Antes mesmo de conhecer o que era uma sala de aula, eu já habitava um universo amplo e vibrante feito de letras, imagens e números. Crescer em uma casa onde os livros dividiam espaço com os utensílios domésticos era como viver dentro de uma pequena biblioteca viva. Minha mãe, professora de Ciências e Biologia, era apaixonada pelo conhecimento e, sem querer ou talvez querendo muito, nos oferecia diariamente os primeiros alicerces do que mais tarde eu entenderia como letramento.
As estantes eram povoadas por livros didáticos e revistas de culinária. Enquanto ela preparava as refeições, eu folheava aquelas páginas coloridas, curiosa com as receitas e encantada com as imagens dos pratos, mesmo sem ainda compreender o texto todo. Mas havia algo que me puxava para ali: o mistério das palavras impressas, os ingredientes descritos com precisão, como uma fórmula mágica.
Os livros de Ciências, com ilustrações detalhadas do corpo humano, plantas e animais, eram os meus favoritos. Muitas vezes, recortava figuras para colar em cadernos velhos, em uma espécie de ritual de criação que hoje reconheço como os primeiros gestos de uma leitora em formação.
Minha avó, também professora, mas já aposentada, completava essa cena com uma leveza cheia de engenho. Trabalhava em um cartório e trazia consigo o fascínio por aqueles grandes livros de registros, objetos que eu observava com deslumbramento. Com ela, aprendi que os números também contavam histórias. Suas brincadeiras com pedrinhas organizadas em grupos e os jogos simples de contas e desafios de lógica eram a introdução lúdica ao universo matemático. Ela fazia da matemática um jogo de afeto e inteligência.
Na comunidade, fortemente marcada pela vivência católica, a leitura assumia um lugar coletivo. Os folhetos da Celebração da Palavra, os hinários com cantos sagrados, os momentos de leitura em voz alta durante as missas e encontros de oração, tudo isso fazia com que o texto escrito circulasse como parte da vida. A linguagem era oração, era encontro, era voz compartilhada.
Também me lembro com ternura da coleção de gibis que minha mãe comprou para mim e meus primos quando tínhamos entre sete e oito anos. Passávamos horas mergulhados naquelas histórias. Era comum nos reunirmos para ler juntos, e quando uma de nossas irmãs ainda não sabia ler, nós nos revezávamos para ler em voz alta toda a história em quadrinhos. Aqueles momentos nos ensinavam mais do que palavras: havia ali solidariedade, escuta e o prazer de dividir o imaginário.
Outro elemento importante na minha infância foi a música. Em casa, tínhamos muitos DVDs de karaokê, aqueles com clipes de músicas internacionais, especialmente em inglês, com as legendas aparecendo na tela. Aquilo era mais do que entretenimento: era uma forma lúdica de nos aproximarmos da língua estrangeira, de treinar a leitura e a pronúncia enquanto nos divertíamos cantando. As tardes musicais, cheias de risos e ensaios improvisados, reforçavam os laços familiares e ampliavam nossa familiaridade com o texto escrito em diferentes formatos.
Não me lembro exatamente qual foi o primeiro livro que ganhei, mas me lembro da sensação. Era como receber uma chave. Uma chave que abria portas para outros mundos e mundos que, hoje, sei que me formaram como pessoa, como leitora e como alguém que acredita no poder transformador da educação.
Minhas primeiras experiências com a escrita aconteceram já na escola. Lembro que eu tinha por volta de cinco anos quando comecei a desenhar meus primeiros traços conscientes de letras e números. Até então, o mundo da leitura me fascinava mais pela imagem e pela curiosidade do que pelo entendimento. Mas foi ali, naquele ambiente repleto de cores, cartazes, letras enfeitadas e atividades lúdicas, que o universo das palavras começou a ganhar forma e sentido para mim.
Eu adorava as atividades de pontilhar letras, cobrir linhas, formar sílabas e treinar sons. Cada exercício era um convite ao encantamento. Foi como se, de repente, tudo aquilo que eu via em casa nos livros, nas revistas, nos rótulos, nos folhetos de missa começasse a se organizar dentro de mim. Passei a querer ler tudo o que estava ao meu alcance, como se as palavras escondessem segredos que eu, enfim, poderia desvendar.
Nos primeiros anos escolares, minha relação com a escrita foi de verdadeiro entusiasmo. As atividades de colagem com papel crepom, canjiquinha, algodão e tantos outros materiais eram um jeito criativo de fixar o conhecimento e transformar a aprendizagem em experiência tátil e afetiva. A escrita nunca foi um fardo, pelo contrário, era uma forma de expressão e descoberta. Lembro com carinho de como éramos incentivados a escrever sobre nossas férias, sobre os finais de semana em família, sobre o que comíamos, víamos e sentíamos. Depois, fazíamos trocas de textos com os colegas, o que tornava tudo ainda mais significativo.
Avalio que a escola teve um papel absolutamente fundamental nos meus letramentos iniciais. Em especial, guardo com muito carinho a memória da professora Regiane, cuja didática carinhosa e comprometida deixou marcas profundas na minha formação. Ela soube transformar a sala de aula em um espaço de afeto, respeito e aprendizagem verdadeira. Quem dera se todas as crianças tivessem, em seus primeiros anos escolares, uma professora como ela, capaz de abrir caminhos com palavras, gestos e dedicação. Aprender a escrever foi, para mim, um processo de revelação. E essa revelação se deu em meio a lápis de cor, letras grandes no quadro, cantigas infantis e a doce companhia de uma educadora que soube me mostrar que a escrita não era só técnica, mas também afeto, memória e pertencimento.
Antes mesmo de frequentar a escola, os números já faziam parte da minha rotina de forma simples, mas significativa. Eu aprendi a contar naturalmente, no cotidiano: observando, brincando, convivendo. Sabia contar até dez e, com o tempo, comecei a identificar a correspondência entre os números e as quantidades. Lembro que gostava de contar os brinquedos, organizar grupos de coisas e perceber a diferença entre “ter mais” e “ter menos”. Os números não eram algo abstrato, eram reais, estavam nas mãos, nos olhos, nos gestos.
Na escola, esse conhecimento se ampliou. Aprender a nomear os números, a escrever cada um deles, a comparar quantidades e a resolver pequenas situações-problema foi como dar nome a algo que já fazia parte da minha experiência. As atividades lúdicas, com jogos, figuras e desafios, tornavam tudo mais interessante. Aprender se transformava em algo prazeroso e cheio de sentido.
O valor do dinheiro também entrou cedo na minha vida. Em casa, ouvir os adultos falando de notas e moedas, de troco e de compras, sempre despertou minha curiosidade. Quando íamos ao supermercado, eu observava com atenção o processo de pagar e receber o troco. Aos poucos, comecei a entender que o dinheiro não era só número, mas tinha valor e consequência. Era preciso calcular, planejar e decidir: se comprássemos algo mais caro, teríamos que abrir mão de outra coisa. Como éramos 4 irmãs e meus primos sempre estavam em minha casa, aprender a dividir o que tínhamos também fazia parte dessa vivência, era matemática aplicada à vida.
As primeiras operações de adição e subtração vieram de forma natural, entre casa e escola. Lembro com muito carinho da minha avó, sempre tão presente, que nos ensinava com paciência a fazer continhas simples, ajudando inclusive nas tarefas escolares. As mãos dela guiavam as nossas, mostrando como tirar e somar com pedrinhas, palitos ou nos próprios dedos. Com ela, a matemática não era difícil embora eu tivesse dificuldade, era viva, era próxima, era afeto compartilhado.
Essas experiências iniciais com os números mostraram que o letramento matemático não começa apenas com o lápis no caderno, mas com a vida que pulsa ao redor da criança. Contar, somar, dividir, perceber valores, tudo isso acontece na prática, nos vínculos e nas pequenas interações do dia a dia. E quando a escola acolhe e amplia essas vivências, a aprendizagem acontece com alegria e sentido.
Minha trajetória escolar foi marcada por diferentes fases em relação às letras e aos números, fases de encantamento, descoberta, identificação, mas também de distanciamento, como acontece com muitos estudantes, ao longo dos anos. Recordo com carinho os primeiros anos do Ensino Fundamental, quando os textos eram lúdicos, coloridos e cheios de fantasia: fábulas, contos, histórias em quadrinhos e músicas. Era comum termos atividades de dramatização, ilustração e recontos, que nos envolviam não apenas como leitores, mas como participantes ativos do universo das histórias.
No Ensino Fundamental II, minhas leituras começaram a ganhar novos contornos. Lembro do fascínio que senti pelos poemas e pelas produções poéticas que a escola incentivava. A escrita deixava de ser apenas tarefa e se tornava expressão, era como se eu pudesse dizer o que sentia por meio de versos simples, mas sinceros. Também nesse período, conheci histórias mais densas, narrativas românticas e as primeiras análises de personagens e enredos.
Já no Ensino Médio, entre os clássicos e os conteúdos preparatórios, entraram em cena as biografias, os textos canônicos e os romances da literatura brasileira, como a célebre história de Capitu e Bentinho. A leitura se tornava mais exigente, mais crítica, mas nem por isso menos envolvente. Era um mergulho em tempos, vozes e linguagens que ampliaram minha visão de mundo.
As bibliotecas das escolas por onde passei sempre tiveram papel relevante, mesmo que com acervos modestos. Havia o costume de nos levarem para escolher livros, preencher fichas literárias e apresentar nossas leituras aos colegas. Era uma prática que, mesmo simples, contribuía para formar em mim o hábito de leitura com um certo grau de autonomia e responsabilidade. Cada livro lido, cada ficha preenchida era também um exercício de identidade leitora em construção.
Ao olhar para toda a minha vida escolar, percebo que minha relação com a leitura e a escrita passou por muitas mudanças. Houve momentos de paixão intensa, como na fase dos poemas, e de certo distanciamento, especialmente com a chegada da adolescência e da era digital, que, com suas telas e distrações, me afastaram um pouco da literatura mais longa. Ainda assim, os livros infantis com sua doçura, cor e sensibilidade, sempre me cativaram profundamente. São eles que, até hoje, me reconectam com o prazer mais puro da leitura.
É importante dizer que algumas dessas mudanças não partiram da escola. Crescer em uma casa onde minha mãe era uma leitora apaixonada influenciou muito minha relação com os livros. Mesmo com alguma preguiça inicial, bastava eu começar uma leitura para me deixar envolver rapidamente e isso era quase sempre impulsionado por ela.
Quanto aos números, eles também fizeram parte da minha jornada escolar de forma significativa. As práticas com a matemática faziam sentido porque estavam relacionadas ao cotidiano: dividir, contar, calcular, planejar. Aprender a somar, subtrair, resolver problemas e interpretar gráficos nunca foi algo distante da realidade, pois desde pequena aprendi que os números ajudam a organizar o mundo e a tomar decisões.
Assim, minha história com a leitura, a escrita e os números é feita de fases, de encontros e reencontros, de encantamentos que nascem na escola, mas que também se alimentam das relações familiares, das práticas culturais e das memórias afetivas. É um percurso em constante construção, e olhar para ele é também uma forma de compreender quem sou entre palavras, contas e histórias.
Ingressar na Universidade, especialmente em um curso da área de Linguagens e Códigos, representou uma mudança importante nos meus hábitos de leitura e escrita. Diferentemente da escola, onde muitas vezes o contato com os textos era mais conduzido e fragmentado, o Ensino Superior me exigiu disciplina, constância e, principalmente, compromisso com o aprofundamento teórico. Longe de ser um peso, essa exigência tornou-se um desafio prazeroso, justamente por eu ter afinidade com a área, gosto de ler, de refletir, de escrever, e isso tornou o processo mais fluido e natural.
As mudanças que experimentei têm seus dois lados. Por um lado, o aspecto positivo é claro: pude expandir minha visão de mundo, desenvolver senso crítico e mergulhar em debates mais densos, contextualizados e ricos em interpretações. A leitura passou a ser, não apenas uma ferramenta, mas uma ponte entre o conhecimento e a prática, principalmente agora que atuo em sala de aula e vejo como a teoria se desdobra na vivência pedagógica. Por outro lado, a parte negativa está no acúmulo de demandas, na sobrecarga que muitas vezes sufoca o prazer da leitura com prazos apertados, textos extensos e múltiplas tarefas a cumprir.
Atualmente, minha leitura tem sido guiada majoritariamente pelas orientações dos professores, o que não diminui sua importância, pelo contrário. Foram experiências como a leitura coletiva do romance Úrsula, mediada pela querida professora Rosana de cânone literário, que me marcaram profundamente. A proposta de ler por capítulos, em grupos, discutindo sentidos e impressões, transformou o ato de ler em um momento quase sagrado. Também foi assim com Mulheres de Cinza, apresentado pelo professor Márcio Jean de práticas de leitura do texto literário, uma leitura cativante que me envolveu por completo e permanece viva na memória.
Não tenho preferência definida por gêneros textuais, aprecio todos, desde que me convidem à reflexão, ao aprendizado ou ao encantamento. Tenho facilidade com os textos universitários, mesmo quando exigem mais análise ou rigor conceitual. Acredito que isso vem da minha formação e do gosto que desenvolvi, ainda na escola, por compreender e interpretar o mundo através da linguagem.
Quanto aos números, confesso que nunca fui entusiasta da matemática, embora reconheça sua importância. Não sinto falta direta desse conteúdo, mas percebo com certa frustração que faltou, no Ensino Médio, uma preparação mais efetiva para lidar com questões financeiras e burocráticas do cotidiano. Aspectos como planejamento de gastos, declaração de imposto de renda, compreensão de contratos, organização bancária ou decisões de parcelamento não fizeram parte da minha formação. Somado a isso, a pandemia e o afastamento da escola agravaram ainda mais essa lacuna.
Nesse sentido, considero que estou em construção. Tento administrar da melhor forma possível minhas finanças pessoais, mas aprendo muito mais na prática do que aprendi na escola. E isso reforça, mais uma vez, a importância de um currículo que dialogue com a vida real, que ensina letras e números, sim, mas também prepare para os desafios concretos da existência. A universidade me transformou e me fez compreender que ler é mais do que decodificar palavras: é compreender contextos, posicionar-se no mundo, criar sentidos. E escrever, agora, é mais do que preencher folhas, é construir pensamento, afirmar presença e, sobretudo, existir.
Ao revisitar minha história com a leitura, a escrita e os números, percebo que minha formação foi tecida por muitos fios: os livros e gibis da infância, os jogos com minha avó, as aulas criativas da escola, os textos poéticos que me encantaram na adolescência e, mais recentemente, os desafios acadêmicos da Universidade. Cada etapa foi marcante à sua maneira e contribuiu para a construção da pessoa que sou hoje, leitora, aprendiz, professora em formação. A linguagem sempre esteve presente, mesmo nos gestos mais simples, como colar papel crepom nas letras ou dividir moedas no supermercado com minhas irmãs. Os números, embora menos afetivos para mim, também fizeram parte da minha compreensão do mundo e da convivência em comunidade.
A Universidade trouxe novos sentidos e exigências, me ensinando a olhar criticamente para os textos, a escutar diferentes vozes e a escrever com intencionalidade. Mais do que acumular conhecimentos, essa caminhada me fez entender que os letramentos não se constroem apenas na escola, mas nas experiências, nas relações e nas memórias que carregamos. Hoje, sigo em construção, buscando equilíbrio entre teoria e prática e entre o que aprendi e o que ainda preciso aprender. Carrego comigo o desejo de ser, para meus futuros alunos, uma ponte tão afetiva e significativa quanto foram os professores que marcaram meu percurso.
SOBRE A AUTORA:
Ellen Sabrina Teixeira Matos, da Comunidade Padre João Afonso, Itamarandiba/MG, é acadêmica em Licenciatura em Educação do Campo na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e produziu este relato na disciplina Gêneros Textuais/Discursivos, sob a orientação do Professor Carlos Henrique Silva de Castro, organizador da obra.
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