humanos [2]. Além disso, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania tem promovido campanhas educativas e lançado materiais informativos voltados à promoção da liberdade religiosa e ao combate à discriminação [3]. Essas iniciativas são fundamentais para a proteção de grupos historicamente marginalizados e para a valorização da diversidade de crenças.

Nesse contexto, a educação desempenha um papel essencial. É no ambiente escolar e na convivência social que se constroem valores como respeito, empatia e reconhecimento das diferenças. A escola, portanto, deve atuar como espaço de diálogo e formação crítica, contribuindo para o combate ao preconceito e para a promoção da convivência entre diferentes visões de mundo.

A intolerância religiosa no Brasil não é um fenômeno isolado, mas resultado de um processo histórico marcado pela colonização, pela escravidão e pelo racismo estrutural. As religiões de matriz africana permanecem entre as mais vulneráveis justamente por carregarem o legado cultural da população negra, historicamente marginalizada. Combater essa forma de discriminação significa garantir direitos, valorizar a diversidade cultural e fortalecer a democracia.

 

Referências

[1] AGÊNCIA BRASIL. Disque 100 registra mais de 2,4 mil denúncias de intolerância religiosa em 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br. Acesso em: jan. 2026.

[2] DISQUE DIREITOS HUMANOS – Disque 100. Disponível em: https://www.gov.br/mdh. Acesso em: jan. 2026.

[3] MDHC LANÇA CARTILHAS SOBRE LIBERDADE RELIGIOSA E COMBATE À INTOLERÂNCIA RELIGIOSA. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/mdh. Acesso em: jan. 2026.



SOBRE O AUTOR

Gislainne Dias Dorneles e Luciana da Silva Oliveira são acadêmicas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientadas pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

Quando a cultura vira mercadoria

Quando a cultura vira mercadoria

A apropriação cultural, quando não se resume a trocas culturais legítimas, mas revela uma relação assimétrica de poder, deve ser combatida. Esse fenômeno ocorre quando elementos culturais de grupos historicamente oprimidos são descontextualizados e mercantilizados, sem reconhecimento, reparação ou participação desses grupos, o que reforça desigualdades raciais, sociais e simbólicas já existentes.

No contexto brasileiro, essa discussão torna-se ainda mais necessária, pois o país foi construído a partir da colonização europeia, da escravidão de povos africanos e da violência contra os povos indígenas. Durante séculos, as culturas negras e indígenas foram desvalorizadas, marginalizadas e até criminalizadas, sendo vistas como inferiores. Atualmente, muitos símbolos dessas culturas aparecem na moda, na mídia, na indústria cultural e até no espaço escolar. No entanto, em diversos casos, esses elementos são utilizados sem explicação, sem valorização de sua história e sem respeito por seus significados culturais, religiosos e sociais, o que contribui para a reprodução de estereótipos e apagamentos históricos.

Assim, é importante compreender que nem toda utilização de elementos culturais pode ser considerada uma troca cultural saudável. A troca pressupõe respeito, diálogo e reconhecimento entre os envolvidos, o que não ocorre quando apenas um grupo — geralmente privilegiado — lucra ou ganha visibilidade a partir da cultura de outro grupo historicamente oprimido. Nesse sentido, a apropriação cultural revela a continuidade de relações coloniais, nas quais determinados saberes e expressões culturais são explorados sem considerar seus verdadeiros detentores.

De acordo com reportagem publicada pelo UOL (2022) [1], um dos problemas da apropriação cultural é a desigualdade no reconhecimento. Um exemplo disso ocorreu com a marca Prada, acusada de lançar uma coleção de sandálias de couro trançado semelhante às produzidas por artesãos de Caruaru, em Pernambuco. O produto da grife chegou a custar 80 vezes mais do que o vendido em feiras populares, sem reconhecimento dos produtores originais.

Outro caso semelhante foi relatado por Ribeiro (2017) [2], no qual uma grife francesa utilizou, em uma coleção de 2015, bordados tradicionais da comunidade mexicana Santa María Tlahuitoltepec, com técnica desenvolvida há mais de 600 anos e considerados símbolo de identidade local. Mesmo obtendo alto lucro, a marca não repassou qualquer porcentagem à comunidade responsável.

Como aponta o portal Geledés (2019) [3], a apropriação cultural transforma em lucro aquilo que, para seus verdadeiros detentores, foi motivo de luta e sobrevivência. O samba, por exemplo, durante muito tempo foi criminalizado e associado de forma preconceituosa à população negra e periférica. No entanto, ao se tornar lucrativo, passou por um processo de embranquecimento simbólico, evidenciando as desigualdades estruturais presentes na sociedade.

Muitas pessoas afirmam que toda cultura é de todos, porém o problema não está no compartilhamento cultural em si, mas no uso de elementos culturais sem conhecimento histórico, sem respeito e sem reconhecimento dos povos que os criaram. Por isso, nem todo uso cultural pode ser considerado uma troca legítima. Nesse contexto, a escola tem um papel fundamental no combate à apropriação cultural, pois deve promover o respeito às diferentes culturas e esclarecer a diferença entre conhecer, valorizar e se apropriar de uma cultura. Quando a escola aborda esse tema de forma crítica, contribui para a formação de cidadãos mais conscientes e respeitosos, por meio de rodas de conversa, projetos culturais e debates sobre diversidade.

Muitas pessoas afirmam que toda cultura é de todos; no entanto, o problema não está no compartilhamento cultural em si, mas no uso de elementos culturais sem conhecimento histórico, sem respeito e sem reconhecimento dos povos que os criaram. Por isso, nem todo uso cultural pode ser considerado uma troca legítima. Nesse contexto, a escola desempenha um papel fundamental no enfrentamento da apropriação cultural, ao promover o respeito às diferentes culturas e esclarecer as diferenças entre conhecer, valorizar e se apropriar de uma cultura. Ao abordar esse tema de forma crítica, por meio de debates, projetos culturais e práticas pedagógicas comprometidas com a diversidade, a instituição escolar contribui para a formação de cidadãos mais conscientes e socialmente responsáveis. Além disso, é indispensável garantir a efetivação do ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena, conforme previsto nas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, consolidando uma educação que não apenas reconheça, mas também valorize e respeite a pluralidade cultural que constitui a sociedade brasileira.

 

Referências

[1] UOL. O que é apropriação cultural? Conceito tangencia do colonialismo ao nazismo. 2022. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2022/01/22/o-que-e-apropriacao-cultural-conceito-tangencia-do-nazismo-ao-colonialismo.htm. Acesso em: 12 jan. 2025.

[2] RIBEIRO, Stephanie. Afinal, o que é apropriação cultural? 2017. Disponível em: https://www.geledes.org.br/stephanie-ribeiro-afinal-o-que-e-apropriacao-cultural. Acesso em: 12 jan. 2025.

[3] GELEDÉS. Apropriação cultural & representatividade nas artes. 2019. Disponível em: https://www.geledes.org.br/apropriacao-cultural-representatividade-nas-artes. Acesso em: 12 jan. 2025.



SOBRE O AUTOR

Felipe Nascimento Ribeiro e Laissa dos Santos Ferreira são acadêmicos da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientados pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

Gravidez na adolescência e evasão escolar

Gravidez na adolescência e evasão escolar

Este artigo tem como objetivo analisar e defender a importância de abordar a educação sexual e seus impactos na trajetória escolar. Ao tratar da gravidez na adolescência, é possível afirmar que se trata de uma temática sensível de ser abordada na sociedade. A gravidez nesse período não ocorre apenas por escolha dos adolescentes, mas também por falta de informação, condições sociais e educacionais. Em muitas realidades, principalmente nas comunidades mais vulneráveis, o acesso à informação sobre sexualidade é limitado, e ainda há muitos tabus em torno desse assunto. Muitas vezes, dentro das próprias famílias, o tema não é tratado de forma clara.

No contexto escolar, as informações sobre educação sexual e gravidez na adolescência não são trabalhadas de forma contínua. Nesse cenário, percebe-se que a sexualidade ainda é vista como um tema difícil de ser abordado. Muitas vezes, o assunto é evitado, o que faz com que os adolescentes vivam suas experiências sem o devido conhecimento sobre questões fundamentais para suas vidas, favorecendo a ocorrência de gestações não planejadas e aumentando a vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis.

Dessa forma, vale ressaltar que a gravidez na adolescência deve ser compreendida como um problema social, diretamente relacionado à desigualdade no acesso à educação sexual e aos serviços públicos de saúde. Além disso, a ausência de políticas públicas eficazes interfere diretamente na vida escolar dos adolescentes, podendo causar evasão escolar e a antecipação de responsabilidades em uma fase crucial para a formação pessoal.

Nesse contexto, a escola possui um papel fundamental, pois é um dos principais espaços de formação dos adolescentes. Ao desenvolver ações educativas voltadas para a informação, o diálogo e a prevenção, a instituição contribui para a permanência dos estudantes no ambiente escolar.

De acordo com dados divulgados pelo portal UOL (2022) [1], a gravidez na adolescência impacta significativamente a trajetória escolar das jovens. Segundo a reportagem, o abandono escolar está presente em mais de 70% dos casos, evidenciando as dificuldades enfrentadas por essas adolescentes. Isso ocorre porque muitas passam a conciliar os estudos com os cuidados com o bebê, enfrentando uma dupla jornada que gera cansaço físico e emocional. Além disso, muitas não possuem maturidade nem apoio suficientes para lidar com tantas responsabilidades simultaneamente.

Outro fator relevante é o preconceito social enfrentado pelas adolescentes grávidas. Comentários desmotivadores, como “você acabou com sua vida” ou “engravidou muito nova”, geram sentimentos de vergonha, tristeza e desânimo, contribuindo para o abandono escolar. Como consequência, há redução das oportunidades de qualificação profissional e maior dificuldade de inserção no mercado de trabalho.

Também é importante destacar que, na perspectiva de gênero, a responsabilidade pelos cuidados com o filho recai, na maioria das vezes, sobre a mulher. Em muitos casos, a vida do jovem pai sofre poucas ou nenhuma mudança, enquanto a adolescente mãe assume, de forma quase solitária, a maior parte das responsabilidades e renúncias em seu projeto de vida.

Dados também apontam que a gravidez na adolescência está fortemente associada às desigualdades sociais. Segundo o portal UOL (2020) [2], a maioria das adolescentes grávidas é composta por jovens negras e em situação de vulnerabilidade social, o que reforça o ciclo de pobreza, já que reduz as chances de conclusão dos estudos e de inserção no mercado de trabalho.

Nesse sentido, a gravidez precoce está inserida em um contexto estrutural de exclusão social, no qual o acesso à informação de qualidade, à educação sexual e aos serviços públicos de saúde ainda é limitado. Como consequência, a maternidade na adolescência tende a reforçar desigualdades, dificultando a permanência e a conclusão da trajetória escolar.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) destacam que a educação sexual nas escolas é fundamental para a formação dos estudantes, pois contribui para a prevenção da gravidez indesejada e das infecções sexualmente transmissíveis, além de promover o conhecimento sobre o próprio corpo, o consentimento e o respeito nas relações [3]. Assim, a educação sexual não tem como objetivo estimular a atividade sexual precoce, mas sim fornecer informações seguras e promover autonomia.

Atualmente, muitos jovens têm acesso a informações sobre sexualidade por meio da internet e das redes sociais; no entanto, grande parte desses conteúdos é incompleta ou incorreta. Nesse sentido, a educação sexual escolar torna-se essencial ao oferecer informações confiáveis, contribuindo para que os estudantes desenvolvam autonomia, compreendam o respeito ao próprio corpo e reconheçam situações de risco, abuso ou violência.

Apesar disso, ainda existe resistência à inserção da educação sexual nos currículos escolares. Muitas pessoas acreditam, de forma equivocada, que abordar esse tema incentiva a prática sexual entre adolescentes. Essa visão ganhou força durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, período em que houve redução e desestímulo a debates relacionados à sexualidade nas escolas. No entanto, a ausência de diálogo não protege os jovens, mas os expõe a maiores riscos, como a gravidez não planejada e as infecções sexualmente transmissíveis, conforme apontado em reportagem do G1 (2023) [4].

Como futuros educadores, é fundamental desconstruir a ideia de que a educação sexual estimula a prática sexual precoce. Quando trabalhada de forma responsável e respeitosa, ela promove prevenção, autonomia, cuidado com o corpo e combate a abusos, contribuindo para a redução da gravidez na adolescência. Portanto, não se trata de retirar essa temática do currículo, mas de qualificá-la pedagogicamente, reconhecendo-a como um direito e como parte da formação integral dos estudantes. A própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC) contempla a abordagem da sexualidade, especialmente no que se refere à reprodução e às infecções sexualmente transmissíveis.

Diante desse cenário, propõe-se a implementação de ações educativas no contexto escolar que promovam informação, diálogo e reflexão crítica sobre sexualidade e prevenção. Entre essas ações, destacam-se rodas de conversa e oficinas educativas com adolescentes, mediadas por professores, equipe pedagógica e, sempre que possível, profissionais da saúde. Esses momentos devem abordar temas como métodos contraceptivos, prevenção de infecções, projeto de vida e responsabilidade compartilhada, respeitando a faixa etária, a linguagem e a realidade social dos estudantes.

 

Referências

[1] UOL. Gravidez na adolescência. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/gravidez-na-adolescencia/. Acesso em: 12 jan. 2025.

[2] UOL. A educação sexual como chave contra gravidez na adolescência. 2020. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2020/01/10/a-educacao-sexual-como-chave-contra-gravidez-na-adolescencia.htm. Acesso em: 12 jan. 2025.

[3] BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: orientação sexual. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/pcn/orientacao.pdf. Acesso em: 12 jan. 2025.

[4] G1. Educação sexual na escola. 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2023/09/15/educacao-sexual-na-escola-pode-e. Acesso em: 12 jan. 2025.



SOBRE AS AUTORAS

Arlane Souza Sales e Makcilene Viviane Nascimento Cunha são acadêmicas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientadas pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

O conceito de família no contexto brasileiro: diversidade, educação e direitos

O conceito de família no contexto brasileiro: diversidade, educação e direitos

O conceito de família no Brasil passou por profundas transformações ao longo da história. Durante muito tempo, predominou a ideia de família tradicional, composta por pai, mãe e filhos, fortemente influenciada por valores patriarcais, religiosos e culturais. No entanto, essa concepção não representa a diversidade existente na sociedade brasileira, marcada por desigualdades sociais, econômicas e históricas. Defende-se, portanto, que o reconhecimento da diversidade familiar é essencial para a promoção de uma educação inclusiva e para a garantia de direitos, especialmente em um país plural como o Brasil.

A família deve ser compreendida como uma construção social que se modifica conforme as transformações da sociedade e as necessidades de seus membros. Atualmente, entende-se que família é toda forma de convivência baseada no afeto, no cuidado e na responsabilidade mútua, não se limitando a vínculos biológicos ou a um único modelo socialmente imposto. Segundo reportagem da CartaCapital [1], restringir o conceito de família a um modelo único desconsidera a realidade social brasileira e contribui para a exclusão de diversos grupos.

Do ponto de vista histórico e social, o modelo de família nuclear nunca foi o único existente no Brasil. Famílias chefiadas por mulheres, avós ou outros parentes sempre fizeram parte da realidade, especialmente entre as classes populares. Essas configurações refletem fatores como desigualdade social, heranças do período colonial e dificuldades econômicas. De acordo com análises jurídicas publicadas no JusBrasil [2], a evolução do conceito de família acompanha as transformações sociais e demonstra que não existe um modelo único capaz de representar toda a população.

No âmbito legal, a Constituição Federal de 1988 representou um avanço significativo ao ampliar o reconhecimento das diversas configurações familiares. O artigo 226 estabelece que “a família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado”, reconhecendo não apenas o casamento, mas também a união estável e outros arranjos familiares [3]. Esse reconhecimento jurídico reforça que a família deve ser definida pelas relações de cuidado e afeto, e não apenas por normas morais ou religiosas.

A discussão sobre o conceito de família também ganhou grande visibilidade no debate público. Em 2014, a Câmara dos Deputados promoveu uma enquete sobre o Projeto de Lei nº 6.583/2013, conhecido como Estatuto da Família, que propunha definir família apenas como a união entre homem e mulher. A enquete registrou centenas de milhares de votos, evidenciando a relevância e a controvérsia do tema na sociedade brasileira [4].

No campo educacional, a escola desempenha um papel fundamental na construção de uma visão mais ampla e respeitosa sobre a família. Quando a educação reconhece apenas um tipo de arranjo familiar, acaba reforçando preconceitos e excluindo estudantes que vivem em realidades diversas. Trabalhar a diversidade familiar no ambiente escolar contribui para a formação de cidadãos críticos, empáticos e conscientes. Nesse sentido, Paulo Freire afirma que a educação deve ser uma prática de liberdade, voltada para o respeito às diferenças e para a transformação social [5].

Um dos principais contra-argumentos à ampliação do conceito de família defende que ela deveria se restringir à união entre pai, mãe e filhos, geralmente baseada em valores religiosos. Embora esse modelo seja importante para muitas pessoas, ele não pode ser imposto como o único legítimo em um Estado laico como o Brasil. Limitar o conceito de família significa ignorar a realidade social e reforçar a exclusão de grupos historicamente marginalizados.

Diante disso, é fundamental investir em ações educativas que valorizem a diversidade familiar, especialmente nas escolas e nas comunidades. Projetos pedagógicos, debates, palestras e atividades interdisciplinares podem contribuir para a desconstrução de preconceitos e para a promoção do respeito às diferentes formas de família. Além disso, políticas públicas devem continuar avançando na proteção de todos os arranjos familiares, garantindo dignidade e igualdade de direitos.

Conclui-se que o conceito de família no contexto brasileiro precisa ser compreendido de forma ampla e inclusiva. A família não é definida por um único modelo, mas pelos vínculos de afeto, cuidado e responsabilidade entre seus membros. Reconhecer essa diversidade é essencial para combater preconceitos, promover justiça social e fortalecer a democracia. Valorizar todas as famílias é, acima de tudo, valorizar a própria sociedade brasileira.

Referências

[1] CARTACAPITAL. Por uma nova (e ampla) definição de família. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/educacao/reportagens/por-uma-nova-e-ampla-definicao-de-familia/. Acesso em: 12 jan. 2025.

[2] JUSBRASIL. A evolução da ideia e do conceito de família. Disponível em: https://advocaciatpa.jusbrasil.com.br/artigos/176611879/a-evolucao-da-ideia-e-do-conceito-de-familia. Acesso em: 12 jan. 2025.

[3] BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 12 jan. 2025.

[4] CÂMARA DOS DEPUTADOS. Câmara promove enquete sobre conceito de família. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITOS-HUMANOS/461790-CAMARA-PROMOVE-ENQUETE-SOBRE-CONCEITO-DE-FAMILIA.html. Acesso em: 12 jan. 2025.

[5] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

SOBRE AS AUTORAS

Adry Gomes Baldaia e Ana Paula Maria de Jesus Nunes são acadêmicas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientadas pelo Professor Carlos Henrique Silva de Castro.

Combinando o Ontem com o Hoje

Combinando o Ontem com o Hoje

Silas Pechim de Oliveira, Araçuaí/MG

Sou de Araçuaí, uma pequena e modesta cidade do norte de Minas Gerais, lugar que ficou conhecido como Vale da Miséria e hoje é mundialmente conhecido como o Vale do Lítio do nosso país. Meus primeiros contatos com a leitura e a escrita na escola foram bem modestos por falta de incentivo; porém, em casa, recebi bons estímulos.

Sobre minha infância, tenho uma vaga lembrança de ir à missa dominical com os meus pais e ficar curioso com o que havia de informação nos folhetos das celebrações religiosas. Ficava ansioso para entrar na escola, aprender a ler e, finalmente, acompanhar os demais fiéis, que fixavam os olhos naquele emaranhado de letras dos hinos e preces. Foi na adolescência que comecei a me questionar sobre os significados e sentidos daquelas leituras. Me lembro de pegar pedaços de giz na escola para brincar de dar aulas para alunos imaginários em casa. Nas minhas aulas, utilizava o que era aprendido em sala de aula, principalmente temas relacionados à matemática. Usávamos uma das portas de casa como quadro.

Já na adolescência, conheci um dos meus autores preferidos: Sidney Sheldon. Até os dias atuais, perco-me em suas obras cheias de mistérios, cujas histórias povoam a mente do leitor com intensa imaginação. Naquele momento, meus primeiros contatos com o texto informativo foram com a leitura mensal das revistas Galileu. Como os temas relacionados à pesquisa e à ciência sempre me atraíam, ficava ansioso por finalmente receber cada edição em casa.

Com o passar do tempo e com a digitalização das informações, passei a ter o hábito de ler diariamente mini reportagens pelo celular, que acesso via páginas eletrônicas de notícias, principalmente da BBC News. Hoje, busco manter a leitura e escrita como rotinas diárias, combinando antigos livros com histórias nostálgicas, as quais me remetem aos tempos de escola, e leituras atuais de notícias.

Em meu primeiro ano na universidade, tenho lido mais. Somando-se à prática de leitura costumeira que adquiri ao longo do tempo, estou recebendo com bastante entusiasmo a diversa carga de possibilidades de conhecimento que os textos universitários me proporcionam. O tempo tornou-se mais escasso, porém não é nada que seja impossível de gerir. Quando estou no ônibus em direção ao trabalho, por exemplo, aproveito esse momento para mergulhar nas intrigas e mistérios dos livros de suspense, dos quais não abro mão.

Sinto-me empolgado com isso, pois vejo essa oportunidade única na minha vida como um desafio para o autoconhecimento, sem falar no prazeroso ato de abrir minha mente para um vasto mundo de coisas novas. Contudo, nem tudo são flores. Como faz bastante tempo que concluí o ensino básico (me formei em 2007!), tenho dificuldades para relembrar todo o conteúdo que aprendi na escola, o que de fato nos dá base para seguirmos com o curso de nível superior.

Por isso, estou tendo que fazer uma reciclagem, principalmente em matemática, através de videoaulas nas plataformas digitais gratuitas. Tenho certa dificuldade com as matérias muito abstratas, como Fundamentos Filosóficos e Sociológicos da Educação. Por outro lado, gosto bastante das matérias relacionadas ao cálculo, como Introdução ao Cálculo e Química Geral.



SOBRE O AUTOR:

Silas Pechim de Oliveira, de Araçuaí/MG, é acadêmico da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Uma Plataforma de Viagem Chamada Leitura

Uma Plataforma de Viagem Chamada Leitura

Silas Oliveira Silva, Itamarandiba/MG

Meu primeiro contato com a leitura foi em sala de aula, diferentemente de muitas crianças que, hoje em dia, têm acesso a recursos que estimulam a leitura devido ao grande avanço tecnológico. Na minha casa, não havia livros que pudessem despertar meu interesse pela leitura e, mesmo que houvesse, seria difícil me convencer a começar a praticar, pois, antes de entrar na escola, eu só pensava em brincar.

Algum tempo se passou e lá estava eu, matriculado na escola. Lembro que um dos meus primeiros desafios foi escrever meu nome completo. Foi uma tarefa difícil, mas, depois que consegui, fiquei admirado comigo mesmo por tal proeza. Logo depois, o desafio era aprender a ler, o que, a princípio, me pareceu impossível, pois tive muita dificuldade. A situação piorou quando via meus colegas se desenvolvendo melhor que eu, o que me levou a crer que não era inteligente o suficiente para aprender a ler.

O que me ajudou foi a grande paciência que minha professora, Maria Luiza, teve comigo, e até hoje sou grato a isso. Aos poucos, consegui juntar uma letra à outra, formar sílabas e, quando menos esperava, já estava lendo. Vibrei muito ao conseguir ler toda uma frase sozinha. A emoção foi ainda maior quando li um livro inteiro. A partir daí, fiquei maravilhado com o poder da leitura e comecei a ler tudo o que podia: placas e anúncios na rua, bulas de remédio, revistas, embalagens de produtos etc.

Até um certo período do Ensino Fundamental I, éramos incentivados a ler. Os professores reservavam um horário para levar a turma à biblioteca, onde cada um escolhia um livro. Líamos no jardim ou em lugares reservados, mergulhando no universo de cada história. Com o tempo, no entanto, fui deixando a leitura de lado. Voltei a ter contato com a leitura no Fundamental II, por forte influência da minha professora de Português, Rita, que nos estimulava a ler por meio de uma dinâmica muito interessante.

A dinâmica funcionava assim: ela escolhia um determinado livro para toda a turma ler em um prazo determinado. Depois de concluirmos a leitura, devíamos elaborar algumas perguntas sobre o livro, e, em uma data marcada, organizávamos a sala em círculo, onde os, alunos, fazíamos perguntas uns aos outros, sendo avaliados tanto pela elaboração das perguntas quanto pelas respostas dadas.

Outra dinâmica que ela criou consistia em cada aluno ler um livro da biblioteca escolhido a livre arbítrio e, em um dia determinado, contar a história para toda a turma.

Foi através dessas dinâmicas que conheci muitos clássicos da literatura brasileira, tais como “Dom Quixote”, “A Droga da Obediência”, “O Cortiço”, “Dom Casmurro” (Capitu traiu ou não traiu Bentinho?), “Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda”, “Meu Pé de Laranja Lima”, “Depois Daquela Viagem”, entre outros. A partir disso, relembrei o quão bom é se dedicar à leitura e voltei a explorar outros livros que estavam disponíveis na biblioteca da minha escola.

Nesse período, comecei a frequentar a igreja, e a leitura da Bíblia tornou-se tornou um hábito. Ficava maravilhado ao ler cada história da Sagrada Escritura, desde os milagres e maravilhas do Velho Testamento até os milagres que Jesus operou, sem contar todas as histórias vividas pelos apóstolos após a partida do Mestre. Tudo isso contribuiu para alicerçar ainda mais minha fé em Deus.

Hoje, continuo a praticar a leitura, mas de uma forma um pouco não convencional. Isso porque sou concurseiro e parte do meu tempo se baseia em ler materiais em PDF ou até mesmo a “lei seca”. Confesso que já faz tempo que não leio romances como aqueles que lia na época da escola, mas pretendo voltar a embarcar em viagens que me levem a outros mundos, se é que me entendem.



SOBRE O AUTOR:

Silas Oliveira Silva, de Itamarandiba/MG, é acadêmico da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Perspectivas Pessoais Sobre Letras e Números

Perspectivas Pessoais Sobre Letras e Números

Mateus Câmara Andrade, Montes Claros/MG

A religião sempre esteve muito presente no ambiente onde cresci. A família do meu pai é evangélica, enquanto a da minha mãe é majoritariamente católica. Essa influência fez com que textos religiosos fossem meu primeiro contato com as letras.

Logo nos primeiros anos de vida, aprendi que meu nome, com essa grafia específica, foi escolhido por ser a forma usada na Bíblia. Inúmeras vezes, em situações como:

— “O nome dele tem H?”

— “Não, é a forma bíblica”, respondia minha mãe.

Ao abrir a Bíblia, hinários e outros livros cristãos, eu não entendia nada do que estava vendo, mas, ainda assim, ali começava a se desenvolver minha curiosidade pela leitura. Aprendi a ler, escrever e fazer contas na escola, e ainda tenho lembranças vívidas dessa época. O processo começou no 2º período da educação infantil. Tia Ção, minha primeira professora, escrevia no quadro uma letra de cada vez e nos ensinava os movimentos que nossas mãos deveriam replicar para que cada traço fosse corretamente colocado no papel.

Entre as várias letras do alfabeto, meu ponto fraco era a letra “S”. Até hoje, lembro-me nitidamente, aos cinco anos, sendo o único da sala a receber uma folha completamente em branco, com a orientação de escrever quantos “S” fossem necessários até alcançar uma forma visualmente adequada.

Algo semelhante aconteceu nas aulas de Matemática: tia Ção não gostava que construíssemos o número “8” com uma bolinha em cima da outra. Pelo menos dessa vez, eu não estava sozinho; muitos colegas também receberam uma folha em branco para praticar a forma que ela desejava.

De maneira geral, a escola sempre me auxiliou muito, oferecendo um ambiente de aprendizagem que incluía o ensino de regras e padrões, avaliação do progresso, incentivo, apoio e intervenções. No meu entendimento, a escola cumpriu bem seu papel.

Com a evolução das habilidades de leitura, surgiu meu primeiro hobby: ler revistas em quadrinhos. Muitas vezes, meu pai chegava do trabalho trazendo um gibi do Pato Donald ou do Pateta. Eu o agradecia e recebia as revistas com um sorriso de orelha a orelha, pois eram minhas favoritas, graças ao estilo atrapalhado, aventureiro e de grande coração dos protagonistas.

De tempos em tempos, eu era levado a uma banca de jornais para escolher a próxima aventura literária e, em certa ocasião, descobri uma revista que marcou minha juventude: a Recreio. Incentivado pela minha mãe, que assinou a revista, eu mergulhava quinzenalmente em uma nova edição.

Durante esse período, comecei a me familiarizar com mais gêneros textuais, já que, além dos quadrinhos, a revista trazia reportagens, entrevistas, contos, propagandas e cartas. Por outro lado, o gosto pela escrita não acompanhou a intensidade do gosto pela leitura. Com o passar dos anos, percebi uma maior facilidade para construir textos objetivos e concisos, e uma dificuldade nos que exigem um estilo mais criativo, algo que atribuo à afinidade pessoal.

Curiosamente, meu interesse pela Matemática não se manifestou durante o Ensino Fundamental e Médio. Nessas etapas, era apenas mais uma das várias disciplinas que eu precisava estudar para ser aprovado.

Após fazer o ENEM, em uma época de muitas dúvidas sobre qual caminho seguir, escolhi e fui aprovado no curso de Engenharia Química, no qual estudei por alguns anos, mas não finalizei. Ainda assim, foi nessa fase da vida que despertei meu interesse pela Matemática, uma vez que todo o ferramental para a resolução de problemas, o pensamento lógico, a estrutura e as aplicações práticas me fascinaram.

Após um tempo fora do ambiente acadêmico, descobri, navegando pela internet, o processo seletivo da UFVJM para licenciatura em Matemática no formato EAD. Não pensei duas vezes e me inscrevi.

Meses se passaram, e foi com muita alegria que recebi a notícia da aprovação, vendo nisso uma grande oportunidade de aprofundar meus conhecimentos, desenvolver-me e me capacitar na área de meu interesse. Em certo momento do curso anterior, também fui motivado a aprender línguas estrangeiras. O que começou como uma busca por uma possível vantagem competitiva no mercado de trabalho se tornou um hobby que mantenho até hoje, com o inglês e o francês.

Nesse processo, adquiri o hábito de praticar imersão nessas línguas através da leitura, o que ajudou a internalizar estruturas e vocabulário. Além disso, escuto podcasts e assisto a vídeos produzidos por falantes nativos diariamente.

Como resultado, adquiri não só novos conhecimentos linguísticos, mas também aprendizados sobre culturas até então desconhecidas para mim. Isso me proporcionou uma nova forma de enxergar o mundo, mais compreensiva e tolerante. A sensação indescritível de poder me comunicar em outro idioma foi um marco significativo nesse processo.

Minha interação com letras e números, seja no aprendizado escolar, no trabalho, nas atividades cotidianas ou nos momentos de lazer, revela como esses símbolos são mais do que simples ferramentas de comunicação e cálculo. Eles moldam a maneira como penso, resolvo problemas e compreendo o mundo, sendo um aspecto fundamental da minha jornada pessoal e intelectual.



SOBRE O AUTOR:

Mateus Câmara Andrade, de Montes Claros/MG, é acadêmico da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Influência do Letramento na Matemática

Influência do Letramento na Matemática

Maria da Conceição Braz, Senador Modestino Gonçalves/MG

A convivência com a matemática, através do contexto das letras, só começou após minha entrada no primário. As condições eram limitadas, e o aprendizado se restringia quase exclusivamente ao ambiente escolar e aos materiais provenientes dele, como livros e revistas. A lembrança exata do início dessa convivência não é clara, mas o gosto pelos números é inconfundível. Minhas maiores notas e o empenho que mais se destacava eram sempre nas disciplinas de exatas!

Em casa, após aprender e absorver o conteúdo escolar, eu o aplicava nas coisas mais simples, como contar as laranjas, as dúzias de ovos, as galinhas no terreiro, e conferir o troco para minha mãe, entre outras tarefas. É importante ressaltar que, naquela época, principalmente na zona rural, a vida era muito mais difícil. Ter pais letrados era raro, e poder frequentar a escola era uma dádiva, já que essa oportunidade não estava disponível para a geração anterior.

A matemática vai além, muito além do ambiente escolar. Um exemplo disso é a venda de animais por peso, como o quilo ou arroba, entre outras formas de medição. As tarefas no meio rural exigem bastante conhecimento matemático: a proporção correta de fertilizante, a distância entre as covas de milho ou qualquer outra plantação, a quantidade exata de sementes a ser plantada, o tempo necessário para capina e colheita. Assim, a matemática sempre esteve presente em nossas vidas, mesmo que de forma inconsciente.

Pensando de uma maneira mais ampla, a escola exerce um papel fundamental como norteadora do aprendizado. Não faltavam esforços para incentivar o estudo, desde o Pré-escolar, com letras e frases curtas, até o Ensino Fundamental, com histórias em quadrinhos e poesias, e o Ensino Médio, com dissertações preparatórias para o ENEM e vestibulares.

Na escola onde cursei o Fundamental II e o Ensino Médio, a presença da biblioteca era constante no nosso cotidiano. A professora de português sempre nos incumbia de fazer fichas literárias e nos dava um prazo para ler um livro. Além disso, havia concursos de leitura que aconteciam na Educação Integral, da qual eu fazia parte.

É notável a perda do hábito de leitura após o Ensino Médio, especialmente para quem não ingressa imediatamente na faculdade. Depois que me formei, passei algum tempo sem ler, retomando esse hábito somente quando comecei a fazer cursos e, mais tarde, ingressei no Ensino Superior.

Os números, além de seu uso cotidiano e necessário, sempre estiveram presentes na minha vida. Eu os encontrava nas aulas de reforço que ministrava e nos trabalhos que tive, como na sorveteria e na loja de eletrodomésticos e roupas.

Com o trabalho e as tarefas diárias, acabo lendo apenas o que é necessário no momento, algo que quero melhorar, pois gosto muito de leitura, especialmente romances.

Em relação às finanças, sempre prestei atenção especial nas compras, especialmente quando se trata de juros e da análise do que vale a pena. Sempre controlo o quanto ganho e o quanto preciso gastar, principalmente quando falamos de parcelamento no cartão de crédito. Assim, podemos perceber o entrelaçamento entre o português e a matemática, afinal, a matemática não se resume apenas a números, mas também aos “produtos notáveis”.



SOBRE A AUTORA:

Maria da Conceição Braz, de Senador Modestino Gonçalves/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

As Letras Que Não Entendi

As Letras Que Não Entendi

Márcio Fernandes Rodrigues Júnior, Águas Formosas/MG

Desde pequeno, o mundo ao meu redor parecia um mistério vasto e impenetrável. Me lembro bem dos meus primeiros encontros com as letras, mas o entendimento sempre estava fora do meu alcance.

Quando criança, era comum ver bulas de medicamentos espalhadas pela casa, especialmente as da dipirona que minha mãe usava para nossas febres e as dores de cabeça do meu irmão. Eu as observava com curiosidade e frustração, sabendo que havia algo importante ali, mas as palavras pareciam um emaranhado de símbolos sem sentido, pois ainda não sabia ler.

Uma lembrança clara dessa época é a do meu irmão mais velho, sentado à mesa da cozinha com seus cadernos da escolinha. Ele parecia sempre tão imerso nas atividades, desenhando letras e formando palavras que eu não conseguia reconhecer ou decifrar. Observava-o com uma espécie de admiração silenciosa, desejando entender o que ele fazia. As letras eram como uma chave para um mundo que eu ainda não conseguia acessar.

Era tudo um grande mistério. A cada vez que via meu irmão fazendo suas atividades, sentia um anseio crescente dentro de mim para entender aquele código secreto que ele dominava. As letras pareciam dançar de forma confusa e evasiva, como se estivessem escondendo algo que eu estava desesperado para descobrir, e ao mesmo tempo me pareciam apenas um monte de rabiscos, círculos, espaços e números.

Essa sensação de impotência, no entanto, não me desmotivou. Pelo contrário, aumentou ainda mais meu desejo de aprender. Cada escrita que eu observava se tornava uma peça de um quebra-cabeça que eu precisava resolver.

A verdadeira virada aconteceu na pré-escola, quando tive minha primeira experiência prática com as letras e números. Com a ajuda da minha professora, usei o teclado do computador da escola e, pela primeira vez, consegui formar uma palavra. Essa palavra era o meu nome. Foi uma conquista grandiosa para mim, não apenas porque estava formando letras, mas porque estava criando algo com elas, algo que me pertencia.

A partir daí, entrei em uma fase de exploração e criação. Comecei a formar palavras com a ajuda da minha mãe, da professora e do meu irmão, desenhando letras com um entusiasmo renovado. No entanto, essa etapa trouxe novos desafios.

A maior dificuldade foi aprender a segurar o lápis corretamente. Minha coordenação motora, ainda em desenvolvimento, tornava essa tarefa bastante difícil. As letras que eu desenhava saíam tortas e desajeitadas, mas a frustração só me fazia tentar mais.

Minha mãe desempenhou um papel fundamental nesse processo. Em casa, ela me ajudou a aprender a segurar o lápis corretamente, com paciência e orientação. Essa prática constante, tanto em casa quanto na escola, foi necessária para aperfeiçoar minha caligrafia.

No entanto, havia um desafio adicional: enquanto eu me concentrava em melhorar minha escrita, também estava aprendendo a ler simultaneamente. Não me lembro se eu estava aprendendo cálculos nessa época, pois não tenho recordações claras disso.

A leitura, no início, era um campo particularmente complexo. Dividir sílabas, memorizar as letras do alfabeto, distinguir vogais de consoantes, tudo parecia um labirinto de dificuldades. Cada pequena tarefa exigia um esforço gigantesco.

A complexidade da leitura muitas vezes me fazia sentir como se eu estivesse lutando contra um mar de letras e sons que nunca se acalmava. Às vezes, eu não conseguia me concentrar e acabava fingindo que estava lendo e entendendo. Mas, pouco a pouco, o processo foi se tornando mais fácil. Logo, eu estava lendo tudo o que via na rua: placas, nomes de carros e motos. Em casa, lia os rodapés das notícias de jornal na TV, as caixas de medicamentos e as capas dos filmes que tínhamos.

A capacidade de ler o que estava ao meu redor trouxe uma nova dimensão ao meu cotidiano. Cada palavra, frase e título se tornava uma nova descoberta, uma pequena vitória na minha jornada de aprendizado.

Quando entrei no Ensino Fundamental, me senti confiante de que sabia ler. No entanto, essa confiança rapidamente foi substituída por novos desafios. Acentuar palavras e colocar pontuação nas frases pareciam tarefas ainda mais complicadas.

Eu tinha muita dificuldade em lembrar de algumas letras. Os acentos e as regras de pontuação, que eu pensava serem simples, se tornaram uma atividade chata e complexa. Cada texto parecia uma nova batalha, e a complexidade das regras gramaticais me fazia sentir como se estivesse começando tudo de novo.

Um momento particularmente marcante foi quando participei de um programa de incentivo à leitura e escrita na escola. Embora não me lembre do nome exato, recordo como funcionava: toda semana, um aluno era sorteado para levar um livro para casa, ler e fazer um resumo dos principais pontos das histórias, que eram contos infantis.

Junto com o livro, havia um caderno para registrar o resumo e um boneco de pano que acompanhava o livro de aluno para aluno, semana após semana. Um dos livros que li e resumi foi “A Raposa e as Uvas”. Esse programa foi uma forma divertida e envolvente de praticar minha leitura e escrita, e cada resumo feito era uma vitória especial.

A educação foi extremamente fundamental na minha vida. O conhecimento que obtive vale ouro, e, embora eu não consiga agradecer a todos os meus professores pessoalmente, sou imensamente grato. A cobrança, os “sermões” dos professores sobre ser responsável com as atividades, tudo isso foi fundamental para o meu desenvolvimento. Graças a eles, à minha mãe e ao meu irmão, estou aqui, cursando o Ensino Superior.

Para quem estiver lendo este texto, deixo um conselho: se você tiver a mesma oportunidade, através do seu esforço, não desista no meio do caminho. Boa sorte a você que está estudando na UFVJM. Eu acredito em você!

Esses momentos de dificuldade e conquista moldaram meu desenvolvimento. As letras, que antes me pareciam confusas e inatingíveis, começaram a ganhar forma e significado. A jornada de aprender a ler e escrever, com todos os desafios e triunfos, tornou-se uma das maiores aventuras da minha vida.

Esses primeiros passos me ensinaram que a perseverança e a curiosidade podem transformar qualquer dificuldade em uma oportunidade de crescimento. E, assim, as letras que antes eram um mistério se tornaram ferramentas com as quais posso explorar novas ideias e histórias.



SOBRE O AUTOR:

Márcio Fernandes Rodrigues Júnior, de Águas Formosas/MG, é acadêmico da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Minha História com os Livros e com os Números

Minha História com os Livros e com os Números

Liliane Lopes Barroso, Senador Modestino Gonçalves/MG

Eu nasci e cresci em uma comunidade rural. Sempre gostei de ler e estudar, mas o acesso a livros e textos escritos era muito limitado. Livros eram raros e caros, e a maioria das pessoas era analfabeta. Na zona rural as informações eram transmitidas oralmente, através de histórias, lendas e canções contadas e cantadas pelos moradores da comunidade. Só tive acesso à internet já na adolescência e lia livros na biblioteca da escola onde estudava.

O contato com a leitura na minha infância era restrito à escola, onde os livros didáticos e algumas coleções da biblioteca eram as principais fontes de leitura. Apesar do acesso limitado a livros, revistas e gibis, tive uma professora de português que sempre me incentivava a ler e frequentemente me emprestava livros. Eu os levava para casa, lia e depois devolvia. 

Embora meu pai fosse analfabeto, ele sempre foi excelente com as contas e nos dizia que, para ser alguém, era essencial saber fazer cálculos. Ficava impressionada com o fato de ele conhecer tão bem os números, mesmo assinando mal o próprio nome. Com ele, tive meus primeiros contatos com números; aprendi a contar nos dedos e a entender o valor das coisas, como comprar e pagar.

Quando entrei na escola, ainda nos anos iniciais, não tive muita dificuldade com números. Sempre me dei bem com adição e subtração, mas, com o tempo, as contas se tornaram mais complexas. A escola oferece um ambiente social rico, onde as crianças podem discutir ideias, colaborar com os colegas e aprender umas com as outras. Pais e familiares servem como modelos, mostrando como a matemática está presente em diversas situações do dia a dia.

Comecei a frequentar a escola aos sete anos de idade, pois não havia creche onde eu morava e, como meu aniversário é em julho, só pude entrar na escola nessa idade. Aprendi as primeiras letras com minha primeira professora, a Sra. Lúcia, de quem gostava muito. Lembro que os textos de que mais gostava eram as fábulas, mas éramos pouco incentivados a escrever. Mesmo assim, a escola teve um papel essencial no meu letramento.

No Ensino Fundamental I, ainda na escola da zona rural, as fábulas sempre me chamavam a atenção, especialmente aquelas com personagens animais que deixavam uma moral ou lição de vida. Um livro que nunca esquecerei é “A Formiguinha e a Neve”, que ensinava que “não adianta pedir nada aos vivos se não houver moeda de troca”. No Ensino Fundamental II, já em outra escola, em Itamarandiba, tive mais acesso a livros, pois havia uma biblioteca com mais opções. Lá, éramos mais incentivados a ler. Lembro-me de que os professores nos davam tarefas para levar um livro para casa, ler e fazer um resumo. Também íamos à Biblioteca Municipal para fazer trabalhos em grupo, já que não tínhamos acesso à internet. No Ensino Médio, na mesma escola, uma coleção de livros que me marcou foi “Crepúsculo”. Li toda a série e me perdi na história.

Inicialmente, a leitura e a escrita eram atividades obrigatórias na escola. Com o tempo, descobri o prazer de me perder em uma boa história e de aprender coisas novas através dos livros. Minha relação com a leitura, a escrita e a matemática evoluíram ao longo do tempo, influenciada por diversos fatores, como a escola, a família, as experiências de vida e os interesses pessoais. A escola desempenhou um papel fundamental na minha formação, mas minha relação com o conhecimento também foi moldada por fatores externos ao ambiente escolar. Acredito que poderia ter aprendido mais sobre conteúdos matemáticos na escola básica, e isso será um grande desafio para mim. No entanto, sempre tive a vontade de me aprofundar e conhecer melhor esse universo.

A faculdade tem me desafiado a pensar de forma mais crítica e a me tornar uma leitora e escritora mais competente. Estou aprendendo a pesquisar, analisar informações e expressar minhas ideias. A carga de leitura é bem maior e exige mais tempo e dedicação. Às vezes, sinto dificuldade em encontrar tempo para tudo o que preciso ler e escrever.

Apesar de todos os desafios e limitações que enfrentei ao longo da minha trajetória, minha persistência e dedicação me permitiram superar obstáculos e aprender cada vez mais. A leitura, a escrita e os números se tornaram parte essencial da minha vida, moldando minha forma de pensar e agir. A busca pelo conhecimento e pela superação de limites é uma jornada constante, que me motiva a seguir em frente e continuar aprendendo, sempre em busca de novos desafios e horizontes.



SOBRE A AUTORA:

Liliane Lopes Barroso, de Senador Modestino Gonçalves/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Meu Caderno do Menino Maluquinho

Meu Caderno do Menino Maluquinho

Kênia Lopes Almeida, Turmalina/MG

Vivemos em um mundo onde a correria do dia a dia nos leva a terceirizar algumas atividades rotineiras, e isso também se aplica ao acompanhamento de nossas crianças em tarefas simples. Na minha família não foi, e não é, diferente. Tenho 36 anos e venho de uma família humilde, com pouco conhecimento escolar. Sou filha de um pintor e de uma copeira, ambos com o ensino fundamental. Em casa, não havia muita didática de leitura; o máximo que eu tinha à disposição era um caderno e um lápis para rabiscar, o que, por sinal, era muito divertido.

Minha vivência na creche começou aos 6 meses de idade, no ano de 1988, em Belo Horizonte – MG, na Creche Comunitária Vila Piratininga, que foi o braço direito dos meus pais na minha educação e alfabetização. Lá, eu passava a maior parte do meu dia, na verdade, o dia todo. A creche me proporcionou meu primeiro contato com livros de historinhas infantis, cantigas de roda e brincadeiras. Sempre havia releituras de histórias, de várias formas, até mesmo com fantoches e teatros. A brinquedoteca era o melhor momento; lá, havia brinquedos educativos e livros, onde podíamos ser “livres” para escolher e expressar o que desejássemos.

As atividades em sala de aula envolviam trabalhinhos feitos com tintas, feijões, retalhos e bolinhas de papel crepom. Usávamos muita criatividade, papel e cola, mas o tão sonhado caderno ainda não fazia parte da rotina. As cuidadoras da creche eram muito carinhosas, e foi nesse ambiente de cuidado que eu cresci, criando vínculos, memórias afetivas e momentos importantes para a minha vida pessoal, educacional e profissional. Foi nesse ambiente que iniciei minha escrita.  Na creche, antes mesmo do “prezinho” (pré-escolar), fui apresentada às primeiras letras, especialmente o “K”, com o qual se inicia meu nome, que foi, inclusive, bem difícil de aprender.

Em 1993, na mesma creche, iniciei o prezinho e chegou o grande momento de receber meu primeiro caderno, doado pela instituição. Era um caderno brochura com a capa do Menino Maluquinho. Eu não o levava para casa, mas agora as atividades não eram mais feitas em folhas avulsas, e sim no meu caderno, que meu pai fez questão de guardar e que tenho até hoje.

Os desafios agora eram novos. Eu precisava aprender a escrever meu nome completo até o final do ano para assinar meu primeiro diploma. Comecei a aprender o alfabeto completo e os números. Ah, os números! Eles conquistaram meu coração desde o início, com as continhas básicas. O prezinho foi um período muito marcante para mim. A professora Elaine era muito paciente, e pude aprender bastante com ela durante todo o ano. Considero que tive um bom preparo para ingressar no Ensino Fundamental. Fiz amizades que perduram até hoje.

No final do ano do prezinho, recebi o tão sonhado diploma da Branca de Neve, que também tenho até hoje. No entanto, guardo certo ressentimento porque a secretaria insistiu para que eu acrescentasse o “de” ao meu sobrenome, e assim assinei o diploma de forma errada. Por outro lado, tenho uma linda lembrança da minha formatura e do desejo de frequentar a escola.

O ano era 1994: uniforme novo, escola nova. Agora, além de um caderno, eu tinha uma mochila, uma bolsinha e até uma lancheira. Quanta novidade! Ingressei na Escola Estadual Carmo Giffonni e fui acolhida pela professora Bernadete, uma mulher evangélica, muito carismática, mas rígida em suas cobranças.

Nesse período, comecei a gostar mais de matemática; o português nunca foi meu forte. Eu chegava em casa e, por diversão, escrevia os números até onde conseguia. Fazia competições com minhas primas, enchendo folhas e folhas com números. Quando o assunto era a escrita, eu precisava melhorar minha letra. Na tentativa de ajudar, meus pais compraram um caderno de caligrafia, mas foi em vão, pois minha letra continua um desastre.

A primeira série me trouxe experiências que, até hoje, ao lembrar, me remetem às emoções daquela época. Posso citar o tão temido “ditado”, que, quando anunciado pela professora, me fazia tremer e quase chorar, pois eu sabia que a escrita era meu ponto fraco. Porém, eu sentia uma alegria imensa quando a professora nos pedia para estudar a tabuada.

Na escola em que estudava, só passava de ano quem fizesse uma boa leitura na secretaria. Apesar de minha escrita não ser das melhores, minha leitura sempre foi considerada boa, e minhas notas também eram boas. Assim, passar de ano nunca foi difícil para mim. Durante quatro anos, estive na mesma escola, estudando de manhã e frequentando a creche à tarde, onde havia apoio para as tarefas de casa e outras atividades para reforçar o aprendizado.

As séries iniciais me proporcionaram uma base escolar muito rica. Lembro-me das pesquisas feitas em bibliotecas, das reuniões com colegas para montar cartazes que seriam apresentados em sala de aula e dos trabalhos escritos, que geralmente eram feitos com a enciclopédia da Barsa.

Com o fim da quarta série (atual quinto ano), uma nova mudança se aproximava: o ingresso na quinta série, em outra escola, com mais disciplinas e mais professores. Nesse período, também fui informada de que teria que deixar a creche, pois não havia mais verba para manter os alunos até os 18 anos, como antes. Isso me abalou bastante, pois a creche havia sido meu apoio durante toda a minha vida escolar.

A escola em que comecei a quinta série não era a melhor da região, e não tenho muitas lembranças desse período, pois minha família se mudou para Montes Claros – MG, onde concluí a quinta série. Devido à mudança, foi um ano em que, apesar de tirar boas notas e ser aprovada para a sexta série, não adquiri muito conhecimento.

Ao retornar para Belo Horizonte – MG, fui matriculada em outra escola, onde cursei a sexta e a sétima séries. Reencontrei colegas da creche e conheci o professor de matemática, Ercílio, que foi mais um dos responsáveis por me apaixonar pela matéria. Era encantador como ele apresentava os conteúdos e fazia com que toda a turma os absorvesse.

Com o Ensino Fundamental concluído, ingressei no Ensino Médio. A imaturidade da adolescência fez com que eu não me preocupasse tanto em aprender, e sim em apenas passar de ano. Embora eu tenha tido boas notas e um bom desempenho, não considero que tenha absorvido muito conteúdo, especialmente em matérias como química, biologia e física.

O último ano do Ensino Médio foi um período muito difícil, em que tive que lidar com a depressão. Cheguei a um ponto crítico, ficando de cama, sem conseguir tomar banho e até tentando contra minha própria vida. Em meio a esse caos da depressão, consegui concluir os estudos, mas me vi sem rumo e sem expectativas. Diante da situação, meus pais sugeriram que eu fosse morar em Montes Claros – MG para tentar o vestibular.

Ao me mudar, comecei a fazer cursinho e me deparei com a decisão mais difícil: qual curso escolher? Após muitas pesquisas, decidi tentar o vestibular para Economia e Administração na Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES), mas não passei.

Isso me desmotivou, mas resolvi tentar novamente, e a vitória veio; fui aprovada em Economia, com 17 anos, para ingressar no início de 2007. A aprovação significava muito para mim e para minha família, pois eu seria a primeira da família da minha mãe a entrar em uma faculdade, o que era um peso imensurável.

O ingresso na faculdade, além de me tirar da depressão, ampliou meus horizontes de conhecimento. Aprendi a estudar com seriedade e a desenvolver leituras críticas. Tive a oportunidade de participar da iniciação científica, o que ampliou ainda mais minha compreensão de textos acadêmicos e me permitiu publicar artigos.

Formei-me em Economia em 2010, aos 21 anos, e entrei no mercado de trabalho, embora não diretamente na minha área. Há dois anos, aos 34 anos, tornei-me mãe de gêmeos e tenho um enteado de 9 anos, o que me demanda muito tempo.

Afastei-me do mercado de trabalho e atualmente estou cursando Matemática pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), buscando me reencontrar, pois estudar é algo que me satisfaz e me faz sentir viva.

Hoje, ao olhar para o meu caderno do Menino Maluquinho, vejo que ali foi apenas o começo, um começo que não precisa ter fim enquanto eu existir.



SOBRE A AUTORA:

Kênia Lopes Almeida, de Turmalina/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

História da Minha Vida: Memórias e Lembranças

História da Minha Vida: Memórias e Lembranças

Isaias Teixeira dos Santos, Salinas/MG

Para contar a minha história, alguns momentos precisam ser destacados. Sempre fui e continuo sendo uma pessoa muito feliz, e todos os ensinamentos que recebi ao longo da minha jornada me moldaram ao que sou hoje. Me lembro dos livros e histórias em quadrinhos que eu lia. Venho de uma família simples e humilde. Não comprávamos muitos livros, mas sempre tive acesso a eles através da escola.

Quando criança, frequentava muito a feira da cidade, que reunia pessoas do município e da região. Alguns iam à feira para comprar verduras, frutas e carnes, enquanto outros frequentavam os bancos, lotéricas e lojas, onde havia panfletos, jornais ou revistas.

Na feira eu observava as pessoas lendo, escrevendo ou manuseando esses papéis e documentos, sempre curioso para saber o que estava escrito.

Ainda criança e adolescente, ganhei diversos gibis, quebra-cabeças e livros. Eu adorava, pois isso despertava minha curiosidade sobre o que estava escrito. Não me lembro da primeira vez que ganhei algo assim.

Lembro-me de uma ocasião em que fui à feira pela manhã e fiquei próximo a uma banca de revistas e jornais. O senhor que vendia ali percebeu meu interesse em uma revista em quadrinhos (gibi) e acabou me presenteando com ela. Saí rapidamente daquele lugar para ir a uma praça próxima e começar a ler. Foi um dia muito feliz. A gentileza daquele senhor, junto ao fato de que eu queria muito ler aquela revista, tornou o momento inesquecível.

Na feira, também compreendi outras coisas. Minha mãe sempre me levava, e por isso aprendi a fazer contas simples, como dar troco e calcular o preço de frutas, verduras e carnes.

Quando comecei a frequentar a escola, já tinha uma noção básica de números, o que facilitou meu aprendizado. O contato com o dinheiro me ajudou a entender valores e trocas, sendo essa uma das primeiras formas de interação que tive com contas e números.

Na escola, aprendi rapidamente a somar e subtrair, pois minha mãe já havia me ensinado um pouco, a professora reforçou o conteúdo. Eu sempre fui uma criança ativa e curiosa, com facilidade para assimilar contas, palavras e conteúdos.

Eu era muito brincalhão; isso, às vezes, atrapalhava meu próprio aprendizado, o que me causou certa dificuldade em resolver problemas matemáticos. Mas, com o tempo e dedicação, superei esses obstáculos.

A influência na escola e na minha família foi importante nos meus primeiros passos, no aprendizado de matemática, contribuindo significativamente para meu progresso. Graças a esses dois pilares, consegui aprimorar minhas habilidades cognitivas, emocionais, sociais e culturais, o que foi fundamental para meu crescimento pessoal.

Antes mesmo de começar a jornada escolar, já sabia escrever meu nome, algo que minha mãe me ensinou. Minha letra não era das melhores, mas eu conhecia algumas letras do alfabeto. Não lembro quantos anos eu tinha na época que aprendi a escrever meu nome, mas foi uma experiência maravilhosa, por estar junto da minha mãe.

Nos primeiros anos escolares, a escrita foi um caminho cheio de descobertas. A prática começou com o domínio do alfabeto e evoluiu para a formação de palavras básicas. O entusiasmo e a dedicação da professora foram essenciais para o desenvolvimento da minha habilidade de escrever. Ela, junto com minha família, me deu o apoio necessário para desenvolver confiança.

Lembro de escrever textos com base em canções que conhecíamos, como “A canoa virou”, “O sapo não lava o pé”, “Se essa rua fosse minha” e “O cravo brigou com a rosa”, entre outras. Eram canções que adorávamos e que a professora nos ensinava.

Minha relação com a escrita nos primeiros anos escolares foi fascinante, pois descobri muitas novas palavras, letras e números. A escola desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento da minha coordenação motora e na construção de uma base sólida para minha alfabetização, além de despertar em mim o prazer pela leitura e pela escrita.

Durante o Ensino Fundamental I, um dos livros que mais me marcou foi Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, com ilustrações vibrantes de Ziraldo. O livro conta a história de uma garotinha que supera seus medos, e a narrativa descreve como ela, que no início temia tudo, inclusive o Lobo, termina a história enfrentando seus medos com coragem. Esse livro encantador me marcou profundamente.

No Ensino Fundamental II, tive a oportunidade de ler diversos textos igualmente simples e cativantes. Um dos livros que me marcou foi O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. A obra aborda temas como amizade, amor, solidão e a busca pelo verdadeiro significado da vida. A leitura desse clássico me emocionou muito.

No Ensino Médio, li uma versão adaptada de Os Miseráveis, de Victor Hugo. Esta obra aborda questões de justiça, misericórdia e as desigualdades sociais na França, centrada na trajetória de Jean Valjean. A profundidade da crítica social e humana desse livro me impactou, especialmente ao mostrar as injustiças enfrentadas pelas classes mais pobres. Essa leitura, assim como outras, teve grande influência em minha formação cultural e social.

Ao longo dos anos, percebi meu amadurecimento na leitura e na escrita. A prática constante desses hábitos foi essencial para meu desenvolvimento intelectual. Minha curiosidade pessoal sempre me motivou a entender melhor o mundo à minha volta, tanto nas dimensões sociais quanto culturais e econômicas.

Durante a universidade, meu hábito de leitura se intensificou. Embora tenha encontrado dificuldades no início com textos acadêmicos, hoje me sinto mais confortável, especialmente ao ler sobre movimentos sociais, Educação do Campo e políticas públicas educacionais.

Sinto falta de conteúdos mais práticos de língua e matemática, principalmente em relação aos desafios econômicos e burocráticos que envolvem números e letras, como a declaração de imposto de renda e o entendimento de movimentações bancárias. Para superar essas lacunas, busquei cursos que me ajudaram nessas questões.



SOBRE O AUTOR:

Isaias Teixeira dos Santos, de Salinas/MG, é acadêmico da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Minha História Como Estudante

Minha História Como Estudante

Ione Pereira Coelho Marques, Grão Mongol/MG

Olá! Meu nome é Ione Pereira Coelho Marques, e moro na cidade de Grão Mogol. Sempre fui estudante de escola pública, e meu primeiro contato com a escrita foi aos seis anos de idade, na primeira série, como era chamada na época. Sempre fui uma criança que gostava muito de ir à escola e de estudar. Quando era pequena, eu contava os dias para começar as aulas.

Desde a infância, no momento em que iniciei os estudos, sempre tive dificuldades para ir à escola, pois morava na zona rural e, na época, não havia transporte escolar. Então, eu ia a pé para a escola, mas isso não fez com que eu desistisse dos estudos, pois sempre fui uma criança dedicada.

Quando criança, sempre gostei de ler contos de fadas, histórias em quadrinhos, entre outros gêneros. Isso serviu como incentivo para que eu começasse a aprender a ler. O período da escola foi a melhor parte da minha infância e adolescência.

Comecei a estudar na quinta série, e a partir desse período surgiram dificuldades para mim, pois tínhamos vários obstáculos para chegar à escola, enfrentávamos horas de viagem em um ônibus, chuvas, temporais e vários outros contratempos.

Isso, porém, não me fez desistir dos estudos, pois eles são essenciais para o desenvolvimento de qualquer pessoa. A alfabetização abre portas e permite que uma pessoa conquiste o mundo ao seu redor. A leitura e a escrita são processos fundamentais de aprendizado.

Foi por meio dos livros, como Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve e A Bela Adormecida, que me encantei pelos contos de fadas. Eu imaginava como seriam fascinantes essas histórias e os quadrinhos.

Aprendi a ler e a escrever com a ajuda de meu professor, que segurava minha mão e me ensinava as letras do alfabeto, as vogais, as consoantes, e o método silábico de alfabetização. Com o passar do tempo, ingressei no Ensino Médio, onde havia muitos professores, matérias diferentes e horários variados. No início, estranhei essa nova rotina, mas logo me acostumei.

As aulas tinham 50 minutos de duração, e, no começo, tive dificuldades, principalmente por não estar habituada a escrever tanto em um único dia. Porém, com o tempo, me adaptei e passei a gostar cada vez mais do ambiente escolar, mesmo sendo uma escola pública, com turmas lotadas de mais de 50 alunos.

Minha matéria preferida sempre foi História, e eu me destacava nessa disciplina, obtendo notas excelentes. Embora as outras matérias também fossem interessantes, tive dificuldades em Matemática e Química, pois os professores não explicavam bem e não revisavam o conteúdo adequadamente. Pareciam dar mais atenção apenas a alguns alunos.

Apesar de vários desafios, consegui tirar boas notas em todos os bimestres do Ensino Médio e nunca pensei em desistir dos estudos. Escolhi cursar Matemática na faculdade por minha vontade de aprender e pela crença de que a educação é a chave para transformar o mundo. A educação tem o poder de mudar vidas.



SOBRE A AUTORA:

Ione Pereira Coelho Marques, de Grão Mongol/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Memórias e Realizações

Memórias e Realizações

Flaviane Barbosa Sena, Rubim/MG

Quando criança, antes de frequentar a escola, era comum ver textos em minha casa, pois meus irmãos já frequentavam a escola. Minha mãe tinha um caderno de receitas, um livro de plantas medicinais e alguns livros e dicionários antigos. Ela sempre lia a Bíblia e frequentava os cultos ou a missa na comunidade aos domingos. Com a escrita, ela fazia lista de alimentos que faltavam para o meu pai trazer do mercado, além de escrever algumas receitas. Eu sempre observava.

Aos cinco anos, comecei a frequentar o pré-escolar com meu irmão, que na época tinha seis anos. Fazíamos cirandinha para ajudar na coordenação motora. No ano seguinte não teve o pré-escolar e eu não tinha idade para entrar no primeiro ano. Sem a escola, fiquei muito triste e sempre reclamava quando os meus irmãos iam pra escola, pois eu não podia mais ir e ficava com minha mãe em casa.

Aos sete anos, ganhei da minha tia Gislene um livro que não me lembro exatamente o nome, mas era algo tipo O Circo do Palhaço Pipoca. No início, observava as imagens: um menininho com dois cachorrinhos equilibrando-se em uma bola. Quando aprendi a ler, sempre lia esse livro e gostava muito, mas cresci e não me lembro do seu paradeiro. Já pesquisei na internet tentando encontrar, mas não tive sucesso. Por isso, imagino que o nome esteja errado.

Lembro que meu irmão tinha um quebra-cabeças que, quando nossa mãe permitia, nos reuníamos pra montá-lo. Ouvia músicas através do “toca-discos”, que tocava discos de vinil, e rádio. Todas as noites, o meu pai ligava o rádio pra ouvir A Voz do Brasil e, de madrugada, ao acordar, ligava o rádio novamente e estava sempre bem-informado.

Aprendi a contar e a escrever na escola. Tenho lembrança de que a professora havia passado alguns probleminhas pra serem resolvidos, e ela sempre pedia pra irmos ao quadro. Meus colegas “mais velhos” já sabiam resolver e elaborar a resposta. Eu, incentivada ao ver meus colegas, fui fazer igual. Eu sabia fazer a conta, mas não sabia elaborar a resposta como se devia; quando escrevi a minha resposta do problema no quadro, e não tinha nada a ver, todos riram de mim.

Desde pequena, sempre via o meu pai pagar as pessoas pelos serviços prestados na roça, como colheita, capinas etc. Assim, sabia que o dinheiro tinha importância, mas não entendia isso completamente. Quando era pequena, a moeda era o Cruzeiro, e até hoje não entendo muito sobre ela. Quando tinha 11 anos, houve a troca da moeda e, por um tempo, passou pra Cruzado e depois pra Cruzado Novo, voltou a ser Cruzeiro e, só depois, passou a ser Real. Lembro-me também que as pessoas demoraram a compreender o “real valor” do Real.

Durante a minha vida escolar, tive um bom desempenho na escrita, leitura e cálculos. Não era a melhor aluna da classe, mas não era aquela com maiores dificuldades. Sabia da importância de me dedicar aos estudos, pois sempre ouvia meus pais e professores me incentivando. A família foi fundamental no incentivo, cuidado e apoio, pois minha mãe tinha o cuidado de fazer o almoço mais cedo, quando eu estudava à tarde, ou se levantar bem cedinho pra preparar o café, quando eu estudava pela manhã. A nossa roupa sempre estava limpinha pra irmos pra escola, mesmo que fosse sempre a mesma roupinha. Lembro-me que alguns dos meus colegas não deram sequência aos estudos por falta de apoio e cuidado dos pais.

Mudei de escola quando estava na terceira série e, na nova escola, tinha biblioteca, mas eu era muito tímida e não me atrevi a conhecê-la. Na quinta série, mudei pra outra escola, onde permaneci até o ensino médio. Com o tempo, fiz amizades e, a partir daí, comecei a ir à biblioteca da escola e pegar livros pra ler aleatoriamente. Outros, a professora de literatura indicava. Mas não tinha muito tempo pra leitura, pois tinha que ajudar meus pais com as tarefas na roça.

Quando cursava o ensino médio, ouvia sempre os professores e colegas falando em fazer vestibular. Então, eu ficava imaginando terminar o ensino médio pra fazer um curso superior; queria muito ter uma formação. Ao concluir o ensino médio, não consegui ingressar na faculdade imediatamente. Tentei o vestibular e fiz o Enem, mas não consegui naquela época, devido à distância e às condições financeiras, apesar do meu desejo. Apenas seis anos depois surgiu a oportunidade. Então, cursei Licenciatura em Biologia pela FTC EaD. Tive várias dificuldades, mas foi muito gratificante concluir o curso. Atualmente, estou cursando uma pós-graduação pelo IFES; falta apenas concluir o Trabalho Final de Curso. E recentemente ingressei no curso de Química pela UFVJM. São muitos os obstáculos; é preciso muita dedicação, organização e esforço pra conseguir estudar e fazer as leituras necessárias.

Procuro incentivar meus filhos na leitura e na escrita, pois sei da importância delas em nossas vidas. Meu filho, hoje com 20 anos, está cursando o segundo período do curso de Direito, e minha filha, com 13 anos e no Ensino Fundamental II, escreveu seu próprio livro com o incentivo da professora de português e da escola, e está trabalhando no segundo. É muito gratificante estar vivendo tudo isso.



SOBRE A AUTORA:

Flaviane Barbosa Sena, de Rubim/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Vida Estudantil

Vida Estudantil

Flaviana Moreira da Silva, Turmalina/MG

Morava em uma comunidade rural com meus familiares (pai, mãe e meus dois irmãos). Era uma grota sombria, longe do barulho da cidade; isso foi há quase 30 anos.  Naquele lugar, tudo era muito difícil. Livros, revistas e jornais eu jamais tinha visto ou pegado, apenas ouvia falar. Tínhamos um rádio a pilha onde ouvíamos “Zé Betio” falar. Ah, que saudade daquele “boa noite” do “Zé Betio” que eu tanto amava escutar!

Comecei a escrever e ler somente a partir dos sete anos, quando comecei a frequentar a escola. Tenho lembranças da escola apenas dos poucos rabiscos que o professor sempre apagava, porque a escrita estava sempre errada. Mas o cheiro do pó da borracha emaranhado ao perfume do professor nunca saiu da minha memória.

Antes dos sete anos, quando iniciei a vida escolar, nunca tinha pegado um lápis, caderno e afins. Como eu era a mais velha dos irmãos e meus pais não liam, infelizmente não havia nada em casa com o qual eu pudesse ter contato com esse tipo de material.

Após completar os sete anos, vieram o medo e a insegurança, mas, ao mesmo tempo, muita alegria, porque iria estudar. Logo, meu pai e eu fomos à procura de materiais escolares para o ano letivo.

No mês de fevereiro, a aula inicia, e um frio na barriga me consome. Eu, uma criança fina (magrela), caminhava 5 km para poder estudar.

No primeiro dia de aula, o professor estava todo contente, enquanto os alunos estavam desconfiados. Logo vejo os numerais, AEIOU e, em seguida, o alfabeto. O que era aquilo que ele falava e mostrava? Entrava em um ouvido e saía pelo outro. Com muita dificuldade, custava sair um A. O professor, sempre muito paciente, estava disposto a auxiliar.

O primeiro ano escolar foi tudo muito difícil, sem acesso a nada (livros, revistas, TV); inclusive, não tínhamos energia elétrica. Como foi difícil! Mas, com a determinação do professor em lecionar com extrema sabedoria, conseguimos concluir o primeiro ano.

Penso que, sem a ajuda da escola e do professor, eu hoje não seria nada. A escola foi e sempre será uma peça fundamental na minha vida de estudante.

Lá no início, quando ainda era criança, não via muito sentido em estudar, ler e escrever. Mas agora, como estudante universitária, sinto muito prazer nos estudos. Pegar um livro para ler e, em apenas três dias, ter lido tudo foi uma verdadeira virada de chave na minha vida.

A leitura me ajuda muito na concentração e me desvia das redes sociais por longos períodos. Isso me afasta um pouco de estar mais presente com os amigos, mas amo o que faço e faço por amor.

O ensino médio me abriu portas onde jamais imaginei chegar. O ensino médio é o início de um grande sonho: a tão sonhada faculdade. Sinto-me hoje muito feliz e honrada por tudo que estou trilhando. Sigo o caminho do sucesso; o futuro é logo ali.



SOBRE A AUTORA:

Flaviana Moreira da Silva, de Turmalina/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Minhas Memórias Escolares

Minhas Memórias Escolares

Edilson José da Costa, Santa Cruz de Salinas/MG

Eu não tinha muito acesso a textos escritos em casa, pois moro na zona rural desde pequeno, e nem na cidade mais próxima havia esse acesso. Mas, graças a Deus, eu tinha alguns livros bem antigos que pertenciam aos meus avós. Gostava muito de pegá-los para ler e ver as imagens, que sempre chamavam minha atenção. Me lembro de que, antes mesmo de frequentar a escola, via meus primos e irmãos fazendo as atividades dos livros que os professores passavam para fazerem em casa. Eu ficava só observando, morrendo de vontade de pegar os livros para ler o que eles estavam copiando, mas, infelizmente, ainda não sabia ler nem escrever. Me lembro de que pegava o lápis e tentava desenhar, porém o que eu queria mesmo era frequentar a escola para aprender a ler e escrever o quanto antes.

Quando era criança, ganhei uns quebra-cabeças e ficava quase o dia inteiro tentando montá-los; era uma diversão enorme para mim, pois, antigamente, era a coisa mais rara de se ganhar. Esses quebra-cabeças me ajudaram muito no aprendizado e desenvolvimento como criança. Me lembro também de ter ganhado uns dominós que me ajudaram bastante; aprendi a contar antes mesmo de ir para a escola. Tenho lembranças que usava caroços de feijão e de milho e ficava os contando. Só que eu sabia contar só até cem; daí para frente, não sabia mais contar. Quando entrei na escola, consegui contar mais de cem.

Comecei a reconhecer o dinheiro só depois que entrei na escola, pois não tinha muito contato com ele, já que venho de uma família humilde, que passava por muitas privações. Só depois que entrei na escola fui tendo os meus primeiros contatos com o dinheiro. Me lembro que, na escola onde estudava, morava uma mulher pertinho dali que fazia geladinhos para vender, e me dava uma vontade enorme de comprar, mas eu não tinha dinheiro. Quando chegava em casa, eu falava para meus pais que havia essa mulher e, quando sobravam umas moedas, eles me davam para comprar os geladinhos que eu sempre desejava. Assim, fui tendo meus primeiros contatos com o dinheiro e fui aprendendo a reconhecê-lo também.

Me lembro que aprendi a contar usando caroços de feijão antes de ir para a escola. Eu tinha muita vontade de fazer contas, mas não sabia nem por onde começar; só fui aprender mesmo depois que entrei na escola e cada vez mais ao resolver problemas matemáticos. Desde criança, tenho facilidade com a matemática, mesmo com tantas dificuldades e sem aprender todas as matérias que queria muito ter aprendido. Porém, os professores nunca passavam a matéria toda; sempre ficava faltando.

A escola onde estudei teve um papel muito importante no meu aprendizado e nos letramentos matemáticos. Tive a grande sorte de ter um professor muito experiente, que, além de ser professor, era um grande amigo. Minha família não teve esse papel importante no meu aprendizado nos letramentos matemáticos, mas não por culpa deles; meus pais eram analfabetos, e o restante da família não tinha muito estudo naquela época.

Desde os cinco anos de idade, já gostava de ter contato com lápis e canetas. Me recordo que tentava desenhar no caderno e só fazia rabiscos, pois não conseguia desenhar. Antes de entrar na escola, só sabia fazer meu nome e contar até cem. Minha relação com a escrita nos primeiros anos da escola não foi muito boa. Quando entrei na escola, faltava muito material para os alunos estudarem; eu mesmo tinha que dividir um livro com quatro colegas para poder ler e responder às atividades, pois não havia livros suficientes para todos os alunos. Me lembro de que meu professor me colocava para ler e escrever bastante, a fim de melhorar minha escrita e leitura. Depois, surgiu o quadro na minha escola, pois até então não havia. Isso me ajudou muito, pois tornou o processo de aprendizado mais fácil, permitindo que eu melhorasse ainda mais na leitura e na escrita.

Eu gostava muito de escrever e ler poemas, além de contos folclóricos que o professor me pedia para copiar do livro. Além disso, ele pedia que eu perguntasse à minha família sobre algum conto folclórico brasileiro que conhecessem, para que eu o escrevesse no caderno e, posteriormente, lesse para todos os colegas da sala. O papel da escola nos meus letramentos iniciais foi fundamental, apesar das diversas dificuldades que a instituição enfrentava, como a frequente falta de material.

Mesmo com as dificuldades, a escola sempre se esforçava ao máximo para nos ensinar tudo o que precisávamos aprender. Na época em que comecei a estudar, meu professor morava muito longe e precisava ir a cavalo, já que naquele tempo poucas pessoas tinham acesso a algum meio de transporte. Eu gostava muito de ler histórias em quadrinhos, lendas do folclore brasileiro e poemas. Quando comecei a estudar, adorava produzir poemas, especialmente aqueles com rimas engraçadas.

Ao mudar de escola, tudo se transformou para mim. Havia mais professores, as matérias eram bem mais difíceis, e, no início, enfrentei muita dificuldade. Minhas notas no primeiro bimestre foram praticamente todas ruins. Apenas a partir do segundo bimestre, as notas começaram a melhorar um pouco, e eu sempre me destacava em matemática, a matéria de que mais gostava.

No ensino médio, tive dificuldades similares, pois foram acrescentados mais matérias e professores. Assim como no ensino fundamental, minhas notas do primeiro bimestre não foram boas. Somente no segundo bimestre, após me adaptar melhor, elas começaram a melhorar.

Na minha primeira escola não havia biblioteca; só fui ter contato com uma biblioteca depois que entrei na segunda escola. Meus professores me pediam para frequentar a biblioteca, e eu aproveitava os horários vagos, ou então a hora do recreio, para ler um livro e fazer uma visita. Quando estudava na primeira escola, nos anos iniciais, cometia muitos erros de escrita e tinha certa dificuldade para formar frases longas. O pior é que meu professor não chamava a atenção para esses erros que eu cometia naquela época. Ao mudar de escola, minha escrita e leitura evoluíram bastante, e, a cada ano, eu aprendia mais a escrever e ler corretamente. Hoje, não tenho mais aquelas dificuldades que enfrentava no início dos estudos.

Assim que entrei no ensino médio, precisei mudar muito minha relação com a leitura e a escrita, pois estava prestes a fazer minha primeira redação no ENEM e sabia que os erros precisavam ser mínimos. Meus problemas com a escrita e leitura se devia ao fato da falta de correção pelos meus professores, o que dificultava bastante o aprendizado correto. Houve várias vezes em que alguns professores erraram ao escrever no quadro e, como resultado, todos os alunos também copiavam errado.

Os números sempre fizeram muito sentido para mim, mesmo antes de entrar na escola. Hoje, utilizo-os em praticamente tudo que faço. Me recordo de quando fazia doces para vender, precisava somar diariamente os gastos e ganhos para, ao final do mês, calcular se estava lucrando ou não com a venda. Imagine se eu não tivesse facilidade com os números; provavelmente teria que pedir ajuda a alguém para fazer essas contas diariamente.

Entrei na universidade recentemente, então ainda não consegui observar muitas mudanças, pois faz pouco tempo que comecei. Mesmo assim, venho me cobrando diariamente para melhorar cada vez mais minha leitura e escrita, pois sei da responsabilidade que é estudar em uma universidade, onde os erros devem ser evitados. Um ponto muito positivo é que, a partir de agora, estou me dedicando ao máximo para aprimorar ainda mais minha escrita e leitura, sabendo que, em um futuro próximo, colherei grandes frutos. Um ponto negativo é a quantidade de material disponível ao mesmo tempo; há muitas atividades para ler e responder, e é preciso estar atento aos prazos de envio. Por isso, sempre procuro responder primeiro as atividades com prazos menores.

Mesmo com algumas dificuldades, estou me esforçando ao máximo para ler e concluir tudo que meus professores solicitam. Quando se trata de atividades avaliativas, gosto de enviar as respostas antes do prazo final, para não acumular. No início, estou tendo algumas dificuldades com os textos acadêmicos, mas estou me esforçando para me adaptar rapidamente às novas formas e perspectivas de leitura.

Tenho muito interesse em aprender, aprimorar meus conhecimentos e melhorar significativamente minha escrita e leitura. Após ingressar na faculdade, percebi algo muito importante: o ensino que recebi nas escolas anteriores foi bastante frágil. Por isso, hoje enfrento dificuldades em alguns conteúdos. Os gêneros textuais que mais gosto são o narrativo, o dissertativo e o expositivo.

Neste começo de faculdade, sinto muita falta de conteúdos que meus professores anteriores não abordaram. As matérias de que mais sinto falta são língua portuguesa e matemática. Administro bem minhas finanças e procuro gastar dentro dos meus limites. No entanto, não foi o ensino médio que me ensinou a lidar com questões financeiras, mas sim meus pais, que, desde cedo, me aconselharam a lidar com a vida de forma responsável.



SOBRE O AUTOR:

Edilson José da Costa, de Santa Cruz de Salinas/MG, é acadêmico da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Um Livro: Memórias a Contar

Um Livro: Memórias a Contar

Delecy Costa Sardinha, Itamarandiba/MG

Quando criança, tudo parecia novo e empolgante para mim, especialmente quando se tratava de palavras e números escritos. Em um instante, percebi que cada rabisco no papel carregava um significado; não era apenas uma decoração. Isso me motivou a buscar mais informações sobre esse assunto que me interessava. Sempre questionava meus pais sobre as coisas que me chamavam a atenção, perguntando: “O que é isso?” ou “Para que serve?”

Minha curiosidade pela leitura começou quando meu primo trouxe alguns livros e revistas infantis; inclusive, lembro que uma delas era da Turma da Mônica. Ficava intrigada com o conteúdo dos livros e, quando minha mãe não podia me contar do que se tratava a história, eu mesma tentava decifrar as palavras, muitas vezes criando minhas próprias histórias com base nas imagens. Eu tinha cinco anos na época e, embora já tivesse tido contato com a Bíblia e revistas da igreja, minha curiosidade pela leitura ainda não havia despertado. Talvez isso se devesse às letras pequenas ou ao fato de ser algo menos acessível.

Ao longo do tempo, fui me familiarizando com o lápis colorido e o papel para escrever, aprendendo a desenhar e formar letras com a ajuda de minha mãe. No início, parecia uma tarefa difícil e complicada, como um quebra-cabeça confuso que eu não conseguia resolver. Enquanto brincava com o quebra-cabeça, antes mesmo de tentar, eu já dizia que não conseguiria, chorava e culpava quem estava me ensinando. Mesmo assim, meus pais não desistiram da minha educação; eles queriam me oferecer algo que não tiveram quando eram crianças. Quando completei seis anos, comecei a vida escolar, na chamada fase introdutória daquela época. Minha irmã e eu ficamos tão animadas ao saber que iríamos para a escola que foi motivo de comemoração; mal podíamos esperar!

Meus pais se arrependeram de nos contar com tanta antecedência que iríamos para a escola, especialmente porque ainda faltavam muitos dias para o ano letivo começar. Nós não conseguíamos parar de falar sobre isso nem por um segundo, até que minha mãe disse que só iríamos quando meu pai trouxesse os cadernos e o restante do material. A primeira experiência foi marcante, cheia de novidades que me fizeram não querer sair de lá. Ao voltarmos para casa, estávamos tão ansiosas pelo dia seguinte que mal podíamos esperar para retornar ao ambiente escolar.

Para chegar à escola, precisávamos caminhar uma certa distância até o ponto do transporte escolar, mas isso não me desmotivou a continuar meus estudos. Na sala de aula, o início das atividades de escrita foi tranquilo, pois eu já conhecia algumas letras, o que facilitou meu desenvolvimento. Ao longo dos dias na instituição, percebi a existência de uma biblioteca repleta de livros, onde era possível emprestar obras para explorar novos conhecimentos e enriquecer nosso repertório linguístico. Durante os estudos, deparei-me com os desafios dos cálculos matemáticos, que inicialmente me pareceram complexos. No entanto, com o apoio da minha família e dos professores, consegui obter um bom desempenho nas atividades de alfabetização matemática.

A prática da leitura e da escrita foi muito útil para mim, pois me permitiram não depender tanto de lembrar de tudo sozinha, dando-me a oportunidade de escrever sobre temas que não conseguia expressar verbalmente e colocar no papel até mesmo eventos importantes para serem guardados para o futuro. Aprendi a escrever cartas como forma de expressar sentimentos para pessoas próximas ou distantes. Minha primeira carta foi para meus pais, e desde então, em ocasiões especiais, continuo a escrever para eles, aprimorando meu vocabulário e evitando repetições.

Entre os anos de 2014 e 2015, pude perceber uma variedade de abordagens em textos que exigiam interpretação para responder às perguntas de maneira clara e completa. Essa prática foi positiva, pois, além de aprender novos conteúdos, também contribuiu para o aprimoramento da minha escrita e para uma melhor compreensão do que eu lia ou escrevia. Durante esse período de 2014 a 2015, desenvolvi habilidades em cálculos com dinheiro, que ainda não dominava. Embora no papel fosse simples, a prática era um pouco demorada, especialmente ao lidar com trocos. Também aprendi a tabuada e fiquei empolgada ao perceber que esse conhecimento é essencial para a matemática e utilizado no dia a dia. No sétimo ano, minha paixão pela matemática cresceu ainda mais. Foi nessa época que comecei a explorar equações complexas cheias de símbolos, o que me deixou completamente encantada pelos números.

Eu sempre buscava desafios matemáticos e me maravilhava ao encontrar respostas para questões inimagináveis. Percebi, então, a importância dos algarismos, que se mostraram fundamentais tanto nos cálculos quanto na expressão escrita. Dessa forma, compreendi que a matemática vai além das operações e também nos permite exercitar nossa capacidade de comunicação escrita.

A biblioteca era um lugar frequentado regularmente por mim, especialmente durante as aulas de Educação Física. Sempre encontrava um tempinho para pegar um livro. Quando um determinado conteúdo me chamava a atenção, não conseguia resistir a levá-lo, mesmo que fosse mais extenso. Na biblioteca havia livros que não despertavam tanto interesse, mas eu os lia mesmo assim, pois muitas vezes eram sugeridos pelos professores. Percebi, naquele momento, a importância de desenvolver narrativas como se eu fosse uma autora. Sempre tive facilidade em criar imagens na mente, principalmente quando lia; no entanto, encontrava desafios ao tentar colocá-las no papel, muitas vezes repetindo informações de forma diferente no parágrafo seguinte ou perdendo o foco da história.

Durante o ensino médio, tanto nas disciplinas de Língua Portuguesa quanto de Matemática, os temas abordados eram mais variados e complexos, exigindo um maior raciocínio. Esses novos assuntos visavam nos preparar para avaliações futuras, como o ENEM. Os textos tornaram-se mais elaborados, principalmente os dissertativos, que eram os mais cobrados, assim como a produção textual, na qual era necessário apresentar argumentos claros e objetivos.

No início do ensino médio, enfrentei dificuldades para elaborar uma introdução adequada; porém, com as orientações da professora e bastante prática, fui melhorando progressivamente. Percebi que os textos não precisavam ser elaborados com palavras complexas; podiam ser simples, desde que transmitissem todas as informações necessárias e fossem claros em relação ao que se queria comunicar.

Ao longo da minha trajetória escolar, sempre valorizei a presença regular, e até mesmo quando não pude ir devido a problemas de transporte, como chuva na roça, me senti muito triste, lamentando como se meus pais fossem responsáveis pela situação. Até meus últimos dias na escola, participei ativamente, inclusive aos sábados, porque acreditava que os professores poderiam trazer experiências novas e interessantes. Em diversas ocasiões, isso se confirmou com atividades dinâmicas e inovadoras em disciplinas como Língua Portuguesa e Matemática, o que contribuiu para expandir minha forma de aprendizado.

Atualmente, constato que meu vocabulário está consideravelmente ampliado; no entanto, grande parte desse enriquecimento não foi obtida unicamente por meio da instituição de ensino, uma vez que esta não nos fornece todas as informações que necessitamos. A escola nos instrui apenas nos conceitos básicos, de modo que frequentemente somos cobrados por conteúdos que não nos foram apresentados. Isso ocorreu diversas vezes porque esses temas foram incluídos nos planos de aula depois de termos saído ou até mesmo foram substituídos por outra temática.



SOBRE A AUTORA:

Delecy Costa Sardinha, de Itamarandiba/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.

A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

A Presença da Educação em Minha Vida

A Presença da Educação em Minha Vida

Daniele Mendes Rodrigues Nobre, Montes Claros/MG

A educação na minha vida começou desde cedo. Entrei no jardim de infância (nome dado ao maternal nos dias de hoje) aos três anos de idade. Quando pequena, tive a presença dos meus pais na minha vida escolar, mas, apesar de ter esse incentivo para os estudos, eu não era uma criança que gostava de estudar.

Meu pai lia jornal todos os dias e sempre que passava alguém vendendo enciclopédias ele comprava. Naquela época, não tinha acesso à internet; as pesquisas eram feitas através dos livros. Frequentava a escola dominical, onde tive a oportunidade de ler sobre várias histórias da Bíblia. Minha mãe, talvez por ser professora, cobrava bastante e me fazia passar os cadernos a limpo, pois minha letra não era das melhores. Ela estava sempre presente na escola; mesmo tendo cinco filhos, cuidava de todos com o mesmo zelo.

Recordo de quando criança, minha mãe contava histórias; uma se chamava “Menina de trança”, que só fui descobrir mais tarde que a história era sobre mim. Ela fazia desenhos para que nós pudéssemos colorir; esses momentos eram sempre à noite, antes de dormir.

Meu pai trabalhava e, quando chegava em casa, revisava a tabuada todos os dias. Ele fazia de tudo para tornar nossas vidas escolares mais divertidas.  Lembro-me de que meu pai construiu um grande relógio de madeira para nos ensinar a ver as horas e, sempre que podia, comprava vários quebra-cabeças para nós.

Hoje sou graduada em administração de empresas e quero continuar aprendendo, pois o aprendizado deve ser contínuo. Sigo tentando conciliar as tarefas do dia a dia com o estudo.

Ao recordar meus momentos de infância percebo o quanto a presença dos pais na vida escolar dos filhos traz boas memórias e o quanto é importante este acompanhamento.



SOBRE A AUTORA:

Daniele Mendes Rodrigues Nobre, de Montes Claros/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.

A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Contato Com a Leitura e a Contagem

Contato Com a Leitura e a Contagem

Daniel Xavier da Silva, Espinosa/MG

Ainda na infância me ocorreu o primeiro contato com as letras e os números. Ao adentrar nas séries iniciais do Ensino Fundamental I, fui ensinado pela professora do primário sobre a escrita, a leitura e a contagem dos números. Em casa, embora com baixo grau de escolaridade, meus pais sempre me incentivavam aos estudos.

Ao passo que se avançava os aprendizados, havia também a progressão e o aperfeiçoamento do conhecimento. Sempre me interessei por todas as áreas de conhecimento: ciências humanas, ciências da natureza e, com uma maior afinidade, nas ciências exatas.

Os aprendizados construídos na escola eram plenamente aplicáveis na vida cotidiana. As leituras, os problemas envolvendo operações matemáticas tudo se associava ao meu dia a dia. Ainda sobre o letramento, meus pais me presenteavam, sempre que possível, com revistas de caça-palavras, palavras-cruzadas e gibis.

Ao iniciar o Ensino Fundamental II, foram apresentados pelos novos educadores novos gêneros textuais diferentes daqueles aos quais eu estava acostumado, foi nessa época que se intensificou a prática de redigir redações. Ler e escrever nunca foram atividades penosas para mim, embora houvesse maior preferências pela área de exatas. Iniciado o Ensino Médio, aumentou-se o rigor nos estudos, uma vez que estava cada vez mais próximo de finalizar os estudos, bem como se aproximava da época de se prestar vestibular para ingressar no Ensino Superior.

Consegui ingressar no Ensino Superior aos 18 anos de idade, iniciando os estudos no curso de Ciências Contábeis. Nessa época a prática da leitura se intensificou, posso dizer, que até triplicou. O curso requeria do acadêmico muita leitura e também muita prática na realização de pesquisas acadêmicas. Os gêneros textuais trabalhados eram outros. Havia muitos estudos de artigos científicos e tais textos possuem em sua predominância muitos elementos e dizeres característicos da área de que se estuda, ou seja, na maioria das vezes são utilizados termos extremamente técnicos.

Hoje posso dizer que iniciar o hábito da leitura desde cedo me ajudou demais em todas as fases da minha vida, inclusive a do presente momento. É bem verdade que a prática da leitura e da escrita requerem de todos certo grau de esforço, dedicação e comprometimento. O conhecimento adquirido por meio de livros: literários, científicos, bíblicos e diversos outros, nos possibilita compreender o mundo de outra forma.

Ao atuar na profissão verifica-se ainda que a prática da escrita e da leitura se fazem extremamente necessárias, uma vez que a profissão requer constante atualização de conhecimentos. Dessa forma, posso afirmar que a leitura e a escrita estiveram presentes em minha vida desde a infância, aperfeiçoando-se a cada fase. Além disso, atualmente, tanto a leitura quanto a escrita são partes integrantes da minha rotina.



SOBRE O AUTOR:

Daniel Xavier da Silva, de Espinosa/MG, é acadêmico da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

A Leitura Entre as Páginas da Minha Vida

A Leitura Entre as Páginas da Minha Vida

Arlindo Rodrigues Araújo, Januária/MG

Sou mineiro de nascimento. Precisamente, nasci em Januária, no norte de Minas, numa comunidade chamada Grotinha. Vim ao mundo no dia de Nossa Senhora Aparecida e tenho a certeza de que esse detalhe foi uma proteção divina, pois, segundo relatos dos presentes durante o parto, nasci “morto”, já que não chorei e não me mexia. Minha mãe, já desesperada, resolveu seguir os conselhos da parteira, que sugeriu me colocar deitado e, por cima de mim, colocar uma bacia e começar a bater sem parar. Foi aí que ouviram o meu choro. Devo realmente ter me assustado!

A vida na comunidade onde nasci sempre foi muito difícil e o trabalho era árduo. Ajudava minha mãe e meu pai na roça e no serviço de casa: dar comida aos porcos, pisar arroz no pilão, buscar água no rio, pegar lenha, buscar buriti no brejo. Esses eram apenas alguns dos meus trabalhos diários como criança pequena. Você deve estar se perguntando se eu não brincava. Eu digo que sim, e muito! Nadava, corria, subia nas árvores e brincava com meus irmãos de boizinho de jatobá e de perna de pau.

Aos 7 anos ingressei na escola da comunidade, com incentivo dos meus pais. A professora do meu 1º ano de grupo escolar era minha prima, Maria, professora leiga e regente de turma de uma sala multisseriada. A escola funcionava na despensa da casa do Senhor Daniel. Me lembro que nos sentávamos nas esteiras e colocávamos os nossos cadernos nos bancos.

Nesse lugar, aconteceram meus primeiros contatos com as letras e os números. Apesar de não reconhecer sua grafia, já tinha o conhecimento de seus nomes e da sequência numérica. Recordo-me que contar até pelo menos 50 eu já sabia, pois usava esse conhecimento nas brincadeiras, como contar os boizinhos de jatobá no curral. Todos queríamos ser grandes criadores de gado. Na nossa brincadeira, já fazíamos algumas contas, pois vendíamos ou comprávamos bois e vacas uns dos outros. Então, tínhamos noção de somar e diminuir. Mas aprendi as operações mesmo no segundo ano de escola e, nessa época, já estava com 8 anos.

Sobre dinheiro, não tenho lembranças, pois, quando raramente aparecia, era nas mãos dos adultos. No meu caso, por exemplo: minha mãe, costureira, e meu pai, marceneiro, juntavam o pouco que recebiam pelos serviços prestados e iam à cidade uma vez por ano para comprar utensílios e mantimentos que não produzíamos na roça, como sal, querosene e peças de tecido.

A escola, apesar de precária, foi minha porta de acesso para aprender o que não sabia e aprimorar os saberes que já possuía. Como não era comum, naquela época, o acesso a livros, jornais, revistas e até mesmo a papéis com algum texto escrito, tudo o que aprendi, pouco ou muito, foi na escola.

As lições eram cópias da cartilha. Aliás, o único livro que havia na escola era esse, e ninguém podia se atrever a pegá-lo. Era de uso somente da professora, de onde eram retiradas as nossas lições. Conheci os gibis na escola quando a professora trouxe a grande novidade. Qualquer aluno que os estragasse recebia os temidos bolos com a palmatória.

Fui alfabetizado no sistema silábico B+A = BA e não me recordo de nenhuma aula com contação de histórias. A metodologia era repetir as famílias silábicas e copiá-las insistentemente. Sou grato por, mesmo diante de tanta dificuldade, ter concluído nesse grupo a terceira série.

Nessa fase, não tive contato com nenhum livro literário, nem com nenhum texto que tenha ficado guardado nas minhas recordações. O que posso descrever é que meus aprendizados não vieram, em sua maioria, de textos escritos e de autores desconhecidos. No meu mundinho, tive histórias e aprendizados passados através da oralidade. Com as instruções dos outros, aprendi com destreza a selar um cavalo, tirar leite de vaca, fazer queijo, plantar, cuidar e colher as roças, plantar hortas. Para tudo isso, recebi muito incentivo, mas havia a exigência de pais que viviam do que produziam, em uma casa com 8 filhos, enfrentando muitas dificuldades e com pouco conhecimento. Estudar era quase um luxo, e algumas famílias não permitiam que seus filhos frequentassem a escola, por não verem futuro nela. Para que decifrar letras e números, se onde morávamos todos viviam praticamente sem livros, e essas crianças precisavam aprender a lidar com a terra? Eu e meus irmãos sempre tivemos apoio de nossos pais, mas em muitos dias não tínhamos o que comer. Mesmo assim, eles nos mandavam para a escola. No caminho, colhíamos frutas e comíamos. Na escola já havia merenda naquela época, mas tínhamos que parar com a lição para buscar lenha para seu preparo.

Sempre achei que os estudos na minha comunidade eram bem fracos, mas a professora passava o pouco que sabia para podermos alçar voos maiores. Pelo menos o caminho que levava a esses voos era maior, mais longo e mais tortuoso. Quando terminamos a terceira série do ensino fundamental, fomos matriculados em um grupo maior, em outra comunidade, chamada Várzea Bonita, que ficava a 9 km de distância da minha casa. Eu e meus outros 7 irmãos, além de primos e colegas, andávamos 18 km por dia para darmos continuidade aos estudos. Levávamos na sacola a vontade de nos aprimorarmos mais na leitura e nas quatro operações.

Nesse grupo, tive como professora a Senhora Dalva. Busco na memória um momento de manuseio com livros, com contação ou leitura de uma história e… nada. Nenhuma lembrança me surge na cabeça. O que ouvíamos eram histórias contadas pelos mais velhos, os ditos causos. Muitas vezes, eram contadas para nos assustar, outras para nos dar exemplos, e muitas delas eram mesmo para nos ensinar sobre a lida do dia a dia.

Nenhuma das escolas em que estudei durante o primário tinha bibliotecas. Naquela época, não eram cobradas produções de texto, apenas tínhamos que produzir frases com palavras dadas. O acesso precário aos livros e outros meios de leitura e escrita me fez, e me faz, muita falta hoje, pois não adquiri o hábito da leitura. Depois de concluir a 4ª série, fui obrigado a desistir dos estudos, porque meus pais não tinham como nos manter na cidade.

Por volta dos 35 anos, me vi forçado a continuar os estudos, e fiz uso do CAED, programa do governo para que pessoas que não puderam frequentar a escola normal pudessem completar o ensino fundamental e médio por meio de provas. Como ficou claro, não tive incentivo à leitura, mas, quando me inscrevi no CAED, percebi a necessidade da leitura, dos números e das operações em minha vida. Adquiri autonomia para estudar para provas, buscava livros na escola onde minha esposa trabalhava como professora para os meus estudos.

Me forcei a ler e ficar inteirado das notícias do Brasil e do mundo, mas, ainda na minha vida adulta, não tinha lido nenhum livro sequer. Durante a realização dessas provas, li minhas primeiras obras literárias. Confesso que, buscando na memória, não me lembro sequer do nome de uma delas, mas tenho a sensação de ter gostado de uma que falava sobre um negro. Sinto falta de tudo que não aprendi, de tudo a que não tive acesso na minha vida escolar e, agora, na minha vida acadêmica, almejo provar sabores e saberes aos quais não fui apresentado.



SOBRE O AUTOR:

Arlindo Rodrigues Araújo, de Januária/MG, é acadêmico da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Minha Infância Escolar

Minha Infância Escolar

Ana Maria da Silva, Contagem/MG

Recordo, com um sorriso no canto da boca, minha infância e o processo de aprendizado pelo qual passei. Foram anos desafiadores; confesso que só na atual conjuntura pude perceber isso. Morava em uma pequena comunidade rural, e a escola ficava a uma hora de caminhada exaustiva. Eu não dava conta; chegava cansada e dormia durante as aulas. Acompanhava minha irmã mais velha.

Éramos muito pobres, e o calçado era o velho chinelo feito de pneu. Na época das chuvas, havia um ribeirão a ser atravessado. Sempre aparecia algum adulto para nos guiar e segurar nossas mãos, para que a correnteza forte não nos levasse. Era perigoso, mas, na minha inocência de criança, com apenas seis anos, aquilo parecia uma aventura.

Meu primeiro contato com os livros foi através da literatura de cordel, por meio de minha mãe e das histórias de Lampião. Durante as aulas, em que acompanhava minha irmã, eu era o xodó da professora Altamira, que gritava e batia nos alunos. Eu tinha medo dela, tanto respeito que nem chegava perto, pois o medo era muito grande.

Não me lembro quanto tempo essa aventura de acompanhar minha irmã durante as aulas dela durou, mas me recordo de ir sempre saltitante para a escola com ela. Comecei minha jornada oficial aos nove anos, na primeira série, e minha mãe fez com que meu pai nos levasse para a escola onde iniciei e concluí meus estudos.

Aprendi os números e as letras sem dificuldade. Meu desafio, e claro, o dos abençoados professores, era me fazer ficar quieta; eu falava demais e era “peralta” na sala inteira. Pobres colegas que tinham dificuldade para aprender, eu os deixava “no chinelo”. A professora ficava de “cabelo em pé” com minhas “levadezas”. Em casa, ouvíamos o rádio. Minha mãe não vivia sem a Rádio Nacional da Amazônia. Lembro que ouvíamos novelas; era emocionante. O radinho funcionava a pilhas, mas minha mãe nunca ficava sem.

A escola era mais perto; morávamos a uns 25 minutos dela. Era uma criançada indo na mesma direção. Como a pobreza era grande, lembro-me de ter que levar lenha para a escola. Funcionava assim: quando o caderno, o lápis ou a borracha acabavam, a professora nos dava outro, mas era uma troca; tínhamos que levar um “pau de lenha” para as cantineiras cozinharem, já que não havia fogão a gás na época.

O caderno era daqueles de páginas amareladas e precisava ser desmanchado com cuidado, caso contrário, a página rasgava. Meu enorme sonho naqueles dias era um caderno com páginas branquíssimas. Sonhava também em ter uma mochila, pois levávamos o material em uma embalagem de arroz.

Só tive o “luxo” da mochila no quarto ano; era uma belezura, feita de um plástico vermelho. Chapeuzinho Vermelho teria inveja da minha maravilhosa mochila.

A hora do recreio era uma farra sem fim: pega-pega, polícia e ladrão, rouba-bandeira, peteca e, é claro, descer a rampa de grama da escola com um papelão como apoio, estilo Velozes e Furiosos.

A merenda, muitas vezes, era escassa. Recordo que a diretora ia de sala em sala pedindo que levássemos uma batata, uma cenoura ou alguma outra leguminosa. Eu sempre levava chuchu, já que tínhamos um pé em casa que produzia o ano inteiro.

Após concluir o ensino médio, mudei para Belo Horizonte para trabalhar e tentar ingressar na faculdade. Isso aconteceu tardiamente; só consegui iniciar a faculdade aos 35 anos. Levei seis anos para concluir, sendo mãe solo e trabalhando. Foi muito exaustivo. A escrita, sem uma base muito sólida, dificultou a conclusão do temido Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), por se tratar de uma escrita mais técnica, e senti muita dificuldade.

No período do ensino médio, tive uma excelente professora de Literatura, que nos incentivava muito à leitura. Autores como Machado de Assis, Cecília Meireles e Paulo Coelho marcaram essa fase. O primeiro livro que li, de que não me recordo o autor, contava a história de uma adolescente que vivia com o pai em uma ilha e seus desafios ao frequentar a escola na cidade pela primeira vez.

A faculdade me proporcionou muitas descobertas; tive que aprender coisas novas e desenvolver novas habilidades. Lembro de passar mais de uma hora assistindo a vídeos no YouTube sobre como formatar uma planilha no Excel. Desafios à parte, venci mais essa etapa.



SOBRE A AUTORA:

Ana Maria da Silva, de Contagem/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Ana Em Um Encontro Com a Leitura

Ana Em Um Encontro Com a Leitura

Ana Luiza Neta Muniz De Oliveira, Turmalina/MG

Olá! Vou contar um pouco sobre a minha relação com a leitura ao longo de vários períodos da minha vida. Sinto dizer que não me lembro de muita coisa, mas espero que, ao entregar os contos, as lembranças comecem a aflorar.

No começo da minha infância, não me lembro das relações das pessoas que conviveram comigo com a leitura ou os estudos, mas me lembro de que sempre gostei muito de brincar de escolinha, a famosa brincadeira em que fingíamos ser alunos e professores. Confesso que amava ser a professora e passava horas fazendo as “atividades” para meus “alunos” realizarem. Eu era sempre felizarda em ser professora, pois era a mais velha da turma. Gostava tanto de não largava os cadernos e livros que sobravam dos anos anteriores da escola.

Antes desse período, não tenho lembranças, nem de como comecei a contar ou a ler. Lembro-me vagamente de que sempre tentávamos conseguir uma moedinha para comprar bala em um supermercado próximo à casa onde morávamos.

Eu e meu irmão mais novo chegamos a vender jabuticabas que colhíamos de um pé na casa da minha avó, mas, como não tínhamos noção de administração, chamamos todos os nossos amigos e vizinhos para ajudar. Vendemos o pacote por um real, ao final, o valor mal deu para dividir entre nós. Lembro-me de comentar: “Teria sido melhor se tivéssemos chupado as jabuticabas; teríamos saído no lucro.”

Outra lembrança que tenho é que meu tio pagava R$ 1 para lavarmos o carro dele, e eu e meu irmão ainda brigávamos para fazer o serviço. Mas, em defesa do meu tio, naquela época R$ 1 permitia comprar várias coisinhas; lembro que comprávamos 3 balas por 10 centavos. 

Acredito que meu desempenho na escola não era dos melhores. O contato que eu tinha com o estudo se restringia à escola, pois, como minha mãe era solo, se assim posso dizer, trabalhava muito, saindo de madrugada e chegando somente à noite. O apoio dela era meu irmão mais velho, que, por sinal, também trabalhava muito. 

Após esse período, creio que, ao terminar o Fundamental I, comecei a desenvolver o gosto pela escrita, iniciando com um diário, algo comum entre as meninas da minha sala. Eu gostava de escrever em códigos, nos quais trocava as letras por símbolos que apenas eu sabia o que significavam, ou talvez uma amiga de confiança.

No diário eu costumava escrever basicamente tudo que considerava importante no meu cotidiano, desde coisas boas até ruins. Escrevia desabafos, poemas e, às vezes, letras de música, que eu ficava cantando constantemente para decorar, muitas vezes em vão.

Logo, ao entrar no Fundamental II, acho que foi quando a matemática começou a fazer sentido para mim. Mas, pensando bem, desde as brincadeiras de escolinha, já era a matéria de que eu mais gostava ou com a qual tinha mais facilidade. Não que eu fosse excelente, mas, dentre as outras, era a que eu mais gostava de aprender. Lembro-me que cheguei até a passar para a segunda fase das Olimpíadas de Matemática, mas, como não era tão focada nos estudos, parou por aí.

Nos últimos anos do Fundamental II, lembro de ter encontrado um livro de poemas românticos, cujas letras pareciam desenhadas de tão lindas. Meu interesse passou a ser reescrever todos os poemas para que minha letra, que era um desastre, ficasse igual à do livro, e com muito esforço ficou bem parecida.

Durante o ensino médio, as coisas ficaram mais complexas, tanto nos estudos quanto na vida pessoal, então meu objetivo era “passar de ano”. No último ano do ensino médio, tudo começou igual aos outros, sem nenhuma animação. Então, por já estar casada precocemente nessa idade, descobri que estava grávida e, com todas as dificuldades de uma gravidez, acabei me afastando ainda mais da escola.

Com o final da gestação, a situação ficou mais complicada, e acabei deixando a escola, o que me deixou muito chateada por saber o quão importante e necessário são os estudos para uma pessoa. No ano seguinte, com muita dificuldade, voltei a estudar em uma sala onde todos eram mais novos, mas, como eu já era mãe e tinha uma mentalidade totalmente diferente, realmente aproveitei tudo o que me era ensinado. Nesse momento, senti um breve arrependimento por não ter aproveitado todos os outros anos assim.

Meu arrependimento aumentou quando fui estudar para o vestibular para tentar entrar no curso de Matemática da UFVJM, pois, em várias matérias, eu sentia uma dificuldade enorme, precisando voltar ao conteúdo do Fundamental II para conseguir entender a matéria atual. Percebi que teria sido muito mais fácil se eu tivesse dado o devido valor aos estudos na escola.

Com muito esforço, consegui a vaga para o curso de Matemática. Mas surgiu uma nova dificuldade: os textos acadêmicos, as novas matérias e todas as normas às quais eu não estava acostumada.

Após iniciar a faculdade, despertou em mim o desejo de ler, por acreditar que a leitura é a base do conhecimento. Com isso, tento aprender cada vez mais com as leituras. Assim, além do material escolar, leio alguns outros livros, como os de autoconhecimento, investimento e finanças, sendo os romances os meus preferidos.

Acredito que quanto mais lemos, melhor se torna nossa escrita. Ainda sobre meu hobby de ler sobre investimentos e finanças, creio que ele seja decorrente da carência que temos no nosso ensino regular, onde esses assuntos, que considero de extrema importância para as pessoas, independentemente da classe social ou origem, não são abordados.

Gerir bem sua vida pessoal, financeira e emocional é de suma importância para o bem-estar consigo mesmo e com os que estão ao redor. Assim, início uma nova fase da minha vida, em que ser professora deixou de ser apenas uma brincadeira para se tornar uma realidade.



SOBRE A AUTORA:

Ana Luiza Neta Muniz De Oliveira, de Turmalina/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Menino Maluquinho, Pequeno Príncipe e Turma da Mônica: Histórias Que Me Apaixonei

Menino Maluquinho, Pequeno Príncipe e Turma da Mônica: Histórias Que Me Apaixonei

Alessandra Ketlei Fernandes B. Melo, Monte Azul/MG

Minhas primeiras lembranças de leitura remontam a muito cedo, quando os únicos livros que eu conhecia eram a Bíblia e o livro de louvores. Recordo-me de como, todos os domingos na igreja, meus olhos se fixavam nas páginas desses livros sagrados. Mesmo sem saber ler, as letras e palavras me intrigavam, e eu sentia um desejo profundo de entendê-las. Minha mãe sempre lia a Bíblia para mim e para meus irmãos e, com isso, cresci com uma enorme curiosidade e vontade constante de aprender a ler e escrever.

Com o tempo, chegou o momento de meu início escolar, em 1999, quando eu tinha quatro anos. Entrei na Escola Estadual Rodrigues Alves, e lembro claramente do meu primeiro dia de aula. Minha mãe me levou pela mão até a sala, e tudo parecia muito diferente. O quadro negro ocupava a maior parte da parede da frente e as cadeirinhas enfileiradas aguardavam os pequenos alunos, como eu, prestes a descobrir o mundo das letras.

A professora, Tia Luciana, nos recebeu com um sorriso acolhedor e nos apresentou as vogais e o alfabeto logo na primeira semana. Letras coloridas coladas no quadro eram fascinantes para mim. Naquela época, as cartilhas eram a base do nosso aprendizado. A minha tinha uma capa azul vibrante, com figuras de animais e objetos do cotidiano. Eu passava horas em casa folheando aquelas páginas, tentando decifrar os sons e as imagens.

Quando finalmente consegui juntar as letras para formar minha primeira palavra, senti uma alegria imensa. Uma das minhas atividades favoritas na escola era a hora do conto. A professora se sentava em uma cadeira grande, enquanto nós nos reuníamos ao redor dela no chão, atentos às histórias que ela lia. Livros como O Patinho Feio, João e o Pé de Feijão e As Princesas eram como portas de entrada para mundos mágicos. Mesmo sem saber ler completamente, eu já imaginava as palavras ganhando vida nas páginas. Fiquei com essa maravilhosa professora no 1º e 2º períodos.

Aprender a escrever foi outra grande aventura. Lembro-me do orgulho que senti ao escrever meu nome pela primeira vez. As letras saíam tortas e desalinhadas, mas a sensação de ver meu nome no papel era indescritível. Recordo-me também de quando consegui fazer o numeral cinco pela primeira vez. Foi um dia surreal, e eu passei o resto do dia repetindo o numeral cinco. Meu lugar favorito na escola era a colorida e aconchegante biblioteca, cheia de livros. Eu amava passar o tempo lá, olhando aqueles livros.

Na primeira série, a leitura começou a se tornar mais fluente. Já não éramos mais iniciantes; agora eu conseguia ler frases inteiras e até pequenos parágrafos. A professora incentivava a leitura em voz alta, e cada um de nós tinha a chance de ler para a turma. Embora nervosa no início, eu adorava a sensação de conseguir ler uma história inteira.

As aulas de caligrafia também se tornaram mais desafiadoras. As linhas dos cadernos ficaram mais estreitas, e eu precisava escrever com mais precisão. A professora corrigia meus cadernos com uma caneta vermelha, mas sempre elogiava meus esforços. A leitura de livros infantis tornou-se uma parte regular das aulas, e comecei a me apaixonar por histórias mais longas e complexas, como O Menino Maluquinho e O Pequeno Príncipe, além dos gibis da Turma da Mônica.

As atividades de leitura e escrita evoluíram para a produção de pequenos textos. Lembro-me da minha primeira redação, cujo tema era “Minha família”. Dediquei-me a escrever sobre minha mãe e meus irmãos. Foi desafiador, mas a sensação de ver minhas palavras organizadas em um texto completo foi muito recompensadora.

Na escola, eu também participei de eventos como o JIRA (Jogos Internos Rodrigues Alves), e minha equipe ganhou o campeonato de queimada e porta-bandeiras, recebendo uma linda medalha. O ensino fundamental na Escola Estadual Rodrigues Alves foi maravilhoso. Levava livros para casa para ler e amava cada um deles. Os professores, com tanto amor e carinho, fizeram da escola um grande ponto de partida para mim, servindo como um sólido alicerce para meu ingresso no ensino médio.

No ensino médio, na Escola Estadual Tancredo Neves, percebi que a leitura e a escrita eram muito mais do que apenas juntar letras e palavras. Os textos que lia nas aulas de Língua Portuguesa eram mais longos e abordavam temas mais complexos. A professora apresentou-nos os primeiros contos e crônicas, e foi nessa época que descobri autores como Monteiro Lobato. Escrever também se tornou um exercício mais profundo.

O ensino médio também trouxe desafios adicionais, como cálculos que misturavam números e letras. Foi um período de grande aprendizado, que me proporcionou conhecimentos valiosos para a vida adulta, como a administração da minha vida financeira, tomada de decisões, trabalhos, economias, investimentos e consumos. Agora sou universitária. Tudo o que aprendi nos anos acadêmicos serviu como combustível para minha vida pessoal e cotidiana.



SOBRE A AUTORA:

Alessandra Ketlei Fernandes B. Melo, de Monte Azul/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Memórias de Letramentos 7: Apresentação

Memórias de Letramentos 7: Apresentação

Os textos publicados individualmente nesta página podem ser lidos reunidos nos volumes da coleção Memórias de Letramentos. Nas próximas semanas publicaremos os 19 texos que compõem o volume 7 da obra. Para adquirir seu e-book gratuito ou impresso  pelo preço apenas do serviço de gráfica, clique no banner ao lado ou no fim da página.


Somos mais de 200 vozes com este sétimo volume da Coleção MEMÓRIAS DE LETRAMENTOS, iniciada em 2017 na Licenciatura em Educação do Campo da UFVJM. Mais precisamente, dezenove vozes unem-se às 198 anteriores em uma ode pelo e para os letramentos e as aprendizagens. Este novo volume traz narrativas de futuros professores de Física, Matemática e Química à distância, acadêmicos da nossa universidade.

Entre os diversos relatos sobre o impacto positivo da leitura e da educação, oriundos de diversos cantos e Minas, especialmente dos Vales, algumas histórias se destacam pela profundidade das experiências e pela dedicação dos protagonistas. De Espinosa, uma história reflete uma relação duradoura e multifacetada com as palavras e a contagem. De Turmalina, surge a experiência de uma estudante apaixonada por romances e participante das Olimpíadas de Matemática. O contato inicial com caça-palavras, palavras-cruzadas e gibis da Turma da Mônica marcou o início dessas trajetórias e de muitos outros autores e autoras no universo da leitura. Os contos infantis, como Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve e A Bela Adormecida, têm espaço cativo.

O carinho pelos professores é uma constante em todos os relatos. Enquanto alguns relembram com afeto o apoio do professor que “segurava sua mão” e os conduzia nas primeiras letras e sílabas, outros mencionam obras indicadas por esses educadores. Altamira, Maria Luiza, Tia Ção e Tia Gisele recebem declarações de amor explícito. Foi através delas e de várias outras que conheceram Dom Quixote, O Cortiço, Meu Pé de Laranja Lima e Chapeuzinho Amarelo. Outros, inspirados por diferentes motivações, relatam suas leituras de obras estrangeiras, como O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, Os Miseráveis, de Victor Hugo, e até Shakespeare. Machado de Assis, Cecília Meireles e Paulo Coelho são outros nomes que aparecem nas ecléticas práticas de leitura relatadas.

Partindo de um início no mundo da leitura com gêneros infantis, hoje esses leitores relatam uma dedicação a leituras mais complexas, como artigos literários e científicos. Para a maioria, a leitura não é apenas um passatempo, mas uma verdadeira jornada de aprendizado e expansão de horizontes, ilustrando como os livros podem ser ferramentas poderosas na construção de uma mente curiosa e engajada. Esse percurso demonstra um contínuo amadurecimento intelectual e ilustra como o letramento pode ser um processo dinâmico e transformador na vida dessas pessoas. Ao leitor, advertimos: cada nova página certamente acrescentará novas cores e camadas ao seu entendimento do mundo.

 

Carlos Henrique,

Daniela,

Luís Felipe e

Patrícia (Orgs.)



A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas pelo Professor  Carlos Henrique Silva de Castro e pelos Tutores Daniela da Conceição Andrade e Silva, Luís Felipe Pacheco e Patrícia Monteiro Costa.

Túnel do tempo

Túnel do tempo

Os textos publicados individualmente nesta página podem ser lidos reunidos nos volumes da coleção Memórias de Letramentos. Para adquirir seu e-book gratuito ou impresso  pelo preço apenas do serviço de gráfica, clique no banner ao lado ou no fim da página.


Viviane Fernandes, Capelinha/MG

Minha infância foi cheia de brincadeiras, como queimada, peteca, bonecas, entre outras. Porém, quando o assunto era estudo ou algo relacionado, eu não tinha muito interesse, até porque meus pais não tinham muito letramento e priorizavam as brincadeiras.

Mas me lembro de uma prima mais velha que adorava ler e estudar a história do Brasil, e também ensinar as pessoas. O pai dela fez um lindo quadro verde, comprou vários livros e a incentivava a vivenciar cada momento desse mundo mágico. A dedicação dela era recíproca, e eu só podia admirar todo o empenho dela de longe, pois minha mãe não deixava que seus filhos saíssem de casa para nada; estávamos sempre ao lado dela e das pessoas que ela queria por perto. Sempre que eu conseguia fugir um pouco, ia parar na casa dessa prima. Sinceramente, era um momento mágico e muito diferente da minha realidade. Ali, havia uma sala separada com muitos livros e revistas, mas esses momentos eram poucos e muito rápidos. Mesmo assim, o que ela conseguia me ensinar era de grande valor, e ela sempre o fazia com muita boa vontade.

Depois desses momentos com ela, comecei a buscar outros recursos para adquirir livros e revistas. Conheci a moça que fazia a limpeza da biblioteca da minha escola na época, e sempre, no final do ano, havia a necessidade de organizar e descartar algumas coisas. Eu juntava tudo que me interessava e levava para casa – eram cartazes, revistas, gibis, mapas e alguns livros. Nessa fase, comecei a ler melhor, pois já tinha mais ou menos 10 anos, embora ainda sem muita prática.

Com a matemática, demorei a aprender. Tinha algum conhecimento com moedas, pois era o que mais usava, e, assim, fui aprendendo os valores. Depois dos meus 12 anos, minha avó, que sempre vinha nos visitar, começou a me presentear com dinheiro, e, para não ficar perdida com os valores que ela aumentava a cada ano, tive que aprender a controlar os gastos para não ficar sem dinheiro.

De tudo isso, concluo que o cotidiano e a família têm grande importância nos primeiros e seguintes passos das pessoas na escola e no aprendizado. Digo que tive pouca influência da minha família, mas, com minha prima, foi totalmente diferente; com o apoio do pai dela, ela já entrou na escola sabendo ler e escrever.

Não tenho muita lembrança, mas acredito que aprendi a ler só depois dos 8 anos, já na escola, e tive muitas dificuldades. O que me deu suporte foram os livros que consegui adquirir. Infelizmente, os professores não dedicavam muito tempo aos alunos com dificuldades, e éramos deixados de lado. Minha avaliação é negativa sobre esses anos iniciais.

Lembro que tínhamos que fazer leituras para a sala toda de textos de contos, e isso era torturante. A nossa biblioteca era pequena e muito incompleta, mais decorada com mapas do mundo e do corpo humano, e era raro frequentá-la.

Hoje vejo que, com muito esforço e dificuldade, consegui aprender a ler. Percebo que a leitura é fundamental para uma boa escrita. Não estou satisfeita com minha leitura; sei que quero e preciso melhorar muito mais. Acho bonito quando alguém consegue expressar-se bem em um texto ou discurso, e desejo melhorar isso em mim também.

Embora a escola não tenha me motivado, consegui adquirir algum conhecimento pela curiosidade, buscando outros meios, até mesmo pela televisão, vendo como as pessoas falavam. Por isso, considero-me boa em falar, mas não em escrever.

A leitura é algo que ainda me traz preguiça; prefiro escutar a ler. Hoje, percebo a falta que isso me faz, pois não é uma prática comum em minha vida, principalmente nos dias atuais. A matemática também me traz muitas dificuldades, especialmente nos cálculos mais complexos. Hoje, só consigo fazer o básico e um pouco de porcentagem, que aprendi na marra, fora da escola. Considero que não tive uma boa base, tanto na leitura quanto na matemática. A vida foi me mostrando como lidar com os prejuízos e a falta de diálogo.



SOBRE A AUTORA:

Viviane Fernandes, de Capelinha/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

Minha vida escolar

Minha vida escolar

Os textos publicados individualmente nesta página podem ser lidos reunidos nos volumes da coleção Memórias de Letramentos. Para adquirir seu e-book gratuito ou impresso  pelo preço apenas do serviço de gráfica, clique no banner ao lado ou no fim da página.


Vaneide Cardoso dos Santos, Águas Formosas/MG

Nasci na cidade de Águas Formosas em 22/06/1987, tenho 37 anos, sou mãe de dois filhos: Luiz, meu primogênito de 14 anos, e Lisbela, minha caçulinha de 6 anos. Sou casada e sonho com um futuro melhor para mim e para a minha família.

Comecei meus estudos na pré-escola; foi lá que tive contato com os livros infantis e gostei muito das histórias ilustradas. Recordo que uma tia comprou alguns livros para mim e para minha irmã. Lembro do título de um deles, que era a história do “Sapo Cururu”, e cantávamos a música: “Sapo Cururu na beira do rio, quando o sapo grita a maninha é porque tem frio, a mulher do sapo deve estar lá dentro fazendo rendinha a maninha para o casamento…” Acredito que muita gente conhece essa história, e ela fez parte da minha infância. Eu gostava muito dela por conta das imagens; relembro as cenas das ilustrações, com cores vibrantes que me encantavam.

Quando entrei na escola, aos 7 anos, ainda não sabia somar nem diminuir. Aprendi tudo lá. Meus professores foram exemplos de aprendizagem para mim. Como meus pais eram analfabetos, não tinha ninguém para me ajudar, então a escola foi fundamental. Aprendi a ler e a escrever, além do alfabeto e dos números. Foi uma experiência muito boa, pois tudo era novo. Lembro mais da merenda escolar e das brincadeiras no pátio. Também recordo que os professores escreviam as lições no quadro negro com giz branco e rosa, e que apagávamos o quadro com um apagador que deixava um pozinho branco no ar. Ah, que saudade daquele tempo em sala de aula!

Sou muito grata a Deus pela oportunidade de ter estudado, pois a escola foi essencial na minha vida. Foi lá que obtive o conhecimento que carrego comigo. Muitas coisas que aprendi na escola nunca foram explicadas por meus pais. O que não aprendi na escola, aprendi com o mundo. Por isso, acredito que a escola e a família devem estar unidas para o melhor aproveitamento e formação dos alunos, tanto na educação quanto no caráter e para a vida.

Recordo de alguns textos que estudei, como poemas, contos e charges. Nas escolas em que estudei, havia biblioteca. No primário, sempre tínhamos um dia para pegar livros para ler em sala de aula. No fundamental, tínhamos o dia da leitura, sempre nas sextas-feiras, que era uma aula inteira dedicada a isso. Também precisávamos pegar livros no final de semana para levar para casa e fazer o resumo, pois o professor passava atividades relacionadas ao livro. A escola sempre nos motivou a ler. Eu sempre gostei de livros com muitas ilustrações; achava mais interessante ler aqueles com gravuras, desenhos e muitas cores, além de histórias de suspense e romances. Adorava ler naquela época.

Concluí meus estudos em 2005. Geralmente, quando terminamos o segundo grau e começamos a trabalhar, deixamos os estudos de lado e já não nos preocupamos mais em ler livros. Então, veio a tecnologia: celulares, tablets, computadores, e com eles nos afastamos ainda mais dos livros, jornais e revistas. Deixamos de lado o papel e passamos a nos dedicar apenas às máquinas tecnológicas. Hoje em dia, não sou muito de ler livros; tenho dificuldade em ler textos longos e sem figuras, mas estou me esforçando para ler mais, dedicando-me à leitura.

Relembro de quando tive contato com números fora da escola. Minha mãe sempre me mandava comprar algo nas vendinhas da esquina. Recordo que, naquele ano, o dinheiro ainda era o cruzeiro. Eram notas grandes, mas de pouco valor. Certa vez, minha mãe me deu 50 cruzeiros para ir à venda, mas na minha lembrança, não trouxe muita coisa. Logo depois, veio a mudança do cruzeiro para o real. Lembro da primeira nota de 1 real que peguei e que conseguia comprar várias coisas com 1 real: salgadinhos, doce de amendoim, pirulito. Eu fazia a festa com 1 real naquela época.

Acredito que, nos dias de hoje, administro bem minhas finanças. Minha passagem pelo ensino médio foi muito proveitosa e me ajudou bastante. Consigo entender e administrar minha movimentação bancária, somar dívidas e calcular os juros que podem ser cobrados. Quando fazemos uma compra pela internet usando cartão de crédito e optamos por parcelar, muitas vezes são cobrados juros abusivos. Precisamos ficar atentos e fazer as contas de quanto será esse acréscimo, caso contrário, ficamos no prejuízo. É necessário estar atento em todo lugar.

Trabalhei em uma mercearia; na época, ainda não havia internet, então tínhamos que decorar os preços das mercadorias e os nomes dos produtos disponíveis no estoque. Acredito que isso me ajudou muito no processo de aprendizagem da vida, e o conhecimento que obtive na escola foi essencial. Se eu não tivesse estudado, como poderia ter me desenvolvido tanto? Portanto, minha passagem pela escola foi crucial na minha formação de vida.



SOBRE A AUTORA:

Vaneide Cardoso dos Santos, de Águas Formosas/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


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Minha infância

Minha infância

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Thaís Gonçalves Rodrigues, Cristália/MG

Minha infância foi repleta de momentos marcantes e alegres, e a leitura desempenhou um papel fundamental nela. Desde pequena, eu era apaixonada por livros e gibis. Minha mãe costumava me presentear com alguns gibis, e o meu preferido era a Turma da Mônica, criada por Maurício de Sousa. Tinha vários; de início, eu só folheava, pois ainda não sabia ler, mas posso dizer que era encantada.

Infelizmente, apesar da minha curiosidade e desejo de aprender, não aprendi a ler e escrever em casa. Rabiscava como muitas crianças, mas não aprendi em casa porque meus pais não tiveram a oportunidade de acessar a escola para obter conhecimentos escolares. Meus irmãos, todos mais velhos, já estavam frequentando a escola. Morávamos em uma comunidade rural, onde o acesso à escola era complicado; assim, meus irmãos não conseguiam estudar e ainda me ensinar em casa. Também não tive a oportunidade de fazer a pré-escola pelos mesmos motivos de morar em uma área de difícil localização.

Quando finalmente comecei o primeiro ano na escola, aos 7 anos, em poucos meses já aprendi a ler, escrever e contar os números. Lembro-me com carinho da minha professora, que sempre elogiava meu desempenho e meu amor por conversar. Recordo-me de que ela era uma pessoa adorável, sabia exatamente o que fazia e o fazia por amor. Escrever era como se eu estivesse entrando novamente, com ela, toda semana, na sala de leitura, que era um espaço único, repleto de livros, sonhos e histórias incríveis. Era uma das partes da escola que eu mais amava. Naquele tempo, não percebia o quanto era afortunada por ter uma professora tão dedicada e por ter acesso a um ambiente tão enriquecedor. Assim, fui avançando nos níveis de escolaridade e aprendi a multiplicar, dividir, somar, resolver probleminhas e escrever pequenos textos.

Recordo-me de que meu hobby passou a ser escrever cartas. Não havia um conhecido meu que não recebesse uma cartinha; minha mãe já não sabia mais onde colocar tantas cartas. Uma atividade bastante importante que eu fazia para o meu desenvolvimento escolar era apresentar peças em público e ler poemas, entre outras coisas que eu amava, juntamente com minhas coleguinhas de classe.

À medida que fui crescendo, minha paixão pelos livros só aumentou. No ensino médio, frequentava a biblioteca durante os intervalos, pegando gibis e livros para ler em casa. A leitura se tornou um hábito tão presente que, muitas vezes, passava noites inteiras devorando histórias para descobrir os finais. Hoje, reconheço os benefícios dessas leituras, como a habilidade de interpretar textos, e vejo como a educação me proporcionou um sólido alicerce para a vida acadêmica.

Sou grata por todas as oportunidades que a escola me proporcionou até agora. Embora ainda tenha muito a aprender, reconheço que a educação é um privilégio e uma oportunidade valiosa. A nossa geração tem acesso a grandes oportunidades, e é crucial incentivarmos as crianças e adolescentes a valorizar o estudo e o aprendizado. A leitura e a escrita são fundamentais para o desenvolvimento educacional e têm um impacto significativo em nossas vidas futuras.



SOBRE A AUTORA:

Thaís Gonçalves Rodrigues, de Cristália/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


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Mergulhando nas lembranças de minha escrita

Mergulhando nas lembranças de minha escrita

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Thais Fernandes dos Santos, Itamarandiba/MG

Antes de ingressar no ambiente escolar, meu primeiro contato com o mundo da escrita ocorreu em uma creche em Itamarandiba, quando eu tinha cerca de cinco anos e meio. Minha mãe se referia a essa fase como prezinho. As memórias dessa época são vagas, mas recordo que ali aprendi a contar e a escrever, embora não me lembre exatamente até onde minha capacidade se estendia. Curiosamente, foi nesse período que, movida pela minha curiosidade inata, aprendi a escrever em letra cursiva. Já a leitura, não sei se dominava completamente.

Com o passar do tempo, minha mãe conheceu meu padrasto e nos mudamos para a zona rural. A ausência de energia elétrica tornou-se um desafio considerável para minha adaptação, e o contato com a escrita diminuiu. Lembro-me de um pequeno rádio a pilha que nos proporcionava música e notícias. Costumava visitar uma tia que possuía revistas de moda; eu adorava folheá-las e admirar as ilustrações.

Não posso esquecer da tia Ilda, que frequentemente nos visitava trazendo sua filha mais nova. Ela trazia consigo encantadores livros de contos de fadas, cada um com cores vibrantes e poucas páginas. O conto da Cinderela era meu favorito, especialmente pelas ilustrações. Brincava com meus primos e irmãos de escolinha; eu assumia o papel da professora, escrevendo nas paredes com carvão ou, dependendo do local, utilizando um barro branco conhecido como Tabatinga.

Ao completar sete anos, ingressei na Escola Municipal São Miguel Arcanjo, situada a cerca de quinze minutos de casa, que eu percorria a pé. No início, era tímida e preferia permanecer à margem, até me enturmar com os colegas. Por já ter passado um período na creche, cheguei à escola escrevendo em letra cursiva — que chamava de “emendada”. Contudo, a tia Fátima — carinhosamente chamada de ‘fessora’ — não permitiu que eu continuasse assim. Fiquei bastante chateada com isso; ela me explicou que ainda não estava na fase adequada para aprender aquela forma de escrita. Se não me engano, aprendi a ler as horas antes mesmo de entrar na escola.

Minhas dificuldades na escrita foram poucas; o maior desafio residia na leitura. Recordo-me também das continhas básicas: um mais um, dois mais dois… Eu lidava bem com problemas simples e até apreciava principalmente adições; no entanto, ao avançar para multiplicação e divisão, as coisas se tornaram um pouco mais complicadas!

Havia dias em que chegava à escola atrasada por perder a hora. Contávamos com um despertador bastante silencioso, e minha mãe tinha um sono pesado; às vezes, ela simplesmente não ouvia o alarme. Eu andava devagarinho e meu padrinho costumava gritar ao me avistar: “Tira o pé do chão, tartaruga!” O pior era quando a fessora não me deixava entrar; eu voltava para casa chorando.

E como eram engraçadas as ocasiões em que precisava ficar na casa da minha avó! Nessa época, já estudava à tarde. Havia um rio cujas únicas passagens secas eram por uma pinguela; porém, havia dias em que me deparava com uma lagartixa no caminho e faltava-me coragem para atravessar! Gritava: “Ô, vó! Vem passar eu na lagartixa!” Às vezes, ela vinha; outras vezes, ela resmungava e não se movia. Eu era tão medrosa que acabava voltando para casa e perdendo aula. Com essas idas e vindas, acabei ficando em recuperação devido às faltas acumuladas.

Com o tempo, fui conhecendo melhor os colegas e formamos laços de amizade durante o trajeto até a escola; aquele caminho era pura diversão! Frutos como gabiroba, cajuzinho-do-campo e jatobá adornavam nossas caminhadas; nas épocas de colheita, chegávamos em casa tarde e com as barrigas repletas.

Naquela época, não havia biblioteca na escola; havia apenas um canto separado onde os livros eram dispostos sobre uma mesa decorada com figuras incentivadoras para a leitura. Era um período bastante precário: levávamos nossos cadernos em sacolas de arroz. Lembro-me das provas escritas à mão que eram passadas pelo mimeógrafo; as letras frequentemente saíam apagadas e a fessora tinha que reforçá-las com caneta para facilitar nossa compreensão.

Em outro momento da minha jornada escolar, estudei sob a orientação da tia Célia — uma educadora dedicada e carinhosa. Ela nos incentivou imensamente na leitura e na criação de textos. Possuía um caderno destinado exclusivamente à produção textual; colávamos ilustrações nele e, através delas, criávamos nossos relatos. Toda sexta-feira eu levava um livro para ler em casa e, na segunda-feira, apresentávamos o assunto tratado diante da turma. Uma das obras que mais recordo é “Chapeuzinho Vermelho”, além das lendas folclóricas que tanto me fascinavam.

Assim foram meus primeiros passos no mundo da escrita — uma jornada repleta de descobertas e memórias inesquecíveis!

Quando alcancei a fase da divisão e multiplicação, a tia Fátima retornou como minha professora. Enfrentei inúmeras dificuldades nesse período e recordo que ela aplicava os fatos diariamente, além de designar a tabuada para que eu estudasse em casa. Ela também exigia uma produção textual considerável, que se tornou minha atividade favorita, onde eu preenchia mais de uma folha.

Subsequentemente, ingressei na quinta série e mudei de escola, passando a estudar em Itamarandiba. Era necessário acordar às quatro horas da manhã e percorrer aproximadamente dois quilômetros para pegar o ônibus escolar, que realizava um trajeto de cerca de vinte e quatro quilômetros. Essa rotina era extremamente exaustiva; quando não enfrentávamos poeira, lidávamos com lama e buracos. O ônibus frequentemente apresentava problemas mecânicos, obrigando-nos a esperar à beira da estrada por socorro, especialmente quando não era viável retornar a pé.

No Ensino Fundamental II, já havia uma biblioteca na escola e éramos incentivados a frequentá-la. Comecei a explorar livros de maior complexidade para leitura. Não consigo esquecer de um momento teatral que apresentamos na escola, baseado em um livro; é uma pena que não me recorde do título. Ao levar o livro para casa, era necessário assinar um termo de compromisso e preencher uma ficha literária.

Antes de concluir o Ensino Fundamental II, engravidei e me vi compelida a interromper meus estudos. Contudo, sempre mantive o desejo de retomar essa jornada. Aos vinte anos, retornei à educação no CESEC (Centro de Educação Continuada) de Itamarandiba e, com muito esforço e dedicação, consegui me formar no Ensino Médio.

Devido à minha interrupção escolar, sinto que experimentei uma significativa perda em meu aprendizado, especialmente em disciplinas como Física e Química, que demandam um aprofundamento maior e um tempo adicional para compreender melhor as fórmulas. Sempre tive uma grande afinidade por Matemática, mas, em virtude do período em que estive afastada da escola, enfrentei algumas dificuldades nessa área. No entanto, tive a sorte de contar com um excelente professor de Matemática no CESEC, chamado Donizete. Mesmo após um bom tempo da minha formação, recordo-me claramente de seu método de ensino. Graças aos seus ensinamentos, consegui superar as dificuldades e desenvolver ainda mais meu apreço pela disciplina.

Considero-me uma pessoa habituada à leitura; tenho um profundo gosto por livros. Atualmente, exerço a função de secretária na associação quilombola de minha comunidade, onde escrevo e leio com frequência. Reconheço que o papel da escola no meu letramento inicial foi de suma importância para minha vida e para meu crescimento neste novo capítulo que estou vivendo.

Sempre nutri o sonho de cursar uma universidade, embora imaginasse isso como algo distante devido ao meu papel como dona de casa e mãe de família. Nunca havia considerado a possibilidade de estudar Pedagogia; no entanto, após a pandemia e com as aulas remotas, comecei a reunir em minha casa uma pequena turma composta por meu irmão, primos, sobrinho, vizinho e minha filha para ajudá-los com as atividades escolares. Essa experiência despertou em mim um interesse pela área educacional.

Atualmente, trabalho como servente escolar, função que está intimamente ligada à educação e ao contato com as crianças. Sinto que estou trilhando o caminho certo. Hoje, estou aqui cursando Pedagogia na UFVJM, o que representa uma grande realização pessoal e uma busca incessante por mais conhecimentos.

Acredito que a educação é um instrumento transformador, capaz de promover mudanças significativas na vida das pessoas. Estou determinada a aplicar tudo o que aprendi e continuarei aprendendo para inspirar e apoiar as futuras gerações. Meu objetivo é não apenas formar alunos, mas também cultivar cidadãos conscientes e críticos, que possam contribuir para um mundo mais justo e igualitário. Estou animada com o que o futuro me reserva e ansiosa para fazer a diferença na vida dos meus alunos!



SOBRE A AUTORA:

Thais Fernandes dos Santos, de Itamarandiba/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


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Trajetória de uma vida escolar

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Sara Lamares Santos, Itamarandiba/MG

Desde os meus 5 anos de idade, era acostumada a ver e ter acesso à leitura e à escrita em minha casa. Desde quando via os meus irmãos mais velhos fazendo suas lições escolares, tanto quanto meu pai, que na época gostava de escrever louvores em seus cadernos, aos jornais de papel, cartazes espalhados pela cidade e comércios. Fomos acostumados a ganhar livros usados que nós usávamos para recortar palavras e criar frases. Era uma simplicidade e, ao mesmo tempo, diversão para a gente recortar palavras e ter as imagens como inspiração para desenhar. Lembro do nosso primeiro presente dado por nossos pais, que foi um conjunto de livros de gibis do Ursinho Pooh, que veio com DVD dos desenhos para assistir.

Quando cheguei à escola, não sabia contar, pois não tinha incentivo em casa para estudos na minha infância. Creio que a razão seja que meus pais, em sua infância e adolescência, mal haviam concluído o fundamental 1, e meus irmãos, apesar da pouca diferença de idade, também sofriam dificuldades em seus letramentos escolares. Por esse fator, tive mais dificuldade na leitura, e também em somar e dividir, o que até hoje tem sido uma dificuldade em meus estudos.

Aprendi os primeiros números e a escrever na escola, a partir dos 8 anos de idade. O que, para mim, naquele momento, foi muito interessante e inovador foi fazer amizades e adquirir novos conhecimentos. Formar palavras, juntar sílabas, aprender a escrever o meu nome, que, pelo pouco que recordo, ainda escrevia errado. Tudo foi importante, e a motivação das professoras na época em nos ensinar me fez ter mais vontade de escrever e aprender palavras novas.

Sem dúvidas, esse papel da escola em meus letramentos iniciais foi de grande importância para os meus próximos anos escolares. Na escola, a princípio, no ensino fundamental 1, havia leitura de textos de características ficcionais, como fábulas, contos e lendas, tudo o que, para uma criança, fosse bom para sua imaginação e interpretação.

Já no fundamental 2, eram leituras de biografias, diários, jornais e crônicas, que simulavam textos de conhecimento científico em relação a acontecimentos da humanidade. No ensino médio, o que me recordo, apesar da pandemia e dos deslocamentos para as atividades em EaD no início do primeiro ano, e ao voltar às aulas no segundo semestre do segundo ano, eram redações e textos argumentativos, com o propósito de preparar para vestibulares, o que na realidade não houve muita ajuda nesse contexto. Pois não eram tão priorizados esse ensino e a realização dessas atividades. Na época dos exames eram feitas outras atividades, pois, em decorrência da pandemia, a demanda de conteúdos era grande pra pouco tempo, resultando na falta de conhecimento de várias disciplinas.

Em relação à biblioteca na escola, era pouco o uso de livros e o incentivo à leitura, pois apenas na matéria de língua portuguesa havia esse uso. Não podia levar o livro para casa; a leitura só era feita na biblioteca em apenas um horário na semana, para a realização de atividades em torno do bimestre. Por essa razão, minha relação com a leitura e com a escrita foi pouco incentivada na escola, o que poderia ter sido melhor e que, na realidade, me trouxe dificuldades em interpretar textos e ler textos longos na faculdade, como palavras mais difíceis ou de duplo sentido, textos mais complexos.

Sendo a matemática essencial para a vida de qualquer pessoa, seja para calcular trocos e também para cozinhar, ela nos auxilia no raciocínio. A prática com os números na escola nos dá uma base para atividades mais comuns em nossa vida cotidiana; nesse quesito, tem me ajudado nos princípios básicos de meus conhecimentos na infância.

Porém, o ensino médio não nos preparou para os desafios burocráticos envolvendo números e letras, como declarar impostos de renda, movimentos bancários e calcular questões como prejuízos e lucros. Tudo o que é essencial para o dia-dia. O que, por exemplo, ao exercer algum curso profissionalizante ou a fazer algo a respeito de finanças, seria uma tarefa difícil de executar.



SOBRE A AUTORA:

Sara Lamares Santos, de Itamarandiba/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


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Sementes de um sonho a caminho da realização

Sementes de um sonho a caminho da realização

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Sanny Lopes Paranhos, Capelinha/MG

Nasci em Capelinha, cidade do Vale do Jequitinhonha, localizada no interior de Minas Gerais. Desde criança, sempre tive acesso a livros, revistas e histórias em quadrinhos, na escola, em casa e na igreja. Meu pai sempre incentivou a leitura; a cada oportunidade, comprava livros para mim e para minha irmã. As prateleiras do meu quarto estão recheadas de livros de diversos gêneros, que possuo desde a infância. Lembro-me perfeitamente de quando ganhei minha primeira coleção de Monteiro Lobato, que incluía vários livros narrando as histórias do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”.

Eu também tinha o hábito de ler histórias bíblicas. Minha mãe é católica, então eu ia às missas e participava da catequese, onde tinha contato com livros bíblicos infantis e folhetos da igreja. Às vezes, eu também ia aos cultos com minha avó e ficava em uma área direcionada somente às crianças, onde lia a Bíblia e a interpretava.

Tenho boas recordações de quando aprendi a ler e escrever. Lembro-me da “tia” ensinando a escrever as letras com o pontilhado e, depois de um tempo, nos instruindo a fazer as letras cursivas. Foi uma sensação gratificante aprender a escrever a primeira letra do meu nome. Nessa época, comecei a brincar de escolinha com minhas amigas e amava ser professora, ensinando tudo o que aprendi. Inclusive, elas viviam me chamando de professora no dia a dia, porque eu tinha a mania de explicar tudo repetidamente, nos mínimos detalhes, como se estivesse dando uma aula.

Em todas as escolas onde estudei, havia biblioteca com incontáveis livros. Minhas professoras do fundamental I e II sempre nos levavam para ler, e eu tinha o hábito de pegar livros da biblioteca e levá-los para casa. Da mesma forma, eu pegava livros emprestados na biblioteca pública da cidade. Já no ensino médio, as duas escolas em que estudei me incentivaram a realizar leituras mais profundas, como filosofia e sociologia, e assim comecei a ter contato com a redação, com o objetivo de me preparar para o Enem. Desenvolvi a leitura e a escrita de forma mais crítica.

Também no ensino médio, conheci uma colega de turma chamada Raíssa, que amava ler. Assim como eu, havia muitos livros na casa dela, e fazíamos trocas. Ela escrevia poesias e eu acabei desenvolvendo esse costume e comecei a escrever, mas no meu caso eram contos. Eu sempre lia os poemas dela e ela lia os meus contos. Depois que me formei no ensino médio, perdemos o contato e acabei perdendo a prática e parei de escrever histórias.

Eu também fui uma criança que sempre teve contato com TV, DVDs e CDs em casa. Com minha irmã, escutava e assistia clipes de diversas bandas e desenhos animados. Dentre tantos, alguns foram mais marcantes e me impulsionaram a explorar novas línguas, o que se tornou minha paixão. Por exemplo, a Xuxa, que ensinava as letras do alfabeto e números em inglês, cantoras do gênero pop que cantavam músicas em inglês e despertavam minha curiosidade sobre o que elas estavam falando, e a banda/novela RBD, que desencadeou minha paixão pelo espanhol.

Hoje, com 24 anos, estou me graduando em Pedagogia pela UFVJM e em Letras – Português/Inglês pela Uniube. Faço curso de inglês e estudo de forma autônoma o espanhol. Tudo isso reafirma em mim a paixão pela leitura, escrita, línguas, diversidade e licenciatura. Tenho o grande sonho de um dia ser professora, poliglota e também aprender Libras.



SOBRE A AUTORA:

Sanny Lopes Paranhos, Capelinha/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


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Histórias de vida e autodescoberta

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Samille Brito Silva, Pedra Azul/MG

Tenho 28 anos e sou natural de Pedra Azul, Minas Gerais. Sou formada em Serviço Social, embora atualmente não atue na área. Trabalho no comércio, mas uma das minhas grandes paixões é a leitura. Adoro mergulhar em livros e me perder em suas histórias. Estar estudando novamente me proporciona a oportunidade de explorar novos temas e expandir meu gosto literário para diferentes gêneros. Sinto que a leitura é uma forma de viagem sem sair do lugar, uma maneira de explorar mundos e vivências diversas. Cada livro que leio me oferece uma nova perspectiva e me ajuda a entender melhor o mundo ao meu redor.

Desde pequena, a leitura sempre fez parte da minha vida. Em casa, sempre tivemos acesso a uma variedade de livros. Meus tios tinham o hábito de ler, e isso influenciou muito o meu amor pelos livros. Além disso, na igreja, também havia o folheto que acompanhava a missa, o que me familiarizou ainda mais com o universo da leitura. Essa exposição precoce aos livros e à leitura foi fundamental para moldar minha relação com o conhecimento.

Minha tia, que sempre foi uma grande incentivadora da minha leitura, já me presenteou com alguns livros marcantes, como O Pequeno Príncipe e A Menina que Roubava Livros. Embora ambos sejam excelentes, gostei mais de O Pequeno Príncipe. Este livro, com sua simplicidade e profundidade, me tocou de uma forma especial. A maneira como ele aborda temas universais de forma tão acessível me fascinou. Já A Menina que Roubava Livros, apesar de ser um dos livros mais queridos e amados por muitos, não teve o mesmo impacto em mim. No entanto, cada leitura tem seu valor e contribui para minha formação literária. Gosto mais de romances e de livros de autoajuda, que me ajudam a entender melhor a mim mesma e o mundo ao meu redor.

Tenho algumas lembranças vagas da minha fase de alfabetização. Lembro-me da professora e de como comecei a aprender sobre esse universo mágico das palavras e dos números quando tinha 6 anos. Naquela época, eu não sabia ler nem escrever. Tudo o que aprendi foi na escola, e esse aprendizado teve um papel crucial na minha vida. Aprendi não só a ler e escrever, mas também a valorizar a matemática e outras matérias fundamentais para o desenvolvimento do pensamento crítico. Meus pais também desempenharam um papel importante, sempre ajudando com as tarefas de casa e incentivando meu interesse pelos estudos. A dedicação deles me deu uma base sólida, essencial para qualquer aprendizado futuro.

Não me recordo exatamente de como era minha caligrafia ou das minhas habilidades em matemática naquela época, mas lembro que a escola tinha uma biblioteca que os alunos podiam usar para pegar livros ou assistir a vídeos educativos. Esse espaço era uma verdadeira fonte de descoberta e conhecimento. A possibilidade de explorar livros sobre diferentes temas despertava minha curiosidade e me fazia querer saber mais. Mesmo assim, o gosto pela leitura que tenho hoje me ajuda em várias situações, como participar da liturgia nas missas dominicais. A leitura enriquece minha vida de várias formas e me ajuda a estar mais conectada com minha espiritualidade.

Com a universidade, percebi uma mudança significativa. O tipo de leitura exigido é diferente do que estou habituada, e isso alterou minha forma de adquirir conhecimento. Os temas são variados e desafiadores, o que tem sido um exercício para o meu pensamento crítico. Os textos acadêmicos são mais difíceis de compreender rapidamente, especialmente para quem não está acostumada com esse tipo de leitura. No entanto, vejo isso como uma oportunidade de crescimento e uma chance de desenvolver novas habilidades. Cada desafio acadêmico é uma oportunidade de expandir meus horizontes e aprimorar minha capacidade de análise e reflexão.

Quanto às minhas finanças, sinto que administro bem minha vida financeira. Aprendi, não apenas na escola, mas também em casa, a lidar com questões financeiras de forma responsável. No entanto, acredito que as escolas poderiam oferecer mais suporte na educação financeira. Saber gerenciar finanças é uma habilidade vital, e ter mais recursos e ensinamentos sobre isso nas escolas certamente ajudaria muitos estudantes a se prepararem melhor para a vida adulta. A educação financeira é essencial para garantir um futuro mais seguro e equilibrado.



SOBRE A AUTORA:

Samille Brito Silva, de Pedra Azul/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


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A educação nos tempos da minha meninice

A educação nos tempos da minha meninice

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Rose Mary Avelino da Silva, Grão Mogol/MG

Vivi os quase 50 anos da minha vida refletindo como uma mãe de 9 filhos, que, como a minha, em uma época em que quase não existiam recursos, exigia que todos os filhos estudassem e completassem, no mínimo, o ensino médio. Ainda está vívido em minha memória o que minha genitora sempre repetia para nós, ainda crianças: “Meus filhos, se esforcem. Pois a única coisa que eu e seu pai podemos oferecer-lhes são os estudos para que futuramente tenham formação superior gratuita”. Palavras sábias, ditas com tanto amor e esperança por ela. Me recordo de que, quando comecei o jardim de infância, não sabia nem o alfabeto. Não tínhamos recursos nem para comprar o material necessário, mas a minha vontade de conhecer o âmbito escolar era de imensa grandeza.

Na escola, conheci números, letras e pessoas, dentre elas o nosso saudoso professor Jadir, que, com sua grande sabedoria, não media esforços para nos ajudar, sempre nos incentivava à cultura: livros, notícias, músicas e artes. Meu primeiro contato com a leitura foi quando, para um trabalho escolar, precisei ler o livro “Éramos Seis”, de Maria José Dupré, que nunca me saiu da memória.

Na minha comunidade, o acesso à educação não era difícil, mas em casa era quase impossível contar com a assistência de meus pais, pois eles trabalhavam muito para trazer o nosso sustento para um humilde e amoroso lar. Tínhamos que nos esforçar para dar o nosso melhor, para que o aprendizado fluísse da forma mais conveniente possível. Era isso que exigiam de nós, os filhos.

Na escola, não praticávamos muito a produção de texto; os educadores focavam mais em ensinar a escrita e a matemática básicas. Atualmente, noto que a minha realidade não condiz com a de meus tempos de menina, pois hoje temos fácil acesso a diversas ferramentas de aprendizagem graças ao advento da internet e da era da informação.

Me lembro de ter uma biblioteca na escola; quando pegávamos um livro, tínhamos que assinar um termo de compromisso e devolvê-lo no prazo estipulado. Por isso, as leituras tinham que ser as mais breves possíveis, pois havia poucos livros para muitos alunos. Me assusta hoje ter tanto acesso e, ainda assim, ter jovens que não querem desbravar este luxo. Creio que, por ter se tornado fácil demais, a busca por conhecimento ficou em segundo plano. Em meu ponto de vista, a maior riqueza que a humanidade possui é o conhecimento.

Ainda em minha ignorância da meninice, quando perambulava pelas ruas da minha cidade pacata e monótona, vislumbrava inúmeras pessoas lendo jornais impressos enquanto seguiam rumo aos seus destinos. Me impressionava tudo aquilo, pois ainda não tinha conhecimento nenhum sobre tal meio de comunicação. Só anos mais tarde fui tomar nota de que aquilo dependia de poder aquisitivo para gozar do acesso às informações; eram os chamados serviços por assinatura, e só a população de classe média e alta poderia ter uma iguaria como essa em mãos.

Me sinto honrada de vivenciar esse grande avanço tanto na economia quanto na educação. A EaD nos trouxe o privilégio de qualquer pessoa, independente de sexo, raça, religião ou condições financeiras, com um simples acesso a um celular, computador ou tablet, poder realizar sonhos educacionais, tornando assim viáveis mudanças no cenário de sua vida.

Estou no início do primeiro semestre do curso de Pedagogia e faço questão de ler todos os conteúdos propostos nas disciplinas, pois cada aprendizado é um avanço a mais para minha carreira acadêmica.

Sei que não é fácil concretizar sonhos se não houver esforço e dedicação. Sinto falta de conteúdos não aplicados em classe quando cursei o ensino fundamental e médio, pois hoje percebo que seriam de grande valia e relevância na minha formação. Porém, estou muito satisfeita com os avanços que nossa educação teve ao longo dos anos, trazendo inclusão, empatia, novos princípios, inovação e valores que foram ressignificados durante as décadas.

Gosto muito de ler notícias, porque assim me atualizo a respeito dos acontecimentos ao redor do mundo. Temos sempre que estar atentos às atualidades, para que sejamos pessoas decentes e donas do nosso próprio pensamento.

Me esforço ao máximo para que meus descendentes valorizem o que não tive, a chance de obter em uma época tão carente de discernimento.

Os meios de comunicação no município onde cresci eram de difícil acesso; tivemos nossa primeira TV quando eu tinha 10 anos. Ah, que luxo ter um “tubão” em casa! Já não precisava mais assistir aos programas pelas frestas das janelas das casas da elite, sonho realizado com o árduo suor de meu pai garimpeiro e minha mãe lavadeira.

Notícias de parentes distantes só chegavam através de cartas, que demoravam meses para chegar ao destinatário. Telefone? Jamais pensei que sobreviveria para ver um grande feito igual. Ah, que bondade o tempo nos trouxe!

Saudades daquela época? Sim, não vou mentir. Boas lembranças ficaram, mas o tempo passou e só restam vestígios. Agora, como adulta, foco em cultivar memórias boas como estas que ainda guardo dentro de mim.



SOBRE A AUTORA:

Rose Mary Avelino da Silva, de Grão Mogol/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

Minha vida, minha história

Minha vida, minha história

Os textos publicados individualmente nesta página podem ser lidos reunidos nos volumes da coleção Memórias de Letramentos. Para adquirir seu e-book gratuito ou impresso  pelo preço apenas do serviço de gráfica, clique no banner ao lado ou no fim da página.


Robilane Oliveira da Conceição, Pedra Azul/MG

Eu nasci e fui criada em uma família que, em algumas ocasiões, me proporcionou acesso a textos escritos, tanto em casa quanto na igreja que frequentávamos. Aos domingos, era comum minha tia me levar à igreja, onde tínhamos acesso à liturgia do culto de forma impressa, contendo cânticos e alguns versículos da Bíblia. Outras vezes, eu via minha mãe lendo a Bíblia em casa, assim como as professoras da escolinha da igreja, que liam histórias bíblicas.

Certa vez, fiquei encantada com um quebra-cabeça que ganhei de presente na escola, o qual continha imagens de personagens de contos de fadas. Isso despertou meu interesse em conhecer um pouco mais sobre esse gênero textual. As professoras sempre nos contavam histórias assim e, às vezes, assistíamos a filmes com essa temática.

Lembro-me de que a primeira vez que comecei a ter contato com os números foi durante uma brincadeira na minha infância. A “amarelinha” era nossa diversão por horas durante as tardes, onde aprendíamos, de forma divertida e animada, a sequência dos números até o 9. Nesse mesmo período, também começamos a entender o valor do dinheiro, pois era comum meu tio me presentear com algumas moedinhas de R$ 0,10. Aquele dinheiro tinha um destino certo: sempre comprávamos doces e balas para alegrar o nosso dia. Era indispensável, nesse tempo, saber contar, somar e subtrair, afinal, não queríamos ter prejuízo nas compras.

Quando comecei minha vida escolar, aos 6 anos, no pré-escolar, era complicado realizar as operações que eu costumava fazer usando os símbolos que a professora ensinava. Afinal, eu havia me acostumado a realizar operações na prática e não na teoria, utilizando caderno, lápis, borracha e as regras da matemática.

Nesse momento de dificuldade inicial, o apoio da minha família foi muito importante, especialmente da minha tia Maria, que me ensinou as primeiras operações matemáticas e a arte da leitura. Com essa ajuda, ficou mais fácil avançar na escola da forma como a professora exigia.

Lembro-me de que aprendi a escrever meu nome e a ler algumas palavras antes mesmo de entrar na escola, quando eu tinha 5 anos. Era comum ver minha tia ensinando a minha prima as atividades da escola, e eu sempre observava atentamente para aprender. Com isso, consegui dar os primeiros passos nesse mundo encantado da escrita e leitura.

Minha relação com a escrita na escola foi um pouco trabalhosa, pois, apesar de saber ler, eu tinha dificuldades em escrever. Eu era motivada a escrever as letras utilizando cadernos de caligrafia, onde treinávamos as vogais, em seguida o alfabeto e, posteriormente, as sílabas. A escola teve um papel fundamental no meu letramento inicial, pois lá expandi meus horizontes e percebi que o que eu sabia era apenas uma pequena parcela de tudo o que existia em relação à escrita e leitura.

No ensino fundamental I, por exemplo, tive acesso a textos como “O Boi Baba”, frases silábicas, pequenas fábulas e contos. Já no fundamental II, com uma certa bagagem, consegui progredir no estudo de textos mais robustos e complexos, como poemas, poesias e textos dissertativos. No ensino médio, tive acesso ao português de uma forma que eu nem imaginava existir. Foi lá que pude compreender como, de fato, as frases se conectam para formar textos. Aprofundei meus conhecimentos sobre ortografia, fonética, leitura e compreensão de textos, concordância, regência e pontuação.

Nas escolas, sempre tive acesso à biblioteca, que era bastante frequentada para fazermos trabalhos escolares e pegar livros emprestados para ler em casa. Não tínhamos acesso a tecnologias avançadas, como celulares, computadores e tablets, então nossa maior fonte de pesquisa era sempre a biblioteca.

Refletindo sobre minha relação com a leitura, desde os tempos de alfabetização até o ensino médio, é inevitável não notar grandes avanços. No início, ler uma pequena palavra era algo quase impossível, mas, com o esforço pessoal, alinhado à muita vontade de aprender e aos recursos proporcionados pela escola, como o acesso a livros, a biblioteca, os materiais que a professora disponibilizava, aulas atrativas, jogos e brincadeiras, tudo isso resultou em quem sou hoje.

Sinto-me confiante para ler, compreender textos, opinar sobre situações do cotidiano e me posicionar em diversas situações, tudo isso graças a uma vida escolar repleta de aprendizado. A leitura liberta. A maior conquista que qualquer ser humano pode ter é o acesso à universidade, e isso eu conquistei graças a Deus e a tudo o que aprendi ao longo da vida através da leitura.

Em relação aos números, tive muitos incentivos para me desenvolver nessa área. Desde muito cedo, aprendi a arte do crochê, uma atividade simples e fácil de realizar, mas que exige muita atenção, raciocínio lógico e um bom hábito de contagem e operações matemáticas. Um simples erro pode comprometer toda uma peça e, com isso, horas ou até dias de trabalho.

Também utilizei os conhecimentos matemáticos quando trabalhei em negócios do tipo mercearia. Lá, vivenciava diariamente operações como expressões numéricas, adição, subtração, multiplicação e divisão, tudo isso sob a exigência de tempo muito curto, pois precisávamos atender aos clientes de maneira rápida, eficiente e, acima de tudo, cordial.

No meu primeiro ano na universidade, houve mudanças drásticas nos meus hábitos de leitura, pois já fazia algum tempo que eu havia concluído o ensino médio e, naturalmente, não lia como antes. Essas mudanças trouxeram muitos pontos positivos, entre eles: o retorno ao bom hábito da leitura, uma reflexão mais acurada sobre o que estou lendo, discernimento crítico sobre os temas envolvidos e uma visão mais ampla do mundo. Sobre os pontos negativos, fica a preocupação de talvez não conseguir executar o que foi proposto no tempo adequado, levando em conta toda a nossa vida pessoal fora da universidade. Com mais conhecimento, surge também uma maior responsabilidade sobre nossas palavras, o que escrevemos e vivemos.

Tenho procurado sempre me nutrir de tudo o que os professores nos orientam a ler, para assim ter maior conhecimento sobre os temas propostos. Além disso, tenho buscado pesquisar sobre cada tema, para crescer e alcançar meus objetivos.

Estou gostando dessa nova fase da minha vida, especialmente do estudo dos gêneros textuais e de tudo o que escrevi aqui sobre letramento. Minhas expectativas para o futuro são as melhores possíveis. Sonho em ter liberdade financeira, mais conhecimento, contribuir com a formação dos meus filhos e, enfim, ter uma vida de sucesso profissional e pessoal.



SOBRE A AUTORA:

Robilane Oliveira da Conceição, de Pedra Azul/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

O despertar de uma amante das letras

O despertar de uma amante das letras

Os textos publicados individualmente nesta página podem ser lidos reunidos nos volumes da coleção Memórias de Letramentos. Para adquirir seu e-book gratuito ou impresso  pelo preço apenas do serviço de gráfica, clique no banner ao lado ou no fim da página.


Rillary Emanuelly Belaguarda, Itamarandiba/MG

A magia das letras sempre me rodeou e atraiu. Desde pequena, mesmo antes de ingressar na escola, tive contato com diversos tipos de gêneros textuais; livros sempre foram artefatos que despertaram minha curiosidade. Vendo isso, meus pais sempre me incentivaram e auxiliaram a desenvolver essa habilidade, tanto que entrei no meu primeiro ano escolar com um pouco de conhecimento de escrita, leitura e noções numéricas. Assim seguiram os primeiros anos da minha vida estudantil, lendo gibis e livros infantis; inclusive, tinha e ainda tenho uma coleção de almanaques da Turma da Mônica.

Passado algum tempo, quando estava no 2º ano, em 2013, com meus sete anos, me vi querendo escrever minhas próprias histórias. Daí surgiram as mais inusitadas façanhas, inspiradas em diversas fontes. Um exemplo foi uma extensa narrativa que escrevi, denominada “As Formigas Mutantes”. De onde surgiu essa ideia? De um formigueiro enorme que havia em uma das carvoeiras onde meu pai trabalhava; inclusive, quem lançou a fagulha e me desafiou a fazer um conto sobre o assunto foi ele, sempre buscando me fazer explorar meu potencial.

Vale ressaltar que, durante essa fase de mini escritora, além do apoio de meus pais, sempre fui encorajada por minhas professoras. Levava os manuscritos para elas, que, de boa vontade, faziam as correções e me direcionavam para sempre melhorar minha escrita.

O tempo passou, mudanças aconteceram e, em um piscar de olhos, me vi no 7º ano, em 2018, em um ambiente completamente novo. Durante esse tempo, meu gosto pela leitura foi fincando raízes em minha vida, e descobri nos livros bons amigos. Foi também nesse ano que mergulhei nos versos, na poesia e, principalmente, nos cordéis. Foi quando uma professora esplêndida envolveu toda a turma em uma árdua tarefa: lançar um livro de cordéis. Parece familiar?

Com muito esforço e alguns neurônios queimados, lançamos nossa coletânea de cordéis, intitulada Rimando um Verso, Criando um Universo. E, em meio a esse processo, me apaixonei pelas rimas e pela musicalidade dos cordéis. Perdi as contas de quantos escrevi; no fim, contribui com três criações para o livro: um homenageando nossa mentora, um em honra aos pais e um de livre criação, onde rimei sobre os bons sentimentos da vida. Foi uma experiência memorável que me aproximou ainda mais da leitura e da escrita.

O tempo foi passando e, durante o ensino médio, tive nos livros as melhores companhias que alguém poderia ter. Grande parte do despertar dessa paixão foi graças à escola e aos mestres que nela se encontravam. Nunca saberia como é emocionante ler um bom suspense se não fosse pelo primeiro livro que peguei na biblioteca da escola, O Escaravelho do Diabo, ou como pode ser fofo acompanhar um romance de época nacional como A Moreninha, livro que li no meu 3º ano e que ficou marcado em minha mente. Enfim, infelizmente, não posso relatar sobre as emoções que tive em cada título que li; quem sabe em uma próxima obra…

Finalizo aqui dizendo que, agora aos meus 18 anos, início o curso de Pedagogia com o objetivo de, futuramente, no papel de professora, encontrar e despertar em mais almas esse amor pela escrita e, principalmente, pela leitura. Quero ser capaz de mostrar o quanto os livros são capazes de abrir portas para mundos inimagináveis e como eles podem ser um refúgio quando o mundo real se torna demais…



SOBRE A AUTORA:

Rillary Emanuelly Belaguarda, de Itamarandiba/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


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Minhas memórias

Minhas memórias

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Raquel Azevedo Oliveira, Itamarandiba/MG

Eu vim de uma família analfabeta, onde meus pais e meus avós eram analfabetos. Eles vieram da roça e não tinham muita estrutura nem oportunidades para estudar na época. Não me lembro de livros em casa. Fui ver um livro pela primeira vez na pré-escola, e foi ali que me apaixonei pela leitura. Lembro que, na escola, eles fizeram uma vez aqueles dinheirinhos de papel, e eu fiquei encantada. Pedi à professora para levar pra casa e cheguei toda feliz, contando para minha mãe que, naquele dia, eu tinha aprendido a contar e tinha ganhado dinheiro.

Quando comecei a ler na primeira série, tive um pouco de dificuldade, e minha professora foi um anjo para mim nessa fase. Ela dava aulas para mim na casa dela, fora do horário da escola, o que me ajudou muito. No dia em que finalmente comecei a ler sem tropeçar nas palavras, cheguei em casa e minha mãe ficou muito feliz, pois o sonho dela era ler, mas ela nunca teve a oportunidade de estudar. Ela sempre me incentivou e me pedia para ler as coisas para ela, e eu me achava muito importante por poder ler para ela.

Na minha escola, havia uma biblioteca, mas, como naquela época tudo era difícil, os livros eram poucos e muito usados; alguns até faltavam páginas. Lembro que amava a aula de leitura. Eu ficava fascinada olhando os livros e gostava de escolher aqueles que tinham a capa mais bonita. Sempre pedia à professora para deixar eu levar mais de um livro para ler, mas, como eram poucos livros e muitos alunos, só permitia um. Lia-o em um dia e, no dia seguinte, chegava na escola devolvendo-o e já querendo pegar outro.

Hoje, ao visitar minha antiga escola, vejo o quanto tudo evoluiu; possui uma grande e bonita biblioteca. Porém, percebo pouco interesse dos alunos pela leitura; o mundo digital tomou conta do espaço.

Quanto aos números, nunca gostei de matemática; sempre odiei as aulas de matemática e, até hoje, não lido muito bem com números. Mas hoje me arrependo de não ter me dedicado mais à matemática, pois vejo a falta e a dificuldade que isso gerou para minha vida hoje.

Se eu tivesse a oportunidade de voltar no tempo, teria me dedicado mais às aulas de matemática e de leitura também. Por volta da quarta série, eu não tinha mais tanto interesse, e vejo como isso reflete na minha vida adulta. Mas hoje, com a experiência de vida que tenho, quero incentivar meu filho à leitura e à escrita, porque sei o quanto é importante na nossa vida.

Na universidade, venho lendo autonomamente todos os dias, além do que os professores orientam. Conhecimento é poder, e isso ninguém tira da gente. Espero ser uma pedagoga que saiba conquistar os pequenos com a leitura. Pretendo elaborar atividades interessantes, chamativas e incentivadoras.



SOBRE A AUTORA:

Raquel Azevedo Oliveira, de Itamarandiba/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


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Memórias da minha formação

Memórias da minha formação

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Paula Tamires Fernandes Guedes Sampaio, Itamarandiba/MG

Ingressei na vida escolar com quatro anos de idade, logo não tenho muitas recordações sobre essa época relacionadas à leitura. Na comunidade em que vivia, tinha acesso a livros escolares dos familiares, a jornais, revistas e panfletos da igreja. Assim, posso perceber que sempre tive contato com a leitura.

Antes de entrar para a escola e até nos primeiros anos da vida escolar, lembro-me de que os adultos me contavam muitas histórias infantis. As que mais me recordo são as histórias dos Três Porquinhos, em que o lobo mau tentava assoprar as casas dos três porquinhos para derrubá-las; a história de Joãozinho e Maria, dois irmãos que viviam na floresta com seus pais e tinham várias aventuras; e o clássico Chapeuzinho Vermelho, em que a Chapeuzinho ia levar doces para sua vovozinha e encontrava o lobo mau no caminho, que a seguia e tentava comê-la.

Desde a minha primeira infância, recordo-me das idas às missas na igreja, onde ouvia o padre e os leitores fazendo a leitura da Bíblia. Com sete anos de idade, logo quando ingressei no ensino fundamental, também comecei a fazer a catequese, que é a preparação para a Primeira Eucaristia (Sacramento da Igreja Católica Apostólica Romana). Nesse curso, ouvia muitas histórias bíblicas lidas pelos catequistas e tive muito contato com a Bíblia nessa época. Isso continua até hoje, uma vez que faço a leitura da Bíblia em casa e ouço a leitura nas missas às quais participo. Além disso, faço parte da equipe de liturgia da minha paróquia, realizando leituras durante as celebrações de missas na igreja.

Assim que ingressei na vida escolar, sempre fui incentivada pela minha mãe a me dedicar aos estudos, sempre fui apaixonada pela escola. Recordo-me de que, se minha mãe quisesse me castigar, bastava ameaçar não me deixar ir para a escola, e eu rapidamente me comportava bem. Após iniciar o pré-escolar, lembro-me de fazer colagens com bolinhas de papel crepom sobre as letras do meu primeiro nome e os numerais, de fazer desenhos e de ouvir muitas histórias infantis, como a de Chapeuzinho Vermelho.

Quanto aos números, desde cedo me familiarizei com o dinheiro e gostava muito de ganhar moedas para comprar guloseimas na venda da esquina (mercadinho). Com sete anos de idade, já sabia contar as moedas, notas de dinheiro e conferir o troco.

Nos primeiros anos do ensino fundamental, tive muito acesso a livros de histórias, e havia uma biblioteca na escola onde podíamos pegar os livros emprestados para ler em casa e depois devolver. A partir da quinta série do ensino fundamental, passei a ler livros clássicos da literatura brasileira, tais como Senhora, de José de Alencar, e Dom Casmurro, de Machado de Assis. Esses e outros livros eram leitura obrigatória na disciplina de português. Após a leitura, tínhamos que fazer um resumo em uma ficha literária e depois realizar uma prova escrita sobre o conteúdo do livro, o que estimulava bastante a leitura. Nessa época, eu me destacava com as melhores notas nas provas de literatura e, como tinha facilidade em interpretar textos, mesmo quando não conseguia ler os livros por completo, conseguia interpretar com a leitura de resumos e conversas com colegas sobre as histórias narradas nos livros.

Nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio, lembro das frequentes idas à biblioteca da escola para fazer pesquisa na Barsa, uma enciclopédia de A a Z, onde encontrava assuntos multidisciplinares para resolver minhas tarefas. Naquela época, não tinha acesso à internet e nem podia fazer cópias xerográficas dos livros. Então, as respostas coletadas na Barsa eram transcritas à mão, o que facilitava a assimilação do conteúdo.

No ensino médio, continuaram as leituras obrigatórias de livros para a produção de resumos e a realização de provas. Naquela época, por volta do segundo ano do ensino médio, a internet estava em alta, e para acessá-la era necessário ir a lanhouses, locais com computadores conectados à internet, onde se pagava por hora para utilizá-los.

As redes sociais eram muito utilizadas, e nelas a leitura e a escrita eram empregadas para fazer os famosos depoimentos (mensagens declarando a importância das pessoas) para os amigos que conversavam no antigo Orkut, rede social muito famosa na época.

Quanto às finanças, sempre fui familiarizada com números, especialmente com dinheiro, e, desde a adolescência, passei a fazer os serviços bancários da minha mãe e do meu avô. Assim, aprendi a administrar desde cedo e, quando comecei a ter meu próprio salário, já sabia controlar meus gastos.

Percebo que a vida escolar foi muito importante para o processo de aprender a administrar minhas finanças, em especial porque, nas aulas de matemática, frequentemente resolvíamos problemas matemáticos que envolviam dinheiro.

A partir da facilidade que desenvolvi em interpretar textos, passei a pesquisar e estudar como resolver os assuntos do meu cotidiano. Assim, consigo analisar contratos e proposições de empréstimos e financiamentos, avaliando se compensa ou não ingressar nos mesmos.

Atualmente, faço a minha declaração anual do imposto de renda da pessoa física para a Receita Federal do Brasil e faço a declaração para meu marido e alguns familiares. Além disso, consigo gerir investimentos tanto no meu trabalho quanto no meu próprio patrimônio e dou dicas a alguns familiares com base em muita leitura de relatórios do mercado financeiro.

Quanto à vida universitária, percebo que o incentivo à leitura ao longo dos anos na vida escolar facilitou bastante a interpretação e compreensão de textos que ajudam no dia a dia. O conhecimento adquirido ao longo dos anos escolares até o ensino médio preparou-me com êxito para a vida na universidade.

Como já frequentei a universidade antes, com formação em Administração e pós-graduação em Gestão Municipal, já tenho conhecimento da rotina acadêmica, podendo assim administrar a metodologia e rotina de estudos e entrar no ritmo da vida acadêmica, apesar de já ter se passado 10 anos desde que concluí minha primeira graduação.

Atualmente, leio os livros e textos propostos na grade curricular do curso de Pedagogia e tenho facilidade em interpretar os textos e as questões propostas, pelo conhecimento que adquiri tanto no ensino fundamental e médio quanto na faculdade e até no trabalho.

Enfim, vejo que o curso de Pedagogia irá contribuir bastante para o meu currículo e, quem sabe, para ingressar em uma nova carreira. Espero poder chegar ao final do curso com a bagagem necessária para exercer atividades na área da pedagogia, especialmente na supervisão pedagógica.



SOBRE A AUTORA:

Paula Tamires Fernandes Guedes Sampaio, de Itamarandiba/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


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Entre lembranças e aprendizados

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Patrícia Pereira de Andrade,  Turmalina/MG

A vida escolar nem sempre é fácil. Nos primeiros anos de vida, já enfrentamos grandes desafios, e assim iniciou a minha trajetória: uma pequena menina do campo, de condições financeiras difíceis. A comunidade onde vivíamos não oferecia muitas condições para estudar, mas minha mãe, mesmo com pouco conhecimento, sonhava com o estudo dos filhos.

Aos 6 anos, mudamos para a cidade para que pudéssemos ir à escola. Iniciei o pré-escolar em uma escola estadual e ainda não sabia ler nem escrever. Neste período, enfrentei muitas dificuldades, pois, naquela época, a desigualdade social prevalecia com força. Foi complicado para uma criança ter que enfrentar a maldade humana e a discriminação. Além disso, eu era muito tímida, e vencer essa timidez foi desafiador e um pouco traumático.

Nos anos iniciais, tive dificuldades na fase de alfabetização. Eu não conseguia juntar as letras e tentava adivinhar as palavras; quando falavam a letra “A”, eu gritava: “Abacate!” No entanto, a vontade de aprender era maior que qualquer dificuldade, e consegui superá-las.

Antes de entrar na escola e ao longo de toda a minha vida escolar, tive o apoio e a cobrança da família; porém, eles não conseguiam me ajudar com as atividades. Meus pais não tiveram a mesma oportunidade que eu de estudar. Em minha casa, não tínhamos livros, mas me lembro de minha mãe sempre lendo a Bíblia, e com ela aprendi a ter amor pela palavra de Deus. A escola foi fundamental para meu desenvolvimento, pois foi lá que aprendi a ler, escrever e ter o primeiro contato com os números.

Demorei um pouco para, enfim, reconhecer o dinheiro. Lembro que certa vez ganhei R$10,00 e meu irmão, R$1,00, e chorei porque queria trocar com ele, achando que ele tinha ganhado mais do que eu.

As escolas onde estudei tinham biblioteca, mas não lembro de frequentá-las; tenho mais recordação da biblioteca comunitária da cidade. Lá, sim, era um lugar calmo e tranquilo. Meus colegas e eu a usávamos para fazer pesquisas e trabalhos escolares.

Minha mãe, na adolescência, teve a oportunidade de ler alguns livros e, de tanto ler os mesmos, decorou muita informação. Para as partes que não conseguia decorar, usava a imaginação. Meus irmãos e eu amávamos assistir a ela contar as histórias. Era como se eu me transportasse para dentro dos livros.

Por volta dos 12 anos, eu amava escrever poemas e tinha uma agenda onde falava muito dos meus sentimentos, medos e sonhos. Quando cheguei ao ensino médio, comecei a me interessar mais pelos livros de romance; eram os únicos que eu conseguia ler com concentração. A verdade é que eu não gostava de ler, mas sabia a importância e a diferença que isso faria em minha vida.

A cada ano que se passava, percebi que não tinha outra saída a não ser me dedicar mais à leitura. A cada dificuldade que aparecia, aprendi a me superar. Eu sempre tive uma paixão pela matemática e, mesmo sendo difícil, gostava da sensação de estar diante de um problema e tentar resolvê-lo. Não tenho memórias de quando aprendi a contar ou resolver problemas, mas sei da importância que teve um professor do ensino fundamental II, que despertou em mim um amor ainda maior pela matemática.

Eu nunca questionei o uso da matemática; muito pelo contrário, vejo a matemática e o português em tudo; elas andam lado a lado. Assim como a matemática é usada para entender a economia, ou pelo médico para interpretar dados ou dosagens de medicamentos, ela também é usada pelo agricultor para maximizar sua produção ou minimizar os riscos de doenças e pragas em suas plantações. A matemática está presente em vários momentos de nossas vidas e me ajudou a resolver muitas situações.

Apesar de ter algumas dificuldades, reconheço que a escola me preparou. As regrinhas básicas da matemática estão gravadas na minha memória e têm contribuído ano após ano para melhorar minha vida financeira, ajudando-me a calcular juros e saber se algumas opções de parcelamento são favoráveis ou não. Se quiser um dia pegar um empréstimo, consigo avaliar se vale a pena ou não. O conhecimento nos proporciona isso: ser pessoas críticas e questionadoras.

Já na vida adulta, fui presenteada no Dia dos Professores com um excelente livro de Paulo Freire chamado “Medo e Ousadia”. Freire é uma inspiração para muitas gerações e para mim também. Foi maravilhoso receber um presente assim, e gosto muito da ideia de presentear crianças com livros, para que elas percebam desde cedo o poder que a leitura pode exercer sobre elas. Embora o tempo seja pouco e corrido na universidade, tenho me dedicado a estar sempre ligada às propostas de leitura que os professores orientam. Tenho dificuldades em alguns textos, mas a maioria compreendo bem e gosto de ler artigos, reportagens e bulas de medicamentos.



SOBRE A AUTORA:

Patrícia Pereira de Andrade,  de Turmalina/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


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Relembrando conhecimentos

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Natalia Azevedo da Costa, Capelinha/MG

Meus pais não tiveram estudos, eram analfabetos, então não tínhamos muitos livros em casa. Só depois de um tempo na escola, minha irmã mais velha começou a se interessar pela leitura e sempre trazia livros para casa. Vendo-a ler, despertei o interesse de ler também; então, ia à biblioteca da escola com frequência para escolher livros. A escola emprestava os livros, mas a gente tinha que ter muito cuidado com eles. Na época, conferiam até as páginas quando íamos devolver o livro.

Não me lembro muito bem de quando comecei a contar, mas lembro quando tive conhecimento sobre o dinheiro. Minha mãe sempre nos dava moedas para fazermos cofres, e entendi que era algo que tinha valor. Somas e diminuição aprendi depois que já estava na escola. Os “problemas” de matemática, para mim, eram muito difíceis.

Antes de frequentar a escola, aprendi a escrever meu nome na creche; tinha uns 4 anos. Foi uma sensação incrível ver meus pais festejarem a cada etapa. Minhas professoras nos motivavam a escrever, passando os deveres de casa. Não me recordo muito bem das produções de texto que fazia, mas sempre tínhamos que ler livros e fazer resumos deles.

Em todas as vezes, a escola nos motivou a ir à biblioteca para procurarmos livros. Quando algum professor faltava, eles nos levavam para a biblioteca, e achávamos o máximo. Enquanto estávamos na escola, estávamos focados para dar o nosso melhor em tudo: na caligrafia, na leitura, nas notas. Enfim, dávamos o nosso melhor.

Depois que nos formamos, dá uma esfriada nos estudos, e precisamos nos reencontrar novamente para que esse ânimo volte e busquemos mais conhecimento. Minha mãe sempre nos motiva, dizendo: “Estuda, meu filho, porque o que ninguém tira de você é o conhecimento.”

Notei que a leitura, a escrita e os números são muito importantes em qualquer área de nossas vidas, na faculdade, no trabalho, e devem estar presentes também no nosso lazer. Para mim, a leitura e escrita têm sido positivas; tenho lido tudo o que os professores nos orientam. Não tenho muita experiência com textos universitários, pois esta é minha primeira faculdade.

A escola tem, sim, o seu papel, mas, como tudo, é praticando que se aprende. Da mesma forma, se não se pôr em prática o que aprendeu, não resolverá nada.

Ainda não pensei em lançar um livro, mas, se houver oportunidade, quem sabe esse interesse pode ser despertado em mim.



SOBRE A AUTORA:

Natalia Azevedo da Costa, de Capelinha/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

O jardim dos sonhos perdidos

O jardim dos sonhos perdidos

Os textos publicados individualmente nesta página podem ser lidos reunidos nos volumes da coleção Memórias de Letramentos. Para adquirir seu e-book gratuito ou impresso  pelo preço apenas do serviço de gráfica, clique no banner ao lado ou no fim da página.


Michele Santos Marques, Pedra Azul/MG

Desde os primeiros anos de vida, o acesso a textos escritos foi muito restrito para mim. Meus pais, humildes trabalhadores de uma pequena cidade, lutavam para garantir o básico para nossa família e mal tinham condições financeiras para adquirir livros ou materiais educativos. A casa onde vivíamos era pequena e envelhecida, e o ambiente não era ideal para o desenvolvimento de uma criança.

Lembro-me de ver minha mãe frequentemente folheando revistas antigas, buscando um pouco de distração e conforto. Essas revistas acabavam se tornando meus brinquedos improvisados. Eu usava as páginas rasgadas para inventar minhas próprias histórias, criando mundos onde a dura e sem cor realidade da minha vida não tinha vez. Era minha forma de escapar, mesmo que por um breve momento.

Quando comecei a frequentar a escola, estava ansiosa para aprender. No entanto, a escola também não tinha muitos recursos. Os livros didáticos eram antigos e a biblioteca, se é que se podia chamar assim, era uma sala pequena com poucas prateleiras. Os professores se esforçavam para compensar a falta de materiais, mas eu sentia que estava sempre atrás dos outros alunos que vinham de famílias mais abastadas. Entre os livros lidos nessa época estavam “Chapeuzinho Vermelho”, “Pinóquio” e “O Barquinho Amarelo”.

Aprender a escrever foi um desafio. As palavras pareciam dançar nas páginas dos cadernos surrados, e minhas tentativas de escrever eram frequentemente frustradas pela falta de apoio. No entanto, tentava com perseverança, escrevendo pequenos textos sobre meus sonhos e esperanças, que guardava com carinho.

Aprendi a contar com a ajuda de minha mãe. Usávamos pequenos objetos encontrados em casa para tornar o aprendizado mais visual. Eu sabia contar até dez, mas esse conhecimento era limitado, e a matemática na escola se tornou um desafio ainda maior. Cada problema matemático parecia um obstáculo insuperável, e eu frequentemente me sentia desmotivada ao ver outros alunos superando essas dificuldades com mais facilidade.

A situação financeira da minha família piorou com o tempo. Meu pai perdeu o emprego devido a problemas de saúde e, sem uma fonte de renda estável, enfrentamos dificuldades ainda maiores. Comecei a trabalhar meio período para ajudar, fazendo pequenos serviços e vendendo produtos que eu mesma fazia. Essa nova realidade significava menos tempo para estudar e mais estresse, o que me deixava exausta.

Em um inverno particularmente rigoroso, a situação chegou ao ponto crítico. Nossa casa ficou fria e úmida, e eu frequentemente passava as noites em claro tentando me manter aquecida com roupas empilhadas. A falta de alimentos se tornou uma realidade constante, e o sonho de um futuro melhor parecia cada vez mais distante. Meus cadernos de histórias, uma vez cheios de esperanças e sonhos, estavam agora cobertos de poeira e esquecidos em uma prateleira.

Apesar de tudo, nunca perdi completamente a paixão pela leitura e pela escrita. Cada livro emprestado da pequena biblioteca local era um pedaço do mundo que eu sempre desejei conhecer. Mesmo nos momentos mais difíceis, eu buscava consolo nas páginas desses livros, que se tornaram meu refúgio e uma forma de escape das adversidades.

Finalmente, após muitos anos de luta, a situação financeira da minha família se estabilizou um pouco. No entanto, o impacto emocional e psicológico das dificuldades anteriores era profundo. Agora, como adulta, tentava reconstruir minha vida, lidando com as cicatrizes deixadas pela pobreza e pelo esforço constante para sobreviver.

Mesmo que os sonhos de uma infância cheia de livros e aventuras literárias tenham sido substituídos por uma realidade de trabalho árduo e sobrevivência, a paixão pela leitura e pela escrita nunca me abandonou.

O jardim dos sonhos perdidos, como eu o chamo, é um símbolo da minha luta e resiliência. É uma lembrança constante de que, apesar das adversidades, nunca abandonei meus sonhos de aprender e crescer. A jornada foi difícil e marcada por muitas dificuldades, mas o desejo de continuar explorando o mundo através da leitura e da escrita sempre foi uma luz em meio à escuridão.



SOBRE A AUTORA:

Michele Santos Marques, de Pedra Azul/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

Alfabetização e letramento

Alfabetização e letramento

Os textos publicados individualmente nesta página podem ser lidos reunidos nos volumes da coleção Memórias de Letramentos. Para adquirir seu e-book gratuito ou impresso  pelo preço apenas do serviço de gráfica, clique no banner ao lado ou no fim da página.


Maurizete Máximo da Fonseca Santana, Cristália/MG

A memória tem papel essencial no processo de alfabetização, no qual são criadas várias memórias que podem ser de curto ou longo prazo. Ao refletir sobre nossas memórias, podemos aprender lições valiosas com as experiências vividas. A memória é fundamental na construção da nossa identidade, pois acredito que nossa percepção de quem somos é moldada por experiências passadas, lembranças e vivências. Ela nos permite compreender quem somos, como chegamos aonde estamos e para onde estamos indo, ao mesmo tempo em que nos ajuda a nos relacionar com os outros e com o mundo ao nosso redor. O tempo passa, mas as lembranças permanecem em nossas memórias. Não me recordo claramente, mas minha mãe sempre dizia que, quando eu tinha apenas 5 anos, chorava para poder ir para a escola com meus irmãos. Naquela época, porém, não havia como eu frequentar a creche, pois, vivendo na zona rural, o transporte escolar passava muito cedo para pegar os alunos, e a rota era extensa. Meus pais, então, acharam melhor não me matricular e esperar até que eu completasse 7 anos para estudar na escola da minha comunidade.

Naquela época, não era comum termos acesso a textos em nossa casa; sequer tínhamos um aparelho de televisão. Mas me recordo que havia uma bíblia e alguns livros didáticos que meus irmãos traziam da escola para fazer suas tarefas. Curiosa, pegava esses livros escondido para brincar de escolinha. Foi através dessa brincadeira e com a pouca ajuda que recebia dos meus irmãos que comecei a aprender desde cedo, e antes mesmo de ingressar na escola eu já conhecia o alfabeto e até sabia escrever meu primeiro nome. Não poderia deixar de citar a professora que trabalhava em minha comunidade, tia Rosimeire Barroso, que me incentivava muito nas horas vagas e até me levava para a escola, de vez em quando, para assistir às suas aulas. Isso contribuiu muito para meu desenvolvimento, tanto escolar quanto pessoal. Quando finalmente ingressei na escola no ano de 2000, já sabia muitas coisas. Para mim, foi muito gratificante, pois estava bem adiantada, e as dificuldades foram menores.

Nunca gostei muito de português; minha preferência sempre foi matemática. Amava fazer as contas usando o método dos milhos e feijões, e cada problema matemático apresentado me encantava cada vez mais pela disciplina. Até hoje, tenho preferência por ela. Naquela época, os incentivos eram poucos, e, apesar do apoio que recebi, não foram suficientes. Meus pais não tinham muito estudo, e meus irmãos, no tempo livre, ajudavam nas tarefas de casa e na roça.

Ao avaliar o papel da escola e da família nos meus letramentos iniciais, posso dizer que fui privilegiada. Na minha família, fui a única que teve tempo para dedicar-se aos estudos, pois meus irmãos, além de estudar, precisavam trabalhar em tarefas pesadas. Recebi também grande apoio dos professores, que, mesmo com poucos recursos, usavam os livros didáticos e o quadro de giz para leituras e práticas de escrita. Esses materiais eram armazenados em uma prateleira no canto da sala de aula e estavam sempre disponíveis quando precisávamos. Era uma época de poucos recursos, mas o que aprendi foi de grande importância para minha vida. Ainda acredito que faltou incentivo, especialmente por parte da minha família, pois, se tivesse contado com mais apoio familiar, talvez hoje tivesse menos dificuldade em leitura e interpretação. Sinceramente, a leitura nunca foi meu forte; perco facilmente a concentração e foco em textos longos. Penso que, se tivesse recebido mais motivação, hoje minha relação com a leitura e a escrita seria melhor, facilitando, inclusive, a produção de textos acadêmicos.

Minha trajetória escolar inicial foi na Escola Municipal Francisco Máximo, localizada na comunidade de São João, no município de Cristália-MG, onde estudei da 1ª à 4ª série dos anos iniciais. A escola ficava próxima de casa, e eu adorava ir às aulas, não faltava um dia. Em 2004, ingressei no ensino fundamental, na Escola Estadual Professor Tutu, localizada na Avenida Teodomiro Borges, na cidade de Cristália-MG. Andava de ônibus todos os dias cerca de 50 km até a escola. Lá, fiz novas amizades e conheci novos professores. No início, senti-me meio perdida, pois a escola era muito maior e a movimentação era intensa. O que mais me assustou foi a quantidade de professores; a cada 50 minutos trocava o professor da aula. No começo foi difícil, mas me adaptei rapidamente, pois sempre fui uma aluna dedicada e buscava constantemente aprender para meu aperfeiçoamento.

Nesta mesma escola, concluí o ensino médio em 2010. Sempre gostei de estudar e não parei por aí. Em 2013, a cidade de Cristália foi contemplada com um processo seletivo aplicado pela Universidade Aberta do Brasil (UAB), que ofereceu várias graduações. Gosto sempre de tentar os vestibulares disponíveis no meu município. No dia 14 de julho de 2013, fiz a prova para a licenciatura em Educação Física, mas, infelizmente, não consegui uma das vagas. Fiquei triste, pois sempre sonhei em me formar nessa área, por gostar muito de esportes. Não desisti! Três meses depois, Deus me abriu uma porta de emprego na educação como alfabetizadora de jovens e adultos no programa Travessia Nota 10. Foi uma experiência inovadora e me mostrou que é possível educar de forma diferente, sem repressões, incentivando a participação dos alunos e valorizando o conhecimento prévio que cada um traz de seu cotidiano.

Nesse mesmo ano, tive a oportunidade de realizar um curso técnico em Secretaria Escolar oferecido pelo Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG). Durante o curso, fiz estágio na secretaria da Escola Municipal Dona Caroline Ursine, o que enriqueceu minha vida tanto pessoal quanto profissionalmente. Esse curso não era o que sonhava, mas agradeço a Deus por tudo. O importante é nunca desistir. Em 2018, tive a oportunidade de fazer minha primeira graduação em Administração Pública. E hoje estou aqui novamente buscando enriquecer meu currículo e minha vida profissional. Como já disse, nunca desisti das oportunidades. Surgiu o vestibular para Pedagogia e Matemática no meu município e, ao me inscrever, apesar da paixão pela Matemática, acabei escolhendo Pedagogia. Confesso que me arrependo, mas agora é seguir em frente, manter o foco e aproveitar essa nova oportunidade de fazer outra graduação.



SOBRE A AUTORA:

Maurizete Máximo da Fonseca Santana, de Cristália/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

Minhas memórias

Minhas memórias

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Martha Fernandes, Pedra Azul/MG

O desejo da nossa mãe sempre foi que fôssemos à escola, eu e minhas irmãs, mas, como de costume, ela nos deixava na creche a caminho do trabalho. Logo em seguida, nosso pai ia nos buscar; na cabeça dele, éramos muito novas para ir à creche. Como meus pais eram muito jovens, minha mãe, que morava na roça, teve que parar de estudar. Ela não queria que a gente perdesse o gosto de estudar e ler, então meu pai, aos poucos, foi se acostumando com a ideia.

Eu, curiosa, queria aprender rápido para sair logo da escola. (rsrs) Mas fui pegando gosto. Aos 7 anos, aprendi a realmente ler. Lembro-me que gostava muito das minhas professoras do fundamental I. Uma especial, eu queria que chegasse logo o dia seguinte para frequentar sua aula. Ela passava uma segurança total, que é um ponto muito importante para quem está aprendendo a conhecer novas coisas. Brincalhona e meiga, contava histórias e fazia teatro com fantoches. Fui ficando mais fascinada e, para não errar no dia da leitura, parava na rua antes de chegar à escola e lia tudo.

Fui crescendo e conhecendo novos professores. Eu achava a minha primeira professora era boa, assim como as outras, nunca tive professores ruins. Nas outras aulas, como ortografia, tinha um policial que ia à escola pegar a tabuada; eu morria de medo e nem dormia direito, mas na hora era tranquilo. Tudo foi uma questão de tempo para eu evoluir cada vez mais.

À medida que fui crescendo, às vezes tinha vontade de parar de estudar, mas lembrava: quero um emprego bom, quero minhas conquistas, então parei de pensar em parar. Engravidei aos 17 anos, em uma gravidez de risco, e não passei de ano por falta. Esse foi mais um motivo para não desistir e concluir o ensino médio. Para me ajudar e incentivar, meu pai me levava até a escola para eu terminar.

Hoje, eu digo a elas que estudar nunca é demais; adquirir conhecimento nunca é demais. Lembro que coloquei minha filha na escola muito cedo e gritava para aprender a ler. Isso me faz lembrar da minha infância: muita calma e segurança para ela. E hoje estou aqui, adquirindo novos conhecimentos. Parei de ler por muito tempo, mas estou voltando às origens; ler nunca é demais. Isso é um pouco do que vivi. Tem algumas coisas que não me recordo mais, mas lembro que fui muito feliz a cada descoberta.



SOBRE A AUTORA:

Martha Fernandes, de Pedra Azul/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

Pequeno relato de aprendizagem

Pequeno relato de aprendizagem

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Maristane Rodrigues de Oliveira, Águas Formosas/MG

Minhas lembranças da infância são vagas, principalmente sobre a aprendizagem. Dentro de casa, a influência para a leitura era escassa; minhas tias liam muitos romances e revistas, mas não tínhamos livros infantis. Minha tia Selma cursou o magistério, e eu me recordo de uma atividade feita por ela: um cartaz com uma linda bailarina desenhada e, ao lado, a poesia da bailarina. Era tão lindo que eu queria para mim. Lembro que íamos à igreja e, em alguns dias, distribuíam jornais com as letras das músicas. Cresci escutando músicas no rádio e gostava muito do meu disco da Xuxa.

Entrei na creche assim que completei 6 anos, em maio de 1998. Minha professora era a tia Castorina, e eu gostava muito dela. Recordo que sempre cantávamos a música do alfabeto da Xuxa, o que me ajudou bastante a conhecer as letras. Em casa, minha tia Selma sempre me ajudava com os deveres. Meus avós eram analfabetos e não conseguiam me ajudar, mas sempre me incentivaram a estudar.

No ensino fundamental, na escola Major Raimundo, lembro das prateleiras com livros na sala de aula. Havia um livro que eu adorava, “A briga do Sol e da Lua”, de Vanessa Alexandre. Me lembro de uma poesia chamada “As borboletas”, de Cecília Meireles, que recitava frequentemente. Meus avós participaram do programa Brasil Alfabetizado, e eu, minhas tias e minha irmã os ajudávamos a ler e escrever. Ficávamos muito felizes por eles. Tenho até hoje um desenho feito pela minha avó dessa época.

Na quinta série, mudei de escola e fui para a Capitão Inácio. Lá, ganhei um trio de livros, li os três e me apaixonei, mas não lembro os nomes. Nessa época, também li um livro sobre mulheres fortes, mas acabei esquecendo o título. Como queria ler esse livro novamente! Lia muito com minhas amigas as revistinhas do clube Ma Cherie e ficávamos ansiosas pela chegada delas uma vez por mês.

No ensino médio, mudei novamente de escola, para a José Quaresma. Lá, não tive muito incentivo e a influência era escassa. Nessa época, dei aulas de reforço para minha prima, que estava com notas baixas. Eu produzia textos e elaborei perguntas para a produção de texto. Com o tempo, ela melhorou e fomos elogiadas pelo professor em uma reunião de pais. Depois dessa reunião, ganhei outro aluno, mas, infelizmente, ele não teve o mesmo incentivo e não melhorou.

Em 2011, comecei a trabalhar e, em 2013, a cursar o magistério. Como trabalhava e estudava, não tinha muito tempo para ler; só lia na escola. Gostava bastante dos trabalhos em grupo e me lembro de três em especial. O primeiro foi produzir um livro infantil, chamado “Moli, a formiga cantora”. Fizemos um lançamento com decoração de formigueiro de barro e formiguinhas de E.V.A., que ficou lindo. O segundo foi uma apresentação de “A Formiguinha e a neve”. A terceira foi a apresentação da música “A Arca de Noé” no abrigo, todos vestidos de bichinhos. Finalizei o curso, mas não cheguei a trabalhar como cuidadora.

Hoje, com 32 anos, gosto muito de livros de romance. Trabalho em uma empresa de turismo e me comunico com os clientes pelo WhatsApp, então leio o dia todo. Como chego em casa cansada, não tenho muito ânimo para ler, e o único incentivo de leitura que minha filha tem é ler a Bíblia, pois fazemos isso todos os dias. Mas pretendo mudar, pois hoje sinto que teria sido melhor se eu tivesse recebido mais incentivo para a leitura.

Estou começando uma nova etapa na minha vida: a tão sonhada faculdade. Sei que vou ter que escrever muitos textos e ler bastante. Espero dar o meu melhor e, em quatro anos, estar formada e, se Deus me permitir, trabalhando em uma escola, incentivando meus alunos com muita leitura.



SOBRE A AUTORA:

Maristane Rodrigues de Oliveira, de Águas Formosas/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


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De volta ao passado

De volta ao passado

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Marta Aparecida Martins Ferreira, Itamarandiba/MG

Sou casada, mãe de quatro filhos e tenho um neto. Na minha infância, brincávamos de queimada, roubar bandeira, passar anel; havia também as cantigas de roda e tantas outras que hoje as crianças não conhecem. Quantas saudades!

Hoje, com 48 anos, volto aos anos 80, lembrando das leituras e dos livros. Antes de entrar na escola, minha tia fazia a leitura da Bíblia; eu não sabia ler, mas ouvia. Também acompanhava as novenas de Natal, e o rádio a pilha era uma das diversões. Nele, ouvíamos músicas e notícias na “Voz do Brasil”. Aprendi a ler quando fui para a escola. Gostava da história da aparição de Nossa Senhora de Fátima nas revistas e me lembro também de quando minha mãe rezava o terço com a gente (num livreto havia a contemplação dos mistérios).

Conheci o dinheiro e aprendi a contar até 10 com meus pais, mas não me lembro de quando comecei a entender o valor do cruzeiro. O cruzado, que veio depois, eu já entendia um pouco. A moeda sofreu alterações até chegar ao real, uma data bem marcante, pois já trabalhava e o primeiro pagamento foi na transição da moeda do cruzeiro real para o real.

Aprendi a fazer as primeiras contas na escola e achava os problemas difíceis. A escola teve um papel muito importante naquele tempo, pois a família incentivava; porém, não tinha tempo para ajudar os filhos, pois trabalhavam na roça. Aprendi a escrever com 7 anos, e as provas eram todas questões abertas. Tínhamos um caderno de provas, onde as questões eram copiadas à mão.

O tipo de texto com o qual mais tive contato era o narrativo. Lia muitos textos sobre a natureza (narrativas em contextos rurais). Nas redações, escrevíamos sobre nossos costumes. Naquela época, quando iniciei os estudos aqui na minha comunidade de Santa Luzia, no município de Itamarandiba, só havia até a 4ª série e não havia biblioteca; mas lia o que tinha ao meu alcance, como jornais e revistas. Com o passar do tempo, melhorou o acesso aos meios de comunicação, como, por exemplo, a televisão, mas o acesso à internet veio bem depois.

No período da educação básica, quando ganhava um dinheiro, já sabia contar o valor. Não tenho facilidade com textos universitários. Sinto falta dos conteúdos de matemática que não aprendi no ensino médio, pois concluí esta disciplina no ENEM. O conhecimento com números me ajuda bastante, pois administro bem minhas questões financeiras. Tenho dificuldades nas disciplinas de matemática que envolvem números e letras.

Neste primeiro ano na universidade, irei me dedicar à leitura e à escrita, pois elas aprimoram o aprendizado e nos mantêm por dentro dos acontecimentos. Infelizmente, me sobra pouco tempo para estudar, pois o trabalho exige muito, mas farei o possível para obter um bom desempenho.



SOBRE A AUTORA:

Marta Aparecida Martins Ferreira, de Itamarandiba/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


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Meu primeiro contato com a escola

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Marina Nogueira de Sousa, Grão Mogol/MG

Meu nome é Marina. Sou a filha caçula de cinco filhos que minha mãe gerou. Como minha mãe ficou viúva muito cedo, teve que trabalhar muito para cuidar dos filhos. Meus quatro irmãos não tiveram a oportunidade de estudar, pois precisavam ajudar na renda da família. Além disso, a escola era muito longe de casa e não havia transporte escolar. Por isso, em casa, não havia nenhum meio de aprendizagem, nem livros, jornais ou revistas.

Nós morávamos na roça. A vida era bem precária. Na minha casa, não havia energia elétrica nem água encanada. O que me lembro é do meu avô, que sempre colocava um disco no toca-discos antigo para ouvir música e dançar. Assim, dentro de casa, nem nos vizinhos, havia meios de aprendizagem.

Quando eu tinha 7 anos, pedi à minha irmã que me matriculasse na escola, que nessa época já era próxima de casa, a cerca de uma hora de viagem todos os dias. Ao chegar à escola, eu não sabia nada. Lembro das letras do alfabeto pregadas na parede, e a professora batia a mão em cima da letra e falava: “A, B, C”, e assim por diante.

Na escola em que estudei os anos iniciais, chamados de ensino fundamental, a professora me excluía. Não sei ao certo o motivo, se era pela condição financeira, pela cor ou até mesmo por ter muitas dificuldades de aprendizagem. Sinto que isso me prejudicou muito até hoje, pois não me sinto segura para realizar algumas atividades.

A caminhada até a escola era muito complicada. Quando o rio enchia, não havia como ir para a escola, então eu tinha muitas faltas. Na escola, não havia biblioteca; existiam alguns livros, como “João e o Pé de Feijão” e outras histórias infantis, que eu gostava muito. Vejo que a leitura é o divisor de águas na vida de um estudante; como não tive essa base, me sinto muito prejudicada.

Ao iniciar a quinta série em uma escola maior, lá já havia uma biblioteca, e as coisas começaram a mudar para mim. Existiam professores que incentivavam a leitura e a escrita. Com a vida adulta e após tentar alguns trabalhos, percebi a falta que faz não ter uma boa base de leitura. Já a matemática básica, usada no dia a dia, me serviu muito, pois sei o básico que se usa na rotina.

A diferença que senti do ensino básico para a faculdade é que há muito material para ler, e a leitura está interligada à aprendizagem. Com o tempo curto e muito material a ser trabalhado, o essencial é criar rotinas de estudo e um cronograma para poder compreender. A linguagem acadêmica é muito diferente da clássica. A disciplina ou gênero que mais gostei até hoje foi a História da Educação. O conteúdo em que sinto que fiquei defasada é o da língua portuguesa, como pontuação, adjetivos, entre outros.

Minha vida financeira é bem complicada; não tive base para administrar bem minhas finanças. Não culpo a matemática, pois sou responsável pelos meus atos. Não me recordo de ter tido aula de finanças na escola, mas vejo a importância dela para formar cidadãos prontos para organizar sua vida financeira.

Enfim, apesar de todos os traumas acima relatados, sofrimentos e rejeições, me sinto uma vencedora por estar na minha segunda graduação.



SOBRE A AUTORA:

Marina Nogueira de Sousa, de Grão Mogol/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

Meu processo de aprendizado

Meu processo de aprendizado

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Mariana Braga Melo, Pedra Azul/MG

O desbravamento dos textos se iniciou na minha vida em Teresina/PI, a poucos quilômetros da minha cidade natal, Bacabal/MA. Através da Bíblia que minha bisavó sempre deixava aberta, onde guardava as fotos dos meus tios, primos e seus antepassados como forma de proteção, tive meu primeiro contato com as letras e textos. Ao folhear sua Bíblia, não sabia o que estava escrito, mas passeava meu dedo sobre os registros. Morávamos em uma casa de aluguel e tínhamos uma TV pequena de tubo com antena telescópica, fixada na parede com um prego. Era comum assistirmos às novelas e ver as legendas passando no canto inferior da TV. Sem entender o que se passava, apenas observava as letras como se estivessem dançando, e a cada momento eram passos diferentes, ou melhor, palavras diferentes. Ao receber cartas do banco, minha bisavó, não tão cuidadosa, sempre as deixava em locais que eu conseguia alcançar e brincar com os papéis. Alguns até chegaram a sumir sem que ela percebesse. Hoje, percebo que, na mão de uma criança, um papel com letras, números e informações pessoais pode não significar nada, mas a partir de um certo ponto (idade), começa a ser um ponto de partida para a compreensão do seu ser e do mundo.

Aos 9 anos de idade, receber moeda de algum parente ou achar cinco ou dez centavos no chão da rua sempre foi motivo de empolgação, fazendo com que eu caminhasse direto para uma vendinha mais próxima para gastar com doces, pipocas e geladinhos. Isso aguçava meu interesse em aprender a manusear o dinheiro, para saber quanto de troco iria voltar e se não estávamos sendo enganados, de modo que no dia seguinte eu pudesse voltar à vendinha com mais moedas e comprar mais guloseimas.

Minha família sempre foi muito incentivadora. Nunca me deixaram faltar sequer um dia de aula, por buscar os melhores materiais e por me levar ao ponto da escola até eu ganhar independência para ir sozinha. Sempre fui responsável com o famoso “para casa” e os trabalhos da escola. Minha busca era na papelaria mais próxima, onde eu recebia cópias impressas com o tema solicitado e as transcrevia para outra folha. Passava a tarde inteira transcrevendo e colando imagens. Assistência para ensinar ou orientar eu não recebia; para minha bisavó, a única opção era trabalhar e cuidar dos afazeres de casa. Portanto, ela nunca me deixou faltar um suco de maracujá com pão e manteiga, criando memórias afetivas da minha infância.

As lembranças do meu ensino fundamental I estão principalmente relacionadas ao 4º e 5º anos, nos anos de 2013 e 2014. Naquela época, não se repassava a noção da importância da leitura e seus benefícios, e a visita a uma biblioteca não era incentivada nem mencionada.

O ensino fundamental II começou em 2015, ainda em Jaboatão dos Guararapes/PE, no 6º ano, e continuou de 2016 até 2018 em Pedra Azul/MG. Foi marcado pelo uso da biblioteca, onde os alunos que pegassem mais livros, ao final do bimestre, recebiam um tipo de incentivo para continuar nessa jornada de imersão na leitura desde cedo.

No ensino médio, o foco estava voltado para a realização do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Escrever, ler e reler textos, tanto da minha autoria quanto de outros autores, era algo que eu fazia para usar como inspiração e fonte de comparação. Meu ponto forte sempre foi a escrita; os cálculos matemáticos, de forma literal, “não entravam na minha cabeça”. Isso já foi motivo de lágrimas e soluços, devido à dificuldade em compreender uma fórmula matemática. Minha sensibilidade e o medo de não conseguir aprender eram reais e intensos.

No ano de 2020, no 2º ano do ensino médio, fui pega pela pandemia. Depois de um ano tão caloroso, com a idealização de viver cada ano do ensino médio com toda entrega, o baque veio. A ideia de ter que estudar em casa não era compreendida; como eu iria aprender e me preparar para o ENEM? Como seriam essas provas? Apenas com um celular conectado à internet, consegui vencer e, muitas vezes, ser minha própria professora, buscando aprender sozinha. No final de 2021, voltamos, já no 3º ano.

Consegui uma bolsa no curso técnico em Enfermagem e comecei a ter acesso a uma linguagem mais técnica, com terminologias da área da saúde. A partir daí, meu aprofundamento em artigos e uma linguagem que exige um esforço maior para o entendimento trouxe uma mudança positiva. Sair da leitura dentro da minha realidade e começar a desbravar outras é sair de uma zona de conforto que muitas vezes me segurou. Os textos dissertativos e argumentativos são os que mais me prendem e me envolvem, ajudando-me a desenvolver meu lado crítico.

Passar no vestibular da UFVJM é uma realização que traz diversos sentimentos e alivia aquela aflição do: “Será que vou conseguir entrar em uma universidade pública? Caso contrário, diante das minhas condições, não conseguirei fazer nenhuma graduação, já que pagar não está ao meu alcance.” Agora, é um degrau acima de tudo o que já fiz parte; é mergulhar de corpo e alma para que todo o esforço da minha bisavó seja validado.



SOBRE A AUTORA:

Mariana Braga Melo, de Pedra Azul/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.