Agroecologia como projeto de sociedade: enfrentando o racismo estrutural no campo

Agroecologia como projeto de sociedade: enfrentando o racismo estrutural no campo

A agroecologia é uma ferramenta essencial para combater o racismo estrutural no campo, pois orienta uma forma de produzir, viver e se relacionar com a terra que integra dimensões ecológicas, sociais, culturais, políticas e econômicas. Ao ir além da técnica agrícola, a agroecologia apresenta um projeto de sociedade comprometido com a justiça racial, a valorização dos saberes ancestrais e a defesa dos territórios historicamente violentados pelo colonialismo e pelo agronegócio.

Embora muitas vezes apresentada como uma proposta recente, a agroecologia não é tão nova quanto parece. Suas práticas têm raízes nos modos de vida campesinos, indígenas e quilombolas, que, ao longo de gerações, desenvolveram formas ecológicas e sustentáveis de produzir alimentos em íntima relação com a terra, a água e os ciclos da natureza. Segundo ALTIERI, Miguel A., no livro Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável (2012) [1], foi a partir da década de 1970 que a agroecologia passou a ser sistematizada no âmbito acadêmico, incorporando esses saberes historicamente construídos no campo. Ao sinalizar um projeto de produção e de sociedade baseado na diversidade, na autonomia e na justiça social, a agroecologia se consolida como uma ferramenta estratégica para o enfrentamento do racismo estrutural no campo, ao valorizar sujeitos historicamente marginalizados, fortalecer seus territórios e disputar os sentidos do desenvolvimento rural.

O modelo hegemônico de desenvolvimento rural, baseado no agronegócio e na agricultura industrial, está historicamente ancorado em uma lógica patriarcal-capitalista que articula colonização, racismo e exploração da natureza. Esse modelo transforma a terra, os corpos das mulheres e os povos racializados em recursos exploráveis, ao mesmo tempo em que desvaloriza os saberes tradicionais e os sistemas agrícolas de subsistência, conforme analisam Mies e Shiva, no livro Ecofeminismo (2014) [2]. Ao confrontar essa lógica, a agroecologia se afirma como ferramenta estratégica no enfrentamento do racismo estrutural no campo, ao valorizar sujeitos historicamente marginalizados, fortalecer territórios e disputar os sentidos do desenvolvimento rural.

Essa lógica de dominação também se expressa no processo colonial que, conforme analisa Nego Bispo dos Santos, no livro Colonização, quilombos: modos e significações (2015) [3], impôs uma ruptura violenta entre povos e territórios, substituindo modos de vida fundados na reciprocidade e na convivência com a terra por uma racionalidade orientada pela exploração, pelo progresso e pela acumulação. Ao negar a legitimidade dos saberes tradicionais e das formas comunitárias de existência, a colonização produziu não apenas a expropriação material da terra, mas também a desqualificação epistemológica dos conhecimentos construídos pelos povos do campo. Nesse contexto, a agroecologia se coloca como prática de recomposição dessas relações rompidas, ao afirmar a centralidade do território, da coletividade e do cuidado com a vida, em oposição às heranças coloniais que sustentam o racismo estrutural no campo.

Essa herança colonial não se encerra no passado, mas se atualiza na agricultura industrial moderna que, como analisa Vandana Shiva no livro Quem realmente alimenta o mundo? O fracasso do agronegócio e a promessa da agroecologia (2016) [4], opera como continuidade do colonialismo ao transformar a biodiversidade, as sementes e o trabalho camponês — especialmente o das mulheres — em mercadorias controladas por corporações transnacionais. No plano simbólico, político e subjetivo, esse mesmo projeto é sustentado pelo racismo estrutural que, segundo Grada Kilomba, no livro Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano (2019) [5], produz a desumanização de corpos racializados e a naturalização da violência contra seus territórios, criando hierarquias que legitimam a exploração da terra e a negação da memória, da voz e da existência desses sujeitos.

O agronegócio se apresenta como projeto inevitável de modernização do campo, sustentando-se em discursos de progresso, eficiência e neutralidade científica. Contudo, ao analisar suas bases históricas e políticas, evidencia-se que esse modelo não é neutro, mas sim a continuidade de um projeto colonial, patriarcal-capitalista, que perpetua o racismo estrutural na organização dos territórios e na produção de alimentos. Longe de resolver a fome ou promover desenvolvimento, o agronegócio reproduz a expropriação da terra, a mercantilização da vida e a desqualificação dos saberes comunitários, reforçando violências que enfraquecem as relações de reciprocidade entre povos e territórios. Ao converter sementes, biodiversidade e trabalho camponês em mercadorias controladas por corporações, e ao naturalizar a desumanização de corpos racializados e a violência sobre seus territórios, esse modelo aprofunda desigualdades sociais, raciais e ecológicas que afirma combater. Assim, o argumento de que o agronegócio seria condição para a segurança alimentar revela-se falacioso, pois ele próprio produz dependência, concentração de poder e destruição das bases de reprodução da vida. É justamente na recusa dessa lógica que a agroecologia se afirma como movimento político e cultural, recolocando no centro a vida, o território e os saberes historicamente silenciados, constituindo-se como ferramenta fundamental no enfrentamento do racismo estrutural no campo.

Diante do entendimento de que o racismo estrutural no campo está profundamente enraizado no projeto colonial e no modelo agroindustrial hegemônico, a agroecologia se afirma não apenas como alternativa produtiva, mas também como um projeto educativo e político. Nesse sentido, propõe-se a inserção da temática da cultura etnoalimentar no currículo escolar, articulada ao ensino da agroecologia como prática vivenciada, e não apenas como conteúdo teórico. Além disso, a implementação de uma horta escolar agroecológica, organizada de forma coletiva e interdisciplinar, constitui-se como estratégia central e também como filosofia pedagógica. Essa proposta se estrutura a partir da produção de alimentos — que ressignifica a relação com o que se planta, se colhe e se consome —, da leitura dos ciclos da natureza — que permite compreender tempo, sazonalidade, interdependência e cuidado com a terra — e da ciência prática, na qual saberes ancestrais e conhecimentos científicos se encontram em experiências concretas de manejo, irrigação, solo e biodiversidade. Essa perspectiva integra saberes das ciências naturais, humanas e das linguagens, ao mesmo tempo que valoriza os conhecimentos tradicionais, a memória alimentar e o vínculo com o território, contribuindo para a formação crítica dos(as) estudantes e para a construção de uma educação antirracista, territorializada e comprometida com a justiça social.

Nesse horizonte educativo, ético e territorial, a horta agroecológica articula-se a um conjunto mais amplo de políticas públicas voltadas à agroecologia, à segurança alimentar e à igualdade racial. Essa concepção dialoga com marcos como a PNAPO (Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica) e o Estatuto da Igualdade Racial, que fundamentam uma educação e um desenvolvimento territorial antirracistas. Da mesma forma, iniciativas como o Aquilomba Brasil, articuladas a programas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), além do Selo Quilombos do Brasil, reforçam a valorização dos saberes, da produção de base agroecológica e dos territórios tradicionais. Assim, a horta escolar, longe de ser apenas um espaço produtivo, integra um projeto mais amplo de educação, território e justiça social.

 

Referências:

[1] ALTIERI, Miguel A. Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável. 3. ed. São Paulo: Expressão Popular; Rio de Janeiro: AS-PTA, 2012.

[2] MIES, Maria; SHIVA, Vandana. Ecofeminismo. Tradução de Fernando Dias Antunes. Lisboa: Instituto Piaget, 2014.

[3] BISPO DOS SANTOS, Antônio. Colonização, quilombos: modos e significações. Brasília: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa (INCTI), 2015.

[4] SHIVA, Vandana. Quem realmente alimenta o mundo? O fracasso do agronegócio e a promessa da agroecologia. Tradução de Adriana Lima. São Paulo: Elefante, 2016.

[5] KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução de Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.



SOBRE AS AUTORAS

Tacimira Fabiana do Carmo e Vanessa Dias Farias são acadêmicas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientadas pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

Gravidez na adolescência: desigualdades sociais e o papel da educação

Gravidez na adolescência: desigualdades sociais e o papel da educação

A gravidez na adolescência constitui um fenômeno complexo e multifatorial, sendo reconhecida como um importante problema de saúde pública, social e educacional. Mais do que uma questão individual, trata-se de uma realidade profundamente marcada por desigualdades sociais, de gênero e pelo acesso limitado à educação e aos serviços de saúde. Nesse sentido, defende-se que o enfrentamento da gravidez precoce exige políticas públicas eficazes e, sobretudo, investimentos em educação sexual e em redes de apoio aos adolescentes.

Apesar dos avanços nas áreas da saúde e da educação, os índices de gravidez na adolescência ainda permanecem elevados no Brasil, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social. Segundo dados divulgados por órgãos de imprensa com base em organismos internacionais, o país apresenta taxas superiores à média mundial, o que evidencia a persistência desse problema e suas raízes estruturais.

A gravidez na adolescência não ocorre de forma isolada, mas está diretamente relacionada a fatores como pobreza, baixa escolaridade, desigualdade de gênero e ausência de políticas públicas eficazes. Em muitos casos, adolescentes não têm acesso a informações adequadas sobre sexualidade e métodos contraceptivos, seja por falhas no sistema educacional, seja pela ausência de diálogo no ambiente familiar. Como destaca Drauzio Varella (2011) [1], a gravidez precoce pode estar associada à falta de acesso à educação de qualidade, o que limita as oportunidades de vida de jovens, especialmente das meninas em situação de vulnerabilidade.

Além disso, a precariedade no acesso aos serviços de saúde agrava esse cenário. A dificuldade de obtenção de métodos contraceptivos, a ausência de acompanhamento adequado e a falta de ações educativas contribuem para o aumento dos casos de gravidez entre adolescentes. Soma-se a isso a realidade de muitas jovens que vivem em contextos de violência, desigualdade e vulnerabilidade social, o que amplia os riscos e as consequências desse fenômeno.

Os impactos da gravidez precoce são amplos e atingem diferentes dimensões da vida dos adolescentes. Entre os principais, destacam-se os riscos à saúde da mãe e do bebê, a evasão escolar e as dificuldades de inserção no mercado de trabalho. Além disso, há impactos psicológicos e sociais, uma vez que a maternidade precoce exige responsabilidades para as quais muitas adolescentes ainda não estão preparadas. Conforme aponta o Ministério do Desenvolvimento Social [2], a gravidez na adolescência pode intensificar situações de vulnerabilidade social, afetando tanto a jovem quanto a criança.

Relatos de jovens que vivenciaram essa experiência demonstram a complexidade da situação. Algumas conseguem superar as dificuldades com o apoio familiar, dando continuidade aos estudos e à vida profissional. Outras, no entanto, enfrentam maiores obstáculos, especialmente quando não contam com suporte adequado. Esses relatos evidenciam que a gravidez na adolescência não tem um único desfecho, mas está profundamente condicionada às condições sociais e às redes de apoio disponíveis.

Diante desse cenário, a educação desempenha um papel central na prevenção da gravidez precoce. A implementação de uma educação sexual integral, tanto nas escolas quanto no âmbito familiar, é fundamental para garantir que adolescentes tenham acesso a informações seguras e de qualidade. Além disso, é necessário ampliar o acesso aos serviços de saúde, garantindo atendimento adequado, distribuição de métodos contraceptivos e ações educativas contínuas.

Políticas públicas integradas também são essenciais, especialmente aquelas voltadas para populações em situação de vulnerabilidade. É necessário considerar as realidades locais e promover ações que articulem educação, saúde e assistência social, de modo a oferecer suporte efetivo aos adolescentes e às suas famílias.

Conclui-se, portanto, que a gravidez na adolescência é um desafio que exige ações intersetoriais e compromisso social. Investir em educação, ampliar o acesso à saúde e fortalecer redes de apoio são caminhos fundamentais para reduzir os índices de gravidez precoce e garantir melhores condições de vida para os jovens. Mais do que prevenir, é preciso assegurar direitos e oportunidades, promovendo um desenvolvimento mais justo e igualitário.

Referências

[1] VARELLA, Drauzio. Gravidez na adolescência. Portal Drauzio Varella, publicado em 25 abr. 2011, revisado em 11 ago. 2020. Disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/mulher/gravidez-na-adolescencia-artigo/. Acesso em: 10 abr. 2026.

[2] BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social. Informativo sobre gravidez na adolescência. Brasília: MDS, [s.d.]. Disponível em: https://www.gov.br/mds. Acesso em: 10 abr. 2026.

[3] G1. Brasil tem gravidez na adolescência acima da média latino-americana, diz OMS. G1, 28 fev. 2018. Disponível em:
https://g1.globo.com/bemestar/noticia/brasil-tem-gravidez-na-adolescencia-acima-da-media-latino-americana-diz-oms.ghtml. Acesso em: 10 abr. 2026.



SOBRE AS AUTORAS

Milene Ribeiro da Cunha e Mirielly Thalia Raimunda de Jesus são acadêmicas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientadas pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

Visibilidade trans e educação

Visibilidade trans e educação

A ampliação da visibilidade de mulheres trans nos espaços sociais, políticos e educacionais é condição indispensável para o fortalecimento da democracia, para a garantia dos direitos humanos e para o enfrentamento da violência estrutural no Brasil. A visibilidade, nesse contexto, não representa privilégio, mas o reconhecimento do direito de existir, de participar da vida pública e de ter a própria dignidade respeitada. A escola e a universidade ocupam papel central na transformação desse cenário, pois são espaços de produção de valores, discursos e formas de convivência social.

Dar visibilidade significa reconhecer o direito dessas pessoas de existirem plenamente, participarem da vida pública e terem sua dignidade assegurada. Conforme aponta reportagem do EL PAÍS Brasil, intitulada “Mulheres trans na política: elas cansaram de ser silenciadas” [1], a luta por visibilidade é, antes de tudo, uma luta contra o silenciamento histórico e social. Nesse sentido, defender a ampliação da visibilidade trans é defender o direito à vida, à dignidade e ao acesso pleno à educação e à cidadania.

A sociedade brasileira foi historicamente estruturada a partir da colonialidade, do patriarcado e da cisnormatividade. Esses elementos produziram hierarquias sociais que definem quais vidas são consideradas legítimas e quais são tratadas como descartáveis. Nesse contexto, pessoas trans foram sistematicamente afastadas da escola, do mercado de trabalho formal, da política institucional e dos espaços de decisão. Essa exclusão não é fruto do acaso, mas resultado de um processo histórico de marginalização que transforma diferenças em desigualdades e vulnerabilidade social. Segundo reportagem do jornal O Dia [2], o Brasil lidera o número de mortes de travestis e pessoas transexuais, evidenciando a gravidade dessa realidade.

De acordo com Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher” [3], o que reforça a ideia de que as identidades de gênero são construções sociais e culturais. Essa perspectiva contribui para compreender que a exclusão de mulheres trans não está relacionada à sua existência, mas às estruturas sociais que negam reconhecimento e direitos.

Quando um grupo social precisa lutar continuamente pelo direito de não ser morto e de ser reconhecido pela lei, evidencia-se uma falha estrutural da democracia. Nesse sentido, a educação assume papel estratégico na transformação dessa realidade, ao promover uma formação baseada no respeito, na dignidade e na defesa dos direitos humanos.

O Brasil lidera, há anos, o ranking mundial de assassinatos de travestis e pessoas transexuais, conforme dados divulgados por organizações não governamentais e pela imprensa. Esse dado demonstra que não se trata de um debate abstrato ou apenas cultural, mas de uma questão concreta de direito à vida e de proteção social. A ausência de políticas públicas efetivas, aliada à naturalização da discriminação, produz não apenas exclusão simbólica, mas também morte social e física.

As reportagens de veículos como El País e O Dia evidenciam uma realidade contundente: a invisibilização social de pessoas trans está diretamente associada à produção sistemática de violência no Brasil. Como afirmam mulheres trans entrevistadas pelo El País, elas “cansaram de ser silenciadas”. Essa afirmação representa mais do que uma declaração política; trata-se de uma exigência de reconhecimento da própria humanidade.

Nesse cenário, avanços no campo jurídico também se mostram fundamentais. A aprovação de projetos que reconhecem mulheres trans como sujeitas de direitos, como sua inclusão na Lei Maria da Penha, representa um passo importante no combate à violência de gênero. O entendimento do Judiciário de que a lei não se baseia apenas no sexo biológico, mas na identidade de gênero, contribui para o enfrentamento da discriminação e para a ampliação da proteção legal. Dessa forma, o Estado passa a reconhecer que a violência de gênero está relacionada a relações sociais de poder, e não apenas a critérios biológicos.

A visibilidade jurídica, portanto, constitui dimensão essencial da proteção social e do exercício pleno da cidadania, ao assegurar o reconhecimento institucional das identidades e a efetivação de direitos historicamente negados. Conforme reportagem de O Globo [4], esse avanço demonstra que o reconhecimento institucional pode funcionar como mecanismo de proteção e ampliação de direitos, ainda que de forma tardia.

Além disso, a presença de mulheres trans em espaços de poder e produção de conhecimento rompe com a lógica histórica de exclusão. Um exemplo é a deputada federal Erika Hilton, cuja atuação política se destaca no combate à violência de gênero, ao racismo e às desigualdades sociais. Sua presença no parlamento representa um marco na ocupação de espaços institucionais por pessoas trans.

No campo acadêmico, destaca-se a psicóloga e professora Jaqueline Gomes de Jesus, que desenvolve importantes estudos sobre diversidade e inclusão. Sua trajetória evidencia que pessoas trans ocupam múltiplos papéis sociais, contribuindo de forma significativa para a produção de conhecimento e para a transformação social. Essas experiências demonstram que a exclusão não se fundamenta em incapacidade, mas em processos históricos de silenciamento que precisam ser enfrentados.

Um episódio vivenciado durante uma prática de ensino em uma Escola Família Agrícola, no município de Itinga (MG), ilustra como a discriminação ainda se manifesta nos espaços educacionais. Na ocasião, uma mulher trans foi inicialmente acolhida junto às alunas, mas posteriormente solicitada a mudar de quarto, o que lhe causou forte abalo emocional. Após diálogo com o professor responsável, a situação foi acompanhada, e, no encontro seguinte, ela retornou demonstrando resistência diante da experiência vivida.

Esse caso evidencia que muitas práticas discriminatórias ainda são naturalizadas e, frequentemente, não são reconhecidas como preconceito por quem as pratica. No entanto, para quem vivencia essas situações, os impactos são profundos, gerando sofrimento, exclusão e sensação de não pertencimento. Ninguém deve precisar se retirar ou se diminuir para que outros se sintam confortáveis. O que precisa ser transformado são os espaços sociais e as formas de convivência que ainda reproduzem desigualdades.

Diante desse cenário, propõe-se a criação de programas permanentes de educação para a diversidade e para a cidadania de gênero nas escolas e universidades. Essas iniciativas podem incluir formação continuada de professores, projetos interdisciplinares, debates com estudantes e o uso de materiais biográficos e jornalísticos que ampliem a compreensão sobre as experiências de pessoas trans.

O objetivo central dessas ações é reduzir a violência por meio da educação e construir, desde o espaço escolar, uma cultura baseada no respeito, no reconhecimento e na efetivação dos direitos humanos.

Referências

[1] VASCONCELOS, Paloma. Mulheres trans na política: elas cansaram de ser silenciadas. El País Brasil, 2 out. 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com. Acesso em: 10/04/2026.

[2] Brasil lidera número de mortes de travestis e transexuais, aponta ONG. O Dia, [ano não identificado na busca – provavelmente entre 2017–2020]. Disponível em: https://odia.ig.com.br. Acesso em: Acesso em: 10/04/2026.

[3] BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

[4] Senado aprova projeto que inclui mulheres trans na Lei Maria da Penha. O Globo, [data não confirmada]. Disponível em: https://oglobo.globo.com. Acesso em: 10/04/2026.

[5] MOIRA, Amara. Mulher de pênis. UOL, seção Universa, [c. 2017–2018]. Disponível em: https://www.uol.com.br. Acesso em: 10/04/2026.



SOBRE AS AUTORAS

Marianny Marques, Thalita Amorim e Maria Fernanda Morais  são acadêmicas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientadas pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

Cotas raciais no Brasil: diversidade, equidade e justiça na educação superior

Cotas raciais no Brasil: diversidade, equidade e justiça na educação superior

O sistema de cotas raciais no Brasil constitui uma política pública essencial para a promoção da diversidade e da equidade na educação superior. Trata-se de uma medida que atua diretamente na correção de desigualdades históricas produzidas pelo racismo estrutural e pela herança da colonialidade, ampliando o acesso de grupos historicamente excluídos às universidades públicas, sem comprometer a qualidade acadêmica. Nesse sentido, defende-se que as cotas raciais são fundamentais para a justiça educacional, uma vez que os diferentes grupos sociais não tiveram as mesmas oportunidades ao longo da história, e a universidade pública deve refletir a diversidade da sociedade brasileira.

A sociedade brasileira foi estruturada a partir de um processo colonial marcado pela escravidão, pela exclusão da população negra e pela negação do acesso à educação formal. Mesmo após a abolição, não foram implementadas políticas eficazes de inserção social que garantissem igualdade de oportunidades. Como resultado, profundas desigualdades educacionais persistiram ao longo do tempo, fazendo com que, por décadas, o ensino superior fosse ocupado majoritariamente por pessoas brancas e de maior renda. Nesse contexto, as cotas raciais surgem como uma resposta do Estado às assimetrias raciais no acesso às universidades públicas.

De acordo com a Agência Brasil [1], especialistas definem as cotas como uma “revolução silenciosa”. A expressão refere-se ao fato de que, sem grandes conflitos, essa política alterou significativamente o perfil socioeconômico e racial dos estudantes universitários. Antes de sua implementação, predominavam nas universidades públicas estudantes brancos e pertencentes às classes mais altas. Com as cotas, jovens negros, pobres e oriundos da escola pública passaram a ocupar esses espaços, tornando o ambiente acadêmico mais diverso e representativo. Trata-se de uma transformação gradual, mas profunda, que aproximou a universidade da realidade social brasileira.

Segundo análise do Politize [2], o sistema de cotas ampliou de forma consistente o acesso de estudantes negros e de baixa renda ao ensino superior, contribuindo diretamente para a redução das desigualdades educacionais. Essa ampliação está relacionada à Lei nº 12.711/2012, que instituiu a reserva de vagas nas universidades federais para estudantes de escolas públicas, considerando critérios sociais e raciais. Dados indicam que, entre 2012 e 2023, mais de 1,1 milhão de estudantes ingressaram no ensino superior por meio dessa política, sendo cerca de 500 mil autodeclarados pretos, pardos ou indígenas. Esses números evidenciam que as cotas não representam privilégio, mas uma estratégia de justiça social voltada à correção de desigualdades históricas.

Outro argumento relevante é apresentado pelo Nexo Jornal [3], ao demonstrar que estudantes cotistas apresentam desempenho acadêmico semelhante ao dos não cotistas e, em alguns casos, taxas de evasão iguais ou inferiores. Esses dados contribuem para desconstruir a ideia de que as cotas comprometeriam a qualidade do ensino, evidenciando que a exclusão anterior não estava relacionada à falta de capacidade, mas à ausência de oportunidades.

Entre os principais contra-argumentos ao sistema de cotas está a defesa da meritocracia, sob a alegação de que estudantes com notas mais altas seriam prejudicados. Essa visão, inclusive, apareceu em uma experiência vivenciada durante uma prática de ensino, quando um professor afirmou que o sistema “coloca notas menores à frente das maiores”. No entanto, esse argumento desconsidera que os estudantes não partem das mesmas condições sociais, econômicas e educacionais. A meritocracia, quando aplicada de forma isolada, ignora desigualdades estruturais e tende a reproduzir privilégios históricos. Assim, não é possível avaliar o mérito de forma justa em uma sociedade profundamente desigual.

Como proposta de intervenção, destaca-se a necessidade de ampliar o debate sobre políticas de ação afirmativa no ambiente escolar. Projetos pedagógicos, oficinas, rodas de conversa e atividades educativas podem contribuir para combater a desinformação e o preconceito em relação às cotas raciais, além de fortalecer a autoestima de estudantes negros e incentivar seu ingresso e permanência no ensino superior. Essa necessidade torna-se evidente ao considerar que muitos estudantes desconhecem seus direitos. Há casos de alunos que ingressaram pela ampla concorrência mesmo tendo direito às cotas, enquanto outros acessaram essa política sem compreender plenamente seu significado.

Nesse contexto, a escola pública desempenha papel central, pois é um espaço privilegiado tanto para a reprodução quanto para o enfrentamento das desigualdades sociais. Ao promover debates críticos sobre relações étnico-raciais e políticas de ação afirmativa, a escola contribui para a formação de sujeitos mais conscientes e para a construção de uma sociedade mais justa. Dessa forma, as cotas raciais não apenas ampliam o acesso à educação superior, mas também fortalecem a democracia ao promover inclusão, representatividade e equidade.

 Referências

[1] AGÊNCIA BRASIL. Cotas foram revolução silenciosa no Brasil, afirma especialista. 2018. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2018-05/cotas-foram-revolucao-silenciosa-no-brasil-afirma-especialista. Acesso em 12/07/2026.

[2] POLITIZE!. Sistema de cotas no Brasil: deu certo? Disponível em: https://www.politize.com.br/cotas-raciais-no-brasil-o-que-sao. Acesso em 12/07/2026.

[3] NEXO JORNAL. Uma avaliação dos resultados do sistema de cotas nas universidades públicas. 2017. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2017/02/23/uma-avaliacao-dos-resultados-do-sistema-de-cotas-nas-universidades-publicas. Acesso em 12/07/2026.



SOBRE OS AUTORES

Marcelo Henrique Lima Silva e Klevson Feliciano dos Santos são acadêmicos da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientados pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

Agroecologia e combate ao êxodo rural

Agroecologia e combate ao êxodo rural

A migração forçada do campo para a cidade, conhecida como êxodo rural, não é um fenômeno natural ou inevitável, mas o resultado de decisões históricas, econômicas e políticas que fragilizaram a vida camponesa. Defende-se, portanto, que a agroecologia é uma alternativa concreta e necessária para combater esse processo, pois fortalece a permanência das famílias no campo ao promover sustentabilidade econômica, social, cultural e ambiental, especialmente em territórios historicamente marginalizados, como o Vale do Jequitinhonha. Nesse sentido, as famílias podem gerar renda, além de consumir e comercializar alimentos de qualidade.

Para compreender o êxodo rural, é fundamental analisar suas raízes históricas. Desde o período da colonização, houve concentração de terras nas mãos de poucos. Nesse processo, os povos originários e outros grupos que ocupavam esses territórios foram expropriados, perdendo suas terras para os colonizadores. Como consequência, os pequenos produtores passaram a ter acesso a áreas cada vez mais reduzidas. Soma-se a isso a ausência ou o enfraquecimento de políticas públicas voltadas ao campo, bem como a desvalorização cultural do modo de vida rural. Diante desse cenário, muitas pessoas migraram para as cidades por necessidade, em busca de melhores condições de estudo e trabalho. Essa migração, ao esvaziar os territórios, provoca a perda de saberes locais e fragiliza as redes comunitárias que sustentam a vida no campo.

O êxodo rural tem impactado significativamente regiões como o Vale do Jequitinhonha, que vêm sendo esvaziadas devido à falta de oportunidades. Conforme noticiado pelo jornal Estado de Minas (2018) [1], muitos jovens e trabalhadores deixam suas comunidades em busca de emprego nas cidades. Em contraposição, a agroecologia, ao diversificar a produção, agregar valor aos produtos locais e estimular circuitos curtos de comercialização, como feiras e mercados locais, cria alternativas de sustento que tornam viável a permanência das famílias no campo. Dessa forma, ela se apresenta não apenas como técnica agrícola, mas como estratégia econômica e social que fortalece a autonomia e a dignidade das populações rurais.

Além disso, as crises ambientais e as mudanças climáticas apontam para o risco de uma nova onda de êxodo rural em escala global, fenômeno já indicado pelo jornal Estadão (2010) [2]. Nesse contexto, a agroecologia se destaca por promover um modelo de desenvolvimento sustentável, baseado na diversificação da produção, na preservação do meio ambiente e na valorização da vida no campo. Ao conservar o solo, proteger os recursos hídricos e reduzir a dependência de insumos externos, esse modelo diminui a vulnerabilidade das famílias rurais diante de crises climáticas e econômicas, fortalecendo suas condições de permanência no território.

Outro aspecto relevante é a integração entre Educação do Campo e agroecologia, que contribui para fortalecer o vínculo dos jovens com o território. Quando a escola dialoga com a realidade rural e incorpora saberes locais e práticas agroecológicas ao currículo, amplia-se o sentido da educação para esses sujeitos. Conforme aponta o site Nova Escola (2024) [3], muitas instituições ainda não dialogam com a realidade dos estudantes do campo, o que leva os jovens a enxergarem a cidade como única possibilidade de futuro. A valorização dos saberes locais e a articulação com práticas concretas de produção e vida no campo tornam a escola um espaço de formação técnica, política e cultural, capaz de incentivar a permanência no território.

Há, contudo, o argumento de que o êxodo rural seria um processo inevitável e parte do progresso. Essa visão, no entanto, naturaliza um fenômeno que é socialmente construído. O êxodo rural resulta de escolhas políticas e econômicas que privilegiam modelos produtivos excludentes e concentram investimentos fora dos territórios rurais. Um desenvolvimento que exclui populações do campo não pode ser considerado justo. Nesse sentido, a agroecologia demonstra que é possível produzir alimentos, gerar renda e preservar o meio ambiente de forma integrada, constituindo-se como alternativa viável ao modelo que expulsa populações rurais.

Como proposta de intervenção, destaca-se a implementação de projetos agroecológicos articulados à Educação do Campo, com o objetivo de fortalecer o vínculo dos jovens com o território e criar alternativas concretas de geração de renda. Um exemplo é o PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência), que promove a aproximação entre universidade e escola pública, permitindo que estudantes de licenciatura desenvolvam projetos pedagógicos nas escolas. No contexto da Educação do Campo, o programa contribui para a realização de ações educativas alinhadas à realidade das comunidades rurais, fortalecendo a formação dos jovens e ampliando suas perspectivas de permanência no campo.

A participação em programas como o PIBID possibilita o desenvolvimento de projetos pedagógicos e agroecológicos que envolvem estudantes, professores e comunidades, contribuindo para a valorização dos saberes locais, para a formação crítica dos jovens e para a ampliação das oportunidades de trabalho e renda no território. Dessa forma, a escola deixa de ser um espaço distante da realidade camponesa e passa a atuar como agente de transformação social.

Além disso, é fundamental a atuação do poder público por meio de políticas que apoiem financeiramente e institucionalmente essas iniciativas. Investimentos em formação, assistência técnica, infraestrutura, feiras locais e programas de incentivo à agroecologia fortalecem os projetos desenvolvidos em parceria com programas educacionais e ampliam seus impactos. Assim, constrói-se uma rede de apoio capaz de gerar renda, promover inclusão social e contribuir efetivamente para a redução do êxodo rural.

Por fim, a agroecologia se apresenta como uma alternativa concreta para enfrentar o êxodo rural, ao promover geração de renda, preservação ambiental e valorização da cultura do campo, especialmente quando articulada a políticas públicas e à Educação do Campo. Defender esse caminho é garantir o direito das populações rurais de permanecerem em seus territórios com dignidade, construindo um modelo de desenvolvimento mais justo e adequado à realidade dessas comunidades.

Referências

[1] ESTADO DE MINAS. Êxodo rural deixa cidades fantasmas no Vale do Jequitinhonha. 2018. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/economia/2018/04/17/internas_economia,952184/exodo-rural-deixa-cidades-fantasmas-no-vale-do-jequitinhonha.shtml. Acesso em: 12 jan. 2025.

[2] ESTADÃO. Mundo vai viver nova onda de êxodo rural. 2010. Disponível em: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,mundo-vai-viver-nova-onda-de-exodo-ruralimp-,608628. Acesso em: 12 jan. 2025.

[3] NOVA ESCOLA. Êxodo rural: aqui e agora. 2024. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/2319/exodo-rural-aqui-e-agora. Acesso em: 12 jan. 2025.



SOBRE AS AUTORAS

Kariny Rodrigues Carvalho e Joice Cristene Gomes Barbosa são acadêmicas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientadas pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.

Agroecologia, educação e permanência no campo

Agroecologia, educação e permanência no campo

A agroecologia, quando articulada à educação e à valorização da diversidade cultural dos territórios rurais, pode se tornar uma alternativa concreta para enfrentar o êxodo rural. Ao fortalecer os modos de vida do campo, os saberes tradicionais e a produção local, essa abordagem contribui para a permanência das famílias em suas comunidades, rompendo com modelos históricos de exploração que empurram a população rural para as cidades.

Antes de defender esse ponto de vista, é importante compreender que o êxodo rural não ocorre por acaso. Trata-se de um fenômeno resultante de estruturas históricas que remontam ao período colonial, quando a terra e o poder foram concentrados nas mãos de poucos. Ao longo do tempo, o campo passou a ser visto apenas como espaço de exploração, enquanto os saberes, a cultura e o modo de vida das populações rurais foram desvalorizados. Esse modelo contribuiu para a saída de muitas pessoas em busca de melhores condições de vida. Assim, discutir agroecologia também implica refletir sobre nossas raízes históricas e sobre a necessidade de romper com essas estruturas que ainda afetam a vida no meio rural.

O êxodo rural está diretamente relacionado à ausência de oportunidades de trabalho e às precárias condições de vida no campo, decorrentes de um modelo de desenvolvimento que explorou os territórios rurais sem promover investimentos sociais, econômicos e estruturais. Fatores como a mecanização da agricultura, a recorrência de secas e a insuficiência de políticas públicas agravam esse cenário, forçando a saída de famílias e fragilizando os modos de vida rurais. Nesse contexto, a agroecologia apresenta-se como uma alternativa ao modelo dominante, ao valorizar o trabalho familiar, os saberes tradicionais e a diversidade sociocultural do campo. Como destacam Puliero et al. (2022, p. 20) [1], práticas agroecológicas promovem a sustentabilidade e o enraizamento social, contribuindo para a geração de renda local e o fortalecimento das comunidades.

Além disso, a agroecologia respeita as dimensões culturais dos territórios e favorece a integração das pessoas ao meio rural, fortalecendo o sentimento de pertencimento. Muitas famílias desejam permanecer em suas terras, próximas de sua cultura e de seus vínculos comunitários, mas acabam migrando por falta de alternativas de renda. Isso evidencia a necessidade de projetos que valorizem a produção local e de uma educação voltada à realidade do campo, capaz de fortalecer os territórios e reduzir o êxodo rural.

Nesse sentido, a contribuição de Caldart (2009, p. 59) [2] é fundamental ao defender a agroecologia como parte de um projeto político-pedagógico mais amplo, articulado à soberania alimentar e aos direitos dos povos do campo. Para a autora, a Educação do Campo está vinculada a lutas sociais mais amplas e deve dialogar com a realidade dos sujeitos, contribuindo para transformar suas condições de vida. Como afirma Caldart, trata-se de uma disputa que envolve não apenas o acesso à educação, mas também a definição de que educação se quer para o campo.

Políticas públicas também desempenham papel decisivo nesse processo. Programas de crédito e apoio técnico, como o Agroamigo, demonstram que o investimento no meio rural pode gerar impactos positivos para os pequenos produtores. Da mesma forma, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), criado em 1995, busca promover um padrão de desenvolvimento sustentável, incentivando a diversificação da produção e a geração de emprego e renda. Conforme aponta o Banco do Nordeste do Brasil (2005) [3], essas iniciativas contribuem diretamente para a permanência das famílias em seus territórios ao oferecer condições mais justas de reprodução social e econômica.

Apesar de seu potencial, a agroecologia não deve ser compreendida como a única solução para o enfrentamento do êxodo rural. Outras estratégias, como investimentos em infraestrutura, acesso a serviços básicos e ampliação de políticas públicas, são igualmente essenciais. Nesse sentido, Niederle et al. (2019, p. 272) [4] destacam que os avanços nesse campo estão associados à atuação de movimentos sociais, sindicais e acadêmicos que, desde a década de 1970, vêm construindo alternativas ao modelo tradicional de desenvolvimento rural. O diferencial da agroecologia está justamente em articular desenvolvimento econômico, sustentabilidade ambiental e justiça social.

Como estratégia de intervenção, propõe-se o fortalecimento de ações educativas em escolas e comunidades rurais que integrem saberes tradicionais e conhecimentos científicos, tendo a agroecologia como eixo formativo. Essas ações podem incluir hortas escolares, como espaços de aprendizagem prática sobre alimentação saudável e sustentabilidade; viveiros de sementes, que contribuem para a preservação da biodiversidade; oficinas de saberes, que promovem o diálogo entre conhecimentos locais e científicos; a inserção da agroecologia no currículo escolar; rodas de conversa; e feiras agroecológicas, que fortalecem a economia local e incentivam o consumo consciente. Essas iniciativas aproximam escola e comunidade e contribuem para a valorização do território.

Em síntese, a agroecologia constitui uma abordagem promissora para a redução do êxodo rural, especialmente em regiões marcadas por elevados índices de migração. Por meio da articulação entre educação, políticas públicas e práticas sustentáveis, é possível construir condições mais favoráveis à permanência das populações no campo, promovendo o desenvolvimento rural com justiça social e respeito à diversidade cultural.

 Referências

[1] PULIERO, Lara Palhares Silva; SILVA, Vanessa Juliana da; SAIS, Isabelle Caroline Ribeiro. Agroecologia como estratégia contra o êxodo rural. Anais do Congresso Brasileiro de Agroecologia, 2020.

[2] CALDART, Roseli Salete. Educação do campo: notas para uma análise de percurso. Trabalho, Educação e Saúde, 2009.

[3] BANCO DO NORDESTE DO BRASIL. Agroamigo: experiência apresentada no Concurso Inovação na Gestão Pública Federal. 2005.

[4] NIEDERLE, Paulo et al. A trajetória brasileira de construção de políticas públicas para a agroecologia. Redes, 2019.



SOBRE AS AUTORAS

Joissiely Gonçalves Lemos, Dieslen Patrícia Rocha de Almeida e Karen Cristine Cruz de Assis são acadêmicas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientadas pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.