Distância e dificuldades: a importância do professor e da contextualização no ensino remoto do campo

Por Ana Roberta Cléo dos Santos Ferreira [1]

Trago aqui um relato sobre a percepção de duas alunas de uma escola nucleada rural sobre o Regime Especial de Atividades Não Presenciais (REANP) em Minas Gerais. Refiro-me à Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, localizada no distrito de Milho Verde, município do Serro/MG. A instituição atende alunos de quatorze comunidades rurais, mas este relato é sobre o contexto social-econômico de duas estudantes apenas, seus perfis enquanto estudantes, perspectivas para futuro e, o mais importante, como vivenciaram o REANP. Para conseguir essas informações, realizei entrevistas através do WhatsApp com as alunas, cujos nomes não serão revelados.

A primeira estudante reside no distrito de Milho Verde e para chegar à escola no regime presencial se deslocava a pé por cerca de 15 minutos. Não tem irmãos. Sua mãe trabalha na área da limpeza em um posto de saúde e seu pai é trabalhador rural. Não se formaram no ensino médio. A aluna tem o seu próprio empreendimento de venda de eletrônicos e nos feriados trabalha no caixa de um mercadinho.

A segunda estudante mora na comunidade de Capivari e, para chegar à escola, levava 40 minutos através de um ônibus escolar. No momento, seu pai se encontra desempregado e sua mãe é servente escolar. Sua família é composta por 5 pessoas, sendo que uma irmã e seu pai receberam o Auxílio Emergencial. Sua mãe formou-se em história e o seu pai estudou até o primeiro ano do ensino médio. A estudante não está empregada no momento.

Nas localidades onde residem, a internet é de fácil acesso e somente em tempos de chuva não funciona com boa qualidade. Assim, usam a internet para estudar e o WhatsApp com o mesmo objetivo. A primeira aluna relata que gosta muito de estudar, que é uma aluna dedicada aos estudos mesmo quando as aulas eram presenciais. Afirma que gostava de interagir com os colegas em sala, perguntava e participava de todas as discussões. A disciplina que mais gosta é Biologia.

Já a segunda aluna confessou que não tinha muito hábito de estudar e que tinha um pouco de dificuldade em matemática. Ela relatou que sua prima, da mesma sala, era mais esperta para compreender as matérias; com isso, estudavam juntas. Diferente da primeira entrevistada, que diz que sempre preferiu estudar sozinha, a segunda sempre gostou de estudar com os colegas.

Ambas afirmaram que alguns professores já utilizavam as ferramentas da internet como recurso didático, sobretudo para realizarem pesquisas no Google e assistirem a vídeos no Youtube, que eram alguns de seus deveres de casa. Para elas, a internet sempre auxiliou nos estudos.

A primeira estudante pretende fazer faculdade de medicina veterinária. Disse que desde criança é apaixonada por animais. Esse ano ela fez o ENEM e, em suas palavras, no primeiro dia se saiu bem, mas no segundo teve maior dificuldade. Já a outra aluna pretende fazer um curso profissionalizante que lhe possa ser útil profissionalmente e, posteriormente, deseja fazer curso superior em enfermagem, mesma profissão de sua irmã.

Ambas têm vontade de permanecer na comunidade onde residem, mas devido aos estudos acham que terão que sair para cursar a faculdade. O maior sonho da primeira é se formar e trabalhar na profissão que gosta. E a segunda deseja ter sua casa própria.

Perguntadas sobre o ensino remoto, o ponto positivo que observaram foi a capacidade de desenvolverem estratégias de pesquisa para resolverem as atividades. Afirmaram que o apoio dos professores pelo chat do WhatsApp foi de suma importância. Apontaram como ponto negativo o fato dos próprios professores das vídeo aulas dos PETs (Plano de Estudo Tutorados), muitas vezes, não explicarem os conteúdos com clareza, sendo que não condiziam, muitas vezes, com as atividades que estavam nos próprios PETs.

A primeira aluna afirma que, a partir do quinto PET, percebeu que não estava progredindo muito somente assistindo as videoaulas e, então, decidiu assistir a outros vídeos no Youtube, onde os professores explicam com mais clareza. Ambas concordam que o ano letivo foi muito difícil, tanto para os estudos, quanto para o psicológico. Concordam ainda que aprendiam mais nas aulas presenciais do que no ensino remoto. Com o novo método, elas sentiram uma grande dificuldade na realização do ENEM.

Ao fim, percebi que o maior problema dessas alunas não foi o acesso à internet, pois classificaram esse serviço na comunidade como bom. Pelos relatos, o que mais impactou de maneira negativa foi a questão de as aulas serem a distância com professores estranhos, sem as explicações dos conteúdos do PETs pelos professores no dia a dia, apesar do WhatsApp ter funcionado bem para algumas dúvidas. Com isso, muitos se sentiram despreparados e desmotivados.

[1] Ana Roberta é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Este relato foi produzido a partir de pesquisa supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

Uma opinião sobre “Distância e dificuldades: a importância do professor e da contextualização no ensino remoto do campo

  • 9 de julho de 2021 em 16:10
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    REFLETIR SOBRE A REALIDADE ONDE VAMOS ENSINAR E APRENDER É MUITO IMPORTANTE. CONSCIENTE DESTE CONTEXTO SOMOS CAPAZES DE PENSAR MELHOR COMO VALORIZAR ESSA REALIDADE E CRIAR MANEIRAS DE VENCER OS OS OBSTÁCULOS. SOBRETUDO NESSE MOMENTO DE PANDEMIA

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