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Eva Mendes Pereira, Cristália/MG
Na minha casa, éramos sete irmãos: cinco meninas e dois meninos. Desde cedo, eu já tinha contato com cadernos e livros das minhas irmãs mais velhas, que já sabiam ler e escrever. A curiosidade de aprender a ler, escrever e contar números como elas era enorme. Elas levavam livros da escola, cheios de histórias e imagens que eu adorava explorar. Passava horas observando as ilustrações e ouvindo os relatos sobre as histórias. Eu ansiava pelo dia em que pudesse ir à escola também.
Enquanto isso não acontecia, aproveitávamos qualquer tempo livre para estudar juntos. Usávamos pedras como quadros e carvão para escrever, criando salas de aula improvisadas debaixo das árvores ou cercadas com paus e folhagens. Essas atividades eram extremamente divertidas, e as merendas feitas com verduras colhidas da roça e da horta da minha mãe proporcionavam momentos deliciosos e simples.
Morávamos na zona rural, sem acesso a tecnologia ou energia elétrica. A iluminação era garantida por lamparinas com algodão e querosene. Minha mãe tinha uma bíblia que ela gostava de ler e compartilhar com a família, e os cânticos dos louvores tornavam os momentos em família ainda mais especiais. Meu pai e meus tios costumavam contar histórias que se tornaram preciosas memórias da minha infância.
O rádio de pilhas do meu pai era nosso meio de contato com o mundo exterior, permitindo-nos ouvir músicas e notícias da região.
Aos seis anos, comecei a frequentar a escola. Na zona rural, as turmas eram pequenas e a professora era atenciosa. No início, tive muita dificuldade com a escrita, mas minha irmã me ajudava sempre que eu precisava, sentando comigo para me ensinar.
O caminho até a escola era longo, e meus pais, ocupados com o trabalho na roça, não podiam me levar. Então, eu ia com meus primos. A distância era de quase uma hora, e eu precisava atravessar um rio e enfrentar as intempéries do tempo. Havia momentos em que meus primos me deixavam para trás, o que me deixava com muito medo. Eventualmente, mudamos para uma escola mais próxima, mas ainda assim, o percurso era de 30 a 40 minutos. A experiência na nova escola foi um pouco mais tranquila, e aos poucos fui aprendendo a ler e escrever bem.
Na quinta série, fui para a cidade para continuar meus estudos. O trajeto para a cidade era exaustivo: saía de casa às 9 da manhã, enfrentava uma longa ladeira até o ponto de ônibus e passava cerca de três horas no ônibus até chegar à escola. Voltava para casa à noite, por volta das 19 horas. A escola na cidade tinha uma biblioteca impressionante e uma sala de vídeos, o que era uma grande novidade para mim. Ter um caderno para cada matéria era fascinante, e eu não via a hora de começar as aulas para ganhar um caderno novo.
Sempre me dediquei a ser uma aluna exemplar e adorava participar de apresentações e peças teatrais na escola. Na oitava série, mudei-me para a cidade para morar com minha irmã e comecei a trabalhar em uma casa de família durante o dia, estudando à noite.
Após concluir o ensino médio, comecei um curso de Alimentação Escolar, que foi muito valioso para mim, e depois completei um curso técnico em Gestão de Administração, que ampliou significativamente meus conhecimentos. Em 2017, iniciei um bacharelado em Administração Pública, um campo que sempre me interessou pela sua relevância e impacto na sociedade, mas não consegui concluir devido a uma mudança de cidade.
Em 2019, comecei um curso técnico em Enfermagem. Estudei por dois anos e aprendi muito sobre a área da saúde, o que foi uma experiência enriquecedora e desafiadora. No entanto, quando engravidei, precisei trancar o curso para me dedicar à gravidez e ao novo papel de mãe.
Agora, estou iniciando um novo e empolgante capítulo da minha trajetória: a licenciatura em Pedagogia. Este curso representa a realização de um sonho antigo e uma oportunidade de aprofundar meu conhecimento na área da educação. Estou ansiosa para aprender novas abordagens pedagógicas e desenvolver habilidades que me permitirão impactar positivamente a vida de outras pessoas. A paixão pela educação, que começou na minha infância, nas simples aulas ao ar livre e na dedicação aos estudos, continua a me guiar e inspirar nesta nova etapa da minha jornada.
SOBRE A AUTORA:
Eva Mendes Pereira, de Cristália/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.
A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.