A ampliação da visibilidade de mulheres trans nos espaços sociais, políticos e educacionais é condição indispensável para o fortalecimento da democracia, para a garantia dos direitos humanos e para o enfrentamento da violência estrutural no Brasil. A visibilidade, nesse contexto, não representa privilégio, mas o reconhecimento do direito de existir, de participar da vida pública e de ter a própria dignidade respeitada. A escola e a universidade ocupam papel central na transformação desse cenário, pois são espaços de produção de valores, discursos e formas de convivência social.
Dar visibilidade significa reconhecer o direito dessas pessoas de existirem plenamente, participarem da vida pública e terem sua dignidade assegurada. Conforme aponta reportagem do EL PAÍS Brasil, intitulada “Mulheres trans na política: elas cansaram de ser silenciadas” [1], a luta por visibilidade é, antes de tudo, uma luta contra o silenciamento histórico e social. Nesse sentido, defender a ampliação da visibilidade trans é defender o direito à vida, à dignidade e ao acesso pleno à educação e à cidadania.
A sociedade brasileira foi historicamente estruturada a partir da colonialidade, do patriarcado e da cisnormatividade. Esses elementos produziram hierarquias sociais que definem quais vidas são consideradas legítimas e quais são tratadas como descartáveis. Nesse contexto, pessoas trans foram sistematicamente afastadas da escola, do mercado de trabalho formal, da política institucional e dos espaços de decisão. Essa exclusão não é fruto do acaso, mas resultado de um processo histórico de marginalização que transforma diferenças em desigualdades e vulnerabilidade social. Segundo reportagem do jornal O Dia [2], o Brasil lidera o número de mortes de travestis e pessoas transexuais, evidenciando a gravidade dessa realidade.
De acordo com Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher” [3], o que reforça a ideia de que as identidades de gênero são construções sociais e culturais. Essa perspectiva contribui para compreender que a exclusão de mulheres trans não está relacionada à sua existência, mas às estruturas sociais que negam reconhecimento e direitos.
Quando um grupo social precisa lutar continuamente pelo direito de não ser morto e de ser reconhecido pela lei, evidencia-se uma falha estrutural da democracia. Nesse sentido, a educação assume papel estratégico na transformação dessa realidade, ao promover uma formação baseada no respeito, na dignidade e na defesa dos direitos humanos.
O Brasil lidera, há anos, o ranking mundial de assassinatos de travestis e pessoas transexuais, conforme dados divulgados por organizações não governamentais e pela imprensa. Esse dado demonstra que não se trata de um debate abstrato ou apenas cultural, mas de uma questão concreta de direito à vida e de proteção social. A ausência de políticas públicas efetivas, aliada à naturalização da discriminação, produz não apenas exclusão simbólica, mas também morte social e física.
As reportagens de veículos como El País e O Dia evidenciam uma realidade contundente: a invisibilização social de pessoas trans está diretamente associada à produção sistemática de violência no Brasil. Como afirmam mulheres trans entrevistadas pelo El País, elas “cansaram de ser silenciadas”. Essa afirmação representa mais do que uma declaração política; trata-se de uma exigência de reconhecimento da própria humanidade.
Nesse cenário, avanços no campo jurídico também se mostram fundamentais. A aprovação de projetos que reconhecem mulheres trans como sujeitas de direitos, como sua inclusão na Lei Maria da Penha, representa um passo importante no combate à violência de gênero. O entendimento do Judiciário de que a lei não se baseia apenas no sexo biológico, mas na identidade de gênero, contribui para o enfrentamento da discriminação e para a ampliação da proteção legal. Dessa forma, o Estado passa a reconhecer que a violência de gênero está relacionada a relações sociais de poder, e não apenas a critérios biológicos.
A visibilidade jurídica, portanto, constitui dimensão essencial da proteção social e do exercício pleno da cidadania, ao assegurar o reconhecimento institucional das identidades e a efetivação de direitos historicamente negados. Conforme reportagem de O Globo [4], esse avanço demonstra que o reconhecimento institucional pode funcionar como mecanismo de proteção e ampliação de direitos, ainda que de forma tardia.
Além disso, a presença de mulheres trans em espaços de poder e produção de conhecimento rompe com a lógica histórica de exclusão. Um exemplo é a deputada federal Erika Hilton, cuja atuação política se destaca no combate à violência de gênero, ao racismo e às desigualdades sociais. Sua presença no parlamento representa um marco na ocupação de espaços institucionais por pessoas trans.
No campo acadêmico, destaca-se a psicóloga e professora Jaqueline Gomes de Jesus, que desenvolve importantes estudos sobre diversidade e inclusão. Sua trajetória evidencia que pessoas trans ocupam múltiplos papéis sociais, contribuindo de forma significativa para a produção de conhecimento e para a transformação social. Essas experiências demonstram que a exclusão não se fundamenta em incapacidade, mas em processos históricos de silenciamento que precisam ser enfrentados.
Um episódio vivenciado durante uma prática de ensino em uma Escola Família Agrícola, no município de Itinga (MG), ilustra como a discriminação ainda se manifesta nos espaços educacionais. Na ocasião, uma mulher trans foi inicialmente acolhida junto às alunas, mas posteriormente solicitada a mudar de quarto, o que lhe causou forte abalo emocional. Após diálogo com o professor responsável, a situação foi acompanhada, e, no encontro seguinte, ela retornou demonstrando resistência diante da experiência vivida.
Esse caso evidencia que muitas práticas discriminatórias ainda são naturalizadas e, frequentemente, não são reconhecidas como preconceito por quem as pratica. No entanto, para quem vivencia essas situações, os impactos são profundos, gerando sofrimento, exclusão e sensação de não pertencimento. Ninguém deve precisar se retirar ou se diminuir para que outros se sintam confortáveis. O que precisa ser transformado são os espaços sociais e as formas de convivência que ainda reproduzem desigualdades.
Diante desse cenário, propõe-se a criação de programas permanentes de educação para a diversidade e para a cidadania de gênero nas escolas e universidades. Essas iniciativas podem incluir formação continuada de professores, projetos interdisciplinares, debates com estudantes e o uso de materiais biográficos e jornalísticos que ampliem a compreensão sobre as experiências de pessoas trans.
O objetivo central dessas ações é reduzir a violência por meio da educação e construir, desde o espaço escolar, uma cultura baseada no respeito, no reconhecimento e na efetivação dos direitos humanos.
Referências
[1] VASCONCELOS, Paloma. Mulheres trans na política: elas cansaram de ser silenciadas. El País Brasil, 2 out. 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com. Acesso em: 10/04/2026.
[2] Brasil lidera número de mortes de travestis e transexuais, aponta ONG. O Dia, [ano não identificado na busca – provavelmente entre 2017–2020]. Disponível em: https://odia.ig.com.br. Acesso em: Acesso em: 10/04/2026.
[3] BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
[4] Senado aprova projeto que inclui mulheres trans na Lei Maria da Penha. O Globo, [data não confirmada]. Disponível em: https://oglobo.globo.com. Acesso em: 10/04/2026.
[5] MOIRA, Amara. Mulher de pênis. UOL, seção Universa, [c. 2017–2018]. Disponível em: https://www.uol.com.br. Acesso em: 10/04/2026.
SOBRE AS AUTORAS
Marianny Marques, Thalita Amorim e Maria Fernanda Morais são acadêmicas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientadas pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

















































