O sistema de cotas raciais no Brasil constitui uma política pública essencial para a promoção da diversidade e da equidade na educação superior. Trata-se de uma medida que atua diretamente na correção de desigualdades históricas produzidas pelo racismo estrutural e pela herança da colonialidade, ampliando o acesso de grupos historicamente excluídos às universidades públicas, sem comprometer a qualidade acadêmica. Nesse sentido, defende-se que as cotas raciais são fundamentais para a justiça educacional, uma vez que os diferentes grupos sociais não tiveram as mesmas oportunidades ao longo da história, e a universidade pública deve refletir a diversidade da sociedade brasileira.
A sociedade brasileira foi estruturada a partir de um processo colonial marcado pela escravidão, pela exclusão da população negra e pela negação do acesso à educação formal. Mesmo após a abolição, não foram implementadas políticas eficazes de inserção social que garantissem igualdade de oportunidades. Como resultado, profundas desigualdades educacionais persistiram ao longo do tempo, fazendo com que, por décadas, o ensino superior fosse ocupado majoritariamente por pessoas brancas e de maior renda. Nesse contexto, as cotas raciais surgem como uma resposta do Estado às assimetrias raciais no acesso às universidades públicas.
De acordo com a Agência Brasil [1], especialistas definem as cotas como uma “revolução silenciosa”. A expressão refere-se ao fato de que, sem grandes conflitos, essa política alterou significativamente o perfil socioeconômico e racial dos estudantes universitários. Antes de sua implementação, predominavam nas universidades públicas estudantes brancos e pertencentes às classes mais altas. Com as cotas, jovens negros, pobres e oriundos da escola pública passaram a ocupar esses espaços, tornando o ambiente acadêmico mais diverso e representativo. Trata-se de uma transformação gradual, mas profunda, que aproximou a universidade da realidade social brasileira.
Segundo análise do Politize [2], o sistema de cotas ampliou de forma consistente o acesso de estudantes negros e de baixa renda ao ensino superior, contribuindo diretamente para a redução das desigualdades educacionais. Essa ampliação está relacionada à Lei nº 12.711/2012, que instituiu a reserva de vagas nas universidades federais para estudantes de escolas públicas, considerando critérios sociais e raciais. Dados indicam que, entre 2012 e 2023, mais de 1,1 milhão de estudantes ingressaram no ensino superior por meio dessa política, sendo cerca de 500 mil autodeclarados pretos, pardos ou indígenas. Esses números evidenciam que as cotas não representam privilégio, mas uma estratégia de justiça social voltada à correção de desigualdades históricas.
Outro argumento relevante é apresentado pelo Nexo Jornal [3], ao demonstrar que estudantes cotistas apresentam desempenho acadêmico semelhante ao dos não cotistas e, em alguns casos, taxas de evasão iguais ou inferiores. Esses dados contribuem para desconstruir a ideia de que as cotas comprometeriam a qualidade do ensino, evidenciando que a exclusão anterior não estava relacionada à falta de capacidade, mas à ausência de oportunidades.
Entre os principais contra-argumentos ao sistema de cotas está a defesa da meritocracia, sob a alegação de que estudantes com notas mais altas seriam prejudicados. Essa visão, inclusive, apareceu em uma experiência vivenciada durante uma prática de ensino, quando um professor afirmou que o sistema “coloca notas menores à frente das maiores”. No entanto, esse argumento desconsidera que os estudantes não partem das mesmas condições sociais, econômicas e educacionais. A meritocracia, quando aplicada de forma isolada, ignora desigualdades estruturais e tende a reproduzir privilégios históricos. Assim, não é possível avaliar o mérito de forma justa em uma sociedade profundamente desigual.
Como proposta de intervenção, destaca-se a necessidade de ampliar o debate sobre políticas de ação afirmativa no ambiente escolar. Projetos pedagógicos, oficinas, rodas de conversa e atividades educativas podem contribuir para combater a desinformação e o preconceito em relação às cotas raciais, além de fortalecer a autoestima de estudantes negros e incentivar seu ingresso e permanência no ensino superior. Essa necessidade torna-se evidente ao considerar que muitos estudantes desconhecem seus direitos. Há casos de alunos que ingressaram pela ampla concorrência mesmo tendo direito às cotas, enquanto outros acessaram essa política sem compreender plenamente seu significado.
Nesse contexto, a escola pública desempenha papel central, pois é um espaço privilegiado tanto para a reprodução quanto para o enfrentamento das desigualdades sociais. Ao promover debates críticos sobre relações étnico-raciais e políticas de ação afirmativa, a escola contribui para a formação de sujeitos mais conscientes e para a construção de uma sociedade mais justa. Dessa forma, as cotas raciais não apenas ampliam o acesso à educação superior, mas também fortalecem a democracia ao promover inclusão, representatividade e equidade.
Referências
[1] AGÊNCIA BRASIL. Cotas foram revolução silenciosa no Brasil, afirma especialista. 2018. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2018-05/cotas-foram-revolucao-silenciosa-no-brasil-afirma-especialista. Acesso em 12/07/2026.
[2] POLITIZE!. Sistema de cotas no Brasil: deu certo? Disponível em: https://www.politize.com.br/cotas-raciais-no-brasil-o-que-sao. Acesso em 12/07/2026.
[3] NEXO JORNAL. Uma avaliação dos resultados do sistema de cotas nas universidades públicas. 2017. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2017/02/23/uma-avaliacao-dos-resultados-do-sistema-de-cotas-nas-universidades-publicas. Acesso em 12/07/2026.
SOBRE OS AUTORES
Marcelo Henrique Lima Silva e Klevson Feliciano dos Santos são acadêmicos da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientados pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.