Lembro-me que minha relação com os textos começou antes mesmo de aprender a ler, provavelmente até antes de saber que tudo ao meu redor podia ser chamado de “texto”. O que me encantava eram as imagens, as cores, os formatos, as vozes da minha família sobre as páginas. Cresci em uma casa onde livros, gibis, jornais e revistas sempre fizeram parte do ambiente, sempre estavam em mesas, prateleiras, estantes ou guardadas em caixinhas para serem lidos depois.
A leitura não era algo distante ou formal para mim; estava no meu cotidiano e sempre presente nas conversas, nos conselhos da minha mãe, nas leituras do jornal do meu pai, nos livros dos meus irmãos mais velhos. Agora, já adulto, percebo que ler é uma prática que atravessava nossa rotina em casa e, mesmo sem saber disso naquela época, isso estava me formando socialmente.
Tive contato desde muito pequeno com diversos tipos de textos, desde jornais, a bíblia e revistas infantis. Ainda sem saber ler direito, lembro que tinha a coleção completa dos gibis da Turma da Mônica e livrinhos do Chico Bento, do Pica-Pau e outros personagens de desenhos.
Sendo o filho mais novo, era comum que eu fosse presenteado com os livros ilustrados e meus irmãos, os livros de literatura infantojuvenil e adulta. Os meus eu lia rapidinho, observava cada quadro, interpretava os balões e imaginava os personagens como se fossem reais. Era como assistir a um filme mudo, mas, com a imaginação, eu me tornava um personagem na história. Os outros, os maiores, eu os pegava às escondidas e folheava com cuidado tentando entender o que estava ali escrito. Havia também fábulas ao meu acesso livre e contos ilustrados, muitas vezes com páginas amareladas e capas gastas, que passaram de mão em mão entre meus irmãos e primos. Cada imagem era um convite à invenção. Meus tios contavam histórias baseadas nessas figuras, e eu gostava de imaginar finais diferentes.
Essa fase foi fundamental para despertar meu gosto pelas narrativas. Mesmo sem dominar as letras, eu já era um leitor; isso mostra que o letramento não começa necessariamente com o domínio da leitura e escrita, mas no desejo de compreender e inserir-se no mundo através das histórias.
Nascido em uma família católica e muito religiosa, era comum a prática de ir à missa todos os domingos, dias santos e rezar terços e ler a bíblia em casa. Recordo-me que uma das minhas maiores alegrias de infância foi quando ganhei uma bíblia em quadrinhos. Muito colorida, com páginas vibrantes e personagens semelhantes a heróis, adorava folheá-la e tinha até ciúmes quando algum amiguinho tocava nela. Passava horas examinando os cenários, tentando decifrar quem eram os personagens que viviam naquela passagem e me recordava deles quando estava na missa. Ainda sendo um livro infantil, eu conseguia captar a grandeza das cenas: milagres, batalhas, ensinamentos, gestos de amor e fé. Quando me sentia confuso, chamava minha mãe ou algum adulto, que pacientemente lia os trechos e explicava a situação com suas palavras. A leitura ali era feita com olhos, ouvidos e sentimentos atentos. Com essa ajuda, construía sentidos, unindo o que via, ouvia e imaginava.
Foi com essa bíblia que entendi que a leitura podia ser afeto, partilha e presença. Essa experiência ampliou meu olhar, me mostrou que fé, cultura e leitura caminham juntas e que o universo dos textos vai muito além da escola. Com a minha experiência com os gibis, aprendi que imagens contam histórias, que ler é escutar e que entender um texto vai além de decodificar palavras — é sentir, imaginar, perguntar e se conectar.
Em casa, os gêneros textuais eram variados e acessíveis; havia romances, agendas, revistas de moda e culinária, livros de receitas e panfletos de igreja. O mais marcante era que toda minha família lia bastante. Ler era valorizado e respeitado. Meu pai lia o jornal com atenção, comentando as notícias em voz alta. Minha mãe gostava de devocionais e livros religiosos. Meus irmãos mais velhos traziam livros da escola, e eu observava seus estudos. Não era apenas o texto escrito que me ensinava, mas o exemplo. O ambiente era alfabetizador no sentido mais profundo e a leitura fazia parte da nossa vida.
Vivendo em um ambiente tão propício, bastava uma imagem para que a história começasse a acontecer na minha cabeça. Folheando livros ilustrados e os gibis, inventava falas para personagens, criava cenas e narrava para mim mesmo o que achava que acontecia, olhava para as expressões, cores, gestos e me guiava. Eu não precisava da palavra escrita para entender emoções ou ações.
Essa autonomia da imaginação alimentou meu desejo de aprender. Lembro de “escrever” imitando as letras vistas nos cadernos dos irmãos, fazendo símbolos que nem eu sabia dizer o que eram. Adorava rabiscar folhas em branco, como se escrevesse uma carta ou um livro. Assim, construí minha relação com a leitura e a escrita não como tarefa, mas como um ato de imaginação, desejo e liberdade.
Quando entrei na escola, o mundo ganhou ainda mais cor e sentido, uma janela se abriu para o universo das letras. Aprender a ler e escrever de verdade foi como destrancar um portal que eu já admirava, mas não podia atravessar. Não era apenas sobre palavras, mas sobre reconhecer-me capaz, parte de algo maior, um mundo de conhecimento, comunicação e expressão. Percebi que ler não é apenas decodificar símbolos, mas uma ferramenta de autonomia para compreender as histórias em seu sentido real. A escola foi mais que ensino formal, foi território de descoberta e construção pessoal. Ali se formalizou o que já existia: desejo de comunicar, compreender e registrar. Foi onde aprendi que palavras têm sentidos múltiplos, que abrem portas, criam pontes e transformam realidades.
Um dos primeiros grandes livros que li e que me marcou de maneira duradoura foi A Revolução dos Bichos, de George Orwell. Na época, eu ainda era jovem e fui fisgado por seu enredo inusitado: uma fazenda tomada pelos próprios animais, que se rebelaram contra os humanos em busca da liberdade, da igualdade e da justiça. Li com envolvimento, admirando a coragem dos personagens e torcendo para que aquele novo sistema desse certo.
Ainda muito pequeno e sem um senso crítico formado, a ideia de uma sociedade conduzida por bichos me intrigava, era diferente de tudo o que eu já tinha lido. No entanto, eu não compreendia ainda a profundidade do que Orwell estava dizendo. Lia como quem assiste a uma fábula crítica, sem conseguir captar todos os níveis de leitura que aquele texto oferecia. Com o tempo e com as leituras de mundo, percebi que aquele livro falava muito mais sobre nós, seres humanos, do que sobre os animais e que as dinâmicas tratadas ali se repetem, disfarçadas, em muitos contextos políticos e sociais do presente. Hoje, relendo e reinterpretando essa obra com maior maturidade e consciência política, entendo o quanto ela foi fundamental para a construção do meu olhar crítico.
A forma como os porcos, que no início representavam a esperança de mudança, se tornam figuras tirânicas e distantes do restante dos animais reflete processos históricos reais, como as traições revolucionárias e os regimes que nascem com o discurso da justiça, mas que se sustentam em novas formas de opressão. A repetição do lema “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros” me marcou profundamente. Sozinha, essa frase já denuncia toda a hipocrisia e a desigualdade mascarada por discursos de igualdade. Perceber isso me fez pensar nas promessas políticas que não se cumprem, nos sistemas que mantêm privilégios à custa do silêncio e da obediência de muitos que acabam acreditando nos discursos de uma única versão da realidade, o que Chimamanda Adichie chama de “perigo da história única”.
A leitura de A Revolução dos Bichos me ensinou que o letramento não se resume à decodificação de palavras, mas à capacidade de enxergar criticamente os sentidos ocultos, nas entrelinhas, os jogos de poder. Mesmo sem ter entendido tudo na primeira leitura, aquele livro plantou em mim uma inquietação que só aumentou. Foi ali que comecei, mesmo sem saber, a desenvolver uma sensibilidade para perceber quando discursos não condizem com práticas, quando o poder se torna vertical e as promessas de igualdade se esvaziam.
Agora consigo perceber que minha experiência mostrou que o letramento vai além da sala de aula e livros. Estende-se às ruas, conversas, tecnologias, memórias e saberes dos lugares. Ler o mundo é entender histórias e lutas, valorizar culturas diferentes, modos de vida e reconhecer conhecimentos além do escrito. Essa ampliação reforça que a educação é caminho para emancipação social e construção de identidades plurais. Olhando para aquele início escolar, vejo uma caminhada que continua, uma aprendizagem que vai além dos livros, envolvendo sentimentos, relações e tomadas de decisões.
Entrar na escola foi mais que um passo acadêmico: foi o meu despertar para as palavras e minha voz, ser protagonista da minha história e contribuir para um mundo mais plural, justo e humano. A escrita sempre foi minha companheira. Em casa e na escola, fui incentivado a ler e escrever. Tive professoras que viram potencial nas minhas produções e me impulsionaram. Participava de projetos de leitura, feiras literárias e até de uma Olimpíada de Língua Portuguesa na escola. A escrita me proporcionava visibilidade, pertencimento e voz.
No Ensino Fundamental, me encantava com a fantasia, o mistério e as histórias que me levavam a outros mundos nas aulas de leitura da professora com a turma. Adorava as histórias de aventura, fábulas e contos de animais falantes, tudo que mexia com minha imaginação. As leituras eram sempre uma descoberta e a escrita, um jogo criativo de palavras, gostava de inventar personagens e descrever cenários.
No Ensino Médio, o interesse mudou para crônicas, poemas, textos jornalísticos e políticos. Percebi que textos podiam dizer verdades, provocar, denunciar e emocionar de forma direta. A leitura dialogava mais com a realidade, com minha vivência nos lugares, com as desigualdades e contradições do mundo adulto. Minha escrita ganhou a intenção e consciência do poder das palavras. Entendi que escrever é resistir, afirmando existência, identidade e direito de falar. Essa consciência moldou meu jeito de ler e escrever: ler para entender o mundo, escrever para transformá-lo, mesmo que pouco a pouco.
Na Universidade, um novo ciclo começou, com desafios e sentidos diferentes para leitura e escrita. Textos antes emocionantes ou divertidos exigiam análise, fundamentação, diálogo com autores e rigor conceitual. Passei a lidar com artigos científicos, projetos, relatórios, documentos legais e pedagógicos, textos técnicos, distantes da linguagem afetiva da infância. No início, sentia insegurança diante dos termos difíceis, conceitos complexos e formato impessoal. Mas percebi que os livros da infância, estímulos familiares, escola e leitura crítica no Ensino Médio me prepararam para esse momento. Desenvolvi estratégias para ler melhor: grifar, anotar, fazer mapas mentais, trocar ideias com colegas.
A leitura deixou de ser só refúgio emocional ou lazer para ser também prática política, acadêmica e profissional. Muitos textos indicados na graduação me atravessam porque falam de mim e para mim. Aprendi que posso continuar escrevendo e lendo o que gosto com mais intenção, responsabilidade e enraizamento: relatórios, propostas pedagógicas, resenhas e artigos reflexivos, sempre mantendo viva minha história, visão de mundo, identidade e denúncia. Entendi que escrever é um espaço de disputa, luta, afirmação, continuidade e ressignificação.
Minha inserção na Iniciação Científica na área de estudos literários foi uma experiência transformadora, especialmente por ter me permitido aprofundar o contato com as obras de Ramalho Ortigão, autor pelo qual sou completamente fascinado. Desde a primeira leitura, fui cativado pela força crítica e pela atualidade surpreendente de seus textos, mesmo escritos no século XIX. Ortigão, com sua linguagem elegante, direta e marcada pela ironia inteligente, constrói uma literatura que transcende o tempo ao refletir com agudeza sobre as tensões sociais, culturais e políticas de sua época das quais ainda se repetem hoje. Sua escrita acessível, mas densa, não apenas descreve a realidade, mas propõe uma leitura ética e crítica do mundo, algo que me inspira profundamente e me desafia como leitor e pesquisador. Ao estudar suas obras, passei a perceber com mais clareza como a literatura pode ser uma ferramenta potente de denúncia, questionamento e transformação social.
Essa experiência, além de fortalecer minha identidade como leitor e escritor, conectou minha paixão pessoal pela literatura à minha formação acadêmica e meu compromisso com uma prática crítica de letramento. Com Ortigão, aprendi que escrever é também resistir, intervir e construir sentido, e que o estudo literário, quando feito com envolvimento e consciência, pode ser tão transformador quanto necessário. Essa jornada me mostrou que há uma força revolucionária nos livros e que, ao me debruçar sobre sua obra, estou também investigando a mim mesmo, minha história e os caminhos possíveis para seguir produzindo conhecimento com propósito e sensibilidade.
Hoje, olhando para minha trajetória de letramentos, sinto gratidão pelas diferentes formas de ler e me comunicar com o mundo. Essa trajetória é feita de múltiplos letramentos, que se entrelaçam e me moldam. No ambiente familiar, aprendi que letramento vai além da leitura e escrita tradicionais, é também ouvir histórias, interpretar gestos e valores transmitidos oralmente. Compreendi que ler o mundo envolve decifrar práticas culturais, saberes ancestrais, modos de vida e territórios, valorizando vocabulários que carregam identidade e resistência. A escola me proporcionou contato com textos complexos, escrita formal e pensamento crítico, transformando a leitura em ferramenta política e profissional. O letramento digital ampliou meu alcance, conectando-me a redes globais de informação e solidariedade, ao mesmo tempo em que exige discernimento e responsabilidade diante da vastidão de conteúdo. O letramento espiritual enriquece minha sensibilidade e sentido de pertencimento, fortalecendo conexões internas e com o mundo.
Cada fase dessa jornada, da imaginação dos gibis à elaboração de projetos acadêmicos e reflexões sobre políticas públicas, compõe um mosaico que me permite existir com mais consciência, empatia e força. Essa multiplicidade não apenas me forma como indivíduo, mas é um ato político de valorização das diversas formas de saber e existir, resistindo à visão única do conhecimento. Minha trajetória é um processo vivo e contínuo, onde cada leitura, escrita e escuta aprofundam minha identidade e meu compromisso de agir no mundo com propósito, sensibilidade e transformação.
SOBRE O AUTOR:
Moisés Oliveira Santos, de Vereda Funda, Rio Pardo de Minas/MG, é acadêmico em Licenciatura em Educação do Campo na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Gêneros Textuais/Discursivos, sob a orientação do Professor Carlos Henrique Silva de Castro, organizador da obra.
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