A apropriação cultural é um tema central nos debates sociais contemporâneos, especialmente quando articulada às discussões sobre diversidade e educação. Embora, em alguns contextos, seja apresentada como um fenômeno natural ou inevitável, essa prática deve ser compreendida, majoritariamente, como problemática. Isso ocorre porque envolve a utilização de elementos culturais de povos historicamente oprimidos sem o devido respeito, reconhecimento ou retorno social e econômico, contribuindo para a reprodução de desigualdades estruturais.
A apropriação cultural está profundamente relacionada aos processos históricos de colonialismo e escravidão, que marginalizaram culturas indígenas e africanas ao mesmo tempo em que impuseram as culturas europeias como universais e superiores. Essas dinâmicas estruturaram sociedades marcadas pelo racismo, nas quais culturas originárias continuam sendo desvalorizadas, enquanto outras são privilegiadas e legitimadas socialmente.
Um dos principais aspectos da apropriação cultural diz respeito à sua dimensão econômica. Elementos culturais são frequentemente transformados em mercadorias, especialmente nos setores da moda, da música e da indústria cultural. Nesse processo, grupos socialmente dominantes passam a lucrar com símbolos culturais que não lhes pertencem, enquanto os povos que os criaram permanecem excluídos do reconhecimento e dos benefícios financeiros. Como aponta reportagem do UOL Ecoa (2022) [1], a apropriação cultural ocorre quando elementos de outras culturas são incorporados sem que haja interesse em compreender seus significados ou dialogar com os grupos de origem.
Outro impacto relevante da apropriação cultural é o apagamento histórico e simbólico. Quando retirados de seus contextos originais, símbolos culturais perdem seus significados sociais, religiosos e históricos. Esse processo transforma manifestações culturais complexas em simples tendências estéticas, contribuindo para a desvalorização da memória coletiva dos povos que as originaram. Nesse sentido, Stephanie Ribeiro (2017) [2] destaca que a apropriação cultural desumaniza os sujeitos dessas culturas e esvazia o valor de seus símbolos, ao mesmo tempo em que permite a obtenção de lucro sem consentimento.
Além disso, a apropriação cultural reforça estereótipos e preconceitos, especialmente nas artes e na mídia. Quando elementos culturais são utilizados de forma superficial, produzem representações distorcidas que comprometem a imagem de povos negros e indígenas. Em vez de promover representatividade, essas práticas contribuem para a exclusão e a marginalização. Um exemplo disso é o processo histórico de transformação do samba, que, inicialmente marginalizado por sua associação com a população negra, passou a ser valorizado economicamente a partir do momento em que foi apropriado e “embranquecido”, como aponta artigo do Geledés (2019) [3].
Um argumento frequentemente utilizado para justificar a apropriação cultural é a ideia de que “a cultura é de todos”. No entanto, essa visão ignora as desigualdades históricas entre os grupos sociais. Na prática, o que ocorre não é uma troca cultural equilibrada, mas a apropriação de elementos de grupos marginalizados por indivíduos ou empresas que buscam lucro, sem reconhecimento ou respeito às origens. Por isso, essa prática reforça injustiças e transforma a cultura em mercadoria, desvinculada de seu significado social e histórico.
Diante desse cenário, a educação se apresenta como um dos principais caminhos para enfrentar a apropriação cultural. É fundamental promover uma educação antirracista que valorize as culturas originárias e estimule a reflexão crítica sobre o uso de elementos culturais na sociedade. Questões como “quem criou esses elementos?”, “quem lucra com eles?” e “quem é silenciado nesse processo?” são essenciais para desenvolver uma consciência social mais crítica. Ao incentivar esse tipo de reflexão, a educação contribui para a formação de sujeitos mais conscientes, respeitosos e comprometidos com a justiça social.
Referências
[1] UOL Ecoa. O que é apropriação cultural? 2022. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2022/01/22/o-que-e-apropriacao-cultural-conceito-tangencia-do-nazismo-ao-colonialismo.htm. Acesso em 12/07/2026.
[2] RIBEIRO, Stephanie. Afinal, o que é apropriação cultural? Geledés, 2017. Disponível em: https://www.geledes.org.br/stephanie-ribeiro-afinal-o-que-e-apropriacao-cultural. Acesso em 12/07/2026.
[3] GELEDÉS. Apropriação cultural e representatividade nas artes. 2019. Disponível em: https://www.geledes.org.br/apropriacao-cultural-representatividade-nas-artes. Acesso em 12/07/2026.
SOBRE OS AUTORES
João Francisco Rodrigues Correia e Elcemir Ferreira Dos Santos são acadêmicos da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientados pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.