A agroecologia é uma ferramenta essencial para combater o racismo estrutural no campo, pois orienta uma forma de produzir, viver e se relacionar com a terra que integra dimensões ecológicas, sociais, culturais, políticas e econômicas. Ao ir além da técnica agrícola, a agroecologia apresenta um projeto de sociedade comprometido com a justiça racial, a valorização dos saberes ancestrais e a defesa dos territórios historicamente violentados pelo colonialismo e pelo agronegócio.
Embora muitas vezes apresentada como uma proposta recente, a agroecologia não é tão nova quanto parece. Suas práticas têm raízes nos modos de vida campesinos, indígenas e quilombolas, que, ao longo de gerações, desenvolveram formas ecológicas e sustentáveis de produzir alimentos em íntima relação com a terra, a água e os ciclos da natureza. Segundo ALTIERI, Miguel A., no livro Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável (2012) [1], foi a partir da década de 1970 que a agroecologia passou a ser sistematizada no âmbito acadêmico, incorporando esses saberes historicamente construídos no campo. Ao sinalizar um projeto de produção e de sociedade baseado na diversidade, na autonomia e na justiça social, a agroecologia se consolida como uma ferramenta estratégica para o enfrentamento do racismo estrutural no campo, ao valorizar sujeitos historicamente marginalizados, fortalecer seus territórios e disputar os sentidos do desenvolvimento rural.
O modelo hegemônico de desenvolvimento rural, baseado no agronegócio e na agricultura industrial, está historicamente ancorado em uma lógica patriarcal-capitalista que articula colonização, racismo e exploração da natureza. Esse modelo transforma a terra, os corpos das mulheres e os povos racializados em recursos exploráveis, ao mesmo tempo em que desvaloriza os saberes tradicionais e os sistemas agrícolas de subsistência, conforme analisam Mies e Shiva, no livro Ecofeminismo (2014) [2]. Ao confrontar essa lógica, a agroecologia se afirma como ferramenta estratégica no enfrentamento do racismo estrutural no campo, ao valorizar sujeitos historicamente marginalizados, fortalecer territórios e disputar os sentidos do desenvolvimento rural.
Essa lógica de dominação também se expressa no processo colonial que, conforme analisa Nego Bispo dos Santos, no livro Colonização, quilombos: modos e significações (2015) [3], impôs uma ruptura violenta entre povos e territórios, substituindo modos de vida fundados na reciprocidade e na convivência com a terra por uma racionalidade orientada pela exploração, pelo progresso e pela acumulação. Ao negar a legitimidade dos saberes tradicionais e das formas comunitárias de existência, a colonização produziu não apenas a expropriação material da terra, mas também a desqualificação epistemológica dos conhecimentos construídos pelos povos do campo. Nesse contexto, a agroecologia se coloca como prática de recomposição dessas relações rompidas, ao afirmar a centralidade do território, da coletividade e do cuidado com a vida, em oposição às heranças coloniais que sustentam o racismo estrutural no campo.
Essa herança colonial não se encerra no passado, mas se atualiza na agricultura industrial moderna que, como analisa Vandana Shiva no livro Quem realmente alimenta o mundo? O fracasso do agronegócio e a promessa da agroecologia (2016) [4], opera como continuidade do colonialismo ao transformar a biodiversidade, as sementes e o trabalho camponês — especialmente o das mulheres — em mercadorias controladas por corporações transnacionais. No plano simbólico, político e subjetivo, esse mesmo projeto é sustentado pelo racismo estrutural que, segundo Grada Kilomba, no livro Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano (2019) [5], produz a desumanização de corpos racializados e a naturalização da violência contra seus territórios, criando hierarquias que legitimam a exploração da terra e a negação da memória, da voz e da existência desses sujeitos.
O agronegócio se apresenta como projeto inevitável de modernização do campo, sustentando-se em discursos de progresso, eficiência e neutralidade científica. Contudo, ao analisar suas bases históricas e políticas, evidencia-se que esse modelo não é neutro, mas sim a continuidade de um projeto colonial, patriarcal-capitalista, que perpetua o racismo estrutural na organização dos territórios e na produção de alimentos. Longe de resolver a fome ou promover desenvolvimento, o agronegócio reproduz a expropriação da terra, a mercantilização da vida e a desqualificação dos saberes comunitários, reforçando violências que enfraquecem as relações de reciprocidade entre povos e territórios. Ao converter sementes, biodiversidade e trabalho camponês em mercadorias controladas por corporações, e ao naturalizar a desumanização de corpos racializados e a violência sobre seus territórios, esse modelo aprofunda desigualdades sociais, raciais e ecológicas que afirma combater. Assim, o argumento de que o agronegócio seria condição para a segurança alimentar revela-se falacioso, pois ele próprio produz dependência, concentração de poder e destruição das bases de reprodução da vida. É justamente na recusa dessa lógica que a agroecologia se afirma como movimento político e cultural, recolocando no centro a vida, o território e os saberes historicamente silenciados, constituindo-se como ferramenta fundamental no enfrentamento do racismo estrutural no campo.
Diante do entendimento de que o racismo estrutural no campo está profundamente enraizado no projeto colonial e no modelo agroindustrial hegemônico, a agroecologia se afirma não apenas como alternativa produtiva, mas também como um projeto educativo e político. Nesse sentido, propõe-se a inserção da temática da cultura etnoalimentar no currículo escolar, articulada ao ensino da agroecologia como prática vivenciada, e não apenas como conteúdo teórico. Além disso, a implementação de uma horta escolar agroecológica, organizada de forma coletiva e interdisciplinar, constitui-se como estratégia central e também como filosofia pedagógica. Essa proposta se estrutura a partir da produção de alimentos — que ressignifica a relação com o que se planta, se colhe e se consome —, da leitura dos ciclos da natureza — que permite compreender tempo, sazonalidade, interdependência e cuidado com a terra — e da ciência prática, na qual saberes ancestrais e conhecimentos científicos se encontram em experiências concretas de manejo, irrigação, solo e biodiversidade. Essa perspectiva integra saberes das ciências naturais, humanas e das linguagens, ao mesmo tempo que valoriza os conhecimentos tradicionais, a memória alimentar e o vínculo com o território, contribuindo para a formação crítica dos(as) estudantes e para a construção de uma educação antirracista, territorializada e comprometida com a justiça social.
Nesse horizonte educativo, ético e territorial, a horta agroecológica articula-se a um conjunto mais amplo de políticas públicas voltadas à agroecologia, à segurança alimentar e à igualdade racial. Essa concepção dialoga com marcos como a PNAPO (Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica) e o Estatuto da Igualdade Racial, que fundamentam uma educação e um desenvolvimento territorial antirracistas. Da mesma forma, iniciativas como o Aquilomba Brasil, articuladas a programas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), além do Selo Quilombos do Brasil, reforçam a valorização dos saberes, da produção de base agroecológica e dos territórios tradicionais. Assim, a horta escolar, longe de ser apenas um espaço produtivo, integra um projeto mais amplo de educação, território e justiça social.
Referências:
[1] ALTIERI, Miguel A. Agroecologia: bases científicas para uma agricultura sustentável. 3. ed. São Paulo: Expressão Popular; Rio de Janeiro: AS-PTA, 2012.
[2] MIES, Maria; SHIVA, Vandana. Ecofeminismo. Tradução de Fernando Dias Antunes. Lisboa: Instituto Piaget, 2014.
[3] BISPO DOS SANTOS, Antônio. Colonização, quilombos: modos e significações. Brasília: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa (INCTI), 2015.
[4] SHIVA, Vandana. Quem realmente alimenta o mundo? O fracasso do agronegócio e a promessa da agroecologia. Tradução de Adriana Lima. São Paulo: Elefante, 2016.
[5] KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução de Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
SOBRE AS AUTORAS
Tacimira Fabiana do Carmo e Vanessa Dias Farias são acadêmicas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), curso ofertado pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), e produziram este artigo de opinião na disciplina Diversidade e Educação, ofertada no primeiro semestre letivo de 2026. Foram orientadas pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro.





