Alguns números sobre o ensino remoto na comunidade de Capivari – Parte 2

Por Claudemar Alves Ferreira [1]

 

Este é um relato que traz considerações sobre a percepção de alguns alunos do ensino médio de uma escola rural sobre as metodologias e as tecnologias de estudo e suas principais dificuldades encontradas no ensino remoto. Neste contexto, foi realizada uma pesquisa com 11 alunos da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira que está localizada no distrito de Milho Verde, município do Serro – MG.

A metodologia utilizada foi um questionário enviado a 11 estudantes do ensino médio que moram na comunidade de Capivari, situada a 16 km de Milho Verde. Da localidade, antes do período pandêmico e esperamos que em breve novamente, saem dois ônibus na parte da manhã, fazendo o percurso de 1 hora da comunidade até chegar à escola. Na pesquisa foram abordados os seguintes temas: condições socioeconômicas, condições educacionais das famílias, percepções do aluno sobre suas dificuldades no REANP.

A partir dos dados, percebe-se que as condições socioeconômicas dos alunos é um fator que influencia em um bom aprendizado, pois a falta de recursos tecnológicos necessários no ensino remoto, como um computador, aparelho celular e internet de boa qualidade, faz com que os alunos não tenham um bom desempenho. Nesse sentido, 50% dos entrevistados recebem o Bolsa Família e 30% receberam o Auxílio Emergencial do governo federal. Nessa situação, 40% dos alunos têm que compartilhar com seus irmãos os aparelhos tecnológicos para acessarem as videoaulas, o aplicativo Conexão Escola, assim como os grupos de WhatsApp das turmas, que são ferramentas disponibilizadas pela escola, sendo que 80% dos entrevistados afirmaram que utilizam a última com maior frequência. 90% dos alunos relatam que possuem dificuldade para acessar o aplicativo Conexão Escola, que oficialmente deveria substituir o WhatsApp. Os dados reforçam, assim, que a questão do acesso é um ponto que contribui para o atraso na aprendizagem.

Outra dificuldade encontrada é a necessidade de um acompanhamento de uma pessoa qualificada para sanar as dúvidas que surgem, pois vimos que grande parte das famílias de Capivari não tem uma qualificação para acompanhar as atividades com seus filhos, sendo que 100% dos pais possuem ensino fundamental incompleto e cerca de 70% das mães também. Além da falta de tecnologias e da falta de conhecimento, ficam prejudicados ainda com o fato de que 25% dos familiares afirmam não tempo de ajudar seus filhos. Assim, as respostas ao questionário mostram que esses alunos apresentam grandes dificuldades para estudar.

A partir das entrevistas realizadas, e sobretudo nos relatos da única questão aberta do questionário, percebe-se que o REANP tem prejudicado muito a educação e que os estudantes estão desmotivados, desatentos e despreparados para prosseguir com os estudos. Como exemplo selecionei um dos relatos para melhor justificar minha afirmação: “É um pouco difícil né porque quando tinha as aulas presenciais a gente tinha mais a presença do professor, a gente tinha ali os amigos para tá apoiando também principalmente professor que ensina muito bem, e longe, no ensino remoto, a gente fica mais distraído.”                                            

Ao fim, podemos concluir que a falta de recursos tecnológicos de acesso e infraestrutura para um grupo de alunos é de extrema preocupação em Capivari onde 50% conseguem acessar as videoaulas online e os outros 50% não, pois ou possuem internet precária ou nenhuma internet. Também o acesso com maior estabilidade a internet só é uma realidade para apenas 60% dos alunos que possuem antena. Entre os entrevistados 80% afirmaram que possuem acesso à internet todos os dias do mês, considerando o 4G do celular. Esses mesmos 80% relataram que utiliza com maior frequência como ferramenta de ensino o grupo do WhatsApp da turma. Apenas 10% conseguem acessar o aplicativo Conexão Escola.

Dentre os dificultadores, a partir das respostas dadas, podemos afirmar que o grau de escolaridade dos pais, assim como o limitado acesso às tecnologias. Sem contar que esse ensino remoto é um hábito novo, uma nova cultura. Se no ensino presencial já é difícil os alunos terem o hábito de estudar, no ensino remoto a situação tende a se agravar, tendo em vista o perfil das famílias pesquisadas.

[1] Claudemar é estudante da Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Esta pesquisa foi supervisionada pelo professor Vítor Sousa Dittz, da Escola Estadual Professor Leopoldo Pereira, e orientada pelo professor Carlos Henrique Silva de Castro, da UFVJM, no âmbito do PIBID-UFVJM.

Agradecimentos aos estudantes-sujeitos e suas famílias, bem como ao diretor da E. E. Professor Leopoldo Pereira, o professor Maycon Souza.

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