Letramento visual

Letramento visual

Por Alexandre dos Santos Baldaia [1]

Tenho vinte anos, nasci, cresci e resido atualmente na comunidade Quilombola do Paiol. Na minha infância tive poucas oportunidades de ler um livro ou mesmo de ter um, pois naquela época era tudo muito difícil. Minha família sempre morou no campo, assim não tive muitos contatos com a leitura. Apenas quando meus irmãos mais velhos começaram a estudar na escola do município, trazendo alguns livros didáticos para casa é que tive os primeiros contatos com os livros.

Como eles já sabiam ler, passaram a me ajudar a decorar o alfabeto e a escrever as primeiras palavras. Foi assim que aprendi a escrever meu nome, e sempre tive interesse em ler. Nesses livros didáticos também havia algumas histórias em quadrinhos, como “A turma da Mônica”, por exemplo, que eu tentava entender, porque ainda não sabia ler.  Na minha infância, então, aprendi primeiro a ler as imagens: sempre que olhava qualquer tipo de figura, tentava descobrir uma posição crítica no texto, pensando sempre no que poderiam representar.e

Aos seis anos de idade ingressei na escola e com sete anos comecei a ler e a escrever. Foi muito difícil me adaptar àquele lugar e a usar o lápis. Cheguei a pensar, em certo momento, que não conseguiria aperfeiçoar a prática de leitura. No entanto, os professores sempre exigiam que eu e meus colegas lêssemos e escrevêssemos. Sempre nos passavam o alfabeto e, logo em seguida, tentávamos escrever nosso nome, o nome da cidade e da comunidade em que morávamos. Começar a ler foi a melhor experiência que tive, porque a cada dia eu procurava aperfeiçoar minha prática de leitura e, assim, fui aprimorando meus conhecimentos. Meus primeiros livros foram dados por minha mãe quando entrei na escola. Todos os anos, passava um homem vendendo alguns kits de livros perto de minha casa. Como minha mãe é religiosa, optou por comprar livros religiosos. Recordo-me que, do início ao final do Ensino Fundamental I, os professores sempre exigiam dos alunos que lessem livros durante a aula. Lembro-me que um desses livros era “O rato roeu a roupa do rei de Roma”.

Sobre o papel da escola no desenvolvimento da leitura, penso que tanto professores quanto diretores incentivam a leitura nos primeiros cinco anos iniciais do Ensino Fundamental I, mas depois passam a não dar valor à leitura, como se os alunos não necessitassem mais ler. Acredito nisto porque não os vi passando livros para leitura e discussão em sala de aula após o período mencionado. Na escola havia uma biblioteca, mas não podíamos pegar livros para ler. Também não podíamos levar livros para a casa, pois, segundo a escola, não tínhamos responsabilidade e poderíamos sujá-los.

Quando terminei o Ensino Médio, fiquei um período sem ter acesso a livros, pois trabalhava no campo e quase não tinha tempo para ler. Ao entrar na Universidade, comecei a ler alguns textos acadêmicos, assim voltei a ter o hábito de ler. No entanto, alguns desses textos são cansativos e difíceis de entender, mas sei que são necessários, pois a partir desses livros começamos a ter uma visão de mundo que será útil em minha vida profissional e social. As dificuldades que tive em ter um livro ou até mesmo para ler me fizeram perceber que a leitura não se realiza apenas oralmente; e que o letramento não é um processo de decorar o alfabeto ou ler. Entendi que o que está por trás disso tudo. Entendo que para me tornar um educador do campo é preciso buscar conhecer a realidade dos alunos e contextualizar o ensino.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: https://auladigital.net.br/ebooks.

A vacinação no Brasil do século XIX ao XXI

A vacinação no Brasil do século XIX ao XXI

Por Ângela Gomes Freire

No Brasil do século XIX, início do período republicano, houve o processo da industrialização, momento do crescimento desordenado da população urbana, contando com uma grande migração das áreas rurais. As aglomerações urbanas decorrentes desse processo resultavam muitas vezes em péssimas situações de moradia para seus habitantes, que não raro eram acometidos por surtos de doenças, como varíola, cólera e malária, entre outras [1].

Em paralelo, um forte movimento higienista no Rio de Janeiro propagava ideias de modernização e urbanização. Esse projeto acabava contando com a demolição arbitrária de casas e cortiços do centro da cidade, expulsando as pessoas dessa região. Na ocasião, o discurso propagado era o de que tais medidas serviam para limpar a cidade, eliminar os ratos, baratas e insetos, causadores de doenças. No entanto, essa agenda política era uma maneira de alargar as vias, criar novos modelos de construção, nos moldes do gosto europeu [2]. Como consequência, a população pobre passou a se abrigar cada vez mais em morros nas margens da cidade, mudando seus hábitos e convívios sociais.

Foi neste cenário que, em 1904, sob as influências do pensamento científico e positivista europeu, surgiu o projeto de vacinação obrigatória contra a varíola de toda a população, coordenado por Osvaldo Cruz [3]. A campanha continha critérios rigorosos. Todo cidadão brasileiro teria de comprovar que tinha sido vacinado, caso contrário, poderia ser dispensado de seu contrato de trabalho, seria impedido de realizar matrículas em escolas, incapaz de emitir certidões de casamento, autorização para viagens etc. Tudo isso serviu de catalisador para um episódio conhecido como Revolta da Vacina [4].

Parte da população, já insatisfeita com a opressão sofrida, não reagiu bem à ideia de tomar uma vacina contra sua vontade. Associando a situações as quais haviam sido submetidos anteriormente, muitos suspeitavam que o governo queria exterminar as pessoas através da vacinação. Assim, diante de diversos fatores, o povo foi às ruas da capital da república a fim de protestar contra a vacina.

Curiosamente, depois de tanto tempo, vive-se no Brasil do século XXI uma nova situação delicada relacionada a questões sanitárias e de vacinação.

Enquanto vários países já estão sendo imunizados pela vacinação contra o coronavírus, o Brasil, no âmbito governamental, demorou a discutir e chegar a um consenso quanto à procedência desta ou daquela vacina, a elaborar e apresentar o plano de operacionalização da vacina contra a Covid-19. Essa situação tem por pano de fundo certo negacionismo, por parte do governo federal, em relação à pandemia causada pela COVID-19.

Assim, ao contrário do século XIX, enquanto boa parte da sociedade civil tem se posicionado para garantir a situação sanitária no Brasil, o presidente da República com seus apoiadores se mantêm contra a vacinação, incitando a população a se revoltar contra a vacina e tratando a questão como uma decisão pessoal ou individual. Ocorre que essa postura, vinda de um líder de governo, responsável por definir políticas públicas de saúde, não pode ser lida como problema pessoal, mas sim como questão nacional em defesa da vida. Afinal, este posicionamento interfere diretamente na vida da população. Há uma ação de se contrariar os saberes científicos e dificultar negociações com as empresas produtoras das possíveis vacinas, por exemplo, que prejudicam a eficácia da vacinação. Vale lembrar que o país já ultrapassou 234.850 vítimas fatais e a doença já contaminou mais 9.659.167 de pessoas, números que estão diretamente relacionados ao modo como o país tem conduzido esta situação.

Finalmente no dia 17 de janeiro, após a aprovação do uso emergencial pela ANVISA, a primeira pessoa no Brasil foi vacinada, uma enfermeira do sistema público de saúde de São Paulo, Mônica Calazans. Ela recebeu o imunizante Coronavac, desenvolvido no país, no Instituto Butantan. Apesar de ser uma boa notícia, o processo de vacinação ainda será bastante lendo e continua sendo prejudicado pelos posicionamentos do governo federal.

REFERÊNCIAS:

[1] https://portal.fiocruz.br/noticia/revolta-da-vacina-2

[2] https://www.youtube.com/watch?v=gioM2uI24fE

[3] https://brasilescola.uol.com.br/biologia/a-historia-vacina.htmFolder CAS cobertura vacinal

[4] https://www.brasildefato.com.br/2020/11/10/revolta-da-vacina-116-anos-diferencas-e-semelhancas-com-a-onda-negacionista-atual

Relembrando o começo do meu futuro

Relembrando o começo do meu futuro

Alcione Aparecida Ferreira [1]

Sou filha de Afonso Fernandes e Ivanildes Venância e irmã de Wilson Elias, quatro anos mais velho que eu. Somos campesinos e moradores da comunidade Botafogo pertencente ao município de Santo Antônio do Itambé-MG. Quando criança, adorava brincar de professora. No meu quarto, escondida dos meus pais, fazia riscos atrás da porta com pedaços de barro, pois ainda não sabia escrever, e alegremente pensava estar lecionando. Muitas vezes, na varanda, improvisava uma sala de empresa, em que eu sonhava ser secretária e, com os materiais escolares do meu irmão, riscava o papel como se fizesse anotações importantes. Meu pai sempre percebeu que eu tinha grande interesse pela escola, então, aos cinco anos de idade, deu-me um caderninho, um lápis de escrever e uma borracha. Sempre que tinha um tempinho, sentava comigo para me ensinar a escrever meu nome. Lembro-me da época em que minha casa ainda não tinha luz, e sentávamo-nos no banco da cozinha com a lamparina acesa. Meu pai lia a bíblia, e rezávamos o Terço e o Ofício de Nossa Senhora com um livrinho que eu sempre folheava.

Aos seis anos, entrei na Escola Municipal de Botafogo, como havia grande demanda de alunos e as salas de aula eram poucas, criaram turmas multisseriadas. No meu primeiro ano na escola, a professora ensinava apenas a escrever o nome, alguns números e as vogais. Nisto, eu levava vantagem, pois já sabia escrever meu nome completo. Lembro-me bem de minhas professoras, Vanir, Rosângela, Rosilene e Marielene, mas, principalmente, da primeira professora, a tia Vanir, como era conhecida. Ela sempre gostou de músicas, então colocava canções para cantarmos e dançarmos na sala de aula. As músicas de que mais gostava eram: A pulga e o percevejo, A barata, A canoa virou e Cantigas de roda.

A partir da segunda série, fazíamos pequenas redações praticamente todos os dias. Eu adorava ler as minhas para a turma e ilustrá-las, porque ganhávamos prêmios com a atividade. Os temas eram voltados à nossa imaginação e todos os alunos viajavam no universo imaginário. Eu sempre iniciava meus textos com um ‘‘era uma vez’’ para marcar o caráter fictício das histórias. Havia, também, o projeto “Semeando” cujo objetivo era valorizar a terra através de narrativas dos livrinhos dos personagens Torrãozinho e Sementinha. Ainda na segunda série, quebrei a clavícula ao correr para a catequese, ficando o braço direito engessado e preso, mas que não me impedia de fazer as atividades escritas. Minha atitude alcançou o apreço da professora que me escolheu como aluna modelo da turma. A escola tinha um quartinho com livros didáticos e de historinhas infantis dentro de um armário trancado com cadeado. Tínhamos acesso apenas aos textos didáticos. Toda semana, o supervisor fazia visitas para avaliar as leituras e os cadernos dos alunos. Adorava ler para o supervisor, Humberto Magno, pois fazíamos muitas fichas com nome da escola, da professora e do aluno. As atividades e avaliações eram mimeografadas.

Estudei o Ensino Fundamental II e o Ensino Médio na Escola Estadual Alcebíades Nunes, localizada na cidade. Lá havia uma biblioteca à disposição de todos, mas eu quase não pegava livros literários, somente os didáticos. Só fazia empréstimo dos textos literários quando o professor solicitava um resumo do livro que, em geral, eu nem lia. Só copiava e entregava. A escola promovia viagens para os alunos que mais faziam empréstimo de livros literários. Geralmente, os alunos pegavam os livros e não liam, porque não era solicitado um resumo da obra. Aos dezoito anos de idade concluí o Ensino Médio, e aos vinte anos cursei o magistério, Curso Normal em Nível Médio nessa mesma instituição. Nessa escola, tive muitas experiências, como trabalhar histórias infantis com crianças, com atividades de reconto.

Em 2018, prestei o vestibular para a Licenciatura em Educação do Campo da UFVJM e fui aprovada. A partir de então, descobri a importância da leitura, mesmo com dificuldades com textos acadêmicos. Entendo que essas leituras me ajudarão a ter um maior embasamento teórico para a realização dos trabalhos acadêmicos e, claro, para a vida. Assim sendo, avalio como positiva a mudança pela qual estou passando, pois é o que fortalecerá meu crescimento como estudante, pessoa e futura educadora do campo.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: https://auladigital.net.br/ebooks.

Comunidade do Paiol lança livro

Comunidade do Paiol lança livro

“Escrever é algo muito poderoso e também uma das formas mais poéticas de se expressar. Escolher sobre o que escrever pode ser um desafio, mas se a intenção é registrar algo como uma história, vale a pena pensar no motivo de querer eternizá-la. Movidos pelo desejo de registrar a história do Paiol e possibilitar o conhecimento das próximas gerações sobre seus antepassados, escrevemos o livro “Paiol: conhecendo uma comunidade quilombola”. Na obra, além da história, são apresentadas algumas práticas culturais da comunidade, atividades do cotidiano dos moradores e possibilidades de um ensino contextualizado e pautado na cultura quilombola. Esperamos que em cada página lida vocês conheçam um pouco mais da história, modo de vida e cotidiano desses remanescentes quilombolas que com muita luta e resistência têm mantido suas tradições e tentado eternizar seu legado.”

“Almejamos que este rico acervo também possa ser utilizado em escolas da comunidade e por futuras gerações que desejem conhecer um pouco mais seu território e os moradores que o constituíram.

Boa leitura a tod@s!”

 

Essas são palavras da Anne Karine Pereira Quaresma, quilombola e uma das organizadoras do livro Paiol: conhecendo uma comunidade quilombola. O livro digital pode ser baixado gratuitamente no nosso site: https://auladigital.net.br/ebooks

Impactos da Lei Aldir Blanc nas Comunidades Quilombolas do Vale do Jequitinhonha

Impactos da Lei Aldir Blanc nas Comunidades Quilombolas do Vale do Jequitinhonha

Por Ângela Gomes Freire

A Lei Federal n°14.017/2020 [1], sancionada em 29 de junho de 2020, ficou conhecida por Lei Aldir Blanc em homenagem a Aldir Blanc Mendes – compositor e escritor que morreu acometido pela Covid-19 em maio de 2020 [2]. Aprovada graças à mobilização dos trabalhadores da cultura e aos diálogos realizados junto aos (às) deputados(as) no Congresso Nacional, a lei foi criada para dispor sobre ações emergenciais destinadas ao setor cultural a serem adotadas durante o estado de calamidade pública causado pela epidemia do coronavírus.

O carioca Aldir Blanc largou a medicina para se dedicar exclusivamente à música, tornando-se um dos mais importantes compositores da música popular brasileira. Autor de vasta obra musical e literária, ficou também conhecido no meio artístico por criar e integrar associações ligadas à defesa dos direitos autorais. Publicou vários livros, além de contribuir com crônicas para os jornais O Dia, O Estado de São Paulo e O Globo. Seu legado também foi deixado na televisão através das trilhas sonoras de abertura de novelas e séries.        

A Lei Aldir Blanc destina recursos públicos para ações emergenciais de apoio ao setor cultural por meio de programa de renda emergencial; subsídio mensal para manutenção de espaços artísticos e culturais, microempresas e pequenas empresas culturais, cooperativas, instituições e organizações culturais comunitárias que tiveram as suas atividades interrompidas por força das medidas de isolamento social; e chamadas públicas por meio de editais ou prêmios para realizações de atividades artísticas que possam ser transmitidas pela internet ou disponibilizadas por meio de redes sociais e outras plataformas digitais.

Os recursos para a aplicação da lei são oriundos do Fundo Nacional de Cultura através de transferência da União para estados e municípios.  Enquanto os estados são responsáveis pelo pagamento da renda emergencial, os municípios fornecem subsídio mensal aos espaços culturais. Ou seja, tanto os estados quanto os municípios têm que elaborar e publicar editais, chamadas públicas ou prêmios. Porém, os repasses feitos pela União estão vinculados à apresentação e aprovação de um plano de implementação desses recursos com a participação da sociedade civil no acompanhamento, fiscalização e construção do plano de implementação.

Em Minas Gerais, a Secretaria Estadual de Cultura e Turismo (SECULT), por meio de sua equipe gestora, lançou 27 editais, amparando assim os mais variados setores culturais da capital e do interior através da música, dança, circo, teatro, performance, artesanato, fotografia, literatura, memória, culturas populares e tradicionais, artes visuais e digitais etc. Cabe destacar que o valor total destinado à Lei Aldir Blanc de Minas Gerais (LABMG) foi de mais de R$ 155 milhões, somados os recursos de Estados e reversão de municípios. [3].

O Edital nº27/2020, referente ao credenciamento de culturas populares e tradicionais, previa um valor bruto total de R$ 20.711.600,00, distribuídos para aqueles que se inscrevessem como pessoas físicas maiores de 18 anos, em nome próprio ou representando grupos ou comunidades, com residência ou domicílio em Minas Gerais, com cadastros homologados pelo Estado e validados pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG) nas seguintes categorias: I) Praticantes ou mestres, compreendendo violeiros(as), fazedores(as) de viola artesanal e mestres de capoeira; II) grupos ou coletivos, compreendendo as Folias, os Congados e o Jongo; e III) comunidades, compreendendo comunidades quilombolas, comunidades de apanhadores(as) de flores sempre-vivas, povos indígenas e outros povos e comunidades tradicionais.

Do Médio Jequitinhonha, destaca-se a experiência da Comissão das Comunidades Quilombolas do Vale do Jequitinhonha (Coquivale) [4] – organização não governamental, cujo objetivo é a unificação das comunidades quilombolas do Vale do Jequitinhonha na luta por políticas públicas de direito, reconhecendo as dificuldades logísticas e tecnológicas dos grupos e comunidades tradicionais. Os diretores da Coquivale decidiram apoiar os interessados em se inscrever no edital, preenchendo formulários, inserindo dados com consentimento dos seus líderes ou responsáveis pelos grupos ou associações quilombolas.  

Sobre o assunto, eu tive uma conversa com o presidente José Claudionor dos Santos Pinto que trouxe notícias diversas da Coquivale e de todos os envolvidos. Segundo José Claudionor, cerca de 80 comunidades foram contempladas nesse edital. Porém, para isso, a diretoria teve que realizar uma força-tarefa para inscrever grupos e comunidades. A vice-presidente, Rosária Costa Pereira, que inscreveu aproximadamente 24 comunidades, declarou que foi a primeira atividade dessa natureza que realizou. Além disso, a vice-presidente revelou seu apreço pelo envolvimento nesse tipo de trabalho participativo.

O presidente da Comissão das Comunidades afirmou que ainda é um desafio o manuseio e o domínio da ferramenta tecnológica. Para ele, o edital publicado foi simples, mas trazia complexidade no seu entendimento em questões como a execução dos recursos. Ademais, a inadimplência dos membros das associações, enquanto pessoa física, trouxe grandes preocupações, era impeditivo para se receber os recursos. Tiveram, assim, que encontrar soluções rápidas e a saída foi indicar outro membro da comunidade, envolvido no processo, para receber o recurso, o que não foi tão fácil tendo em vista que os processos burocráticos não são de domínio de todos.

As notícias trazidas da Coquivale são de que os diretores das associações disseram ter servido com amor e dedicação nessa árdua tarefa, visto que tiveram a oportunidade de interagir com as pessoas mais velhas das comunidades. Exemplificaram que puderam ensinar a elas coisas simples como tirar foto no celular, realizar um compartilhamento e postar um documento. Como havia comunidade que nunca recebeu recurso público antes, eles revelaram grande satisfação por essa oportunidade, uma vez que tinham vontade de realizar pequenas reformas na sede, reformar indumentárias e adquirir instrumentos para os grupos.

Outro ponto que os diretores consideraram relevante foi a integração com o IEPHA-Instituto Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, pois os municípios, através das prefeituras, tinham cadastrado algumas áreas de cultura tradicionais, como foliões, mestres de capoeira, mas não tinham retorno quanto a esses cadastros. Agora, em decorrência da Lei Aldir Blanc, para validar as inscrições, foram tomados como referência listagens, mapeamentos e cadastros de órgãos públicos estaduais e federais vinculados às categorias. Segundo os diretores, essa ação possibilitou o reconhecimento do patrimônio cultural imaterial.

O secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, Leônidas Oliveira, ressaltou a importância do alcance da Lei Aldir Blanc por todo o território mineiro. O secretário enfatizou: “Temos feito um grande esforço para que os recursos da Lei Aldir Blanc cheguem até os povos e comunidades tradicionais de Minas Gerais. Neste processo de credenciamento, todas as comunidades e povos tradicionais podem e devem se inscrever, basta comprovar a atividade conforme explicado no edital. Queremos atender, sobretudo, esse público que não esteve e não está normalmente nas linhas de fomento tradicionais do Estado brasileiro, para garantir o recurso e, em maior escala, a salvaguarda da cultura fundamente em Minas, que é a cultura dos povos e comunidades tradicionais” [5].

Enquanto isso, os municípios se organizaram, de acordo com o entendimento a nível local, acatando principalmente as orientações das suas assessorias jurídicas. Porém, muitos municípios que nem sempre têm uma pasta exclusiva da cultura que, em diversos casos, é dividida com a educação, turismo e esporte, irão receber valores nunca vistos e com uma equipe reduzida para operar toda a burocracia. No entanto, comissões foram montadas para que assim tivessem maior êxito no propósito de atingir o objetivo que a lei prevê assim como suas peculiaridades.

Foi um momento dificílimo para os municípios, porque, além da pandemia, a execução da lei coincidiu com o período eleitoral. No entanto, foi interessante observar que a Lei Aldir Blanc possibilitou trazer o debate para os gestores públicos de cultura quanto à importância da implementação e regulamentação do Sistema Nacional de Cultura. Criado em 2012, esse instrumento tem como objetivo fortalecer as políticas públicas de cultura por meio de uma gestão compartilhada entre estados, municípios e a sociedade civil para ampliar a participação social e, principalmente, garantir ao cidadão o pleno exercício de seus direitos culturais.

REFERÊNCIAS

[1] https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/lei-n-14.017-de-29-de-junho-de-2020-264166628

[2] https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/05/04/aldir-blanc-compositor-e-escritor-morre-no-rio.ghtml

[3] http://www.cultura.mg.gov.br/component/content/category/121-lei-aldir-blanc?layout=&Itemid=437

[4] https://www.facebook.com/COQUIVALE-Comiss%C3%A3o-das-comunidades-quilombolas-do-Vale-Jequitinhonha-1672046863020304/

[5] https://portalamm.org.br/lei-aldir-blanc-edital-da-secult-disponibiliza-mais-de-r-20-milhoes-para-a-cultura-popular-de-minas-gerais/

Práticas de letramento e superações

Práticas de letramento e superações

Por Airton Alves Chaves Junior [1]

Durante parte de minha infância não tive oportunidade de ter acesso a práticas de leitura, pois meus pais não sabiam ler e não tinham nenhum livro que pudesse influenciar meu processo de aprendizagem. Em minha casa havia apenas um rádio antigo, através do qual meu pai ouvia os jogos de futebol. Este hábito de meu pai me beneficiou, porque eu tentava entender o que era ali narrado para os ouvintes. Na comunidade onde morro não tinha escola, assim era muito difícil para os moradores terem acesso ao ensino. Meus irmãos não tiveram oportunidade de ir à escola, porquanto não tinham condições de custear as despesas ou até mesmo o deslocamento até o município em que se localizava a escola. Para irem de ônibus, teriam que andar muito, assim escolheram trabalhar na roça para ajudar as necessidades da família.

Aos sete anos, ingressei na escola, mas também tive dificuldades em função do deslocamento da minha comunidade, que fica na zona rural, até à escola, que se localizava na cidade de Cristália. Eu saía de casa às 8 horas e só chegava à escola por volta das 12 horas. Nessa época, eu não tinha conhecimentos sobre letras ou números, mas desde novo já tentava ler as palavras ou números que via nas ruas da cidade. Aos poucos fui aprendendo na prática e, assim, comecei a desenvolver minha escrita, incentivada apenas pelo professor, que passava historinhas, como a dos Três porquinhos, para facilitar o aprendizado.

Além das dificuldades de acesso à escola, também precisava trabalhar com meu pai nas lavouras de feijão. Depois da colheita, o produto seria vendido para custear meus materiais e uniformes, produto difícil para adquirir.

Na escola, os problemas mais frequentes eram relacionados às tarefas que os professores passavam como atividade extraclasse. Como meus pais não eram alfabetizados, não era possível que me ajudassem, sendo assim, quando eu não conseguia fazer sozinho as atividades, voltava para as aulas com a tarefa sem fazer, na maioria das vezes. Sempre tentava fazer as tarefas enquanto estava na sala de aula para contar com a ajuda do professor. Com auxílio da escola, que possuía vários professores capacitados, pude ter um bom desenvolvimento da leitura e, assim, ajudar minha mãe a ler a Bíblia, que é de suma importância para ela.

Ao passar para o Ensino Médio ainda tive dificuldades por causa das atividades e leituras que eram passadas e que estarem fora do meu contexto de minha vida, ou seja, tudo que era passado não estava relacionado à minha forma de aprendizagem anterior.

Nas atividades desenvolvidas, o professor buscava livros na biblioteca e nos passava apenas resolução de atividades, o que não estimulava a leitura. Além disso, para ter acesso a um livro havia burocracias que nos faziam desistir, pois teríamos que preencher vários formulários para levar o livro para casa. Já no terceiro ano do Ensino Médio, busquei outras fontes de estudos, como a internet, para aprimorar meu desenvolvimento nas matérias. Isto contribuiu para importantes mudanças no meu modo de pensar e escrever.

Fiz o vestibular da Licenciatura em Educação do Campo ainda cursando o terceiro ano do Ensino Médio, o que me ajudou e incentivou a manter o foco e continuar os estudos. Ao ingressar na universidade, deparei-me com algumas dificuldades, pois na escola em que estudei não nos exigiam a leitura de texto de mais de 20 páginas, e as práticas de escritas eram descontextualizadas: nas redações, por exemplo, não havia uma estrutura a seguir e nem uma necessidade de interpretação textual.  Nesta nova rotina de leitura, obtive novos conhecimentos essenciais para meu processo de aprendizagem, uma vez que passei a ter uma visão crítica em minhas leituras.

Na graduação, atualmente, leio textos indicados pelos docentes – que, aliás, julgo serem muitas. Às vezes, o tempo curto e os textos difíceis de interpretar acabam me prejudicando, pois não consigo fazer todas as leituras propostas pelas disciplinas. Não posso, porém, deixar de mencionar um dos textos com o qual me identifico bastante, “Cultura Camponesa”, de José Maria Tardim, voltado para as culturas e tradições do homem camponês.

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, percebo a importância da leitura em minha vida. Através dela, encontramos novas estratégias de resistência, novas possibilidades de interpretação do mundo, já que somos seres compostos de ideias, sonhos e posições críticas.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: https://auladigital.net.br/ebooks

Relembrando meu passado

Relembrando meu passado

Por Adilson Gomes Santos [1]

Durante minha infância, o acesso a textos escritos não era comum, visto que poucas pessoas de meu convívio tinham acesso à educação formal e, consequentemente, à escrita. Eu tinha acesso a áudios da rádio comunitária ou de fitas gravadas. Naquela época, tinha contato também com a Bíblia Sagrada. Por sermos crianças, e porque meus pais a consideravam um livro sagrado, apenas um adulto poderia ter contato direto com a Bíblia. Mesmo assim, eu ouvia a leitura do texto sagrado feita por minha mãe, com voz um pouco insegura em função de ela ter estudado apenas até a quarta série do Ensino Fundamental. As leituras da Bíblia eram reforçadas na igreja, principalmente nas ocasiões em que o padre estava presente nas missas. Além das escrituras, lia textos que circulavam no meio em que vivia, como bulas de medicamentos, listas de compras, listas de despesas de cada mês etc.

Eu me lembro que entre seis e sete anos, fui presenteado com uma fita de áudio com músicas de lambada, ritmo rápido e contagiante que me interessava tanto que ficava ao lado do toca-fitas. Ouvia, também, na casa de minha avó, o áudio do Ofício da Imaculada Conceição, música religiosa, todas as tardes. Desses áudios, o que mais gostei foi o da fita de Ofício, porque naquela época precisávamos saber a rezar o Ofício, como estratégia utilizada por nossa comunidade quilombola para preservar a cultura afro-brasileira. Participava de encontros coletivos para ouvir as contações de causos ou para fazer a Oração do Terço, tradições orais ainda hoje preservadas em minha comunidade.

Antes de frequentar a escola, tive contato com a prática de escrita por intermédio das atividades diárias da minha mãe. Quando ela deixava folhas ou listas de compras em locais baixos, eu aproveitava a oportunidade para rabiscar as folhas. Percebendo minha curiosidade e vontade de escrever, minha família me presenteou com uma caixinha de canetinhas e um caderninho de arame. Confesso que usava mais a parede para tentar escrever do que o caderno. Ficava ali, tentando reproduzir o alfabeto ou desenhando os animais, como, por exemplo, minha cachorrinha Floresta. No início de minha alfabetização, nos primeiros anos escolares, tive uma professora muito dedicada, a tia Lúcia do Celin, que alfabetizava usando metodologias que prendiam nossa atenção. Uma delas consistia em usar imagens de objetos presentes em nosso dia a dia relacionadas às letras do alfabeto.

Minha motivação para escrever iniciou-se com as atividades propostas pela professora, que levava contos para serem trabalhados em sala de aula. Essas narrativas, que faziam parte de minha (de nossas) vivência(s), eram expostas em sequências de imagens para que pudéssemos, a partir delas, elaborar textos escritos nas aulas de português. A escola, portanto, teve uma função muito relevante em meu aprendizado, ou melhor, em meu processo de letramento, porém acredito que poderíamos ter tido contato com os livros que ficavam trancados nos armários do “Cantinho de Leitura”.

A leitura era mais cobrada nos anos finais do Fundamental I. Tínhamos responsabilidades ao pegar os livros literários chamados de “novos” pelos professores, mas não via um real incentivo à leitura. Queriam que tivéssemos acesso ao livro, e os textos produzidos eram a partir de sequências de imagens e dos relatos do sobre o período de férias.

No ensino Fundamental II continuei a ter contato com a literatura. A partir da quinta série, estudei em uma escola Estadual que possuía uma biblioteca com um grande acervo de livros, o que facilitou a diversificação de textos. Os professores, muitas vezes, escolhiam quais livros seriam lidos, mas a partir dessas escolhas surgiu em mim uma grande curiosidade pelos textos, no sentido de buscar saber o que estava por trás daquela escrita, algo que ia além daquilo que nossos olhos alcançam. Mais tarde, em função de minha curiosidade pela Bíblia Sagrada, participei de cursos para melhor compreendê-la.

Chegando ao ensino superior, tive a sensação de que sabia muito pouco. Precisei despertar o leitor e o escritor que estavam adormecidos dento em mim. Em minha trajetória de vida não tive contato com textos teóricos, por isso, tive uma grande dificuldade para ler e interpretar textos deste tipo. Entretanto, tenho superado os obstáculos. Percebo que, muitas vezes, o professor quer trabalhar de forma contextualizada, mas existe uma grade curricular que funciona como uma barreira que limita a atuação do educador. Assim, acredito que o docente nem sempre é culpado pela má formação de seus alunos.

[1] Este texto é parte do ebook Memórias de Letramentos II: Outras Vozes do Campo, disponível para download gratuito aqui: https://auladigital.net.br/ebooks

Visibilidade Trans: a força e a coragem de abraçar e de votar

Visibilidade Trans: a força e a coragem de abraçar e de votar
www.facebook.com/DudaSalabert/

 Por Ângela Gomes Freire

Em janeiro de 2019, a comunidade UFVJM teve oportunidade de conhecer Duda Salabert, vereadora eleita como mais votada em Belo Horizonte, em uma palestra promovida pelo curso de Medicina, no Campus da UFVJM. O título da palestra foi “Abraçar, fortalecer e dar visibilidade a coletivos e projetos sociais que transformam a realidade de Minas Gerais”.

Na ocasião, quando as turmas da Licenciatura em Educação do Campo (LEC) estavam em Tempo Universidade, período dedicado aos estudos propriamente na universidade, debatiam, na disciplina Diversidade e Educação, ofertada a todo o curso no quinto período pelo Prof. Dr. Carlos Henrique Silva de Castro, as nuances dos gêneros e das diversidades na sociedade brasileira. Na dinâmica dos trabalhos, um grupo de estudantes desenvolveu um breve artigo intitulado “Visibilidade Trans – Conhecer para Respeitar”, publicado no primeiro volume do Cadernos de Diversidades & Educação do Campo: opiniões de campesinos e quilombolas [1], ebook lançado pela Editora UFVJM.

Na publicação, Duda Salabert é citada como ativista em defesa da população trans e como primeira pessoa trans a disputar uma vaga ao senado por Minas Gerais, em 2018, pleito no qual recebeu mais de 300 mil votos. Dois anos depois, nas eleições municipais da capital do estado, um resultado histórico para a população trans motivou a rede de notícias da UOL, em 16 de novembro, a estampar a seguinte manchete: “Com recorde de candidaturas, 25 transexuais e travestis se elegem no Brasil.” [2] Entre essas pessoas está Duda Salabert, a mais votada de todos os tempos da capital mineira com mais de 37 mil votos. O recorde anterior era de pouco mais de 17 mil.

Esse resultado pode ser entendido de diferentes formas, mas para muitos é uma resposta ao presidente Jair Bolsonaro e correligionários, que comungam de valores, bem como propagam ataques, homofóbicos e racistas. O grupo, desde que assumiu o governo como é amplamente divulgado, não para de incitar ódio, a violência e o preconceito com as populações LGBTIQA+, como é amplamente debatido. Para eles, a questão LGBTIQA+ é entendida como “ideologia de gênero” e como algo contrário à fé cristã.

A partir desse entendimento, agem autoritariamente, chegando a ameaçar a vetar filmes LGBTIQA+ de editais de cultura, conforme notícia o jornal Le Monde Diplomatique Brasil em 19 de fevereiro de 2020 [3]. Segundo o periódico, em agosto de 2019, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) suspendeu um edital para séries que seriam exibidas na TV pública, cujos projetos pré-selecionados incluíam temáticas racial e LGBT. Durante uma live em sua rede social, Bolsonaro assumiu sua intervenção direta na agência e a censura praticada às obras. Dentre seus ataques, disse coisas como “livro didático com temática LGBT estimula crianças ao sexo”, conforme estampa a revista Carta Capital em 16 de agosto de 2019 [4]. 

Já o portal G1 [5] divulgou uma entrevista coletiva do presidente, no Palácio da Alvorada, em que um repórter lhe perguntou sobre os planos de transferir a embaixada brasileira em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém, o presidente proferindo palavras de completa vulgaridade, diz ao jornalista: “Você tem uma cara de homossexual terrível. Nem por isso eu te acuso de ser homossexual. Se bem que não é crime ser homossexual”.

Entre estas e outros ataques de desrespeito, vulgaridades e abusos proferidos pelo presidente, a BBC News, em 11 de novembro/2020 [6], noticiou a suspensão de estudos envolvendo a descoberta de uma vacina a ser fabricada pelo Instituto Butantan, de São Paulo, contra o vírus da COVID-19. Na oportunidade, Jair Bolsonaro reitera, em alto e bom tom, que o Brasil deveria “deixar de ser um país de maricas” por causa da pandemia, causada pela COVID-19: “Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas. Olha que prato cheio para a imprensa. Prato cheio para a urubuzada que está ali atrás. Temos que enfrentar de peito aberto, lutar. Que geração é essa nossa?”.

Nesse contexto de ataques contra as minorias, as eleições municipais representaram bem a organização dessas populações, a exemplo da LGBTIQA+, em questão aqui, mas também da comunidade negra que elegeu outras duas vereadoras. No caso dos LGBTIQA+, em 2016, foram apenas 89 candidaturas, sendo eleitos somente 08. Dessa vez foram 323 candidaturas, com 25 eleitos em 22 diferentes cidades do Brasil, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) [7]. Assim, as eleições municipais representaram bem a organização dessa população.

Duda Salabert, de Belo Horizonte, tem 39 anos de idade, é casada e tem uma filha, nascida em 19 de junho de 2019. É formada em Gestão Pública pela UEMG, exerce a profissão de professora de literatura em escola de rede privada. Sua história é de um trabalho incansável que a levou ao vitorioso resultado. Antes da já citada eleição ao senado, Duda fundou uma ONG chamada TRANSVEST, sem fins lucrativos, na qual atua assiduamente em defesa dos direitos transgêneros e com atividades para ajudar a pessoa trans a se inserirem no mercado de trabalho. No espaço ocorrem palestras, cursos de pré-ENEM, supletivo, libras, línguas e outros profissionalizantes.

Sua campanha intitulada “lixo zero” não usou nenhum “santinho”, adesivo ou panfleto; defendeu a causa animal e vegana e ainda pontuou questões que estão diretamente ligadas às mazelas das periferias como educação, emprego, áreas verdes e combate às enchentes. Como primeira medida como eleita, prometeu plantar uma árvore para cada voto alcançado, mas com a ajuda da população para essa ação e outras ligadas à questão ambiental, a exemplo de um “Plano Municipal de Crescimento Verde”. Segundo ela, o resultado nesta eleição é uma vitória da democracia, fruto de uma construção política feita ao longo de muitos anos. A nota completa de agradecimento aos eleitores, compartilhada em suas redes sociais [8] um dia após a eleição, pode ser conferida abaixo.

www.facebook.com/DudaSalabert/

Cadernos DIVERSIDADES & EDUCAÇÃO DO CAMPO, v. 1

Cadernos DIVERSIDADES & EDUCAÇÃO DO CAMPO, v. 1

O projeto Olhares do Campo organizou o Cadernos Diversidades & Educação do Campo, v. 1, com opiniões de campesinos e quilombolas dos Vales sobre as temáticas.

Originalmente, os textos foram publicados semanalmente, de janeiro a abril de 2020.

O material completo pode ser acessado pelo site do programa Aula Digital, do qual o Olhares do Campo faz parte, nesta página que tem outros ebooks produzidos no âmbito da Licenciatura em Educação do Campo da UFVJM: https://auladigital.net.br/wp-content/uploads/2020/08/CADERNO-DIVERSIDADES-E-EDUCA%C3%87%C3%83O-vol1.pdf

Soberania Alimentar na Agricultura Familiar em Tempos de Pandemia Muda a Rotina de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Município de Coração de Jesus-MG

Soberania Alimentar na Agricultura Familiar em Tempos de Pandemia Muda a Rotina de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Município de Coração de Jesus-MG

Em tempos obscuros, o caminho para ressignificação de mulheres trabalhadoras rurais no campo em Coração de Jesus tem sido a produção de hortaliças e verduras orgânicas.

 Por Mariana Soares e Rosiane Pereira

Arquivo pessoal das autoras

Nas comunidades rurais, a soberania alimentar dos  em pos de pandemia pos de Pandemiassinos tem se fortalecido no cultivo e produção de seus próprios alimentos, em hortas orgânicas feitas no quintal de suas casas. Essa produção ajuda na manutenção das famílias, contribui para renda familiar e fortalece o campesinato.

Em tempos de pandemia, essa prática tem sido mais constante e pode ser uma saída para o estresse ocasionado pelo isolamento social. O cultivo das hortas tem contribuído com melhoria da saúde mental dos agricultores familiares, principalmente das donas de casa. Com a pandemia, a saúde mental tem sido também umas das preocupações de profissionais da saúde como destaca uma pesquisa realizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS):  “O impacto da pandemia na saúde mental das pessoas já é extremamente preocupante” e a OMS ressalta que “[o]utros grupos que correm um risco particular são as mulheres, particularmente aquelas que estão fazendo malabarismos com a educação em casa e trabalhando em tarefas domésticas; pessoas idosas e quem possui condições de saúde mental preexistentes.”[1]

Contudo, o isolamento da sociedade tem sido necessário e atinge toda a população, impossibilitando muitos trabalhos, tanto em área urbana, quanto na área rural. Assim, manter a rotina tem se tornado um papel difícil para todos, bem como manter os ganhos. A saída     que o povo do campo tem se encontrado é a produção de hortas orgânicas, o que tem sido importante para as mulheres trabalhadoras rurais. Com a produção de hortaliças sem uso de agrotóxicos, essas mulheres contribuem com a soberania alimentar das suas famílias. Segundo Meirelles: “Soberania alimentar remete a um conjunto mais amplo de relações: ao direito dos povos de definir sua política agrária e alimentar, garantindo o abastecimento de suas populações e a preservação do meio ambiente”[2] [..] (p. 11, 2004)

Na comunidade rural de Passagem Funda, a produção agroecológica tem sobressaído.  A agricultura local é feita de forma menos coletiva e com formatos que mudam e ressignificam o trabalho em grupo, antes realizado por mutirões. As trabalhadoras, em entrevista a estas autoras, contam que encontram a distração dos problemas do dia -a- dia no cultivo da horta. Para elas, plantar a semente e ver o crescimento das plantas com a consciência que terão uma alimentação saudável, livre de agrotóxico, é de grande valia.

Com o isolamento social, a rotina das pessoas da comunidade mudou completamente. Os cultos religiosos, tradição da comunidade, por exemplo, tiveram que ser pausados e, atualmente assumem um novo formato, onde cada família faz suas preces em casa. Com o tempo extra, as famílias da comunidade dedicam-se mais à produção de alimentos para o sustento.

Outro fator que atinge a agricultura familiar nas comunidades camponesas da região é a falta de mercado. As famílias, em sua maioria, produzem muitos alimentos, mas não têm escoamento da produção; pois com a pandemia tornou-se difícil para essas pessoas se deslocarem e venderem seus produtos no distrito e na cidade. Dessa forma, a produção acaba perdendo e enfraquece a geração de renda, tão necessária para os povos do campo, sobretudo para as mulheres camponesas.

De toda forma, neste novo modo de viver com menos envolvimento entre as pessoas até e com a maior parte do tempo em casa, as hortas orgânicas têm ganhado destaque e fortalecimento no campo. Lembramos que a prática tem melhores resultados nos meses que vão de abril a setembro. As hortas, assim, têm colaborado com a manutenção das famílias, pela produção de alimentos saudáveis, e também no desempenho psicológico, sendo um modo de escape de tudo que estamos passando neste momento. Contribuem, então, com a saúde física e mental das populações camponesas.

 

[1] <https://nacoesunidas.org/oms-o-impacto-da-pandemia-na-saude-mental-das-pessoas-ja-e-extremamente-preocupante/>. Acessado em 06 de julho de 2020.

[2] MEIRELLES. Laercio. Soberania alimentar, agroecologia e mercados locais. Agriculturas. v. 1, n. 0, setembro de 2004.

Horta em Coração de Jesus – Arquivo pessoal das autoras