Os letramentos da minha vida

Os letramentos da minha vida
Iam

Os textos publicados individualmente nesta página podem ser lidos reunidos nos volumes da coleção Memórias de Letramentos. Para adquirir seu e-book gratuito ou impresso  pelo preço apenas do serviço de gráfica, clique no banner ao lado ou no fim da página.


Iam Pereira Rodrigues, Pedra Azul/MG

Meu nome é Iam. Iniciei minha trajetória escolar aos seis anos de idade. Em minha casa, era comum a presença de textos escritos, histórias em quadrinhos e revistas. Meus pais desempenharam um papel fundamental no meu processo de aprendizagem; desde cedo, me ensinaram a ler e a escrever. A essa altura, eu já dominava essas habilidades. Eles me orientaram e instruíram de maneira abrangente.

Minhas primas tinham o hábito de ler livros, revistas e folhetos de jornais com frequência, especialmente para auxiliar em seus trabalhos escolares. Essa prática incentivou-me a desenvolver um interesse crescente pela leitura e pela escrita. Além disso, meus pais, primas e primos brincavam comigo de “escola”, utilizando DVDs, livros, quebra-cabeças e gibis do Maurício de Souza. Meu primeiro livro foi “O Fantástico Mundo dos Dinossauros”, que me encantava devido às imagens dos dinossauros.

Aprendi a contar muito cedo. Na minha idade, era notável que eu já contava até cem. Quando comecei a frequentar a sala de aula, já tinha uma boa base em matemática. No entanto, enfrentei dificuldades até o 6º ano devido à minha própria falta de motivação. Só aprendi a calcular e resolver problemas matemáticos de forma eficaz após iniciar meus estudos formais.

Reconheci a importância do ensino, pois percebi que, sem ele, nunca teria alcançado o nível de conhecimento que possuo. A busca constante pelo aprendizado foi essencial para meu desenvolvimento. Aos seis anos, eu já escrevia e conhecia o alfabeto completo. A experiência de escrever e criar produções textuais, como fábulas e relatos de viagens no tempo, foi extremamente enriquecedora e formativa. Vejo isso como a base de toda a minha formação.

Durante minha trajetória escolar, lembro-me de poucos textos específicos, mas destaco “A Hora do Amor”, de Clarice Lispector, e “Vidas Secas”, de José Lins do Rego. Embora eu passasse muito tempo na biblioteca explorando e pesquisando, minha experiência foi amplamente influenciada pelos professores, que incentivaram minha curiosidade e desejo de aprender.

No início, minha prática de leitura e escrita era intensa, mas a depressão afetou meu desempenho, causando uma queda significativa. Contudo, houve uma transformação importante, embora complexa, que trouxe um novo significado para minha vida. Esse despertar me levou a buscar mais informações e a me empenhar mais em meus estudos.

Adotei uma abordagem positiva em relação às dificuldades, utilizando-as como oportunidades para crescimento. Segui rigidamente as orientações fornecidas e estudei com afinco, aproveitando as oportunidades oferecidas. Gosto de desafios e me interesso por textos de gêneros informativos, argumentativos e científicos.

Sinto falta de certas experiências passadas e do tempo que poderia ter aproveitado melhor. No entanto, valorizo o que consegui realizar. Atualmente, resido em Pedra Azul e passei no vestibular para Pedagogia. Administro meu dinheiro de forma responsável, embora enfrente dificuldades financeiras ocasionais. Sempre que me deparo com problemas, utilizo o raciocínio lógico para avaliar as vantagens e desvantagens de cada situação.



SOBRE O AUTOR:

Iam Pereira Rodrigues, de Pedra Azul/MG, é acadêmico da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

Nas redes: minha história com as tecnologias

Nas redes: minha história com as tecnologias
Vanessa Cristina Dias de Oliveira é acadêmica do curso Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Vanessa é de Cristália, Minas Gerais.

Meu primeiro contato com alguma tecnologia digital ocorreu em 2012, quando eu tinha 11 anos e encontrei um celular seminovo no vestiário de uma feira municipal na minha cidade. Fiquei surpresa e não sabia como ligar a tela. Sabia que era um celular porque havia visto outras pessoas com aparelhos parecidos. Decidi chamar minha tia, que me acompanhava, para verificar o celular. O aparelho estava descarregado, então ela saiu do vestiário e perguntou às pessoas por perto se sabiam quem era o dono.

Ninguém sabia, então ela resolveu levar o telefone para casa para tentar descobrir quem havia esquecido. Em casa, ela encontrou um carregador compatível e conseguiu carregar o celular. Toda a minha família ficou surpresa por termos encontrado um celular seminovo, lançamento do ano. Assim que o telefone carregou, tivemos outra surpresa: ele não tinha senha, fotos, nem chip, e não havia pistas para encontrar o dono. Com isso, minha mãe decidiu que eu poderia ficar com o celular, embora ela também quisesse usá-lo, pois não tinha celular. Ela comprou um chip e o celular passou a ser mais dela do que o meu.

A primeira coisa que usei nesse aparelho foi um joguinho que já estava instalado com a ajuda dos meus primos. Lembro também que uma amiga que morava na cidade e já tinha um telefone. Foi ela que criou um Facebook para mim, usando o e-mail dela. Com sua ajuda, aprendi a usar a rede social escondido da minha mãe.

Como morava na roça e não havia internet, minha amiga monitorava meu Facebook pelo celular dela. As pessoas mandavam mensagens e ela respondia se passando por mim, geralmente meninos. Demorei muito tempo para ter mais acesso. Apenas aos 15 anos passei a usar eu mesma minhas redes sociais.

Antes disso, minhas interações com tecnologias analógicas também eram bastante limitadas. Em casa, tínhamos TV apenas quando morávamos em uma comunidade mais próxima da cidade. Perdemos o acesso à TV quando nos mudamos para uma localidade mais remota, sem sinal dos canais. Passei a ter acesso à TV novamente quando visitava a casa de um tio, que tinha uma boa antena que permitia acesso a alguns canais. Assistia novelas e desenhos animados com meus primos.

Já o rádio sempre esteve presente, proporcionando entretenimento e informação, transmitindo música, cultos evangélicos e missas que marcaram minha infância. Outras tecnologias analógicas, como máquinas de escrever, telefone fixo, papel e caneta, faziam parte do meu cotidiano de maneira esporádica, principalmente na escola.

Com o avanço das tecnologias digitais, muitas coisas mudaram. Por exemplo, eu costumava usar o Facebook regularmente, mas hoje em dia já não o utilizo mais. Aos 15 anos, ganhei de aniversário um celular Samsung J5 DS, que era bem mais evoluído que o primeiro celular que encontrei. Passei a explorar outras redes sociais, como Instagram e WhatsApp, deixando o Facebook de lado.

Meu primeiro uso de um mouse e computador foi uma única vez na escola, mas não consegui aprender a usar, pois a professora levou a turma à sala de informática apenas uma vez. Não havia computadores suficientes para todos, então duas pessoas tinham que compartilhar um único computador, o que limitou meu aprendizado. Fui aprender a usar computador e mouse no meu primeiro emprego em um supermercado.

Essa experiência foi marcante, pois representou um passo importante na minha adaptação ao mundo digital. No início, tive muita dificuldade com os aplicativos de compras, mas um colega de trabalho, muito habilidoso, me ajudou bastante nesse sentido. Esse aprendizado foi crucial quando ingressei no curso da LEC durante a pandemia.

Entrei no Facebook pela primeira vez em 2012, minha primeira vivência com redes sociais. No Instagram, entrei em 2018 por indicação de amigos da escola, que alegavam que era melhor que o Facebook. Hoje, o Instagram e outras plataformas fazem parte do meu dia a dia. A aprendizagem dessas novas tecnologias foi facilitada por várias pessoas importantes em minha vida, incluindo amigas, primos e colegas de trabalho, que tiveram as maiores influências. Essas interações me ajudaram a compreender e me adaptar às mudanças tecnológicas.

Atualmente, as páginas web e redes sociais que mais visito são Instagram, Facebook e Google Classroom, esse último no contexto universitário. Meu uso de tecnologia varia conforme o contexto: como estudante, profissional, em atividades de ativismo político, religiosas, culturais e esportivas. Cada área tem sua própria maneira de utilizar a tecnologia de forma eficaz e apropriada.

Houve momentos em que o uso de certas tecnologias foi proibido para mim. Por exemplo, quando eu era adolescente, minha mãe não permitia que eu levasse o celular para a escola. Participar de redes sociais é uma parte significativa do meu cotidiano, especialmente publicando fotos pessoais no Instagram e participando de grupos no WhatsApp relacionados à família, trabalho, igreja e faculdade.

No entanto, não costumo postar comentários em notícias ou anúncios de produtos, nem participar de votações na web. As redes sociais são muito importantes, pois me permitem manter contato diário com familiares e amigos que estão distantes.

Já fiz uploads de imagens e vídeos no Instagram para receber comentários, e algumas das minhas atividades laborais envolvem produção para a internet, especialmente em tarefas relacionadas à faculdade. As tecnologias que mais uso ao longo do dia incluem TV,  YouTube para música, e celular, além do notebook, que usei recentemente.

A tecnologia mudou muitas de minhas práticas sociais, como estudar, marcar encontros, conversar, pagar contas e fazer compras, facilitando muito a correria do dia a dia. No futuro, pretendo aprimorar ainda mais meus conhecimentos na realização de trabalhos acadêmicos e desenvolver mais habilidades no uso do computador, pois ainda tenho dificuldade em utilizá-lo.

Ao observar as diferenças no uso da tecnologia entre gerações, percebo que tanto as gerações mais velhas quanto as mais novas utilizam as tecnologias digitais frequentemente. No entanto, não identifico diferenças significativas entre amigos de diferentes gêneros e idades em relação ao uso da tecnologia.

Meu sentimento em relação às novas tecnologias é de gratidão, pois elas nos aproximam do mundo e facilitam nossa vida de muitas maneiras. As experiências mais positivas incluem a praticidade e facilidade proporcionadas pelas tecnologias digitais. Por outro lado, as experiências negativas envolvem a dependência, o vício e, em alguns casos, a solidão que elas podem causar, pois não aproveitamos o tempo com as pessoas que estão presentes em nossas vidas.

Minha jornada com as tecnologias, tanto digitais quanto analógicas, tem sido repleta de aprendizados, adaptações e transformações significativas em diversas áreas da minha vida.

Como futura professora, as tecnologias digitais que uso ou usaria incluem notebook, celular e TV, pela sua eficácia em tornar o ensino mais dinâmico e interativo, no desenvolvimento de habilidades de leitura , escrita e oralidade, usaria algumas ferramentas digitais para desenvolver várias atividades práticas e interativas como produção de texto digitais, leitura em sites que promoveria a interação de todos os estudantes, uso de sites e páginas na web no qual os estudantes poderia usar seu próprio celular fazendo como que as aulas torna mais participativa.

Deixo a indicação de um filme que marcou muito a minha infância, “Os Dois Filhos de Francisco”, baseado nos fatos reais da vida dos cantores sertanejos Zezé di Camargo e Luciano. Este filme costuma passar na Rede Globo, na Sessão da Tarde ou aos domingos, o que traz muita nostalgia. As músicas do filme também tocavam diariamente no rádio que tinha em casa, o que contribuiu para a forte representatividade e emoção que o filme retrata.

Recordações

Recordações

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Glauciene Souza Rosa, Itamarandiba/MG

Meu sonho sempre foi fazer uma faculdade e, 22 anos depois, hoje, com 40 anos, estou realizando esse sonho. Voltando lá atrás, na minha infância, lembro-me da minha primeira escola. Ela era linda, muito grande e espaçosa, e o melhor: ficava no bairro onde eu morava, bem pertinho da minha casa. O que eu mais gostava nela era o laboratório; havia coisas tão esquisitas lá, mas eu achava interessante. Havia uma biblioteca muito grande e, como não existia esse tal de celular na minha época, nos reuníamos na biblioteca da escola para fazer pesquisas, estudar e realizar nossos trabalhos escolares, ou simplesmente para pegar um livro para ler. Era muito legal.

Lembro também de algumas professoras: umas eram muito bravas, outras mais boazinhas, mas todas eram muito dedicadas. Assim, comecei a aprender as primeiras palavrinhas, os primeiros números e a fazer continhas. Tudo isso aprendi só quando entrei na escola.

Vim de uma família muito simples e humilde, e meus pais eram analfabetos; não tiveram a oportunidade de estudar como eu tive e, sendo assim, não podiam me ajudar a ler, escrever e fazer contas. Para fazer as tarefas escolares, eu pedia ajuda para minha tia, que já era professora e me ajudou muito. Na minha época, poucas pessoas tinham televisão, e os jornais e revistas eram o nosso meio de notícias mais comum. Ficou um bom tempo assim até a tecnologia avançar e o jornal em papel diminuir. Hoje se vê pouco, mas ainda se vê.

O tempo foi passando e muita coisa foi mudando. Hoje, estou começando uma nova etapa na minha vida: estou tendo a oportunidade de fazer um curso superior, que era um sonho para mim anos atrás. Agora estou concretizando esse sonho, graças a Deus, que abriu essa porta pra mim.

Estou muito feliz e sei que há muita coisa diferente para eu aprender. Está sendo uma novidade atrás da outra, cada matéria diferente, cada aprendizado novo, coisas que eu nunca ouvi falar, mas que agora tenho a oportunidade de aprender. É bom ter novos desafios e novas experiências. Essa forma de estudo online, pra mim, será um desafio muito grande, pois é o primeiro curso online que faço na vida, e sei que vai exigir de mim muito esforço e dedicação pra seguir adiante. Mas sei que, com Deus à frente, tudo vai dando certo; o importante é não perder a fé.



SOBRE A AUTORA:

Glauciene Souza Rosa, de Itamarandiba/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


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Relatos de leitura e escrita

Relatos de leitura e escrita

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Giovana Fernandes Lopes Silva, Grão Mogol/MG

Desde pequena, sempre tive muito interesse pelos estudos. Mesmo antes de ir à escola, já tinha contato com livros e cadernos dos irmãos mais velhos que já estudavam. Mesmo sem saber ler, folheava livros e observava as imagens, imaginando o que estaria escrito ali.

Quando pisei na escola pela primeira vez, não imaginava que aquele interesse aumentaria. A Escola Municipal Juvenal Andrade, uma escola pública localizada na zona rural, foi onde comecei a adquirir mais conhecimentos sobre leitura e escrita.

No primeiro dia de aula, estava um pouco ansiosa e comecei a chorar para voltar para casa, mas a professora da minha turma era como uma mãe; me acolheu e me convenceu a ficar. Daí em diante, não tive problemas com a adaptação. Lembro-me das folhas de desenhos impressas, com cheiro de álcool, dos recreios longos e até da merenda escolar. Estudava no turno da tarde e permaneci nessa escola até a quinta série. Logo depois, mudei para outra escola para continuar o ensino fundamental II.

Quando iniciei na nova escola, notei imediatamente as diferenças: era uma escola maior, com pessoas diferentes, disciplinas e regras distintas. O letramento já havia iniciado e começava a ser mais lapidado. A professora de Língua Portuguesa era exigente e determinada a nos ensinar para tirarmos as melhores notas nas produções de texto. Lembro-me também das viagens, gincanas e projetos educativos que complementavam o ensino. Ainda no ensino fundamental, havia projetos desenvolvidos pelos professores, que determinavam um tempo para lermos um livro e contarmos o que tínhamos entendido ou escrever um resumo das histórias.

Minhas notas sempre foram boas; sempre gostei de Biologia e de Língua Portuguesa. Minha dificuldade se concentrava em Matemática, mas não era algo que me reprovasse. Apresentar trabalhos à frente e falar ao microfone também eram meus pontos fracos. Apresentações de danças e teatros eram comuns em algumas datas.

A sala de informática era pouco usada, pois grande parte dos alunos tinha celular e acesso à internet, o que facilitava as pesquisas. Já a biblioteca era mais frequentada, pois os livros didáticos e de histórias eram utilizados em sala de aula. A televisão para ver filmes também estava na biblioteca da escola.

Ao longo do ensino fundamental, foram muitos aprendizados, e no Ensino Médio não foi diferente. Continuamos a jornada, porém com mais responsabilidade e maturidade, levando os ensinamentos mais a sério. As turmas eram divididas em primeiro, segundo e terceiro ano. Consegui fazer os dois primeiros anos presencialmente, mas o último não foi muito proveitoso, pois foi a época da pandemia de COVID-19 e tive que continuar os estudos em EaD.

Sem experiência em estudar praticamente sozinha, surgiram dificuldades, desde o uso da internet até entender e resolver as questões em casa, tópicos que ainda não haviam sido estudados em sala de aula. A conexão difícil também era um desafio. Tudo era visto com dificuldade, mas como novos desafios também.

Acredito que isso tenha diminuído não só o meu aprendizado, como o de muitos alunos da época, pois o estudo presencial e o EaD são, de certa forma, diferentes. Principalmente naquela situação, demorei a me adaptar a ter disciplina com os horários de estudos e a organizar minha rotina. Mesmo assim, terminamos o ano escolar; deu tudo certo, porém sem formatura.



SOBRE A AUTORA:

Giovana Fernandes Lopes Silva, de Grão Mogol/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


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Recomeços

Recomeços

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Geisiele Vieira Fernandes, Itamarandiba/MG

Minha história começa em um ambiente onde a educação formal era um privilégio inalcançável. Meus pais, que cresceram na roça, eram analfabetos e nunca tiveram contato com livros ou qualquer tipo de ensino escolar. A vida deles foi marcada por uma rotina de trabalho intenso e contínuo, com poucas oportunidades além da luta diária pela sobrevivência. Na roça, a realidade era dura: as dificuldades financeiras e as questões sociais se entrelaçavam, tornando cada dia uma batalha.
A ausência de educação formal na minha família não foi por falta de desejo, mas por falta de acesso e recursos. Essa ausência de oportunidades educacionais significava que a vida de meus pais era repleta de desafios, e o foco era simplesmente garantir o sustento, que muitas vezes vinha de trabalho em troca de farinha e fubá para termos o que comer à noite.
Apesar das limitações, o exemplo de força e perseverança que meus pais me proporcionaram foi uma lição valiosa. Eles enfrentaram as adversidades com dignidade e coragem, e esses valores foram passados para todos nós, filhos. A determinação deles, principalmente da minha mãe, para criar um futuro melhor, mesmo sem as ferramentas da educação formal, foi uma fonte constante de inspiração.
Hoje, ao refletir sobre minha trajetória, reconheço a importância das lições que aprendi com meus pais e a força que encontrei para superar os obstáculos. A história da minha família é uma prova de resiliência e de como a força interior pode transformar desafios em oportunidades para crescer e aprender.
Minha experiência com o ensino básico foi marcada por desafios significativos que refletiam a realidade difícil da vida na roça. A escola mais próxima ficava a cerca de duas horas de caminhada de nossa casa, o que tornava a ida e a volta muito cansativas. Sem acesso a mochilas, improvisávamos com sacolas de arroz para carregar nossos livros e cadernos. Cada ida à escola era uma jornada que exigia muito mais do que apenas tempo; era um teste constante de perseverança e resiliência.
Em casa, a falta de eletricidade nos obrigava a usar lamparinas para realizar as tarefas escolares à noite. O óleo diesel utilizado nas lamparinas frequentemente acabava sujando nossos cadernos e livros, tornando a tarefa de estudar ainda mais desafiadora. As condições precárias de iluminação e o desgaste constante dos materiais eram apenas alguns dos obstáculos que enfrentávamos.
As provas na escola eram realizadas em mimeógrafo, uma tecnologia simples que, embora útil, também refletia as limitações dos recursos disponíveis. A professora Elizabete Gonçalves fazia o possível para enriquecer nosso aprendizado. Ela distribuía as provas mimeografadas e fornecia revistas para que recortássemos e colássemos em nossos exercícios, tentando tornar o aprendizado mais dinâmico e envolvente.
Durante o período do ensino fundamental, minha jornada escolar foi marcada por dificuldades intensas e muitos desafios. A escola que frequentava estava localizada a cerca de 40 km de distância, no município de Itamarandiba/MG. Para chegar até lá, meu dia começava muito antes do amanhecer. Em dias secos, eu acordava às 3h30 da manhã; nos dias chuvosos, o despertador tocava ainda mais cedo, às 2h30. A caminhada até o ponto de ônibus escolar, que fazia o trajeto da roça até a cidade, levava aproximadamente 1h30. O retorno para casa era super desgastante, ocorrendo por volta das 14h30. Esse longo percurso não apenas demandava uma enorme dedicação e resistência física, mas também era um verdadeiro teste de perseverança diante das adversidades diárias.
Além das dificuldades no transporte, a fome era uma preocupação constante. Muitas vezes, a merenda oferecida pela escola não era suficiente para todos os alunos, e nossa família não tinha condições financeiras para suplementar nossa alimentação com comida comprada. Esse problema era agravado pela longa jornada, que fazia com que a fome se tornasse um desafio constante e uma fonte de desconforto.
A situação no ônibus escolar também era complicada. A estrada em péssimas condições causava grande desconforto devido à poeira e ao balanço do ônibus. Esses fatores, combinados com a fome, frequentemente resultavam em dores de cabeça intensas e episódios de náusea. Era um esforço constante para manter a concentração e a disposição durante todo o trajeto.
A situação tornou-se ainda mais difícil com a perda da nossa mãe. Sua ausência significava que não tínhamos ninguém para preparar a comida que precisávamos após a escola. Essa falta de apoio afetou profundamente nossa vida escolar e pessoal, tornando ainda mais difícil manter o foco nos estudos e lidar com as exigências diárias.
Após enfrentar inúmeras dificuldades durante o ensino básico e fundamental, consegui chegar ao ensino médio, um período que, embora ainda desafiador, trouxe algumas melhorias na minha trajetória educacional e pessoal. Durante o ensino médio, minha vida passou por algumas mudanças. Eu e duas irmãs, junto com meu pai, nos mudamos para o distrito de Itamarandiba/MG, conhecido como Contrato.
Essa mudança foi um ponto de virada, pois a escola onde passei a estudar, a Escola Estadual Betina Gomes, ficava a apenas 10 minutos de nossa nova residência. A proximidade da escola facilitou muito o acesso e aliviou algumas das dificuldades logísticas que enfrentávamos anteriormente. Com essa mudança, nossa rotina também começou a se transformar.
Na Escola Estadual Betina Gomes, minha experiência escolar teve momentos marcantes. Lembro-me com carinho da professora de Português, Carla, que nos desafiava a fazer encenações relacionadas a livros clássicos como “O Guarani” e “Iracema”. Mas eu tinha uma enorme dificuldade em participar; sempre fui muito tímida e calada, no meu canto. Além disso, no campo da matemática, tive a sorte de ser aluna do professor Marcos, que reconheceu meu empenho e dedicação. Ser considerada uma das melhores alunas da sala, apesar dos desafios que ainda surgiam, foi um grande reconhecimento.
O ensino médio, portanto, trouxe uma combinação de desafios e conquistas que foram fundamentais para meu desenvolvimento acadêmico e pessoal. Essa experiência mais estável e o esforço definiram minha trajetória educacional até então.
Após concluir o ensino médio, tive a oportunidade de iniciar meus estudos em Geografia na universidade. Esse foi um momento de grande esperança e entusiasmo, pois representava a continuidade da minha jornada educacional e o início de uma nova fase na minha vida acadêmica. No entanto, logo enfrentei desafios significativos que se mostraram difíceis de superar. Apesar do esforço e da dedicação que coloquei em meus estudos, questões financeiras acabaram se tornando um obstáculo intransponível. Infelizmente, fui forçada a interromper minha faculdade no segundo semestre.
A interrupção dos estudos superiores foi um período de adaptação e reflexão, pois precisei lidar com a realidade de que, por enquanto, a continuidade acadêmica não seria possível. Após essa experiência, um pouco mais tarde, iniciei a faculdade de Pedagogia em um processo seletivo pela UFVJM. Esse episódio, embora desafiador, faz parte da minha jornada e reflete a resiliência necessária para enfrentar as adversidades.



SOBRE A AUTORA:

Geisiele Vieira Fernandes, de Itamarandiba/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


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Crescendo e descobrindo as tecnologias

Crescendo e descobrindo as tecnologias
Maria da Solidade de Souza é acadêmica do curso Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Maria da Solidade é da Comunidade Quilombola Santa Cruz, município de Ouro Verde de Minas, Minas Gerais

Sou da comunidade quilombola de Santa Cruz, na cidade de Ouro Verde de Minas. Sempre vivi no campo, meus pais eram analfabetos e não tiveram oportunidade de estudar. Eu sou uma pessoa simples e humilde, que não se preocupava muito com muitas coisas. Quando criança, me lembro de sempre ouvir música em um toca-discos que funcionava com pilhas, pois ainda não tínhamos eletricidade em casa.

Com o tempo, chegou a energia elétrica e meus pais compraram uma toca-fitas 3 em 1, depois uma televisão, o que melhorou bastante nossa vida em termos de entretenimento. Após isso, tive contato com diversos equipamentos e mídias mesmo antes das tecnologias digitais: novelas na televisão, fotos na máquina fotográfica analógica, jogos da Copa do Mundo pelo rádio, música através do toca-discos e do toca-fitas.

Lembro-me vividamente do meu primeiro celular, um modelo analógico que custou 40 reais e era usado apenas para chamadas. Mais tarde, consegui comprar um celular digital onde instalei o Facebook e fiz amizades. Com a ajuda de amigos, fui me familiarizando e hoje em dia uso várias redes como WhatsApp, Facebook e Instagram. Embora eu não contribua com conteúdo nessas plataformas, meu uso como consumidora é equilibrado. Às vezes comento fotos de amigos ou notícias, mas moderadamente. Gosto de ver publicações com informações e, ocasionalmente, anúncios.

Já fiz postagens de vídeos, mas nunca com o intuito de receber curtidas ou comentários; simplesmente por decisão pessoal. Também uso o celular ou o notebook frequentemente para estudar e pesquisar sobre diferentes questões.

Minha agenda telefônica, que antigamente, era em ‘cadernos’, hoje está completamente digitalizada. Papel eu às vezes ainda uso para fazer listas de compras, pois vou anotando à medida que me lembro das coisas que preciso. Há algumas tecnologias que ainda não explorei, não por falta de interesse, mas porque me sinto insegura ou não tive oportunidade, como drones e robôs

Na época dos meus pais, essas tecnologias modernas não faziam falta, pois a convivência era diferente, com mais conversas frente a frente e contação de histórias. Lembro-me de uma vez em que um senhor visitou meu pai e meu irmão logo ligou a televisão. O senhor comentou que não tinha ido lá para assistir TV, mas para visitar meu pai. Meu irmão ficou sem graça e desligou a televisão.

As diferenças culturais podem ser vistas na educação dos filhos, no vestuário, nos costumes, tradições, religiões, comportamentos. Muito dessas culturas são acessíveis pelas tecnologias, outras se perderam. Nesse caminho, muitas interações me marcaram. Dessas experiências, deixo aqui uma cena de novela que marcou minha vida com reflexões sobre a relação entre patroa e empregada.

Minha trajetória escolar e a pedagogia

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Eva Mendes Pereira, Cristália/MG

Na minha casa, éramos sete irmãos: cinco meninas e dois meninos. Desde cedo, eu já tinha contato com cadernos e livros das minhas irmãs mais velhas, que já sabiam ler e escrever. A curiosidade de aprender a ler, escrever e contar números como elas era enorme. Elas levavam livros da escola, cheios de histórias e imagens que eu adorava explorar. Passava horas observando as ilustrações e ouvindo os relatos sobre as histórias. Eu ansiava pelo dia em que pudesse ir à escola também.

Enquanto isso não acontecia, aproveitávamos qualquer tempo livre para estudar juntos. Usávamos pedras como quadros e carvão para escrever, criando salas de aula improvisadas debaixo das árvores ou cercadas com paus e folhagens. Essas atividades eram extremamente divertidas, e as merendas feitas com verduras colhidas da roça e da horta da minha mãe proporcionavam momentos deliciosos e simples.

Morávamos na zona rural, sem acesso a tecnologia ou energia elétrica. A iluminação era garantida por lamparinas com algodão e querosene. Minha mãe tinha uma bíblia que ela gostava de ler e compartilhar com a família, e os cânticos dos louvores tornavam os momentos em família ainda mais especiais. Meu pai e meus tios costumavam contar histórias que se tornaram preciosas memórias da minha infância.

O rádio de pilhas do meu pai era nosso meio de contato com o mundo exterior, permitindo-nos ouvir músicas e notícias da região.

Aos seis anos, comecei a frequentar a escola. Na zona rural, as turmas eram pequenas e a professora era atenciosa. No início, tive muita dificuldade com a escrita, mas minha irmã me ajudava sempre que eu precisava, sentando comigo para me ensinar.

O caminho até a escola era longo, e meus pais, ocupados com o trabalho na roça, não podiam me levar. Então, eu ia com meus primos. A distância era de quase uma hora, e eu precisava atravessar um rio e enfrentar as intempéries do tempo. Havia momentos em que meus primos me deixavam para trás, o que me deixava com muito medo. Eventualmente, mudamos para uma escola mais próxima, mas ainda assim, o percurso era de 30 a 40 minutos. A experiência na nova escola foi um pouco mais tranquila, e aos poucos fui aprendendo a ler e escrever bem.

Na quinta série, fui para a cidade para continuar meus estudos. O trajeto para a cidade era exaustivo: saía de casa às 9 da manhã, enfrentava uma longa ladeira até o ponto de ônibus e passava cerca de três horas no ônibus até chegar à escola. Voltava para casa à noite, por volta das 19 horas. A escola na cidade tinha uma biblioteca impressionante e uma sala de vídeos, o que era uma grande novidade para mim. Ter um caderno para cada matéria era fascinante, e eu não via a hora de começar as aulas para ganhar um caderno novo.

Sempre me dediquei a ser uma aluna exemplar e adorava participar de apresentações e peças teatrais na escola. Na oitava série, mudei-me para a cidade para morar com minha irmã e comecei a trabalhar em uma casa de família durante o dia, estudando à noite.

Após concluir o ensino médio, comecei um curso de Alimentação Escolar, que foi muito valioso para mim, e depois completei um curso técnico em Gestão de Administração, que ampliou significativamente meus conhecimentos. Em 2017, iniciei um bacharelado em Administração Pública, um campo que sempre me interessou pela sua relevância e impacto na sociedade, mas não consegui concluir devido a uma mudança de cidade.

Em 2019, comecei um curso técnico em Enfermagem. Estudei por dois anos e aprendi muito sobre a área da saúde, o que foi uma experiência enriquecedora e desafiadora. No entanto, quando engravidei, precisei trancar o curso para me dedicar à gravidez e ao novo papel de mãe.

Agora, estou iniciando um novo e empolgante capítulo da minha trajetória: a licenciatura em Pedagogia. Este curso representa a realização de um sonho antigo e uma oportunidade de aprofundar meu conhecimento na área da educação. Estou ansiosa para aprender novas abordagens pedagógicas e desenvolver habilidades que me permitirão impactar positivamente a vida de outras pessoas. A paixão pela educação, que começou na minha infância, nas simples aulas ao ar livre e na dedicação aos estudos, continua a me guiar e inspirar nesta nova etapa da minha jornada.



SOBRE A AUTORA:

Eva Mendes Pereira, de Cristália/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

Meus letramentos e a pedagogia

Meus letramentos e a pedagogia

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Erika Guimarães de Souza, Crisolita/MG

Do pouco que me lembro do início da minha alfabetização, recordo-me de minhas irmãs mais velhas com seus fichários, mas, por ser pequena, o que realmente me interessava eram as folhas com vários desenhos em suas bordas. Lembro também da minha mãe me dando um livrinho com a oração de “Salve Rainha” para folhear enquanto ela cuidava dos meus cabelos. Assim como nas missas, com os folhetos da liturgia, naquela época eu tinha conhecimento somente das letras do meu nome, por ter frequentado a creche desde muito cedo.

Recordo-me de aprender a escrever meu nome quando ingressei na escola, com minha primeira professora, tia Celeste, em 2005. Nesse mesmo período, aprendi a contar; lembro-me de me sentar debaixo da mesa enquanto minha mãe lavava roupas e contar de 1 a 100. Era bem certinho, mas, quando chegava a 101, eu dizia “cem um, cem dois” e assim por diante.

Sempre rolava uma briguinha pela televisão: quando minha mãe mandava desligar, minhas irmãs sempre pediam mais cinco minutos, e eu, por não saber diferenciar, pedia mais cinco segundos e não entendia por que o tempo que elas pediam parecia demorar mais, enquanto o tempo que eu pedia passava muito rápido.

Sempre estudei na mesma escola, do fundamental até concluir o ensino médio. Às vezes, tínhamos encontros na biblioteca, mas não eram para leitura, e sim para ver filmes ou vídeos. Já no ensino médio, tive bastante dificuldade em matemática, mas gostava muito de interpretação de textos. Contudo, mesmo gostando de interpretar, não gostava de ler.

Vejo que a leitura e a interpretação são onde devo dar mais atenção, pois sei que a leitura tem o poder de nos transportar para lugares e épocas diferentes. Enriquece nosso vocabulário e nos mostra um mundo cheio de possibilidades.

Agora, ao me ingressar no curso de pedagogia da UFVJM, um curso que sempre foi meu sonho, mas que, por um tempo, parecia tão distante, estou começando, graças ao incentivo da minha irmã.



SOBRE A AUTORA:

Erika Guimarães de Souza, de Crisolita/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

Meu caminho

Meu caminho

Os textos publicados individualmente nesta página podem ser lidos reunidos nos volumes da coleção Memórias de Letramentos. Para adquirir seu e-book gratuito ou impresso  pelo preço apenas do serviço de gráfica, clique no banner ao lado ou no fim da página.


Elaine Pereira de Sousa, Pedra Azul/MG

Meu primeiro contato com material escolar aconteceu quando eu era uma criança de seis anos. Filha de pais analfabetos, minha mãe precisou fazer um tratamento de saúde em São Paulo e ficamos hospedadas na casa de uma tia, onde meu primo estava começando a dar seus primeiros passinhos no mundo literário. Nesse primeiro momento, tive acesso a recortes de revistas, desenhos e letras para colorir, pequenos livros de contos e histórias; conheci também a TV e o teatro.

Ao retornar para minha fazenda natal em Minas Gerais, fui matriculada em uma escolinha da zona rural. Parecia uma casinha simples feita de pau a pique; a sala de aula era multisseriada, com uma professora à moda antiga. Ela carregava uma vara enorme, utilizada para apontar o conteúdo no quadro negro e também para bater nas carteiras, fazendo um barulho chato para chamar nossa atenção.

Meu caminho para a escola era cansativo, mas também divertido. Todos os dias, acordava bem cedinho com o cantar do galo e o cheirinho de café feito no fogão a lenha. Era um percurso de cinco quilômetros; meu maravilhoso pai me levava todos os dias montada em um jumentinho. No caminho, cantávamos, ríamos, contemplávamos a natureza e chorávamos também. É claro que havia dias mais difíceis.

Na segunda série, tive o privilégio de conhecer o carinhoso tio Joaquim, um professor dedicado que não media esforços para ensinar. Assim, apaixonei-me pela escola e todo o seu conteúdo. Os recursos na zona rural eram bem limitados, então eu aproveitava as aulas prestando bastante atenção e, em casa, brincava de escolinha, utilizando as paredes da minha casa e carvão vegetal para reproduzir os ensinamentos aprendidos. Brincava também de escrever na areia e nas árvores.

Meu primeiro contato com matemática — somar e dividir — foi na escola. Logo colocamos isso em prática. No caminho, havia uma vendinha onde eu e uma colega comprávamos balas e nos sentávamos no chão dizendo: “uma para você, uma para mim”. No final, contávamos quantas balas restavam para cada uma. Assim, fomos aprendendo. Nesse mesmo período, tive contato com dinheiro, mas lembro que, no início, reconhecia as cédulas pelos animais ali representados.

Meus pais, embora analfabetos, foram fundamentais para minha formação. Sempre ao meu lado, minha mãe fazia questão de sentar à mesa e acompanhar o fazer do dever de casa. Embora não soubesse me ensinar, eu guardo com orgulho esse apoio moral. O cansaço de toda a jornada escolar, as horas em um ônibus, morar longe de meus pais e conciliar trabalho com os estudos à noite no ensino médio não me ajudaram muito. Eu realmente passei a me apaixonar por ler livros em 2015, quando fui apresentada a eles por uma amiga de trabalho.

Nesse mundo rico em saber, com infinitas possibilidades de um novo dia, quero continuar no meu caminho, buscando cada vez mais e aproveitando cada chance para dar um passo mais alto.



SOBRE A AUTORA:

Elaine Pereira de Sousa, de Pedra Azul/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

O meu eu tecnológico

O meu eu tecnológico
Leiliane Pereira de Oliveira Lima é acadêmica do curso Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Leiliane é da Comunidade Quilombola Santa Cruz, município de Ouro Verde de Minas, Minas Gerais.

O meu primeiro contato com alguma tecnologia digital foi na escola, mais ou menos no ano de 2006. Naquela época, não existiam aplicativos como WhatsApp, Facebook, Instagram, entre outros. Na minha família, ninguém tinha celular nem notebook; tudo era mais difícil. Tínhamos acesso às notícias através do rádio e da televisão. Minha mãe era amante das novelas, e meu pai era fascinado por rádio.

Lembro-me de um episódio em que ele comprou um aparelho de som que tocava CDs e, posteriormente, um aparelho de DVD que podia ser conectado à TV e ao som. Esse período marcou muito a minha adolescência; eu e minhas irmãs escutamos música praticamente o dia inteiro.

Foi somente na escola que tive a oportunidade de tocar em um computador. Os professores geralmente levavam os alunos para a sala de informática, mas a interação dos alunos era pouca, pois não havia computadores para todos, e quase nenhum dos alunos sabia usar um computador, nem ao menos ligá-lo. Eu sempre me mantinha afastada, pois tinha medo de ficar só perguntando como fazer para usar o computador.

Após alguns anos, me formei no ensino médio. Como sempre trabalhei, consegui comprar um celular moderno. Além de fazer ligações e enviar mensagens no chat, ainda dava para tirar fotos, e o melhor, para atender ligações, tinha que levantar a capinha.

Naquela época, ter um celular era como ter um carro. Diante desse novo mundo tecnológico, fiquei totalmente encantada. Comecei a frequentar lan houses, trocar mensagens no Orkut e gastar todo o dinheiro que tinha para ficar em lan houses. Inclusive, meu primeiro contato com o mouse foi nessa época. Nos primeiros dias, achei muito estranho; parecia que o mouse não atendia aos meus comandos, era até engraçado.

No entanto, apesar dessa experiência única e satisfatória que vivi, não repetiria essa façanha outra vez. Em primeiro lugar, não daria um valor exorbitante em um celular como fiz no passado, e também não gastaria tanto dinheiro em lan houses só para jogar conversa fora. Contudo, vale a pena ressaltar as pessoas que foram importantes nesse meu processo de aprendizagem com as tecnologias digitais: meus colegas de escola e meus antigos patrões me ajudaram muito.

Ingressei na universidade mais ou menos dez anos após a formatura do ensino médio. E justamente no ano em que ingressei na universidade, o mundo parou por conta da pandemia da COVID-19. Então, realizamos o primeiro período de forma remota. Tive que aprender a mexer com algumas ferramentas digitais, mas havia um outro problema: não tinha acesso à internet na minha casa, pois moro na zona rural. Para assistir às aulas, tinha que ir para o município vizinho.

Foi muita coisa nova, mas consegui acompanhar as aulas. Nesse período, estava grávida e, infelizmente, fui contaminada pelo vírus da COVID-19. Acabei interrompendo os meus estudos, pois fiquei em uma situação gravíssima, tendo que ser entubada e ficar 35 dias na entubação. Passei por momentos difíceis, mas sobrevivi graças a Deus. Após um longo processo de recuperação, retornei às aulas, dessa vez de forma presencial.

Hoje, nas minhas práticas digitais envolvem as páginas e apps como WhatsApp, Facebook, YouTube, Google e G1. Também contribuí com a página virtual da nossa Associação Quilombola de Santa Cruz (Aquilo Afros). Mas o meu uso das tecnologias em relação à minha vida de estudante, minha vida cultural e atividades religiosas, é diferente. O uso como estudante está voltado mais para pesquisas, escrita de relatórios e trabalhos. Na cultura, busco divulgar questões culturais de onde resido, o Quilombo Santa Cruz. Já em relação às atividades religiosas, realizo pesquisas sobre comemorações religiosas, músicas e performances de apresentação.

Atualmente, levo uma “vida digital” sem proibição. Ao contrário da época em que estudava no ensino médio, posso dizer que as proibições que tive em relação ao uso da tecnologia não tinham nada a ver com restrições de meus pais, mas sim com a condição financeira que não permitia mesmo. Devido a essa situação, fui ter contato de fato com a tecnologia na maior idade.

Entretanto, a minha participação nas redes sociais é pouca. Uso Facebook e WhatsApp, mas não faço postagens nos stories e no status com frequência. Não sou de fazer comentários em notícias, não participo de anotações na web, sou mais reservada. Porém, já fiz uploads de imagens para realizar pesquisas no Google, por exemplo. Não tenho nenhuma atividade laboral de produção para a internet.

Toda essa situação me fez recordar de um dia na minha comunidade com a minha família, onde nos reunimos como de costume e simplesmente fomos assistir a um filme na Temperatura Máxima, na Globo. Conseguimos assistir sem ficar presos no celular, algo inédito. Percebi que as telas grandes como a televisão estão sendo esquecidas após a chegada dos celulares mais modernos, que estão exercendo cada vez mais funções, substituindo muitos aparelhos eletrônicos e, o mais preocupante, tornando o diálogo olho no olho extinto.

Diante disso, vejo o quão preocupante é o uso excessivo que estamos tendo com os celulares. Ontem mesmo, a primeira coisa que fiz assim que acordei foi mexer no celular e, ao longo do dia, também. Para realizar as atividades no Tempo Comunidade (TC) e no Tempo Universidade (TU), a ferramenta que uso é o celular. Todos os meus trabalhos faço com o celular, pois não tenho notebook.

As minhas práticas sociais também mudaram em função da tecnologia. Geralmente, quando vou fazer compras, faço anotações no celular, mas a maioria das compras que faço é via internet. Faço pagamentos pelo celular, para agendar uma consulta médica, reunião da associação ou algum outro compromisso pelo WhatsApp. Faço muita coisa pelo WhatsApp, mas tenho vontade de aprender a fazer projetos para ajudar a minha comunidade e melhorar a condição financeira de todos.

Em comparação às minhas práticas com a tecnologia e a forma como os meus pais a utilizam, afirmo que é totalmente diferente. Os meus pais não tiveram oportunidade de estudar, principalmente meu pai. Ele não sabe ler e, nesse caso, para trocar mensagem com alguém, ele só manda áudio. Gosta muito de assistir a vídeos no TikTok, não realiza compras pela internet sem a nossa ajuda, não consegue salvar o contato de alguém etc. Já a minha mãe sabe ler e escrever, envia mensagem escrita e também gosta de ver vídeos no TikTok, mas não realiza outras funções, como compras pela internet e acessar apps de bancos, sem a nossa ajuda.

As novas tecnologias têm sido um avanço na sociedade, facilitando cada vez mais o nosso dia a dia. Muitas coisas conseguimos resolver de casa sem enfrentar filas enormes, oque demonstra como as tecnologias facilitaram a nossa forma de comprar, pagar, estudar, trabalhar, comunicar, dentre outras.

Porém, vejo que o uso excessivo das telas tem acarretado uma série de problemas, como: problemas de visão, de coluna, cognitivos, etc. Temos crianças que estão tendo contato com as telas e estão ficando totalmente viciadas, não interagem, não brincam, são agressivas, não se alimentam direito, são antissociais, não desenvolvem funções cognitivas.

Esses pontos positivos e negativos sobre a tecnologia me fazem lembrar algumas situações. Sobre o ponto positivo, trago um exemplo meu: durante o meu estágio, passei por uma situação complicada. Precisava da assinatura do diretor da escola, mas sempre que ia lá ele não estava.

Após várias tentativas, ele assinou os documentos da cidade onde ele se encontrava, e isso só foi possível porque a assinatura era digital. A tecnologia foi fundamental para a concretização do meu estágio, e assim acontece em várias situações de nossa vida.

Em relação ao uso excessivo de telas, trago o exemplo do filho de um amigo meu. Assim que a criança completou três anos, os pais deram um celular para ele brincar e não dar trabalho. Hoje, a criança tem oito anos, já não consegue ficar sem o celular, não interage com ninguém e, se for fazer um passeio com os pais, só vai se o local tiver internet.

Ao trazer um pouco sobre o meu contato com a tecnologia, compartilho um filme que foi muito marcante para minha vida, “O auto da compadecida “, foi um dos primeiros contatos que tive com a televisão na minha infância.

Lembrando da minha vida escolar

Lembrando da minha vida escolar

Os textos publicados individualmente nesta página podem ser lidos reunidos nos volumes da coleção Memórias de Letramentos. Para adquirir seu e-book gratuito ou impresso  pelo preço apenas do serviço de gráfica, clique no banner ao lado ou no fim da página.


Débora Ferreira Passos Souza, Águas Formosas/MG

Acho que o primeiro livro com o qual tive contato em casa foi a Bíblia da minha mãe. Desde pequena, ela me levava, a mim e aos meus irmãos, à Igreja Presbiteriana. Lá, tive meus primeiros contatos com os livros infantis, que eram sobre personagens da Bíblia, e eu ficava fascinada com as histórias que as professoras contavam. Na escolinha dominical da igreja, havia teatro de fantoches, apresentações, jogral e cantatas. Em casa, eu gostava de folhear as revistinhas da escola dominical, admirando as imagens e imaginando o que estava escrito. Lembro que, uma vez por semana, alguns vizinhos se reuniam em nossa casa para um estudo bíblico, onde minha mãe usava um livro grande chamado “Grupos Familiares”, que continha as lições que ela lia a cada semana.

Quando entrei na escola aos 5 anos, já conhecia os números e as letras, então não demorou muito para eu começar a escrever e ler. Recentemente, ao mexer em uma gaveta que guarda alguns dos meus tesouros (bilhetes, cartinhas, livro de recordações que as colegas de sala escreviam, coisas antigas), encontrei um caderno da minha turma do pré e meu convite de formatura do “prézinho”. Minha mãe guardou tudo com muito carinho e, quando me casei, levei-o pra minha casa.

Como eu choro por qualquer coisa, chorei ao lembrar daquele tempo e do dia em que fiz o convite. A capa foi escrita à mão por cada aluno, com um girassol, e cada pétala tinha o nome de um colega. No dia da formatura, cada aluno ganhou um livro de presente. O meu livro tinha o título “Dom Gatão”, e eu amava esse livro; lia e relia, e ele ficou comigo por longos anos. Lembro que, alguns anos depois, minha mãe comprou uma coleção de doze livros infantis, um para cada mês do ano, e cada livro tinha uma história para cada dia. Nós amávamos ler essas histórias.

Todas as escolas em que estudei tinham bibliotecas, e os professores nos incentivavam a ter o hábito da leitura. Alguns livros que me marcaram durante o ensino fundamental foram “Cachorrinho Samba”, em suas versões “Na Fazenda” e “Na Floresta”, além de “Viagem pelo Ombro de Minha Jaqueta”. No ensino médio, eu lia por obrigação e não tinha prazer na leitura. A disciplina de Literatura nos obrigava a ler clássicos, que eram livros bem mais difíceis de entender. Li “Os Sertões”, “Quincas Borba”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, entre outros. Porém, o que me traz uma boa lembrança é o livro “Iracema”.

Lembro que a professora dividiu a turma em grupos, e todos tinham que fazer um trabalho sobre o livro. Meu grupo fez um filme representando a história, e um pai de um colega tinha uma câmera filmadora em VHS, algo raro na época. Ele filmou e nós encenamos com figurino e tudo, à beira de um rio. No dia da apresentação na escola, foi um evento passar essa filmagem, e fomos o grupo com o melhor trabalho. Então, guardo com carinho a lembrança da índia dos lábios de mel.

Quando tive meus filhos, preocupei-me em incentivá-los à leitura. Em casa, sempre havia livros para eles, mesmo antes de aprenderem a ler. Na hora de dormir, eles já sabiam que era hora da história. Pegavam a Bíblia ilustrada e a gente contava histórias até eles adormecerem.

Vinte e quatro anos depois de me formar no ensino médio, aqui estou eu, abraçando a oportunidade de fazer o curso de Pedagogia pela UFVJM. Hoje, não tenho o mesmo gosto pela leitura que tinha quando era mais nova. No entanto, a vida acadêmica está me cobrando e estou tentando me adaptar.



SOBRE A AUTORA:

Débora Ferreira Passos Souza, de Águas Formosas/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

Relatos de leitura e escrita

Relatos de leitura e escrita

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Daniela de Paula dos Santos, Cristália/MG

Quando eu era criança, muito antes de entrar na escola, não tinha acesso a textos escritos, porque na comunidade onde eu morava com a minha família não havia livros, folhetos, jornais ou revistas. Devido à falta de recursos da comunidade, não havia escola. Era tudo muito difícil, até mesmo o acesso à comunidade.

Algum tempo depois, eu e minha família tivemos que nos mudar, pois a CEMIG iria dar início à barragem de Irapé. Com isso, nos mudamos para outro lugar, onde comecei a ter acesso a alguns textos escritos. Meu primeiro contato com um texto escrito foi através de uma Bíblia. Mesmo não sabendo ler, eu folheava as páginas da Bíblia, sempre com a vontade de aprender.

Um tempo depois, minha mãe me colocou na escola. Eu ainda não sabia ler nem escrever, mas já sabia contar até 10. Na época, eu tinha 5 anos. Meus primeiros anos na escola foram os melhores; eu estava sempre muito ansiosa para ir, porque a cada dia era um aprendizado a mais. Eu ficava muito feliz quando aprendia algo novo e, com o passar do tempo, fui aprendendo a ler e a escrever.

Quando estava no quarto ano do ensino fundamental, minha mãe, juntamente com meu pai, comprou um kit de livros para mim e meus irmãos. No kit, havia um livro com várias continhas de matemática, e assim fui aprendendo aos poucos a somar e a subtrair, sempre com o auxílio dos professores e da minha família.

Lembro que eu pegava giz na escola para brincar de escolinha com minhas irmãs em casa. Na hora da brincadeira, a gente discutia muito, porque eu sempre queria ser a professora. Quando tinha a oportunidade de ser a professora, passava algumas continhas que aprendia na escola para elas resolverem e ditava algumas palavras para que escrevessem. Quando elas terminavam, traziam o caderno para que eu corrigisse as atividades. Nós nos divertíamos muito com isso; para nós, era a melhor brincadeira que existia.

Na minha escola, havia uma biblioteca, e os funcionários permitiam que nós, alunos, levássemos um livro de historinhas para casa todos os dias, com o intuito de ler e devolver no dia seguinte. Uma vez, a escola doou livros didáticos para os alunos, e eu levei alguns para casa. Fiquei muito contente, pois estava sempre lendo, escrevendo e buscando mais conhecimento através dos livros.

Quando passei para o quinto ano do ensino fundamental, já sabia muitas coisas e tive uma excelente professora, que nunca mediu esforços para me ajudar. Ela fazia de tudo para que eu aprendesse, desenvolvendo várias brincadeiras e trabalhos legais com a turma, a fim de ajudar no processo de aprendizagem. No mesmo ano, minha família resolveu se mudar para uma cidade no interior de São Paulo. Para mim, foi muito bom, pois me desenvolvi ainda mais na prática da leitura e da escrita. Fiz o sexto ano também na cidade do interior de São Paulo e tive o prazer de participar da minha formatura no Programa de Resistência às Drogas e à Violência (PROERD). Tudo isso que vivenciei foi uma experiência incrível, pois fiz muitas coisas que nunca imaginei realizar.

Um tempo depois, minha família decidiu voltar para o norte de Minas. Viemos embora, mas trouxe comigo muito aprendizado e conhecimento. Comecei a estudar na minha escola novamente e já estava no sétimo ano do ensino fundamental. Sempre fazia todas as atividades que meus professores passavam e me esforçava bastante para entregar os trabalhos nas datas previstas.

No oitavo ano, estudei com meu irmão. Ele me motivava muito a fazer todas as atividades e a ir para a escola todos os dias. Estávamos sempre ajudando um ao outro em tudo; fazíamos nossas atividades, trabalhos e tarefas juntos. Isso foi motivo de muita alegria para mim.

No nono ano, tivemos que parar de estudar por conta da pandemia, mas um ano depois voltamos. Ainda não podíamos estudar presencialmente, mas utilizamos os PETS, que nos permitiram estudar em casa. Um tempo depois, já no primeiro ano do ensino médio, tive minha filha e precisei abandonar os estudos para me dedicar a ela.

Mas, algum tempo depois, decidi voltar a estudar. Como não tinha com quem deixá-la, precisei levá-la comigo para a escola. A conclusão do ensino médio foi um desafio para mim. Era muito difícil fazer as atividades, trabalhos e provas com a minha filha, apesar de sempre ouvir das pessoas que eu nunca conseguiria finalizar os estudos com uma criança. Sempre tive o apoio, primeiramente, de Deus e também da minha família. Minha mãe e meu pai estavam comigo em tudo, me incentivando a ser melhor todos os dias. Eles sempre me diziam que meu futuro dependia apenas de mim, então consegui concluir o ensino médio com muita fé e dedicação.

Hoje, no meu primeiro ano de universidade, percebo que me desenvolvi bastante na prática da leitura e estou tentando, aos poucos, me aperfeiçoar na escrita. Acredito que, com o auxílio dos professores e a minha força de vontade, conseguirei.

Essas mudanças podem trazer muitas coisas positivas, pois nos ajudam a aprender mais. Estou sempre acompanhando e lendo o que os professores mandam, porque isso é muito importante para que possamos entender o que é passado para nós e facilitar na hora de fazer as atividades.

Eu tenho um pouco de dificuldade com os textos universitários, mas, de acordo com o ensinamento dos professores, irei conseguir e ter mais facilidade com esses textos. Acredito que o ensino médio me preparou para lidar com questões financeiras e entender a importância do controle financeiro.



SOBRE A AUTORA:

Daniela de Paula dos Santos, Cristália/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

A improvável que tem dado certo

A improvável que tem dado certo

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Daiane Monteiro Rocha, Pedra Azul/MG

Caro e gentil leitor, vamos voltar um pouco no tempo. O ano era 1990, mais precisamente 19 de maio. Naquele dia, nascia no Hospital Ester Faria de Almeida, na pequena cidade de Pedra Azul, Daiane Oliveira Rocha, que mais tarde passou a se chamar Daiane Monteiro Rocha. Eu era a filha caçula de um casal que tinha mais sete filhos, sendo duas meninas e cinco meninos, moradores da zona rural em uma fazendinha a 4 km da cidade.

Minha infância foi bem divertida, sem muito luxo, mas cheia de amor e carinho; repleta de sorrisos fáceis, abraços quentinhos e, no fim das tardes, quase sempre fazíamos uma roda ao redor do fogão a lenha para ouvirmos meu pai contar suas histórias de antigamente, sempre acompanhados de uma garrafinha de café e biscoitos de chuva passados no açúcar com canela. Hum… posso dizer que vivi intensamente, sendo rica em tudo o que o dinheiro não pode comprar, colecionando, assim, memórias afetivas que moldaram a pessoa que sou hoje. Na época, a vida escolar era um pouco mais difícil em relação às melhorias que vejo hoje.

Hoje, as crianças que moram na zona rural não precisam se mudar para a cidade para estudar; temos vans e ônibus que levam e trazem esses estudantes. Quando meus irmãos chegaram à época de estudar, fomos separados; cada um se mudou para a casa de um familiar. Sofremos muito na época porque éramos bem próximos e, com isso, só nos víamos aos fins de semana e nas férias. Quando chegou a minha vez de estudar, felizmente, os parentes não queriam ficar comigo, pois eu adoecia muito com asma, e uma criança com asma traria muitos problemas para eles. Minha mãe, então, decidiu comprar uma casinha na cidade e reunir todos os filhos espalhados para que pudéssemos ficar juntos novamente, debaixo do mesmo teto. Mas foi necessário que meu pai continuasse morando e trabalhando na fazenda, pois o sustento de toda a família vinha de lá. Sendo assim, aos fins de semana, íamos todos para a fazenda ficar com ele; às vezes arrumávamos carona, outras vezes era necessário irmos a pé. Minha mãe me matriculou na escola Dr. Carlos Américo, que ficava na mesma rua da casa que compramos. Quando comecei a estudar, tinha 6 anos e faria 7 no meio do ano.

Lembro-me de ver minha mãe preocupada, sem saber se eu daria conta de acompanhar a turma, pois meus coleguinhas já haviam feito o pré-escolar, ou seja, já tinham uma certa noção das coisas e, inclusive, uma coordenação motora bacana para a idade. Eu sabia contar até vinte, que meu primo Marcos me ensinava sempre que ia para a fazenda, e as cores que minha irmã Andrea me ensinou. Eu até via eles fazendo as tarefas e lendo os livros deles, mas queria mesmo que eles terminassem logo para brincarem comigo.

Quando nos mudamos para começar os meus estudos, conheci uma amiga muito especial que me convidou para ir ao culto infantil da Igreja Presbiteriana do Brasil. Eles faziam um trabalho maravilhoso com as crianças. Fui a esse culto e recebi minha primeira revistinha em quadrinhos, bem colorida e cheia de desenhos. Quando recebi a notícia de que era minha e que eu podia levar para casa, fiquei muito feliz. A revista contava a história de Noé colocando os animais na arca após ouvir o Senhor.

Logo depois de alguns meses, comecei a aprender a escrever, ler e reconhecer cédulas, o que foi maravilhoso para mim, pois pude ajudar meu pai a vender queijos na feira livre. Lembro-me de como ele ficou orgulhoso e brincou dizendo que eu já podia sair rapidinho e voltar já sabendo vender. Não tínhamos acesso a computador; meus pais tinham pouco estudo e não passaram da quarta série. Eles relatam que a vida deles ainda era bem mais difícil que a nossa; por isso, faziam questão de nos incentivar a estudar.

Voltando a dizer o quão maravilhoso foi aprender a escrever, lembrei-me de que passava na televisão uma novela chamada “O Diário de Daniela.” Todas as meninas da época queriam um diário e saber escrever nesse diário, então, ah, era incrível. Eu escrevia tudo o que se passava durante o dia, desde o que comia no café da manhã, as travessuras do dia e a última oração à noite. E, pasmem, achei esse diário outro dia; foi tão gostoso ver minha letrinha infantil, algumas palavrinhas erradas, mas ao mesmo tempo fiquei tão orgulhosa de mim. Na minha escola, não tínhamos uma biblioteca; as leituras dos livros eram feitas debaixo de grandes árvores cheias de flores que nos forneciam uma sombra fresca.



SOBRE A AUTORA:

Daiane Monteiro Rocha, de Pedra Azul/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

Um encontro com a tecnologia

Um encontro com a tecnologia
Keviny Tuany Rodrigues Sena é acadêmica do curso Licenciatura em Educação do Campo (LEC), da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Keviny é da Comunidade Quilombola do Paiol, município de Cristália, Minas Gerais.

Em 2001, quando nasci, as cidades já apresentavam grandes avanços tecnológicos, mas no campo, essa realidade parecia distante em alguns aspectos. Muitos lugares ainda não possuíam energia elétrica. Em minha casa, a tecnologia tinha uma presença sutil e limitada. Nosso acesso à tecnologia restringia-se ao celular, rádio ou televisão. Meu pai nunca gostou de celular e nunca teve um. Em contraste, minha mãe adorava conversar com os amigos por horas no celular. As manhãs em casa eram marcadas pelo som da televisão sintonizada no Canal do Boi ou no jornal, enquanto as noites eram envolvidas pelo barulho do velho rádio do meu pai.

Meu primeiro contato com a tecnologia digital foi através do celular da família. Embora a interação fosse mínima, já que eu só fazia ligações, colocava músicas para minha mãe ou trocava o papel de parede, essas funções básicas eram fáceis para mim, pois já sabia ler e escrever o que tornava essas funções básicas algo fácil para mim.

Com o passar do tempo, meu irmão, que trabalhava, comprou um celular para si. Às vezes, ele me deixava jogar o “jogo da cobrinha”, mas sempre em troca de favores. Aqueles momentos, mesmo sendo raros, eram muito bons para mim, pois era algo diferente. Não me recordo do ano exato, mas lembro-me claramente de quando íamos eu e minha irmã para a casa da nossa avó na cidade jogar em uma lan house. Eu gastava as moedas que ganhava dos meus pais; cada 30 minutos custava 50 centavos. Eu adorava os jogos de culinária.

O ano era 2012 e as condições financeiras foram melhorando; com isso, as oportunidades também. Minha mãe conseguiu, através de trocas, dois celulares seminovos. Ela deu um para minha irmã e o outro para mim. O meu era um celular com o teclado embutido, que eu puxava para fora para pode digitar. Ele era diferente de tudo que eu já tinha visto. Mesmo sem redes sociais ou chip, eu usava o aparelho para tirar fotos, trocar o tema, escrever notas e ouvir música no percurso do ônibus da escola para casa.

A tecnologia continuava avançando e, no meu aniversário, minha mãe me surpreendeu ao me levar à loja Zema. Lá, ela me comprou um celular de presente. Embora sua câmera fosse horrível – o que me impedisse de fazer o que mais gostava, que era tirar fotos – encontrei outras formas de utilizá-lo, como para acessar o Facebook, de maneira limitada, pois não tinha wi-fi e pouco dinheiro para as recargas.

Quando completei 15 anos, em 2016, comecei a trabalhar no mercadinho de uma professora, onde ganhava 150 reais mensais. Com o dinheiro, comprei um celular decente, parcelado em 10 vezes, um Samsung J5. Esse foi um ponto de virada, pois no mercadinho também tinha Internet à vontade, o que me permitiu usar o celular com maior frequência, postando fotos e interagindo no Facebook. Cheguei até a criar uma página de memes, que acredito estar vinculada ao meu perfil até hoje.

Também usava o Google para procurar músicas, que tinha dificuldades para baixá-las. Certo dia, navegando na internet, descobri o aplicativo Snaptube, que me permitiu baixar não apenas músicas, mas também vídeos. Aos poucos fui entendendo como funcionavam as ferramentas digitais, que tornaram-se aliadas constantes em minha vida.

Durante a pandemia, recém-formada no ensino médio e iniciando a faculdade, enfrentei desafios relacionados às burocracias documentais da instituição e às aulas on-line. O acesso à internet tornou-se indispensável, o que demandou a instalação de internet em casa, algo mais difícil por vivermos na zona rural.

No início, a faculdade parecia complexa, pois tive que aprender a utilizar e-mail, o site do E-campus, e ainda enfrentar a dificuldade de realizar todas as atividades pelo celular, já que eu não tinha um notebook. Com o tempo, essas dificuldades foram superadas e a adaptação às ferramentas digitais foi acontecendo, visto que sempre tive facilidade em utilizá-las.

Atualmente, uso o celular com frequência para diversas atividades, incluindo estudos, acesso a recursos bancários, pagamento de contas, vendas e compras, entre outros. Embora utilize vários aplicativos, nos últimos tempos, os que mais utilizo são WhatsApp, Instagram, Airbnb, aplicativos bancários, Google Sala de Aula e e-mail.

A rotina de estudos provocou uma mudança significativa no meu uso diário das tecnologias digitais, com um aumento nas leituras, produção de slides e documentos, bem como na preparação de documentos de estágios. Fora do ambiente acadêmico, utilizo sites e aplicativos para realizar vendas, compras e navegação.

Além disso, as tecnologias alteraram algumas das minhas práticas cotidianas, especialmente no que diz respeito às compras, que agora faço predominantemente online. Tenho também interesse em produção e edição de vídeos. Além disso, faço uso frequente de mapas e do Airbnb para alugar casas por temporada. Também pretendo criar uma loja digital, começar a gravar vídeos e desenvolver um perfil no Instagram para postar conteúdos de culinária.

Para compartilhar um pouco mais da minha história tecnológica, gostaria de indicar um filme que marcou profundamente a minha vida. “Nanny McPhee – A Babá Encantada” é um filme de comédia e fantasia que gira em torno de uma babá mágica que chega na casa de uma família para cuidar das crianças; com sua magia e habilidades especiais, transforma a vida deles de maneira surpreendente e divertida. Esse filme sempre passava na TV de casa, no Canal Livre. Como não tínhamos acesso à internet, esperávamos ansiosamente por filmes que fossem realmente bons. Este, em especial, marcou muito a minha infância. Espero que ele também toque a vida de vocês, assim como tocou a minha.

Vida escolar

Vida escolar

Os textos publicados individualmente nesta página podem ser lidos reunidos nos volumes da coleção Memórias de Letramentos. Para adquirir seu e-book gratuito ou impresso  pelo preço apenas do serviço de gráfica, clique no banner ao lado ou no fim da página.


Charline Lima Silva Marques, Águas Formosas/MG

Lembro-me pouco da minha infância na vida escolar, mas, claro, alguns acontecimentos ficaram guardados na minha memória. Quando comecei a ler, por volta dos seis para sete anos, tudo que via escrito nas ruas — nomes de lojas, placas, propagandas, pacotes de biscoitos, estampas de ônibus, entre outras coisas — eu sempre passava lendo em voz alta. Tudo era novidade, e eu achava o máximo conseguir juntar as letras.
No 2º ano do ensino fundamental I, a diretora da escola queria aplicar uma prova para me pular para o 3º ano, mas minha mãe preferiu que eu continuasse no ano de acordo com minha idade. Lembro-me de que, naquele ano, consegui ajudar bastante meus colegas nas atividades de sala. Isso aconteceu porque tinha acabado de mudar de cidade, e a escola anterior em que eu estudava estava bem mais adiantada em comparação à nova escola.
Sempre tive mais facilidade nas áreas exatas; minhas melhores notas sempre foram em matemática, física e química. Minha mãe teve um papel importante nesse fator, pois acho que parte dessa facilidade, principalmente em matemática, foi herança genética. Ela já era professora do ensino fundamental e, quando completei onze anos, terminou a graduação em matemática. Acho que posso usar a expressão “filho de peixe, peixinho é”; com ela, aprendi a amar matemática.
Nos anos iniciais na escola, não tive dificuldades em aprender as letras e juntá-las, talvez pelo fato de ser filha de professora e de ter sido sempre incentivada em casa com histórias e livros infantis. Com o passar dos anos escolares, mesmo com esse incentivo na infância, o português nunca foi uma paixão, mas sempre tive boas notas nessa matéria. Toda semana, pegava um livro na biblioteca da escola para ler, e lembro que muitas vezes fazíamos até teatro sobre alguns livros no ensino fundamental.
A prática com os números sempre fez mais sentido para mim; aprendi com muita facilidade a trabalhar com dinheiro, por exemplo, e fazia contas de cabeça com muita agilidade. A língua portuguesa também foi de suma importância, pois sem a leitura não conseguimos fazer praticamente nada. Durante todo o período escolar, sempre tive excelentes professores de língua portuguesa e matemática, o que foi muito importante para meu desempenho.
Minha habilidade com números sempre ajudou muito em minhas questões financeiras. O ensino médio fez parte disso, assim como a língua portuguesa, pois é através dela que consigo ler, compreender e interpretar várias situações no meu cotidiano.
Esse primeiro ano de graduação, assim como os próximos, será cheio de desafios, e espero que traga muitas mudanças nos meus hábitos de leitura e escrita, pois sei que preciso melhorar muito nessa área. Sou encantada por quem escreve um bom texto com facilidade. Espero me encantar pelas letras assim como sou encantada pelos números durante o curso de graduação em Pedagogia.



SOBRE A AUTORA:

Charline Lima Silva Marques, Águas Formosas/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.

Memórias da minha vida escolar

Memórias da minha vida escolar

Os textos publicados individualmente nesta página podem ser lidos reunidos nos volumes da coleção Memórias de Letramentos. Para adquirir seu e-book gratuito ou impresso  pelo preço apenas do serviço de gráfica, clique no banner ao lado ou no fim da página.


 Catiane Aparecida Mezede Gomes, Capelinha/MG

Lembro-me de que o primeiro contato que tive com a escrita na minha infância foi antes mesmo de iniciar minha vida escolar. Através de jornais que chegavam à minha casa, embalando compras que minha mãe fazia no supermercado, eu os folheava. Como não sabia ler nem escrever, e meus pais não tinham muito tempo para me incentivar na leitura e na escrita antes de eu entrar na escola — por trabalharem na roça — era muito corrido e difícil para eles darem esse apoio a mim e a meus irmãos. Portanto, era apenas uma curiosidade de criança olhar as gravuras ou fotos que havia nos jornais. Como era comum usar jornais para embalar compras, para mim eram simplesmente papéis.

Aos seis anos de idade, comecei a frequentar a escola. Tudo era novo para mim; não sabia contar os números, não conhecia as letras do alfabeto; tudo era novidade, mas fui aprendendo conforme me ensinavam. Estudava em uma escola rural que, naquela época, não tinha muito a oferecer: não havia biblioteca, muito menos livros. Era apenas uma sala de aula, e o professor nos conduzia. Lembro-me bem desse início: a leitura não era muito incentivada porque não tínhamos acesso a livros, então a prática da escrita era trabalhada na sala de aula, com o professor escrevendo no quadro ou através de fichas e textos que reescrevíamos em casa. E assim foi até eu concluir a fase pré-escolar.

Quando entrei no primeiro ano, minha família se mudou para a cidade, onde tive acesso a uma escola melhor, com biblioteca. Comecei a ouvir as primeiras histórias que a professora contava, como contos, fábulas e outros, tendo a oportunidade de ter contato com os livros. Assim, nos primeiros anos da minha vida escolar, foi assim: mais prática na escrita e, aos poucos, na leitura.

O tempo passou, concluí o ensino fundamental e desenvolvi uma boa relação com os números e a escrita. No entanto, por ter tido pouco incentivo e prática com a leitura, surgiram dificuldades em interpretação e produção de textos. No ensino médio, comecei a ter mais contato com a leitura, e o incentivo à leitura de livros literários e atividades com eles na sala de aula se tornaram mais frequentes. Contudo, devido à falta de prática da leitura durante o tempo na escola, a dificuldade persistia no dia a dia. Com muito esforço e dedicação, fui progredindo nas minhas produções de textos e até mesmo em atividades como interpretação.

Ainda assim, sentia a necessidade de mais melhorias. No último ano do ensino médio, despertei o desejo de tentar concursos públicos e tive a oportunidade de fazer um cursinho para essa finalidade. Isso representou um grande avanço para mim e proporcionou um aprimoramento na escrita como um todo.

Sem dúvida, a falta de leitura ao longo da minha trajetória escolar na infância comprometeu um pouco meu desenvolvimento intelectual. Contudo, com muito esforço e dedicação, consegui superar essas dificuldades. Hoje, estou feliz por poder ingressar na faculdade de Pedagogia, onde pretendo aprimorar ainda mais meus conhecimentos na área da educação. Com toda a minha bagagem de infância, desejo contribuir de forma positiva na vida das crianças, incentivando a leitura.



SOBRE A AUTORA:

Catiane Aparecida Mezede Gomes, de Capelinha/MG, é acadêmica da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), onde cursa Pedagogia. Produziu este relato na disciplina Práticas de Leitura e Produção de Textos, ofertada de julho a novembro de 2024.


A orientação deste trabalho e a organização do e-book foram realizadas por Carlos Henrique Silva de Castro, Kátia Lepesqueur e Virgínia Batista.