Quando a cultura vira mercadoria

A apropriação cultural, quando não se resume a trocas culturais legítimas, mas revela uma relação assimétrica de poder, deve ser combatida. Esse fenômeno ocorre quando elementos culturais de grupos historicamente oprimidos são descontextualizados e mercantilizados, sem reconhecimento, reparação ou participação desses grupos, o que reforça desigualdades raciais, sociais e simbólicas já existentes.

No contexto brasileiro, essa discussão torna-se ainda mais necessária, pois o país foi construído a partir da colonização europeia, da escravidão de povos africanos e da violência contra os povos indígenas. Durante séculos, as culturas negras e indígenas foram desvalorizadas, marginalizadas e até criminalizadas, sendo vistas como inferiores. Atualmente, muitos símbolos dessas culturas aparecem na moda, na mídia, na indústria cultural e até no espaço escolar. No entanto, em diversos casos, esses elementos são utilizados sem explicação, sem valorização de sua história e sem respeito por seus significados culturais, religiosos e sociais, o que contribui para a reprodução de estereótipos e apagamentos históricos.

Assim, é importante compreender que nem toda utilização de elementos culturais pode ser considerada uma troca cultural saudável. A troca pressupõe respeito, diálogo e reconhecimento entre os envolvidos, o que não ocorre quando apenas um grupo — geralmente privilegiado — lucra ou ganha visibilidade a partir da cultura de outro grupo historicamente oprimido. Nesse sentido, a apropriação cultural revela a continuidade de relações coloniais, nas quais determinados saberes e expressões culturais são explorados sem considerar seus verdadeiros detentores.

De acordo com reportagem publicada pelo UOL (2022) [1], um dos problemas da apropriação cultural é a desigualdade no reconhecimento. Um exemplo disso ocorreu com a marca Prada, acusada de lançar uma coleção de sandálias de couro trançado semelhante às produzidas por artesãos de Caruaru, em Pernambuco. O produto da grife chegou a custar 80 vezes mais do que o vendido em feiras populares, sem reconhecimento dos produtores originais.

Outro caso semelhante foi relatado por Ribeiro (2017) [2], no qual uma grife francesa utilizou, em uma coleção de 2015, bordados tradicionais da comunidade mexicana Santa María Tlahuitoltepec, com técnica desenvolvida há mais de 600 anos e considerados símbolo de identidade local. Mesmo obtendo alto lucro, a marca não repassou qualquer porcentagem à comunidade responsável.

Como aponta o portal Geledés (2019) [3], a apropriação cultural transforma em lucro aquilo que, para seus verdadeiros detentores, foi motivo de luta e sobrevivência. O samba, por exemplo, durante muito tempo foi criminalizado e associado de forma preconceituosa à população negra e periférica. No entanto, ao se tornar lucrativo, passou por um processo de embranquecimento simbólico, evidenciando as desigualdades estruturais presentes na sociedade.

Muitas pessoas afirmam que toda cultura é de todos, porém o problema não está no compartilhamento cultural em si, mas no uso de elementos culturais sem conhecimento histórico, sem respeito e sem reconhecimento dos povos que os criaram. Por isso, nem todo uso cultural pode ser considerado uma troca legítima. Nesse contexto, a escola tem um papel fundamental no combate à apropriação cultural, pois deve promover o respeito às diferentes culturas e esclarecer a diferença entre conhecer, valorizar e se apropriar de uma cultura. Quando a escola aborda esse tema de forma crítica, contribui para a formação de cidadãos mais conscientes e respeitosos, por meio de rodas de conversa, projetos culturais e debates sobre diversidade.

Muitas pessoas afirmam que toda cultura é de todos; no entanto, o problema não está no compartilhamento cultural em si, mas no uso de elementos culturais sem conhecimento histórico, sem respeito e sem reconhecimento dos povos que os criaram. Por isso, nem todo uso cultural pode ser considerado uma troca legítima. Nesse contexto, a escola desempenha um papel fundamental no enfrentamento da apropriação cultural, ao promover o respeito às diferentes culturas e esclarecer as diferenças entre conhecer, valorizar e se apropriar de uma cultura. Ao abordar esse tema de forma crítica, por meio de debates, projetos culturais e práticas pedagógicas comprometidas com a diversidade, a instituição escolar contribui para a formação de cidadãos mais conscientes e socialmente responsáveis. Além disso, é indispensável garantir a efetivação do ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena, conforme previsto nas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, consolidando uma educação que não apenas reconheça, mas também valorize e respeite a pluralidade cultural que constitui a sociedade brasileira.

 

Referências

[1] UOL. O que é apropriação cultural? Conceito tangencia do colonialismo ao nazismo. 2022. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2022/01/22/o-que-e-apropriacao-cultural-conceito-tangencia-do-nazismo-ao-colonialismo.htm. Acesso em: 12 jan. 2025.

[2] RIBEIRO, Stephanie. Afinal, o que é apropriação cultural? 2017. Disponível em: https://www.geledes.org.br/stephanie-ribeiro-afinal-o-que-e-apropriacao-cultural. Acesso em: 12 jan. 2025.

[3] GELEDÉS. Apropriação cultural & representatividade nas artes. 2019. Disponível em: https://www.geledes.org.br/apropriacao-cultural-representatividade-nas-artes. Acesso em: 12 jan. 2025.



SOBRE O AUTOR

Felipe Nascimento Ribeiro e Laissa dos Santos Ferreira são acadêmicos da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientados pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

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