Apresentamos o oitavo volume da coleção Memórias de Letramentos, iniciada em 2017, legado de uma querida mestra dos meus tempos de graduação na Faculdade de Educação da UFMG, a professora Marildes Marinho. Foi sob seu olhar e orientações generosos que tecemos nossos textos sobre práticas sociais da leitura e da escrita, eternizados em um livro lindo artesanal que guardo como um verdadeiro tesouro na memória e na estante.
Hoje, nossa coleção se transformou em um imenso coral, com 223 textos polifônicos, onde ecoam com força e beleza as vozes dos Vales e norte do Minas, de suas gentes e de suas culturas. Este oitavo tomo abraça, com muito carinho, cinco narrativas autobiográficas escritas por acadêmicos da Licenciatura em Educação do Campo (LEC/UFVJM), da habilitação em Linguagens e Códigos. Cada página aqui partilhada revela trajetórias de vida e de formação profundamente marcadas por ricas experiências de leitura, escrita e múltiplos letramentos.
O nascimento deste livro aconteceu no aconchego da disciplina Gêneros Textuais/Discursivos, no período de estudos que denominado Tempo Comunidade. Foi um processo bonito e cuidadoso, construído passo a passo por meio de oficinas de escrita de si, revisões colaborativas, diagramação e edição final. Essas histórias brotam de diferentes cantos do Vale do Jequitinhonha e do Norte de Minas. Elas trazem a alma de pequenos municípios como Jenipapo de Minas e o pulsar de comunidades campesinas como Padre João Afonso (Itamarandiba), Vereda Funda (Rio Pardo de Minas) e Brejo III (Itaobim). O resultado é um delicado mosaico que celebra tanto a beleza singular de cada estudante quanto os pontos de encontro em suas formações, especialmente na maneira como vivenciam seus letramentos.
Essas memórias nos lembram, com muita delicadeza, que o ato de ler o mundo e escrever a própria história transborda os muros da escola. Os letramentos ganham vida no calor das relações familiares, no cotidiano das práticas comunitárias e no envolvimento com as tradições culturais. Mesmo quando os caminhos são marcados por desafios no acesso à educação e à cultura, estas páginas transbordam superação, criatividade, união e resistência. Acima de tudo, este livro é uma prova viva de que a leitura e a escrita são práticas sociais profundas, históricas e moldadas pelo afeto.
A primeira narrativa, Entre páginas e sentidos: a leitura que me formou, de Aiandra Santos Passos, evidencia o papel da família na constituição da leitora. Destacam-se as memórias da infância na biblioteca com o pai e o encantamento com livros pop-up, especialmente Alice no País das Maravilhas. Outro aspecto relevante é o impacto das exigências escolares no Ensino Fundamental II, quando a imposição de clássicos reduziu o prazer da leitura, posteriormente ressignificado na juventude com obras como Harry Potter, que funcionaram como refúgio emocional e reconstrução do vínculo com a leitura.
Na segunda narrativa, Letramentos de dentro: uma história bordada com afeto e aprendizagem, de Ellen Sabrina Teixeira Matos, o letramento aparece profundamente articulado à vida familiar. A presença de uma mãe professora e de uma avó que ensinava matemática com jogos e pedrinhas revela práticas de letramento que combinam ciência, cotidiano e afetividade. Destacam-se ainda os letramentos religiosos, como a leitura coletiva em celebrações, e os letramentos mediados tecnologicamente, como o uso de DVDs de karaokê para o aprendizado de inglês.
A terceira narrativa, Caminhos do letramento: ler, pensar e transformar, de Moisés Oliveira Santos, enfatiza o ambiente familiar como espaço alfabetizador, com forte presença de jornais, gibis e textos religiosos. Um elemento marcante é a leitura inicial predominantemente imagética, em que o autor “lia” pelas figuras antes da decodificação verbal. Outro ponto central é a leitura de A Revolução dos Bichos, de George Orwell, cuja compreensão crítica foi construída ao longo do tempo, evidenciando o letramento como processo contínuo de amadurecimento político e social.
A quarta narrativa, A magia das palavras: minha jornada de letramentos, de Rozilene Pereira da Silva, apresenta uma trajetória marcada por dificuldades iniciais de acesso à escola e deslocamento da comunidade para a cidade. Destaca-se o esforço para aprender a ler e escrever, bem como a importância de professores incentivadores, como a tia Lucilene, a primeira delas. Outro elemento relevante é a experiência na Escola Família Agrícola, onde a escrita de relatórios baseados na realidade das comunidades conferiu sentido social à produção textual.
Por fim, a quinta narrativa, Das Letras ao Mundo: Aprender, Crescer e Escrever, de Séfora Teixeira Matos, evidencia uma infância fortemente influenciada por práticas letradas familiares, como clubes de livros, atividades de escrita e brincadeiras de “ser professora”. Destacam-se também experiências escolares significativas, como feirinhas, acrósticos e chás literários, além da influência de uma madrinha professora de inglês, que contribuiu para o desenvolvimento precoce de competências na língua. Em contraste, a autora relata dificuldades com a matemática, enfrentadas por meio de estratégias pessoais de aprendizagem.
Esses textos nos mostram a força da Universidade como um espaço que deve abraçar e ampliar os nossos letramentos. É um lugar de encontros, onde os estudantes expandem seus horizontes por meio de novas leituras de novos gêneros- sejam elas acadêmicas ou não -, da descoberta da escrita científica e do ato corajoso de pensar sobre a própria vida, seu território e suas culturas. Assim, este oitavo volume de Memórias de Letramentos se torna um registro precioso de práticas vivas e reais.
Por tudo isso, este livro é um convite afetuoso para pensarmos juntos sobre as maneiras como aprendemos, ensinamos e nos tornamos quem somos em meio à sociedade. Ao darmos o lugar de destaque que as vozes da Educação do Campo tanto merecem, reafirmamos o compromisso de abraçar e valorizar saberes que por muito tempo foram deixados de lado. Esse é um passo consciente e necessário em direção a uma educação mais democrática, atenta às pluralidades e, acima de tudo, profundamente conectada com a vida real.
Carlos Henrique Silva de Castro
Julho/2026
Licenciatura em Educação do Campo (LEC)
Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas (PPG-CH)
Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM)
