O meio rural e o REANP a partir da ótica de Téo e Bob

Por Claudemar Alves Ferreira [1]

 

Este é um relato que traz a percepção de dois alunos do ensino médio de uma escola nucleada rural sobre a proposta do Regime Especial de Atividades Não Presenciais (REANP). Refiro-me à Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira que está localizada no distrito de Milho Verde, município do Serro/MG, que atualmente atende a alunos de quatorze comunidades rurais diferentes.

Este relato é feito a partir de entrevistas semiestruturas que abordaram temas sobre contexto social-econômico dos alunos entrevistados, seus perfis enquanto estudante antes e durante a pandemia, as perspectivas para futuro e como vivenciaram o REANP. Para isso, realizei entrevistas com dois alunos do ensino médio, com os quais decidimos que suas identidades não seriam divulgadas. O primeiro aluno entrevistado irei identificá-lo como Bob, e o segundo aluno como Téo.

Bob reside no distrito de Milho Verde e, segundo relatou, para chegar até a escola, antes da pandemia, gastava de 10 a 15 minutos a pé. Possui internet móvel em seu celular, que classifica como relativamente boa, e não tem internet em casa. Na sua casa moram seis pessoas, seu pai é agricultor familiar e sua mãe é do lar. Sua família recebeu o Auxílio Emergencial do governo. O seu pai não teve condições de estudar e sua mãe estudou até a quarta série. Bob só trabalha quando acha bicos.

Téo reside na comunidade do Ausente, comunidade próxima ao distrito de Milho Verde, e o percurso de sua casa até a escola, utilizando o transporte escolar ofertado pela prefeitura, é de quarenta e cinco minutos. Ele usa internet móvel de seu celular, já que não possui internet em casa. Na sua comunidade, de maneira geral, a qualidade de internet não é muito boa. Em sua casa, igualmente na de Bob, residem seis pessoas. Sua mãe é trabalhadora do lar e estudou até a oitava série, já o seu pai é pedreiro e estudou até a quarta série. Téo costuma trabalhar apenas nos finais de semana de servente de pedreiro.

Bob não gosta muito de estudar e depois da aula, antes da pandemia, estudava quando tinha disponibilidade de tempo e disposição, isso para as tarefas diárias, mas não tirava nenhum tempinho para estudar algo mais. Atualmente, no ensino remoto, estuda duas horas e meia por dia para resolver as tarefas do REANP. Quando estavam acontecendo as aulas presenciais, afirma que era participativo, mas não gostava de apresentar trabalhos. Também gostava de estudar em grupo, pois conseguia assimilar melhor os conteúdos estabelecendo uma interação para além do professor-aluno, mas também aluno-aluno.

Téo diz que gosta de estudar, mas antes da pandemia, além de frequentar as aulas, estudava somente para fazer as provas. Com o ensino remoto ele tira duas horas e meia todos os dias para estudar. Téo diz que, no ensino presencial, era um aluno participativo e interagia com os alunos e professores e não tinha medo de tirar suas dúvidas na sala. Afirmou que sempre gostava de apresentar trabalhos, porém gostava de fazer suas atividades de forma individual.

Bob diz que os professores são bons e, antes da pandemia, alguns utilizavam métodos de ensinos que não ajudavam na compreensão dos alunos, já outros utilizavam recursos tecnológicos para facilitar o aprendizado dos alunos. De toda forma, preferia utilizar mais os livros e o caderno do que as novas tecnologias.

Téo relata que seus professores são bons e, no ensino presencial, eram dinâmicos, sempre utilizavam a internet para fazer pesquisa e que indicavam videoaulas para maior compreensão dos conteúdos. Afirma também que usava as redes sociais no auxílio das atividades.

Bob tem vontade de cursar uma faculdade, mas não decidiu em que área. Esse ano fez o Enem e diz que deve ter tirado uma nota razoável. Ele afirma que não pretende permanecer na sua comunidade, pois quer trabalhar naquilo que gosta para realizar seu sonho.

O maior sonho de Téo, depois de se formar no ensino médio, é conseguir um emprego e fazer uma faculdade. Ele ainda não decidiu que carreira irá seguir. Esse ano ele fez o Enem e acha que se saiu bem. Téo também não tem vontade de permanecer na comunidade, diz que tem vontade de conhecer novos lugares e horizontes com finalidade de conseguir um bom trabalho.

Bob relata que os PETs (Planos de Estudos Tutorados) foram muito difíceis, sendo que sua principal dificuldade foi fazer as atividades e compreender conteúdos que não tinha visto antes da pandemia. Segundo Bob, ele não compreendia muito as explicações das videoaulas.

Sobre os PETs e esse novo método de ensino, Téo percebeu que foi um grande desafio para todos, principalmente para os alunos do campo que tiveram algumas dificuldades em relação ao acesso à rede de internet. Ele avalia os PETs como bons, porém teve muita dificuldade para compreender os conteúdos, pois as explicações não eram de fácil entendimento. O entrevistado afirmou que fez as atividades sozinho sem a ajuda dos professores.

As dificuldades que Bob encontrou foram superadas com a leitura de livros pedagógicos enviados pela escola. Mesmo assim, afirma que com o ensino remoto não conseguiu aprender quase nada e que nas aulas presenciais conseguia aprender muito mais. O que ele mais deseja nesse momento é que, neste ano, todas as pessoas possam ser imunizadas contra o coronavírus.

Mediante os relatos que trago dessas duas entrevistas, percebe-se que o ensino remoto foi e está sendo um momento de grande dificuldade para todos, pois os alunos, famílias e comunidade escolar estavam despreparados e desprevenidos. O que desmotivou alunos e professores. Percebe-se ainda que o perfil socioeconômico dos entrevistados é de baixa renda, o que influencia o aprendizado na medida que faltam alguns recursos de infraestrutura, como o acesso à rede de internet, e que as metodologias não ajudam nas dificuldades e na compreensão dos conteúdos.

[1] Claudemar é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Este relato foi produzido a partir de pesquisa supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

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