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Débora Ferreira Passos Souza, Águas Formosas/MG
Acho que o primeiro livro com o qual tive contato em casa foi a Bíblia da minha mãe. Desde pequena, ela me levava, a mim e aos meus irmãos, à Igreja Presbiteriana. Lá, tive meus primeiros contatos com os livros infantis, que eram sobre personagens da Bíblia, e eu ficava fascinada com as histórias que as professoras contavam. Na escolinha dominical da igreja, havia teatro de fantoches, apresentações, jogral e cantatas. Em casa, eu gostava de folhear as revistinhas da escola dominical, admirando as imagens e imaginando o que estava escrito. Lembro que, uma vez por semana, alguns vizinhos se reuniam em nossa casa para um estudo bíblico, onde minha mãe usava um livro grande chamado “Grupos Familiares”, que continha as lições que ela lia a cada semana.
Quando entrei na escola aos 5 anos, já conhecia os números e as letras, então não demorou muito para eu começar a escrever e ler. Recentemente, ao mexer em uma gaveta que guarda alguns dos meus tesouros (bilhetes, cartinhas, livro de recordações que as colegas de sala escreviam, coisas antigas), encontrei um caderno da minha turma do pré e meu convite de formatura do “prézinho”. Minha mãe guardou tudo com muito carinho e, quando me casei, levei-o pra minha casa.
Como eu choro por qualquer coisa, chorei ao lembrar daquele tempo e do dia em que fiz o convite. A capa foi escrita à mão por cada aluno, com um girassol, e cada pétala tinha o nome de um colega. No dia da formatura, cada aluno ganhou um livro de presente. O meu livro tinha o título “Dom Gatão”, e eu amava esse livro; lia e relia, e ele ficou comigo por longos anos. Lembro que, alguns anos depois, minha mãe comprou uma coleção de doze livros infantis, um para cada mês do ano, e cada livro tinha uma história para cada dia. Nós amávamos ler essas histórias.
Todas as escolas em que estudei tinham bibliotecas, e os professores nos incentivavam a ter o hábito da leitura. Alguns livros que me marcaram durante o ensino fundamental foram “Cachorrinho Samba”, em suas versões “Na Fazenda” e “Na Floresta”, além de “Viagem pelo Ombro de Minha Jaqueta”. No ensino médio, eu lia por obrigação e não tinha prazer na leitura. A disciplina de Literatura nos obrigava a ler clássicos, que eram livros bem mais difíceis de entender. Li “Os Sertões”, “Quincas Borba”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, entre outros. Porém, o que me traz uma boa lembrança é o livro “Iracema”.
Lembro que a professora dividiu a turma em grupos, e todos tinham que fazer um trabalho sobre o livro. Meu grupo fez um filme representando a história, e um pai de um colega tinha uma câmera filmadora em VHS, algo raro na época. Ele filmou e nós encenamos com figurino e tudo, à beira de um rio. No dia da apresentação na escola, foi um evento passar essa filmagem, e fomos o grupo com o melhor trabalho. Então, guardo com carinho a lembrança da índia dos lábios de mel.
Quando tive meus filhos, preocupei-me em incentivá-los à leitura. Em casa, sempre havia livros para eles, mesmo antes de aprenderem a ler. Na hora de dormir, eles já sabiam que era hora da história. Pegavam a Bíblia ilustrada e a gente contava histórias até eles adormecerem.
Vinte e quatro anos depois de me formar no ensino médio, aqui estou eu, abraçando a oportunidade de fazer o curso de Pedagogia pela UFVJM. Hoje, não tenho o mesmo gosto pela leitura que tinha quando era mais nova. No entanto, a vida acadêmica está me cobrando e estou tentando me adaptar.
SOBRE A AUTORA:
Débora Ferreira Passos Souza, de Águas Formosas/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.
A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.